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quinta-feira, fevereiro 08, 2018

Favela - Raul Roulien

Hekel Tavares
Favela (samba, 1933) - Hekel Tavares e Joraci Camargo - Intérprete: Raul Roulien

Disco 78 rpm / Título da música: Favela / Autoria: Tavares, Hekel, 1896-1969 (Compositor) / Camargo, Joracy, 1898-1973 (Compositor) / Roulien, Raul (Intérprete) / Tavares, Hekel, 1896-1969 (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Victor, 24/01/1933 / Nº Álbum 33631 / Dt. lançamento: Março/1933 / Lado A / Gênero musical: Samba



No Carnaval me lembro tanto da favela, oi
Onde ela, oi, morava
Tudo o que eu tinha era
Uma esteira e uma panela, oi
Mas ela, oi, gostava


Por isso eu ando pelas ruas da cidade
Vendo que a felicidade
Foi a vida que passou
E a favela, que era minha
E era dela,
Só deixou muita saudade
Porque o resto ela levou.

Me lembro tanto do café numa tigela, oi
Que ela, oi, me dava
E de umas rezas
Que por mim,
Lá na capela, oi
Só ela, oi, rezava.


Por isso eu ando pelas ruas da cidade
Vendo que a felicidade
Foi a vida que passou
E a favela, que era minha
E era dela,
Só deixou muita saudade
Porque o resto ela levou.

Noutro dia,
Eu fui lá em cima na favela, oi
E ela, oi, não estava
Onde era a casa
Eu achei uma chinela, oi
Que ela, oi, sambava

Por isso eu ando pelas ruas da cidade
Vendo que a felicidade
Foi a vida que passou
E a favela, que era minha
E era dela,
Só deixou muita saudade
Porque o resto ela levou.

sábado, julho 05, 2014

O novo Hekel Tavares

"Hekel chegou ao Rio, vindo do Norte, na mais
extrema falta de recursos. Aqui o vemos, numa
foto raríssima, feita nos dias duros: costurando
seu único par de meias ..." (Carioca, 7/8/1937)
"Ser tratado pelo apenas pelo primeiro nome não é irreverência, é consagração. J. B. da Silva foi grande, e ainda o é na memória de todos, porque viu seu nome gloriosamente simplificado pelo povo que só o tratava carinhosamente por "Sinhô".

Hekel (1) Tavares, embora possuindo um nome exótico, incompatível com a sua personalidade eminentemente bugra, conseguiu esse máximo de cotação que é o não ter a lhe preceder o nome um sisudo "senhor", um prosaico "seu", um pedante "Dr." ou um conspícuo "maestro".

E a nossa gente foi tão longe com ele, nesse particular, que esqueceu-lhe até o sobrenome Tavares, numa simbólica manifestação de camaradagem; títulos e sobrenome, na opinião popular brasileira, são coisas convencionais; por isso a gente toda, numa solução genial, trata o notável compositor simplesmente por Hekel. De que, é o "Banzo"? Ora, é do Hekel ... Era só o que faltava que o "Banzo" fosse do senhor maestro Hekel Tavares ...

Um senhor maestro só produz ruidosos “operões” que o povo esquece. Afinal, quanto nome esquecido, de gente que no Brasil, como no estrangeiro, produziu massudas e arquivadas partituras cheias de "dós" incrivelmente agudíssimos e "fás" absurdamente graves? São nomes que a gente só encontra nos dicionários, devidamente acompanhados de títulos pomposos. Mas ninguém sabe se Mozart era nobre ou se Bach era doutor. Já ouviram falar em maestro Mozart ou maestro Bach? Nunca. Apenas e colossalmente em Mozart e Bach. Esta simplificação é tudo, esse desrespeito é a adoração.

Pois é do Hekel que nos ocuparemos hoje. Do Hekel herói. Desse Hekel que teve valor bastante para abdicar de uma situação excepcional no cenário artístico de nosso país, enveredando por uma trilha bem diversa daquela que ele seguia cheio de celebridade e das vantagens materiais que a celebridade produz. Há dois anos que o autor de "Sussuarana" não lançava nenhuma novidade. Não fosse a popularidade imensa alcançada pelas suas produções anteriores, cujas tiragens foram a alguns milhares e esses dois anos de reclusão teriam sido a morte do Hekel compositor.

Teria ele desistido da música?

Não se explicava de outra maneira o su silêncio, porque a sua inspiração sempre foi proverbial pela perenidade; seus cento e três trabalhos impressos atestam um labor constante.

Mas ele não desistira da música; apenas e simplesmente ele se dedicara todo à música, àquela cuja fatura demanda sacrifício mas produz coisas colossais como a cultura popular e a formação da nacionalidade. Hekel, que vinha apresentando ao público do Brasil os diamantes brutos das nossas melodias cuidou durante esses dois anos, de burilá-los, apresentando-os de maneira definitiva e tendente a torná-los conhecidos em todo o mundo. O seu trabalho de vinte e quatro meses redundou nesse sucesso estrondoso que foi "André de Leão e o Demônio de Cabelo Encarnado", suíte sinfônica baseada em poema de Cassiano Ricardo. Essa partitura, que foi gravada por iniciativa do autor, está sendo muito ouvida na Europa; na Alemanha já cogitam de editá-la em língua nacional e jornais de toda a Europa referem-se elogiosamente à música, colocando o seu autor entre os grandes músicos sul-americanos.

Desejoso de tornar conhecido dos nossos leitores o novo Hekel, procuramo-lo em sua residência, onde ele estava imerso nos preparativos para o lançamento de uma novidade sensacional: um livro para a iniciação musical das crianças! Nesse livro Hekel expõe da maneira mais simples e concreta os mesmos elementos formadores da enfadonha "artinha", que é o espantalho de todos os garotos destinados à aprendizagem da arte dos sons. Exemplos pitorescos incutem nas mentes infantis as normas da teoria musical, nesse curioso trabalho cujos direitos autorais acabam de serem registrados nos países europeus e na América do Norte.

Uma das páginas do livro representa a construção do
pentagrama e os tangarás que simbolizam as sete
notas musicais.
Hekel nos falou sobre a gênese desse seu livro:

— O sucesso do método está no resultado que se pode obter tendo como objetivo a memória visual da criança.

Cenas de colorido forte — continua Hekel — ilustram uma pequena historieta através da qual, sem que a criança a aperceba, lhe são ministrados conhecimentos básicos de teoria musical.

Nos vários testes que fiz com crianças de idades diversas, pude observar a facilidade de assimilação.

Inicialmente, Zilo, o pretinho sabido, forma com o auxílio das linhas telegráficas um pentagrama no espaço, e os tangarás passam a ter os nomes das notas que vão sendo colocadas nos lugares respectivos.

Explicado os nomes das sete notas, o negrinho, que é o pivô da pequena novela, apresenta o "General Sol" e a sua função no pentagrama.

Note que apesar de se tratar da figurinha de um general, a clave de Sol está perfeitamente desenhada. Assim, dentro de um argumento pitoresco, a criança fica conhecendo os sinais e o que eles representam.

Depois que os lugares das notas estão bem fixados, os pássaros e o general desaparecem para dar lugar a um pentagrama normal com a clave e as semibreves, cujo valor é explicado no capítulo de divisão.

Contudo, como se trata de distrair a criança o mais possível, os nomes das notas são lembrados com um objeto que comece com a mesma sílaba. Veja que o "fá", na 5a. linha tem, ao lado, uma faca, o "sol", tem um soldado, e assim por diante.

Na divisão do compasso de 4 tempos, cujo número inteiro é uma semibreve, está representada por uma laranja. Não divido uma semibreve, divido uma laranja!

Nos diversos testes que fiz os resultados foram sempre coroados de êxito — finaliza Hekel.

— Quem é o editor?

— Eu mesmo. A percentagem dos editores elevaria por demais o preço do exemplar. Por isso resolvi fazer eu mesmo a impressão, a fim de torná-la acessível a bolsos humildes.

— Diga-nos algo sobre os seus atuais trabalhos de composição.

— Atualmente trabalho uma rapsódia nordestina, que apresentarei brevemente com coreografia a cargo do célebre bailarino Francis. Este meu trabalho terá, como complemento orquestral, a colaboração de vozes humanas sem palavras. Fixa diversos aspectos da vida nordestina e desenvolve sobre temas regionais interessantíssimos. Será uma afirmação bem categórica de nossa riqueza musical. Além dessa rapsódia tenho planejados diversos trabalhos que obedecerão às normas que estabeleci. A nossa riqueza folclórica impõe-se ao compositor a obrigação de divulgá-la universalmente, o que importa num trabalho muito sério que nem sempre é aceito pelo povo, mas que é o único que influi sobre o seu progresso mental, forçando-o à compreensão das manifestações de arte verdadeira.

Despedimo-nos de Hekel, criatura rara, que acima de seus interesses pessoais coloca os interesses populares e os da arte."

Nota: (1) Na revista, escrito "Heckel".


Fonte: Revista semanal "Carioca", de 7/8/1937 (artigo atualizado para o nosso português) — Foto e figura extraídas dessa edição.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Lalá, Lelé, Lili...

Lili (Lycia Carvalho Costa Reis), cantora, nasceu em Niterói, RJ, mas ainda recém-nascida, seus pais se mudaram para São Paulo, Capital. Desde cedo, muito jovem ainda, ouvia rádio, cantava e tocava piano e violão.

O cantor Paraguaçu a levou ao maestro Gaó, que atuava na rádio Cruzeiro do Sul, que também irradiava para o Rio de Janeiro. Especializou-se em interpretar canções folclóricas brasileiras.

Para saber mais detalhes sobre a vida dessa artista, tão esquecida pelos "dicionários da MPB", acessem o site Museu da Pessoa, quando foi entrevistada recentemente, em 03/12/2013. À seguir uma reportagem da CARIOCA, de dezembro de 1935:

“Lili... —— Duas sílabas, idênticas e pequeninas, que evocam um mundo imenso de coisas e fantasias. Lili, lembra Carnaval. Sugere logo um “cordão” na Avenida, dançando e cantando:

“Lili, Ó meu bem
Teu amor eu tenho...”

Lili sempre foi motivo de inspiração para os sambistas cariocas, que infelizmente não conhecem a Lili paulista, cantora destacada e de mais futuro da Rádio Cosmos. Lili não tem sobrenome. Quer ser simplesmente Lili. É assim que o “speaker” a anuncia e foi assim que a chamamos para conversar um pouco conosco.

—— Tenho quase um ano de rádio, ora na Cosmos, ora na Cruzeiro, começou ela.

—— Como resolveu e conseguiu entrar para o rádio?

—— Todas as moças que gostam de rádio, tem no íntimo, pode estar certo, um grande desejo de cantar para o microfone para ouvir... Eu como as outras também tinha este desejo. Vontade não me faltava e vivia, assistindo nos estúdios, as transmissões. Uma criatura havia, que me despertava grande entusiasmo e a quem eu considerava um semideus — Gaó. Creio que o dia em que conseguisse falar com ele, seria o maior de minha vida. A oportunidade chegou: um dia ele estava no estúdio e eu gaguejando perguntei-lhe se era difícil cantar no rádio. Respondeu-me que dependia da voz. Fiz a experiência e dias depois, cantava num programa, quatro músicas: uma valsa, um samba, um fox e uma canção. Agradei...

—— Qual destes gêneros prefere?

—— A canção regional. Acho-a encantadora. Tem para mim encantos que dificilmente se podem exprimir. Mais do que qualquer outra música, pode a canção provocar a nostalgia numa criatura. Tem a canção toda a beleza e a grandiosidade do nosso país.

—— Qual, dentre as canções, é a sua predileta?

—— Das compostas exclusivamente para mim, “Pipoca, amendoim torrado”, de Príncipe Bugre. Tem dentro de sua melodia, toda a tristeza e a dolência de nossa alma. A minha predileta é, porém, “Leilão”, de Heckel Tavares, que às vezes chega a me provocar lágrimas...

—— Qual o compositor predileto?

—— Gosto de vários: Heckel, Joubert, Waldemar Henrique, Tupinambá. Creio porém que o primeiro ainda é o predileto, pois conheço e interpreto todas as suas composições.

—— Que pensa do fox americano?

—— Gosto. Acho-o lindo. Parece-me, porém, que não é muito de acordo com o nosso temperamento.

—— E por que não canta foxes?

—— Ao público parece sempre ridículo que uma brasileira cante, em inglês, coisas inglesas. Acham que devemos cantar sempre em português.

—— É então, muito exigente, o público paulista? ...

—— Terrível! Mais que o carioca. No Rio vê-se cantoras, meses e meses, com o mesmo repertório. Em São Paulo, se cantamos a mesma música três dias seguidos, começam logo os telefonemas de protesto.

—— Não tinha desejo de ir para o Rio?

—— Gostaria. O ideal, seria passar seis meses no Rio e seis aqui. Infelizmente, porém, é quase impossível realizá-lo, pois não tenho nenhuma proposta...

Ary Barroso apareceu. Vinha buscar Lili para dar começo à "Hora H", onde ela é figura de relevo e, dentro em pouco, víamos, através dos vidros da PRE-7, Lili tomando parte de um "sketch", e apresentando, assim, mais uma modalidade de sua arte, ainda nova para nós."

Jorge Maia, enviado especial de CARIOCA


Fontes: CARIOCA, de 28/12/1935; Museu da Pessoa, de 03/12/2013.

terça-feira, setembro 17, 2013

Mamãe preta

Mamãe preta (canção, 1928) - Hekel Tavares e P. M. Almeida - Letra de Paulo Mendes - Interpretação de Sérgio da Rocha Miranda, acompanhado por piano - Disco Odeon, 1928 - Gênero musical: modinha / canção - Nº Álbum 10172 - Data lançamento 1928 - Lado A.



Mamãe preta que me embalou,
Eu bem me lembro de você...
Eu era tão pequenino,
E, para os meus olhos de criança,
Você, na luz fraca do quarto,
Era apenas uma sombra
Na brancura da parede.

Mamãe preta, mamãe preta,
Eu não me esqueço de você...
E a tenho sempre no olhar
Da Saudade, que tudo vê...

Mamãe preta, se eu não dormia,
Sua voz, fanhosa e rouca,
Com brandura me dizia:
— "Drume, drume sinhozinho,
Sinhô parece zumbi
Preta véia tá cansada
E o sinhô não quê drumi"...

E eu custava a dormir...
E você, com paciência,
Ficava sempre a velar...
Ficava sempre a meu lado,
Cantando, num tom magoado,
Cantigas da sua raça,
— Mãe preta que me embalou!

______________________________________________________________________
Fontes: IMS in "TAVARES, Hekel; ALMEIDA, P. M; MIRANDA, Sérgio da Rocha. Mamãe preta. Acompanhado por Piano. [S.l.]: Odeon, 1928"; http://www.brasiliana.usp.br / bbd / bitstream/ handle / 1918/ 060052-15/ 060052-15_COMPLETO. pdf.txt;

segunda-feira, setembro 16, 2013

Sapo Cururu

"Os ritmos vão criando paisagens e, enquanto o ouvido se perde no curso livre da onda lírica, o olhar se enriquece do panorama local que vai se levantando pela força da persuasão melódica. Assim, a música de Hekel Tavares não enche somente nossos ouvidos de acordes agradáveis: também nos enche os olhos de imagens deliciosas...

E do seu conjunto vem, naturalmente, essa ideia de mata soturna, em que o sol não consegue penetrar, dourando apenas o cimo das árvores. Isso pela predominância da misteriosa tristeza dos motivos agrestes, que formam a estrutura da ceração sonora de Hekel, por onde passa, de vez em quando, bem de leve e no alto, um frêmito de alegria doida e clara, como na página festiva de D. Domitília.

Mas, já em Mamãe preta geme toda a escravidão com o trabalho sem fim dos dias escuros e com a vistosa aristocracia dos "sinhôs-moços", a quem, por desvio da maternidade submissa, as negras entregam toda a sua ternura deslumbrada. E em Sapo Cururu esboçam as gordas lagoas noturnas dentro do deserto verdejante, cortado de gritos indecifráveis, e de onde de levantam, com a cumplicidade dos luares solenes, assombrações e arrepios..." (Chronica Social - Correio Paulistano)

Sapo cururu (acalanto, 1929) - Hekel Tavares e letra de Olegário Mariano - Intérprete: Francisco Alves - Disco selo Odeon, 1929 - Gênero musical: canção / acalanto - Nº Álbum 10365 - Data de lançamento: 1929 - Lado A.



"Sapo Cururu
Na beira do rio
Quando o sapo canta, maninha
Diz que está com frio..."

Na casa grande do engenho
Preta véia tá cantando
Prá sinhozinho drumi
Sarta o bacurao na estrada
E a lua entra na ginela
Parece que vem ouvi.

Preta véia então se alembra
Da vida que ali viveu
Deu o peito a Sinhô-Moço
E na rede de seus braço
Seu Sinhô-Moço cresceu.

Hoje cria Sinhozinho
Branquinho que nem jasmim
Tem sempre os óinho aberto
Só drome quando se canta
Preta véia canta assim:

Sapo Cururu
Na beira do rio
Quando o sapo canta, maninha
Cururu tem frio...

Na casa grande de engenho
Preta véia tá cantando
Pra Sinhozinho drumi...


______________________________________________________________________
Fonte: Música Popular Brasileira - Mariza - Jornal do Brasil, de 24/01/1937; Correio Paulistano de 17/04/1928.

quarta-feira, junho 05, 2013

Ascenso Ferreira

Ascenso Ferreira (Ascenso Carneiro Gonçalvez Ferreira), poeta e compositor, nasceu em Palmares, PE, em 09/05/1895, e faleceu em Recife, PE, em 05/05/1965. Considerado um dos grandes nomes da Literatura em Pernambuco, nasceu em uma família humilde e sua obra esteve ligado as coisas e tradições do Nordeste e principalmente ao retratar do povo nordestino e sua vida e costumes.

Filho de um comerciante e de uma professora, ficou órfão aos 13 anos de idade e começou a trabalhar na mercearia de um tio. Depois de iniciar a atividade literária escrevendo baladas, sonetos e madrigais, sofreu influência de Mário de Andrade, Guilherme de Almeida e Manoel Bandeira e passou a se dedicar a temas regionais.

Em 1911, veio à lume seu primeiro poemas Flor fenecida no Jornal A Notícia de Palmares. Em 1920, mudou-se para a cidade de Recife, onde tornou-se funcionário público. Na capital pernambucana, passou a colaborar com jornais como o Diário de Pernambuco, entre outros. A partir de 1925, passou a partcicipar do movimento modernista pernambucano.

Publicou seu primeiro livro de poesias, Catimbó, em 1927, e em seguida passou a viajar apresentando-se em recitais em vários estados brasileiros. Em 1929, a canção Maracatu e o poema Sertão, ambos com música de Valdemar de Oliveira, foram gravados na Odeon por Alda Verona. No ano seguinte, fez letra para o canto indígena Toré com música de Stefana de Macedo, que o gravou na Columbia.

Em 1931, Sylvinha Mello gravou na Victor a canção Chove chuva!, com música de Hekel Tavares. Em 1937, o maracatu Onde o sol descamba, foi musicado pelo músico Capiba e gravado na Columbia pela cantora  Laís Marival.

Em 1941, publicou Cana Caiana, seu segundo livro. Em 1950, teve duas canções gravadas por Jorge Fernandes na Odeon, Engenhos de minha terra, com música de Valdemar de Oliveira, e Trem de Alagoas (Impressão de viagem), com música de Valdemar Henrique. O poema Trem de Alagoas também seria musica por Heitor Villa-Lobos. Em 1951, teve a canção A chama, com Capiba, gravada pelo cantor Paulo Molin, com acompanhamento de Zimbres e sua orquestra, em disco da gravadora Continental.

Em 1955, participou da campanha de Juscelino Kubitschek à presidência da República tomando parte em diversos comícios. No ano seguinte, foi nomeado por Juscelino para a direção do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife, sendo porém sua nomeaçao suspensa dez dias depois uma vez que intelectuais pernambucanos não aceitaram sua nomeação devido à sua fama de poeta boêmio. Foi então nomeado assessor do Ministério da Educação, mas fazendo juz à sua fama, somente aparecia para receber os salários.

Em 1958, foi lançado pela gravadora pernambucana Mocambo o LP Ascenso Ferreira - 64 poemas e 3 histórias populares todos na própria voz do poeta, em disco que incluiu os poemas Engenhos de minha terra, O trem de Alagoas, Toré e Maracatu, anteriormente musicados.

Em 1962, o maracatu Chove chuva, com Hekel Tavares, foi gravado por Inezita Barroso no LP Recital de Inezita Barroso da gravadora Copacabana. Em 1975, seu poema Vou danado pra Catende foi musicado por Alceu Valença, que com ele concorreu e venceu o Festival Abertura da TV Globo.

Em 1982, seu poema Maracatu foi musicado e gravado por Alceu Valença. Em 1993, os poemas Trem de Alagoas e Reisado foram musicados por Marcelo Melo e Toinho Alves, e gravados pelo Quinteto Violado no LP Algaroba, da RGE.

Em 2001, a canção Meu boi Surubim foi incluída no CD A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes na voz de Inezita Barroso em gravação feita em 1988, no programa "Ensaio" da TV Educativa.

Foram publicados postumamente os livros Eu voltarei ao sol da primavera, em 1985, e O Maracatu, Presépios e Pastoris e O Bumba-Meu-Boi: Ensaios Folclóricos, em 1986. Sua marca registrada era o uso do chapéu de palha.

Obra

Chove chuva! (c/ Hekel Tavares), Engenhos de minha terra (c/ Valdemar de Oliveira), Maracatu (c/ Alceu Valença), Maracatu (c/ Valdemar de Oliveira), Meu boi Surubim, Onde o sol descamba (c/ Capiba), Reisado (c/ Marcelo Melo e Toinho Alves), Toré (c/ Stefana de Macedo), Trem de Alagoas (c/ Heitor Villa-Lobos), Trem de Alagoas (Impressão de viagem) (c/ Valdemar Henrique), Vou danado pra Catende (c/ Alceu Valença).

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Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.

segunda-feira, maio 02, 2011

Álvaro Moreira

Álvaro Moreira (Álvaro Moreira da Silva), poeta, jornalista, letrista e teatrólogo, nasceu em Porto Alegre RS, em 23/11/1888, e faleceu no Rio de Janeiro RJ, em 12/10/1964. Concluiu curso na Faculdade de Ciências e Letras, de São Leopoldo RS, em 1907, lançando no ano seguinte seu primeiro livro de poesias simbolistas.

Transferiu- se nesse ano para o Rio de Janeiro, onde, em 1912, recebeu o diploma de bacharel em direito. Realizou intensa atividade jornalística, tendo dirigido as revistas Para Todos, Ilustração Brasileira e Fon-Fon.

No fim da década de 1920 aproximou-se do teatro de revista, fundando em 1927, com Joraci Camargo e outros, o Teatro de Brinquedo. Escreveu, entre outras, a peça Adão, Eva e outros membros da família, ainda em 1927.

É autor de algumas letras, como Mamãezinha que estás no céu, A menina quer saber, Realejo e Bahia, todas com música de Hekel Tavares.

Dirigiu a Companhia de Arte Dramática, em 1937. Em 1945 passou a trabalhar como radialista na Rádio Globo e posteriormente, participou da produção do programa Rio, Eu Gosto de Você, na TV-Rio. Foi membro da Academia Brasileira de Letras.

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora.

domingo, setembro 26, 2010

Sussuarana

Hekel Tavares
Hekel Tavares (1896/1969) nasceu num berço musical: além da mãe pianista e pai flautista, cresceu em Alagoas ouvindo repentes, reisados, maracatus e congadas, e isto marcou sua vida para sempre. Quando veio para o Rio de Janeiro, em 1921, já tocava piano, harmônica e cavaquinho.

Estudou harmonia e composição com os maestros Francisco Braga e J. Otaviano, entre outros. Da mesma geração que Heitor Villa-Lobos e Francisco Mignone, Hekel aliou a sólida formação musical ao amor pela profusão de ritmos e formas que a música popular lhe oferecia.

E foi no teatro de revista que começou a compor de forma profissional. Durante a década de 20 compôs várias canções, com diversos letristas. Um dos mais constantes, o bamba Luiz Peixoto, o levou ao sucesso radiofônico com Sussuarana, pela voz de Gastão Formenti.

Sussuarana (toada, 1928) - Hekel Tavares e Luiz Peixoto - Intérprete: Gastão Formenti

Disco 78 rpm / Título da música: Sussuarana / Hekel Tavares, 1896-1969 (Compositor) / Luiz Peixoto (Compositor) / Gastão Formenti (Intérprete) / Rogério Guimarães [Violão] (Acomp.) / Gravadora: Odeon, 1928 / Nº do Álbum: 10171-a / Nº da Matriz: 1513-I / Lançamento: Maio/1928 / Gênero musical: Canção / Coleções: IMS, Nirez


Faz três sumana / Que na festa de Sant'Ana
O Zezé Sussuarana / Me chamou pra conversar
Dessa bocada / Nóis saímo pela estrada
Ninguém não dizia nada / Fomo andando devagar

A noite veio / O caminho estava em meio
Eu tive aquele arreceio / Que alguém nos pudesse ver
Eu quis dizer / Sussuarana, vamo imbora
Mas Virgem Nossa Senhora / Cadê boca pra dizer

Mais adiante / Do mundo, já bem distante
Nóis paremo um instante / Predemo a suspiração
Envergonhado / Ele partiu para o meu lado
Ó Virgem dos meus pecados / Me dê a absorvição

Foi coisa feita / Foi mandinga, foi maleita
Que nunca mais indireita / Que nos botaram, é capaz
Sussuarana / Meu coração não me engana
Vai fazer cinco sumana / Tu não volta nunca mais


A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Vol. 1 - Editora 34

terça-feira, dezembro 11, 2007

Sylvinha Mello


Sylvinha Mello (Sylvia Mello), cantora e atriz, nasceu em Vitória, ES, em 23/02/1914, e faleceu em Paris, França, em 1978. Filha de pernambucanos, chegou ao Rio de Janeiro aos 9 anos de idade. Estreou na carreira artística cantando peças folclóricas em teatros e cassinos do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais, ao lado de Hekel Tavares.

Aos 18 anos apresentou-se no Programa César Ladeira, passando a atuar ao lado de Francisco Alves, Carmen Miranda e Sílvio Caldas.

Entre 1930 e 1936, realizou gravações para a RCA Victor, destacando-se entre seus primeiros sucessos O pequeno vendedor de amendoim e Banzo, ambas composições de Hekel Tavares. Interpretou também canções de Marcelo Tupinambá e Waldemar Henrique.

Seus maiores sucessos em disco foram alcançados com canções e valsas de Joubert de Carvalho, em estilo marcadamente romântico.

Posteriormente, mudou-se para a cidade de Nova York onde viveu dois anos como estudante, pouco depois, obteve emprego no consulado brasileiro.

Foi uma das primeiras brasileiras a fazer sucesso nos Estados Unidos, onde interpretou músicas de grande aceitação de Ary Barroso, no Blue Angel, de Nova York e em emissoras de rádio e boates norte-americanas.

Após separar-se de um primeiro casamento, casou-se novamente com um diplomata francês, passando, então, a residir em Paris. Participou de três filmes: Estudantes, Grito da mocidade e Estrela da eterna esperança.

Fontes: Cantoras do Brasil - Sylvinha Mello - Fotos: Revista Fon Fon, de 1937.

sexta-feira, março 31, 2006

Hekel Tavares

Hekel Tavares

Hekel Tavares, compositor, regente e arranjador nasceu em Satuba AL (16/9/1896) e faleceu no Rio de Janeiro RJ (8/8/1969). Estudou piano com uma tia e, ainda criança, aprendeu harmônica e cavaquinho, já demonstrando grande interesse pelas manifestações populares. Foi para o Rio de Janeiro em 1921 e iniciou-se em orquestração com J. Otaviano. Ao lado de Valdemar Henrique, Marcelo Tupinambá e Henrique Vogeler, sob a influência nacionalista da Semana de Arte Moderna (1922), criou um tipo de música situado na fronteira do erudito e do popular.


Iniciou-se profissionalmente como compositor de teatro de revista, fazendo em 1926 a música para a peça carnavalesca Está na Hora, de Goulart de Andrade, levada no Teatro Glória. Ainda em 1926 apareceu regendo uma orquestra na revista Plus-ultra, no mesmo teatro. Sua primeira composição de sucesso foi Suçuarana (parceria com Luiz Peixoto), lançada em 1927.

Autor de mais de 100 canções, alcançou seu maior êxito com Casa de caboclo (com Luiz Peixoto), gravada em 1928 por Gastão Formenti na Parlophon, e no mesmo ano Eu ri da lagartixa foi lançada por Patrício Teixeira, naquela gravadora.

Em 1927, para o Teatro de Brinquedo (idealizado por Álvaro Moreira e outros), que funcionava no subsolo do Teatro Cassino Beira-Mar, musicou a peça de estréia, sendo também o pianista desse espetáculo e de outros que se seguiram. Essa experiência de teatro ligeiro e elegante teve pouca duração, pois era ainda muito reduzido o público de alta classe média, para o qual eram dirigidos os espetáculos. Assim, ainda em 1927, o compositor se viu na contingência de voltar às revistas mais populares dos teatros da Praça Tiradentes.

Em 1933 Jorge Fernandes gravou, na Odeon, O que eu queria dizer ao teu ouvido (com Mendonça Júnior). Nesse início da década de 1930, fez ainda Favela (com Joraci Camargo), Chove!... chuva!... (com Ascenso Ferreira), Bahia (com Álvaro Moreira), Banzo (com Murilo Araújo), Na minha terra tem (com Luís Peixoto), Felicidade (com Luís Peixoto), Guacyra (com Joraci Camargo), Leilão (com Joraci Camargo), lançada em 1933 por Jorge Fernandes, na Odeon, e Caboclo bom (com Raul Pederneiras), gravada na Columbia em 1942, por Jorge Fernandes etc.

Em 1935 fez sua primeira composição erudita, André de Leão e o demônio de cabelo encarnado, poema sinfônico baseado no poema de Cassiano Ricardo (1895-1974) e lançado em álbum, com libreto ilustrado pelo gravador Osvaldo Goeldi. Inspirando-se sempre na música regional, continuou a produzir no gênero erudito, editando suas obras por conta própria.

De 1949 a 1953 percorreu quase todo o Brasil, em missão especial do então Ministério da Educação e Saúde Pública, pesquisando motivos folclóricos que utilizaria em diversas obras, como no poema sinfônico O Anhangüera, para orquestra, coro misto, solistas e coros infantis (com argumento de sua esposa, Marta Dutra Tavares, e poemas de Murilo Araújo), composição em que utilizou instrumentos de percussão dos índios Tucuna, do alto Solimões, e o conhecido motivo indígena Canide ioune.

Ainda com o material obtido na viagem, em 1955 fez Oração do guerreiro, para baixo profundo. Compôs ainda Concerto, para piano e orquestra; Concerto em formas brasileiras, p/violino e orquestra; O sapo domado e A lenda do gaúcho, fantasias infantis. Deixou inacabados: Rapsódia nordestina e Fantasia brasileira, ambas para piano e orquestra, e o drama folclórico Palmares.

Em 1996 Fernando de Bortoli escreveu Hekel Tavares - O mais lindo concerto para piano e orquestra, São Paulo, Edição do autor, onde incluiu listagem das obras, discografia e bibliografia sobre o compositor.

Obra

Azulão (c/Luís Peixoto), canção, 1929; Bahia (c/Álvaro Moreira), s.d.; Banzo (c/Murilo Araújo), canção, 1933; Biá-tá-tá (c/Jaime d'Altavitta), coco, 1934; Caboclo bom (c/Raul Pederneiras), canção, 1942; Casa de caboclo (c/Luís Peixoto), canção, 1928; Chove!... chuva!... (c/Ascenso Ferreira), canção, 1931; Engenho novo, folclore, 1929; Eu ri da lagartixa, cateretê, 1928; Favela (c/Joraci Camargo), canção, 1933; Felicidade (c/Luís Peixoto), s.d.; Funeral de um rei nagô, s.d.; Guacyra (c/Joraci Camargo), canção, 1933; Humaitá, coco, 1934; Leilão (c/Joraci Camargo), 1933; Moleque namorador, fox-trot, 1927; Na minha terra tem (c/Luís Peixoto), canção, 1929; O que eu queria dizer ao teu ouvido (c/Mendonça Júnior), s.d.; Sabiá, canção, 1927; Suçuarana (c/Luís Peixoto), toada sertaneja, 1927.


Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha.

quinta-feira, março 23, 2006

Casa de caboclo

Os versos desta canção "Numa casa de caboco / um é pouco / dois é bom / três é demais", consagraram-se como um verdadeiro dito popular. Este fato, por si só, comprova a grande popularidade alcançada pela composição, que tornou conhecido o seu lançador, o então jovem cantor Gastão Formenti.

Autores de "Casa de Caboclo", Hekel Tavares e Luiz Peixoto acabaram inspirando, juntamente com Joubert de Carvalho, uma onda de canções sobre motivos sertanejos, que proliferou no final dos anos vinte. Como acontece muitas vezes a músicas de sucesso, houve à época do lançamento quem considerasse "Casa de Caboclo" plágio de um tema de Chiquinha Gonzaga, levando a discussão aos jornais. Daí a informação que figura em algumas de suas regravações: "Canção baseada em motivos de Chiquinha Gonzaga".

Casa de caboclo (canção, 1929) - Chiquinha Gonzaga, Luiz Peixoto e Hekel Tavares - Intérprete: Gastão Formenti

Disco 78 rpm / Título da música: Casa de caboclo / Chiquinha Gonzaga (Compositora) / Hekel Tavares (Compositor) / Luiz Peixoto (Compositor) / Gastão Formenti (Intérprete) / Piano (Acomp.) / Violão (Acomp.) / Gravadora: Parlophon / Nº do Álbum: 12863-a / Nº da Matriz: 1994-I / Gravação: 21/09/1928 / Lancamento: Novembro/1928 / Gênero musical: Canção / Coleções: Nirez, José Ramos Tinhorão, Humberto Franceschi



(A)--------- Gb7--------- Bm--------- E7
Você tá vendo essa casinha simplesinha
-----------------------A-- E7-- A
Toda branca de sapê
-------------------------------E---------------- B7
Diz que ela véve no abandono não tem dono
---------------------------E7---- A
E se tem ninguém não vê
-------------Gb7--------- Bm--------------- E7
Uma roseira cobre a banda da varanda
------------------------A----- D
E num pé de cambuçá
-------------------------A--------------- E7
Quando o dia se alevanta Virge Santa
---------------------(A) (E) (A) (Db7) Gbm
Fica assim de sabiá
--------------------------Db7----------------- D7
Deixa falá toda essa gente maldizente
---------------------------Db7------ Gb7
Bem que tem um moradô
------------------------------B7 ----------------E7
Sabe quem mora dentro dela Zé Gazela
----------------------(A) (E) (A) (E) A
O maió dos cantadô
----------------Gb7------- Bm --------------E7
Quando Gazela viu siá Rita tão bonita
-----------------------A---- E7---- A
Pôs a mão no coração
---------------------------E------------------ B7
Ela pegou não disse nada deu risada
--------------------------E7----- A
Pondo os oinho no chão
------------Gb7----------- Bm --------------E7
E se casaram, mas um dia, que agonia
-----------------------------A ----------D
Quando em casa ele voltou
-----------------------A---------------- E7
Zé Gazela via siá Rita muito aflita
----------------------A (E) (A) (Db7) Gbm
Tava lá Mané Sinhô
---------------------------Db7-------------------- Gbm
Tem duas cruz entrelaçada bem na estrada
-----------------------Db7---- Gb7
Escrevero por detrás:
-----------------------B7----------------- E7
“Numa casa de caboclo um é pouco
--------------------------(A) (E) (A)
Dois é bom, três é demais”


Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Vol. 1 - Editora 34