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domingo, maio 06, 2018

Um Milhão de Melodias - Rádio Nacional


Um dos mais famosos programas musicais do rádio brasileiro. Um Milhão de Melodias estreou no dia 6 de janeiro de 1943 na Rádio Nacional do Rio de Janeiro e foi um marco importante no processo de alienação cultural dos brasileiros através da música.


Antes desse programa radiofônico, a influência da música norte-americana era restrita ao cinema e mesmo assim para uns poucos iniciados. Os filmes eram legendados e com o elevado número de analfabetos tornava-se difícil a penetração maciça do fox. É verdade que havia o disco mas o consumo era pequeno e havia poucas vitrolas entre os menos afortunados. Com o rádio a coisa era outra.

Através de programas como Um milhão de melodias, Aquarelas das Américas e Aquarelas do Mundo, Nas asas de um Clipper, A hora da Broadway, Your Hit Parade, Big Broadcasting Matinal da Exposição e outros que tais, a música norte-americana foi invadindo os lares brasileiros e induzindo a nossa juventude à adoção dos seus ritmos.

O programa esteve no ar, inicialmente, durante sete anos ininterruptos. Depois ficou de fora por dois anos voltando em 1952/53 para uma nova temporada. Nele desfilaram os maiores artistas do rádio brasileiro e a Orquestra Brasileira comandada por Radamés Gnattali dividia seus números entre os sucessos brasileiros e os sucessos norte-americanos.

Os primeiros produtores do programa foram Haroldo Barbosa e José Mauro e posteriormente, na sua segunda fase, Paulo Tapajós e Lourival Marques.


Fonte: http://www.collectors.com.br/CS05/cs05_03aq.shtml

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Rádio Nacional: o símbolo da Era do Rádio

Rádio Nacional - Emissora de rádio criada no Rio de Janeiro em 1936 a partir da compra da Rádio Philips, por 50 contos de réis. Seu primeiro prefixo, "Luar do sertão", de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense, era tocado em vibrafone por Luciano Perrone e em seguida um locutor anunciava o prefixo da emissora: PRE-8. Nesse ano mesmo, começou a apresentar pequenas cenas de rádio-teatro intercalados com números musicais.


Foi nos anos 1940 e 1950 a principal emissora do país e verdadeiro símbolo da chamada "Era do Rádio". Em 1937, foi inaugurado o "Teatro em Casa" para a irradiação de peças completas, semanalmente. Sua programação ao vivo passou depois a ser retransmitida para todo o país, o que a tornou uma pioneira na integração cultural do país.

Seus programas de auditório, radionovelas, programas humorísticos e musicais marcaram a História do Rádio no Brasil. Foi líder de audiência praticamente desde a fundação até que o aparecimento da TV ditasse novos rumos para a comunicação no país.

Seus programas eram transmitidos diretamente dos muitos estúdios específicos, inclusive do auditório da Rádio, todos localizados nos três últimos andares do edifício "A Noite", Praça Mauá, 7, Rio de Janeiro.

Se seus programas de humor, suas radionovelas, seus programas noticiários e os esportivos viraram modelo para muitas outras Rádios do país, foi fundamental também para o desenvolvimento da música popular brasileira. Os primeiro nomes de cantores a formar seu casting foram Sonia Carvalho, Elisinha Coelho, Silvinha Melo, Orlando Silva, Nuno Roland, Aracy de Almeida e Marília Batista.

Segundo depoimento do radialista e compositor Haroldo Barbosa ao pesquisador Luis Carlos Saroldi, "Nos primeiros anos, a Rádio Nacional apresentava uma estrutura muito simples: uma seção artística e uma seção administrativa, nada mais que isso. A emissora contava com menos de 30 pessoas para cantar, executar músicas, contabilizar e realizar outras tarefas menores".

As rádionovelas da emissora marcaram época a partir da primeira transmitida em 1941, "Em busca da felicidade", que durou três anos, até "O direito de nascer", que chegou a mudar hábitos das pessoas que tinham compromisso marcado com as transmissões dessa radionovela, posteriormente adaptada para a televisão.

Até meados da década de 1950, o Rádio-Teatro Nacional irradiou 861 novelas, as mais ouvidas do rádio brasileiro, segundo as mais seguras pesquisas de audiência. Pode-se observar que a música popular brasileira foi uma antes e outra depois da Nacional, que se transformou numa verdadeira criadora de ídolos através da realização de concursos como "A Rainha do Rádio", que consagrou diversas cantoras, como Emilinha Borba, Marlene, Dalva de Oliveira e Ângela Maria.

Um dos cantores que ficou marcado como símbolo dessa era foi Cauby Peixoto, que enchia o auditória da Rádio em suas apresentações. Em 1936, Linda Batista foi eleita a primeira "Rainha do Rádio", permanecendo no posto por doze anos. Em 1938, Almirante estreou o primeiro programa de montagem, ou montado, que foi "Curiosidades musicais", sob o patrocínio dos produtos Eucalol. O mesmo artista lançou no mesmo ano o primeiro programa de brincadeiras de auditório, o "Caixa de perguntas".

Outro programa de destaque na emissora surgido no mesmo período foi "Instantâneos sonoros brasileiros", produzido por José Mauro com direção musical de Radamés Gnattali, regente da orquestra.

Em 1939, Lamartine Babo passou a apresentar o programa "Vida pitoresca e musical dos compositores". Em 1940, a Rádio Nacional passou a fazer parte do Patrimônio Nacional, a partir de decreto assinado pelo presidente Getúlio Vargas, sendo então, dirigida por Gilberto de Andrade, que tratou de dar uma nova cara à programação da Rádio, no que muito foi auxiliado pelo radialista José Mauro, irmão do cineasta Humberto Mauro.

No ano seguinte, passou a ser apresentado o noticioso "Reporter Esso", marco do jornalismo radiofônico e que passaria a ter como apresentador três anos depois o locutor Heron Domingues. O prefixo do "Reporter Esso" foi escrito pelo maestro Carioca e executado por Luciano Perrone na bateria, Carioca no trombone e Francisco Sergio e Marino Pissiani nos pistons.

A Rádio Nacional foi a primeira emissora do Brasil a organizar uma redação própria para noticiários, com a rotina de um grande jornal diário impresso. A emissora da Praça Mauá possuía construiu uma divisão de rádio-jornalismo com mais de uma dezena de redatores, secretários de redação, rádio- repórteres, informantes e outros auxiliares, além de uma sessão de divulgação e uma sessão de esportes completa, e um boletim de notícias em idioma estrangeiro, que cobria todo o continente.

Em 18 de abril de 1942, foram inaugurados os novos estúdios da Rádio Nacional, no vigésimo primeiro andar do edifício "A Noite". Com 486 lugares, as novas instalações traziam inovações como o piso flutuante sobre molas especiais do palco sinfônico.

Ainda em 1942, Almirante estreou o programa "A história do Rio pela música". Nesse ano iniciou-se uma publicação semanal com a programação da emissora e cuja capa na maioria das vezes estampava a foto de cantores ou cantoras ligados à emissora. Também nesse ano, as ondas curtas da PRE-8 passaram a ser ouvidas em vários países.

Em 1943, a programação da emissora tomou impulso com a estréia do programa "Um milhão de melodias", patrocinado pelo refrigerante Coca-Cola, que estava sendo lançado no Brasil. Para esse programa foi criada a Orquestra Brasileira, com direção de Radamés Gnatalli. O repertório do programa apresentava duas músicas brasileiras atuais, duas antigas e três músicas estrangeiras de grande sucesso.

A Orquestra Brasileira de Radamés Gnatalli era formada pela mescla de grandes músicos como Luciano Perrone na bateria, vibrafone e tímpano, Chiquinho no Acordeão, Vidal no contrabaixo, Garoto e Bola Sete nos violões, José Meneses no cavaquinho, além dos músicos da velha guarda do samba carioca como João da Baiana no pandeiro, Bide no ganzá e Heitor dos Prazeres tocando prato e faca e caixeta.Também para atuar no programa foram criados os Trios Melodia e As Três Marias.

Nesse ano, estreou com grande sucesso o programa "Trem da alegria", apresentado pelo Trio de Osso, formado por Heber de Bóscoli, Yara Sales e Lamartine Babo. Entre as muitas inovações surgidas na Rádio Nacional e que influiram no próprio desenvolvimento da música popular brasileira estão os arranjos para pequenos conjuntos, trios e quartetos de Radamés Gnattali e os acompanhamentos rítmicos do baterista Luciano Perrone que causaram uma pequena revolução no samba orquestrado feito até então.



Foi Luciano Perrone quem sugeriu a Radamés Gnatalli a utilização dos metais, até então com funções exclusivamente melódicas, como mais um elemento de função rítmica na interpretação dos sambas gravados.

Na década de 1940, pelo menos três dos maiores cantores brasileiros eram contratados da Rádio Nacional: Francisco Alves, Sílvio Caldas e Orlando Silva. Ainda em 1943, estreou na Rádio Nacional o sanfoneiro Luiz Gonzaga que inspirado no sanfoneiro Pedro Raimundo que se vestia com trajes típicos do sul, resolveu vestir-se com trajes típicos do nordeste e dessa forma passou a divulgar a música e a cultura nordestinas.

Em 1946, um dos maiores sucessos musicais foi o samba-canção "Fracasso", de Mário Lago gravado por Francisco Alves e tema extraído da radionovela com o mesmo título. Nesse ano, a Rádio Nacional inovou na forma de transmitir partidas de futebol, adotando o chamado "sistema duplo", que dividia o campo de jogo em dois setores, cada qual com um locutor acompanhando de preferência o ataque de cada um dos times. O "sistema duplo" foi inspirado no então moderno método de arbitragem em trio, com os bandeirinhas colocados em ângulos opostos.

A década de 1950 ficou marcada pela acirrada competição pelo título de "Rainha do Rádio" que envolveu em disputas memoráveis cantoras como Emilinha Borba, Marlene e Ângela Maria. Nessa década, os programas de auditório da emissora tornaram-se tão concorridos que era cobrado ingresso até para assistir os programas em pé.



Outra disputa musical que marcou época no Rio de Janeiro, tendo a Rádio Nacional como centro, era a da divulgação de marchas e sambas carnavalescos, dos quais um dos muitos destaques foi o cantor e compositor Blecaute, sempre presente aos programas de auditório da Rádio.

Nesse período fizeram parte o "cast" da emissora artistas que marcaram a música popular brasileira como: Orlando Silva, Ataulfo Alves, Carlos Galhardo, Linda Batista, Luiz Gonzaga, Carmen Costa, Nelson Gonçalves, Nuno Roland, Paulo Tapajós, Albertinho Fortuna, Carmélia Alves, Luiz Vieira, Zezé Gonzaga, Gilberto Milfont, Heleninha Costa, Ademilde Fonseca, Bidu Reis, Nora Ney, Jorge Goulart, Neuza Maria, Adelaide Chiozzo, Jorge Fernandes, Dolores Duran, Lenita Bruno, Carminha Mascarenhas, Violeta Cavalcânti, Vera Lúcia, etc.

Em 1948, Dircinha Batista foi eleita "Rainha do Rádio" substituindo a irmã Linda Batista. No ano seguinte, teve início a eletrizante disputa pelo título de "Rainha o Rádio" entre as cantoras Emilinha Borba e Marlene. Esta última, foi eleita no ano seguinte com o apoio da Companhia Antártica Paulista, que lançava o Guaraná Caçula e fez dela sua garota propaganda, tendo o total de 529.982 votos. Marlene repetiu o feito no ano seguinte.

Em 1952 e 1953, a Rainha foi Mary Gonçalves. Por volta de 1950 foi criado na emissora o Departamento de Música Brasileira, que obteve um de seus maiores êxitos no ano seguinte no programa "Cancioneiro Rayol" com a série "No mundo do baião", apresentada pelo radialista Paulo Roberto.

A chefia do Departamento de Música Brasileira foi entregue inicialmente ao compositor Humberto Teixeira. Outro programa musical ligado ao departamento de Música Brasileira e que fez muito sucesso foi "Lira de Xopotó", apresentado pelo radialista Paulo Roberto e que incentivava as bandas do interior que apresentavam músicas com arranjos do maestro Lírio Panicali.

Igualmente Programa marcante dessa época foi "Música em surdina", criado por Paulo Tapajós e apresentado em estúdio no final da noite por Chiquinho, no acordeom, Garoto, ao violão e Fafá Lemos ao violino, interpretando um repertório eclético e que deu ensejo ao sugimento do Trio Surdina.

O violinista Garoto por sinal, foi um dos artistas que se destacou na Rádio Nacional nos anos 1950, quando passou por diferentes grupos nos seus dez anos de permanência na programação. Atuou na Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali e pelo Bossa Clube ao lado de Luis Bittencourt, Luis Bonfá, Valzinho, Bide, Sebastião Gomes e Hanestaldo.

Ainda na década de 1950, destacaram-se os programas "Sua excelência a música" e "Quando os maestros se encontram". Esse último reunia cinco arranjadores da emissora, quase sempre os maestros Alexandre Gnattali, Lírio Panicali, Alberto Lazzoli, Léo Peracchi e Alceo Bocchino. Ainda no começo da década houve a tentativa frustada de criar o selo Nacional para gravação de discos que ficou apenas no primeiro, com Manezinho Araújo gravando o baião "Torei o pau", de Luiz Bandeira e a marcha "Um cheirinho só", de Manezinho Araújo e Armando Rosas.

Destacaram-se também nessa década inúmeros programas mistos como "Coisas do Arco da Velha", de Floriano Faissal; "Gente que brilha" e "Nada além de 2 minutos", de Paulo Roberto; "Clube das donas de casa", de Lourival Marques; "Grande espetáculo Brahma", de Mario Meira Guimarães; "Hoje tem espetáculo", de Paulo Gracindo; "Música e beleza", de Roberto Faissal; "Nova História do Rio pela música" e "Recolhendo o folclore", de Almirante; "Passatempo Gessy", de Jota Rui; "Rádiosemana", de Hélio do Soveral; "Roteiro 21", de Dinarte Armando; "Seu criador Superflit", de Lourival Marques e "Todos cantam sua terra", de Dias Gomes.

Entre os programas de Rádio-teatro merecem citação, "A vida que a gente leva" e "Boa tarde, madame", com Lucia Helena; "Consultório sentimental", com Helena Sangirardi; "Divertimentos Brankiol", com Ary Picaluga; "Edifício Balança mas não cai", com Paulo Gracindo; "Grande Teatro De Milus", com Dias Gomes; "Jararaca e Ratinho", com Joe Lester; "Marlene meu bem", com Mário Lago; "Os grandes amores da História", com Saint Clair Lopes; "Sabe da última?", com Rui Amaral e "Tancredo e Trancado", com Ghiaroni.

Em 1951, Paulo Tapajós criou o programa "A turma do sereno", de grande sucesso e no qual um repertório de serestas era apresentado por Abel Ferreira no clarinete, Irany Pinto no violino, João de Deus na flauta, Sandoval Dias no clarone, Waldemar de Melo no cavaquinho e Carlos Lentini e Rubem Bergman nos violões.

Segundo as palavras de Paulo Tapajós, o programa "Turma do sereno ocupava apenas um cavaquinho, uma flauta, um clarinete, um clarone e um violino, além dos cantores e outros solistas convidados. A "Turma do sereno" era o reencontro da música com a rua mal iluminada pelo lampião a gás, era o momento em que a gente imaginava que numa esquina de rua encontravam-se os velhos amigos para fazer choro, para cantar valsas e modinhas; era a oportunidade da gente tirar dos velhos baús alguns xotes, maxixes, polcas, já um tanto amarelados".

Nos anos de 1953 e 1954, a cantora Emilinha Borba foi eleita "Rainha do Rádio". Nos dois anos seguinte, a consagrada foi Ângela Maria que chegou a obter o total de 1.464.996 votos. Em 1955, o radialista Almirante retornou à Rádio Nacional e criou os programas "A nova história do Rio pela música" e "Recolhendo o folclore". Por essa época, Renato Murce apresentou o programa "Alma do sertão", um dos maiores sucessos entre os programas sertanejos.

Em 1959, o cantor e compositor Zé Praxédi passou a apresentar diariamente o programa "Alvorada sertaneja". Um dos mais famosos programas da década de 1950 foi o "Programa César de Alencar", que comemorou os dez anos no ar com um show para 20 mil pessoas no Maracanãzinho.

Outros programas com animadores ficaram também célebres, como os de Paulo Gracindo e Manoel Barcelos. Outro destaque de sua história, foi o estúdio para rádio novelas e seriados diversos , como "Gerônimo, o herói do sertão" e "O Sombra", onde os truques de sonoplastia ficaram célebres especialmente os truques do sonotecnico Edmo do Valle.

Entre os programas de auditório apresentados na Rádio na década de 1950 podemos destacar: "Alegria, meus senhores" e "Este mundo é uma bola", apresentados por Fernando Lobo; "Alô, memória", "Dr. Infezulino" e "Enquanto o mundo gira", apresentados por Paulo Gracindo; "Ganha tempo Duchen", "O Cartaz da Semana" e "Parada dos Maiorais", com Hélio do Soveral; "Nas asas da canção", com Dinarte Armando; "Qualquer semelhança é mera coincidência", com Waldir Buentes; "Papel Carbono", Renato Murce e "Placar musical", com Nestor de Holanda Cavalcânti.

Entre os programas musicais também merecem destaque, " A canção da lembrança", com Lourival Marques; "Audições Cauby Peixoto", apresentado por Mário Lago; "Audições Orlando Silva", com Ghiaroni; "Cancioneiro Royal", com Paulo Tapajós; "Cancioneiro romântico", com Rui Amaral; "Carrossel musical", com Ouranice Franco; "Clube do samba" e "Pelas estradas do mundo", com Fernando Lobo; "Fama e popularidade", com Oswaldo Elias; "Festivais G. E.", com Leo Peracchi; "Festivais de gaitas", com Cahuê Filho; "Horário dos cartazes", com Almeida Rego e "Preferências musicais", com Dinarte Armando.

Dentre seus muitos locutores famosos está César Ladeira, uma das vozes de excelência de toda a história do Rádio no Brasil, especialmente lembrado com o programa "A crônica da cidade".

O declínio da Rádio, que se iniciara com a inauguração da televisão acentuou-se de forma definitiva com o Golpe militar de 1964 que afastou 67 profissionais e colocou sob investigação mais 81.

Em 1972, os arquivos sonoros e partituras utilizadas em programas da Rádio foram doados ao Museu da Imagem e do Som, MIS. Durante as décadas de 1980 e 1990 o declínio da Rádio se acentuou devido à falta de investimentos e à concorrência cada vez maior da televisão e também das Rádios FM.

A emissora foi perdendo audiência e deixando de disputar os primeiros lugares na preferência do público. Manteve no entanto durante esse tempo diversos programas tradicionais da emissora apresentados por radialistas como Dayse Lucide, Gerdal dos Santos e outros que ainda arrastavam atrás de si a audiêencia de ouvintes fiéis e saudosos dos tempos de glória da emissora.

A partir de junho de 2003, passou a estar sob a direção de Cristiano Menezes, que iniciou um plano de revitalização da PRE - 8. Em 2004, foi assinado um convênio entre a Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro e a Petrobras, que acertou a digitalização de todo o acervo de partituras da Rádio. Entre as obras estão raridades dos maestros Radamés Gnattali e Guerra-Peixe.

Nesse ano, a Rádio saiu do ar por 15 dias para passar por reformas que incluem a troca de transmissores e instalação de novos estúdios no antigo prédio da Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Além disso, a Rádio Nacional passará a ser a primeira Rádio Digital AM. Tudo dentro de um plano de revitalização da Rádio. O famoso auditório da Rádio será reformado e terá sua capacidade reduzida de 500 para 150 lugares e voltará a abrigar shows.

Entre os novos programas estão previstos, o "Homenagem Nacional", no qual um sexteto permanente acompanhará a homenagem a um grande nome da história da música popular brasileira, com um astro atual interpretando sucessos do artista homenageado.

Programa-se ainda o "Memória Nacional", que deverá ser apresentando ao vivo, reunindo nomes como Cauby Peixoto, Marlene, Emilinha, Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas e Adelaide Chiozzo, que foram sucessos nos anos de ouro da Rádio Nacional. Ela ficou conhecida como "A escola do Rádio", o que por si só dá o tamanho de sua importância histórica.


Fonte: MemóriA do Rádio.com

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

PRK-30 - A irreverência no ar


“É meu desejo que os senhores declarem pelo microfone desta emissora que a notícia que os matutinos desta tarde publicaram dizendo que foi preso o perigoso desordeiro Juliano Ferreira das Dores, não se refere absolutamente à minha pessoa. É bem verdade que eu me chamo Diomedes de Azevedo, mas quem não me conhece pode pensar perfeitamente que eu é que sou o tal Juliano Ferreira das Dores. Eu não quero confusões comigo. Muito agradeço. Assinado: Luis Maurício”.


O rádio brasileiro nunca mais foi o mesmo depois do dia 19 de outubro de 1944, data de estréia da PRK-30, o maior programa de humor no rádio da história do País, apresentado por Lauro Borges e Castro Barbosa.

Lauro e Castro faziam as vozes de mais de 25 personagens, sendo os principais Otelo Trigueiro, “o querido Tetelo das morenas inequívocas, das louras inelutáveis e até das morenas ferruginosas”, e Megatério Nababo d’Alicerce, um “português que se orgulha de falar inglês em vários idiomas”.

Em setembro de 1946, a PRK-30 passou a ser transmitida na Rádio Nacional, onde alcançou o auge do sucesso, com 52% da audiência do País em 1947. Com um humor simples, ingênuo, sem apelações, todas as sextas-feiras, às 20h30, a família se reunia para ouvir a PRK-30.

O humor de Lauro e Castro utilizava bastante trocadilhos, muito comuns na época, além do nonsense, que hoje em dia poderia até ser sem graça. Mas o talento dos humoristas consegue se manter ao longo do tempo e fazer com que os ouvintes de hoje ainda riam daquelas piadas. Com novelas como “Só morra em Godoma” e programas como “A Hora da Ginasta”, a PRK-30 teve tanto sucesso que ficou no ar de 1944 a 1964.

O jornalista Artur da Távola comenta em um artigo o segredo do sucesso da PRK-30: “Primeiro, o besteirol absoluto e sem compromissos ou engajamentos políticos partidários. Depois, a qualidade das tiradas, originais, divertidas (além de) uma sátira formidável dos cacoetes do rádio da época em forma de caricatura tanto vocal (dos dois) como através do texto direto e escorreito do programa".

quinta-feira, maio 08, 2014

A primeira companhia teatral infantil

"Dois nomes que encabeçaram a primeira companhia teatral infantil fundada no Brasil, Xerém e Tapuia, estão, atualmente, na PRE-8 (Rádio Nacional).

Há 14 anos passados, em Fortaleza, lá no Norte, começou a correr a fama de uma certa família cujos membros, na sua maioria ainda infantis, demonstravam admiráveis qualidades artísticas desenvolvidas nos serões tão comuns dos lares nortistas.

O chefe da família tocava violino, acompanhando com seu instrumento a prole vastamente cearense. A mãe da gurizada era poetisa e escrevia pequenas peças teatrais que, sempre em família, eram interpretadas pelos pequenos. Xerém e Tapuia, nossos entrevistados de hoje, participavam da família em questão. Ele já tocava os seus solos numa gaitinha e ela cantava tangos e canções. Dentre os irmãos, que eram muitos, avultava a figura do Edison, verdadeiro menino-prodígio que o Brasil ainda consagraria, como consagrou.

Dos serões familiares passaram a exibir-se em festinhas particulares, depois em teatros locais. E porque o sucesso fosse crescente, resolveram excursionar pelo interior do Ceará, onde lograram marcado êxito. Então a família de artistas já havia organizado uma companhia da qual participavam mais três elementos femininos estranhos, igualmente infantis. A "Troupe do Pequeno Edison" executava comédias, bailados, variedades. Percorrendo o sertão cearense tiveram oportunidade de visitar o padre Cícero, que pasmou diante do talento da criançada.

Finda a "tournée" pelo interior, planejaram uma excursão pelo Brasil. Saindo de Fortaleza, em 1926, desceram com destino ao Rio, parando em todos os portos de escala. Edison, que por essa época tinha seis anos, era a alma do conjunto. Ganhava prêmios em todas as cidades onde se exibia. Os principais teatros das várias caoitais visitadas inauguravam placas comemorativas da sua passagem. Chegando ao Rio a "troupe" deu seu primeiro espetáculo no Teatro Fênix. Imediatamente depois foi contratado pelo empresário Serrador para trabalhar no Odeon, onde realizaram uma longa temporada durante a qual Edison ganhou várias medalhas.

Por esse tempo começava a febre do "charleston" e o grupo soube aproveitar a oportunidade ensaiando e executando com grande sucesso os passos audaciosos da nova dança. Tiveram propostas de empresários paulistas para trabalharem na capital bandeirante. Foram e repetiram os sucessos. Mas o tempo passava e o pessoalzinho miúdo crescia sem atentar na conveniência de permanecer pequeno ...

A troupe foi dissolvida depois de percorrer todo o Brasil. Era mister, segundo a opinião razoável do chefe da família, que a gurizada entrasse para um colégio. E a família fixou residência em Juiz de Fora, a fim de promover a educação sistemática das crianças, deixando por completo da vida teatral.

Xerém, uma das figuras centrais da trupe, não desprezou a gaitinha. Fez serenatas, continuou cantando em saraus familiares a atuou na Rádio Sociedade de Juiz de Fora. Fez tanto sucesso que resolveu aventurar algo no Rio. Aqui chegando ingressou na Rádio Philips, no "Programa Casé"; depois na Educadora e na Guanabara, sempre interpretando o folclore nortista.

Logo que terminaram seus estudos secundários, os ex-componentes da trupe infantil se transferiram para o Rio.

Atualmente Xerém e Tapuia, os dois irmãos, constituem uma dupla apreciadíssima que atua aos nossos microfones e continua frequentando palcos.

Estiveram em nossa redação. Cresceram apenas na idade, conservando a estatura infantil, o que os faz ainda mais simpáticos.

Disse-nos Tapuia:

— Parece que a minha infância se prolonga porque eu continuo adorando a gentinha miúda, para a qual leciono num colégio de Ipanema. Aproveitando a ideia de Xerém, resolvi fazer uma dupla com ele, que parece ter agradado. Já cantamos na Guanabara, na Educadora e na Nacional, onde estamos, atualmente, bem como na Tupy.

— Já estivemos também na Mayrink — disse-nos Xerém — e fomos contratados pela Victor para gravarmos algumas músicas que, esperamos, conseguirão a atenção dos foliões cariocas."


Fonte: Revista semanal "Carioca", de 1/1/1938 (foto e texto atualizado).

quarta-feira, maio 07, 2014

Pinheirinho, o humorista de cinco instrumentos

Pinheirinho conseguiu dar uma feição diferente a cada instrumento que lhe cai às mãos: ensaia com violão acordes boêmios, ensina ao cavaquinho novas modalidades de som, faz o banjo ficar muito alegre, empresta ao violão-tenor uma outra voz e consegue com o "tryolin" ressonâncias básicas. Ele é o esplêndido estilizador de melodias simples, gostando de criá-las a seu modo. Por isso mesmo, nunca se atrapalha com todos os instrumentos que acompanham a sua vida de artista vitorioso.

Pinheirinho é um dos antigos elementos do "broadcasting" brasileiro, tendo atuado ao microfone pela primeira vez em 1926, ainda na antiga Rádio Record, então sob a direção de Álvaro Liberato de Macedo. Sempre às voltas com seus instrumentos prediletos, Pinheirinho integrou durante algum tempo o "Quarteto dos Kalungas", um programa do qual faziam parte mais três artistas da força de Pinheirinho: Barreto, Lázaro e Machado.

Sua carreira artística tem sido das mais felizes percorrendo estações de rádio se contratou durante longo tempo na Record, obtendo o primeiro prêmio, medalha de ouro, em concurso de músicas brasileiras. Depois, atuando no palco, obteve de Procópio Ferreira o título de "humorista do cavaquinho", um de seus instrumentos prediletos.

Deixando a vida teatral regressou ao microfone, que o recebeu festivamente. Agora contrato pela Rádio Nacional, depois de ter percorrido sempre com êxito diversas outras emissoras do Rio e de São Paulo, ele se declara perfeitamente satisfeito.

Falando à CARIOCA, fez questão de se confessar encantando com a gentileza dos ouvintes, os quais chegam a lhe escrever cartas em português, francês, etc ...

O seu nome verdadeiro é Adail Pinheiro Machado, natural de São Paulo.

Na PRE-8 ele atua sempre com grande sucesso, tocando os seus cinco instrumentos, um de cada vez, cada qual com seu estilo próprio.

Pinheirinho já tem viajado muito pelo interior do Brasil e pretende continuar viajando. Além de artista ele é também ativo funcionário do Ministério da Agricultura.


Fonte: Artigo da revista semanal "Carioca" de janeiro de 1937, atualizado para a nossa ortografia atual, com foto e propaganda daquela época.

terça-feira, abril 29, 2014

A Rádio Nacional e seus "estrangeiros"

Apenas metade da equipe de cantores do primitivo "cast", ou elenco, da Rádio Nacional na década de 1930, era constituído de intérpretes da nossa música. O repertório "de fora" ficava a cargo de Rose Lee, Ben Whight e Bob Lazy, na música americana; os tangos contavam com Mauro de Almeida e Amália Diaz; o fado se fazia representar por Antônio Pimentel; Roxane cuidava das canções francesas.

A defesa dos gêneros nativos recaía sobre os ombros e as gargantas de Orlando Silva, Sônia Carvalho, Nuno Roland, Elisinha Coelho, Silvinha Melo, mais as "cantoras de samba" Marília Batista e Araci de Almeida.

A nossa música, no exterior, seria mais conhecida, a posteriori, com os arranjos brejeiros de Pixinguinha, os sambas de Ary Barroso e, finalmente, a bossa de Tom Jobim e vários outros maravilhosos ...

Tomo, como exemplo, a publicação da foto e de um pequenino artigo sobre Bob Lazy, na revista semanal Carioca de 1937, na seção "Para o Álbum do Rádio Fã":

"Bob Lazy, cujo verdadeiro nome é Ary Rosa, não nasceu em Chicago, nem em Nova York e sim, em Botafogo, no dia 7 de junho de 1911. Estudou no Collegio Pedro II e hoje é estudante de Medicina. Estreou-se no radio em 1932, no "Programma Casé", interpretando um velho "fox", "My mother eyes". 

Cantou depois na Mayrink, no Radio Club, na Cruzeiro do Sul e hoje é exclusivo da PRE-8 e do "Programma Casé". A sua musica predilecta é "Night and day". Tem 1m.70 de altura, pesa 55 kilos e tem olhos e cabellos pretos. (Boneco de Lanza)."


Fontes: "Rádio Nacional, o Brasil em sintonia" - Luiz Carlos Saroldi, Sonia Virgínia Moreira - Jorge ZAHAR Editor; Revista Semanal Carioca, de 16/1/1937.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

O rádio num domingo de 1936

Adhemar Casé, do "Programa Casé", o
mais antigo do "broadcasting" carioca
Os leitores desse artigo, podem imaginar, talvez, a tristeza da falta de uma TV para assistir à um programa dominical, com a família, pelos canais abertos ou pagos. Eu, nos abertos, desligo ou troco de emissora por não suportar os gritos do Faustão e outros similares, também insuportáveis. Na infância ouvi, com os meus pais, as últimas novelas transmitidas pelo rádio.

Em 1964/65, ainda criança, virei "televizinho". Em 1966, vovó comprou um aparelho de TV Semp ... 

Agora transcrevo, para nosso português atual, um artigo que descreve a programação radiofônica carioca aos domingos do ano de 1936, mostrando como os radiouvintes se divertiam girando o "dial" do rádio (quando não iam ao cinema ou namorar):

“Os estúdios radiofônicos do Rio, quase sempre dão bom-dia ao sol e aos ouvintes transmitindo, logo de início, qualquer marcha alegre e movimentada. Depois, com exceção da Rádio Nacional, que transmite pela manhã aulas de ginástica a cargo do conhecido professor Oswaldo Diniz Magalhães, todas elas iniciam muito cedo irradiações de discos populares ou gravações selecionadas.

À noite, somente à noite, é que surge a compensação dos programas de estúdio, com artistas autênticos, que o público pode ouvir e ver. E essas figuras animadas dão uma grande vida ao aspecto dos estúdios — aspecto que se modifica em quase todas as emissoras do Rio aos domingos, dia em que as famílias se reúnem em casa, e no qual os artistas quase sempre preferem passear.

O domingo que despovoa as ruas centrais da cidade e orna as praias com as mais lindas figurinhas é, no entanto, radiofonicamente falando, um dia mal distribuído: enquanto algumas emissoras cerram as suas portas, irradiando unicamente os já conhecidos programas de discos, outras batalham no ar, espalhando melodias generosas.

Noel, o jovem cantor do "Programa Casé"
(desenho de Luiz Gonzaga, de 1936)
Atualmente, pouquíssimas estações de rádio transmitem programas de estúdio, aos domingos, sendo tal fato oriundo dos mais diversos motivos.

A Rádio Guanabara, por exemplo, sempre teve os seus estúdios repletos de artistas e compositores durante as transmissões dos seus programas especiais, aos domingos. O “Nosso Programa”, feliz iniciativa de Cristóvão de Alencar, reunia na “estação do povo” os mais entusiastas elementos do nosso “broadcasting”.

Mas hoje, esperando mudar de frequência e aumentar a força dos seus transmissores, a PRC-8 resolveu abolir os programas de estúdio. E aos domingos, por algum tempo, os ouvintes poderão ouvir a voz do “amigo velho” anunciando os mesmos heroicos discos de sucesso.

A Rádio Jornal do Brasil é uma estação que não apresenta grande diferença nesse particular, porque, possuindo um “cast” selecionadíssimo, e uma coleção de discos verdadeiramente primorosa, não oferece ao ouvinte chance para distinguir um programa de estúdio, de um outro de “música de conserva” ...

A Rádio Educadora possui programas alugados que se apresentam agradavelmente. “Programa de Luiz Vassalo”, durante o dia e “Programa Lamounier”, à noite.

O domingo parece ser mesmo um dia favorável aos programas particulares, os quais encontram amplidão entre as outras “ondas desocupadas”...

O antigo “Programa Francisco Alves” transmitido aos domingos pela PRE-2, estação que atualmente não conta com programas de estúdio aos domingos.

O veterano “Programa Casé”, passeando por várias emissoras do Rio, estando por último na Rádio Transmissora, sempre foi um motivo de agrado dos ouvintes que permanecem em casa, atentos ao receptor.

A Rádio Cruzeiro do Sul, até há poucas semanas, tinha uma grande atração por intermédio do “Programa dos Calouros”, de Ary Barroso. Mas hoje, premiada a “caloura” mais interessante, Clô Hardy, artista que se exibiu em outros programas de estúdio, perdeu a PRD-2 aquela novidade domingueira ...

E os discos ajudam incríveis situações nos estúdios desertos, enquanto outras emissoras apresentam um aspecto quase estranho de força de vontade, em quererem ter um pouco mais de vida.

A Rádio Tupy e a PRE-8, Rádio Nacional, não parecem dar muita importância ao feriado assinalado pela folhinha. O número vermelho — sinal solene de um descanso obrigatório, encontra, muitas vezes, junto ao microfone da PRG-3, os lábios igualmente rubros de Alzirinha Camargo, cantando, em “carne e osso”, junto ao microfone feliz.

Os vestidos leves de Sylvinha Mello decoram e servem de modelo de elegância aos estúdios da Rádio Nacional, demonstrando assim que somente ali fora, nas casas de moda, é que modelos se escondem, aos domingos.

Mas que fazem neste dia outros artistas, que ganham férias?

Muitos são fãs de rádio.

Cristóvão de Alencar
Dora Barbiere Gomes procura ouvir as colegas, passando quase todo o dia às voltas com o “dial”.

Outros preferem ir ao cinema e também muitas vezes assistem novamente aos “colegas”, como Gilda de Abreu, a deliciosa “Bonequinha de seda”.

Luiz Americano, embora quase sempre programado na Rádio Nacional, onde toca com uma grande perícia o seu instrumento predileto: saxofone, possui em casa, completas coleções de discos célebres. Ficando em casa, em raros domingos, ouve todos os artistas notáveis da sua preferência.

Mara da Costa Pereira quando não tem programa na Rádio Tupy, nem quer ouvir falar em lendas amazônicas, microfones, músicas folclóricas. O domingo é para ela, sempre que pode um dia de refúgio para expandir outras predileções e divertimentos.

Tânia Mara, a fina intérprete de canções do Rádio Club, gosta de domingos. Dia burguês e algo deselegante, o domingo sempre o dia que provoca as mais desencontradas opiniões, gere, também, muitas vezes, a lembrança dos melhores folguedos.

Mas no “broadcasting” carioca o domingo é um dia que tem vida própria.”


Fonte: CARIOCA, de 14/11/1936 (fotos e texto atualizado)

domingo, fevereiro 02, 2014

Inauguração da Rádio Nacional: o evento

Fotos: Elisa Coelho, a magnífica intérprete de canções brasileiras, quando era apresentada por Celso Guimarães, um dos melhores "speakers" com que conta atualmente o Rio; Bidu Sayão, a maior cantora do Brasil e uma das melhores do mundo, emprestou brilho excepcional à inauguração da PRE-8, cantando duas lindas canções; Orlando Silva, o inconfundível cantor de nossa música sentimental e um dos grandes sucessos da noite de estreia da PRE-8.


Eis aqui, amigos, amantes da MPB e arqueólogos musicais, mais uma reportagem da revista CARIOCA intitulada "Do Rio para todo o Brasil", de 19/9/1936, sobre a festa da inauguração da PRE-8, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, ocorrida em 12/9/1936, e, que bom: com fotos ...

"Teve um brilho excepcional a inauguração da Sociedade Rádio Nacional. No estúdio do edifício de "A Noite", além de vários membros do governo, representantes de altas autoridades, deputados, vereadores, delegações de instituições culturais, de sociedades difusoras, artistas e membros de letras, compareceram as mais representativas figuras da sociedade brasileira.

Fotos: Bob Lazy, o interessante intérprete de "foxes" gênero "hot", cantando acompanhado por Pereira Filho, "The music goes round and around"; a cantora paulista Roxane, interpretando canções francesas, foi, acompanhada pela orquestra, sob a direção de Romeu Ghipsman.
Entre os presentes se notavam o presidente do Senado Federal, embaixadores da França, Portugal e Japão; ministros de Estado, presidente da Academia Brasileira, da Câmara Municipal, da Associação Brasileira de Letras, diretor do Departamento Nacional de Propaganda e Difusão Cultural e várias outras personalidades de relevo.

A solenidade foi iniciada executando-se o Hino Nacional pela orquestra do Teatro Municipal. Em seguida, falou o Dr. Medeiros Netto, presidente do Senado. Seguindo com a palavra, abençoando a Rádio Nacional, o Cardeal Arcebispo, falou do Palácio de S. Joaquim, ao microfone da PRE-8. (À direita Nuno Roland - catarinense de Joinville -, grande intérprete de nossa música, que cantou pela 1a. vez no Rio).

Fotos: Sylvinha Mello, como intérprete do nosso folclore, é um dos mais destacados nomes do "cast" da PRE-8. Na inauguração da nova estação, Sylvinha foi um dos grandes sucessos; Amalia Diaz, a intérprete de tangos da PRE-8, apresentando uma interessante música argentina; o samba tem em Aracy de Almeida uma de suas maiores intérpretes. Inaugurando a PRE-8 e cantando um samba carioca, ela mais uma vez reafirmou a sua incomparável interpretação.


Falaram a seguir, proferindo expressivas orações, o embaixador de Portugal, na qualidade de sub-decano do corpo diplomático; o ministro da Educação, como orador oficial da cerimônia; os embaixadores da França e do Japão e o representante do embaixador argentino; presidente da Câmara Municipal o diretor do Departamento Nacional de Propaganda, o presidente da Confederação de Radiodifusão, o presidente da A. B. I., o Sr. Castellar de Carvalho, nosso companheiro de "A Noite", e o diretor-presidente da Sociedade Rádio Nacional, Dr. Cauby de Araújo.

Fotos: A inauguração da Rádio Nacional foi prestigiada pela presença de grande número de pessoas da nossa melhor sociedade, como se pode avaliar pela fotografia; Sônia Carvalho, a querida estrela de São Paulo, cantando um samba, acompanhada pelo Regional da PRE-8, com Pereira Filho e Dante Santoro.

 Os destacados cantores do elenco do Municipal, Bidu Sayão, Maria de Sá Earp, Giuseppe Danise, Bruno Landi, Aurélio Marcato, a ilustre pianista Dyla Joseti, o conhecido artista Mário de Azevedo e a orquestra do Teatro Municipal executaram a parte de honra do programa musical, a que se seguiram os demais números a cargo do "cast" da Rádio Nacional, que se inaugurou assim com um acontecimento mundano de raro brilho e grande repercussão."

Dolly Ennor cantando a música de câmera - "La Wally", que obteve um dos maiores sucessos da noite.


Eis a inauguração da famosa Rádio Nacional do Rio de Janeiro, em 12 de setembro de 1936, cujo evento aqui é ilustrado pela revista CARIOCA, com fotos de alguns artistas, alguns esquecidos pelos brasileiros, que nem sequer possuem uma biografia digna aqui na NET. Boa Noite!


Fonte: CARIOCA, de 19/9/1936 (texto atualizado e fotos).

quarta-feira, janeiro 29, 2014

A inauguração da Rádio Nacional

Em 1936, durante a ditadura Vargas, nasce a Rádio Nacional, no Rio de Janeiro. Durante a repressão, torna-se a voz do governo, que deve muito de seu sucesso ao trabalho de massa desenvolvido pela rádio. Em 8/3/1940, ao adquirir o veículo, Getúlio tornou-a a rádio oficial do Brasil. A Rádio Nacional recebia uma verba do governo para manter o melhor elenco da época, dentre eles músicos, cantores e radio atores (Canal da Imprensa).

Abaixo transcrevo a reportagem da revista CARIOCA de 12/9/1936, data da inauguração da Nacional do Rio de Janeiro, em texto atualizado:

"Um grande acontecimento na radiofonia brasileira. Inaugura-se hoje a PRE-8, Rádio Nacional, a mais forte estação do país. O cast notável da nova emissora".

"A data de hoje se destina a marcar uma etapa nova da evolução da radiofonia no Brasil, com a inauguração da Rádio Nacional, a grande e potente emissora que o Brasil inteiro esperava. Os radiouvintes estão, hoje, de parabéns, por esse festivo acontecimento, pois a Rádio Nacional, com seus 22 quilowatts, será ouvida por todo o país, desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul, abrangendo, num grande elo sonoro, numa cadeia de vibrações etéreas, todas as nossas fronteiras.

Aracy de Almeida - 1936
Mas esse regozijo não deve ser inspirado somente pela potencialidade da nova estação, como, também, pelas suas finalidades educativas e culturais, de vez que é a maior realização particular já tentada no país para fazer do "broadcasting" um instrumento poderosíssimo de difusão da arte musical, de informações e debates proveitosos.

A Rádio Nacional aparece ligada ao grande consórcio jornalístico integrado pela "A Noite", o mais lido e mais prestigioso vespertino brasileiro, e pelas revistas de maior tiragem do nosso país, "A Noite Ilustrada", CARIOCA e "Vamos Ler!", a última apenas com pouco mais de um mês de vida, mas já galhardamente vitoriosa. Não é a Rádio Nacional um órgão dependente de "A Noite", mas um elemento autônomo, perfeitamente sincronizado com aquele diário e suas revistas, nutrindo-se dos mesmos recursos de informação, das mesmas fontes que a todos garante a divulgação completa e palpitante dos fatos de maior repercussão nacionais ou estrangeiros.

Sylvinha Mello - 1936
A Rádio Nacional terá o maior e mais escolhido "cast" de artistas exclusivos, dele fazendo parte, entre outros, os seguintes elementos: Abigail Parecis, soprano lírico de mérito, que conquistou aplausos internacionais e realizou brilhante temporada em Nova York; Sônia de Carvalho, festejada intérprete de música brasileira, que em São Paulo conquistou justo prestígio; Aracy de Almeida, a nova e mais perfeita intérprete do samba; Dolly Enol, intérprete de canções; Marília Batista, a menina que estilizou e deu ao samba uma expressão nova; Elisa Coelho, cantora de estilo próprio, que os fãs muito admiram; Silvinha Mello, a voz jovem do folclore brasileiro; Amália Diaz, o tango em pessoa; Bob Lazy, intérprete de fox; Ben Wright, intérprete de fox-blue; Mauro de Oliveira, intérprete de canções internacionais; Nuno Roland, intérprete de canções; Joaquim Pimentel, intérprete de canções portuguesas; e Pasquale e Gambardella, cantor lírico.

Terá a Rádio Nacional três "speakers": Ismênia dos Santos, Celso Guimarães e Oduvaldo Cozzi, e três diretores de orquestra: Romeu Ghipsman, Gaó e Radamés Gnatalli. As orquestras são nove: Orquestra Sinfônica, Orquestra Vienense, Orquestra Havaiana, Orquestra de Jazz, Orquestra Regional, Orquestra Típica Argentina, Orquestra Típica Portuguesa, Orquestra Serenata, Orquestra de Cordas. No grupo de instrumentistas, há nomes como Pereira Filho, o mágico do violão, e Luiz Americano, o homem que faz o saxofone falar. Genolino Amado, redator-chefe da "Hora do Brasil", é o cronista da Rádio Nacional, e Rosário Fusco o redator. O som é controlado pelo hábil e competente engenheiro L. R. Evans.

Nuno Roland - 1936
A PRE-8 também irradiará, matinalmente, aulas de ginástica do professor Oswaldo Diniz de Magalhães, com acompanhamentos de piano, para ritmar os exercícios, pelo pianista Jorge Paiva.

CARIOCA se congratula com os radiouvintes de todo o Brasil, — que tem tido nesta revista uma tribuna para a manifestação de seu pensamento, — pelo expressivo acontecimento de hoje, a inauguração da PRE-8, Rádio Nacional, a grande emissora, a mais nova e a maior estação do país."


Fontes: CARIOCA, de 12/9/1936; Canal da Imprensa.

sexta-feira, outubro 08, 2010

As rainhas do Rádio

Emilinha Borba quando eleita a "Rainha do Rádio" em 1953 (com Mary Gonçalves, rainha de 1952).
Introdução

O centenário da Independência do Brasil, em 1922, foi programado para ser um evento em que se pretendia demonstrar a pujança e o desenvolvimento de nosso País aos olhos do mundo. Manifestando interesse, vários países montaram pavilhões no Rio de Janeiro, então capital da República. A grande atração da festa, porém, foi a introdução da radiofonia no Brasil. Duas estações norte-americanas de pequena potência foram instaladas: a Westinghouse e Western Eletric. Alguns aparelhos receptores foram espalhados em praças públicas, a fim de que a população acompanhasse as transmissões. A novidade, segundo Roquette Pinto, um dos pioneiros do rádio no Brasil, não surtiu maiores efeitos:

"A verdade é que durante as solenidades comemorativas de 1922, muito pouca gente se interessou pelas demonstrações então realizadas pelas companhias Westinghouse (Estação do Corcovado) e Western Eletric (Estação da Praia Vermelha). Creio que a causa principal desse desinteresse foram os alto-falantes instalados nas torres do Serviço de Meteorologia (Pavilhão dos Estados). Eram discursos e músicas reproduzidos no meio de um barulho infernal, tudo roufenho, distorcido, arranhando os ouvidos. Era uma curiosidade sem maiores conseqüências.

No começo de 1923, desmontava-se a estação do Corcovado e a da Praia Vermelha ia seguir o mesmo destino se o Governo não a comprasse. O Brasil ficaria sem rádio. Eu vivia angustiado porque já tinha a convicção profunda do valor informativo e cultural do sistema, desde que ouvira as transmissões que foram dirigidas na época pelos engenheiros J.C. Stroebel, J.Jonotskoff e Mario Liberalli. Uma andorinha só não faz verão; por isso resolvi interessar no problema a Academia de Ciências, presidida pelo nosso querido mestre Henrique Morize. E foi assim que nasceu a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, a 20 de abril de 1923."

A partir daí, aconteceram iniciativas isoladas, principalmente no Rio de Janeiro. Eram os chamados rádios-clubes ou rádios-educadoras, cuja programação era custeada por seus sócios-ouvintes, consistindo, basicamente, em difusão de música erudita e conferências culturais. Recorde-se que até 1932 o governo não autorizava a veiculação de publicidade pelo rádio.

A própria Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, anos depois, teve sua concessão e bens devolvidos ao governo pelos fundadores, que não conseguiram mais mantê-la apenas com o apoio dos ouvintes. Ela se transformaria, em 1936, na Rádio Ministério da Educação e Saúde, atualmente conhecida como Rádio MEC. Anos antes, em 1932, Getúlio Vargas já criara o Serviço de Radiodifusão Educativa, objetivando ordenar o surgimento de várias emissoras pelo País. Dessa fase pioneira são originárias a Rádio Sociedade (1923), a Rádio Clube do Brasil (1924), a Educadora do Brasil (1926), Mayrink Veiga (1926), Rádio Cruzeiro do Sul (1933) e a Rádio Transmissora Brasileira (1936).

Acrescente-se ao grupo a Rádio Philips, de 1930, que “representava os interesses da empresa holandesa fabricante de discos, receptores e transmissores radiofônicos, disposta a entrar no mercado sulamericano”. Tal emissora tem especial importância, pois foi por sua compra, por meio da Sociedade Civil Brasileira Rádio Nacional, em 1936, que ela viria a apresentar papel quase monopolístico nas transmissões radiofônicas, de forma mais ou menos parecida com a atuação da Rede Globo na televisão.

Num tempo de um Brasil com boa parte de sua população ainda analfabeta (2) e dado o alcance das então chamadas “ondas hertzianas”, que moldavam a opinião pública em seus vários aspectos, a Rádio Nacional viria, por seu longo alcance – abrangia todo o território nacional e vários países estrangeiros, por meio das ondas curtas – trazer para quase todos os lares as últimas notícias, moldando a opinião pública, vendendo produtos, lançando modas, além de alimentar os sonhos dos ouvintes com a voz de atores e atrizes, astros e estrelas.

Está no ar a PRE-8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro

Ao som da conhecida canção Luar do sertão, de Catulo da Paixão Cearense, o locutor anunciava estar no ar a Rádio Nacional. Era 21h de 12 de setembro de 1936, um sábado. Já mesmo neste ano começou a se diferenciar de suas concorrentes. Reunia alguns dos maiores nomes da música nacional, tais como Orlando Silva, Araci de Almeida e Francisco Alves.

Abrigava também os melhores maestros em seu corpo de profissionais, tais como Radamés Gnattali e Romeu Ghipsman. Praticamente introduziu os programas de auditório, com Ademar Casé e Almirante. Reunia também os melhores locutores (3), tais como Oduvaldo Cozzi e Heron Domingues (4). E, finalmente, investia no rádioteatro, precursor das novelas de rádio, com nomes como Ismênia dos Santos e Rodolfo Mayer. Pouco depois, a 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas criava o Estado Novo, outorgando uma nova Constituição ao País.

Algumas das conseqüências imediatas foram fechar o Poder Legislativo e amordaçar o Judiciário e a imprensa, por meio de severa censura. Não passara despercebido ao ditador o imenso poder que o rádio poderia desempenhar, e, particularmente, o que a Rádio Nacional já vinha exercendo no País todo (5). Foi assim que, a 8 de março de 1940 editou o Decreto-lei n. 2.073, criador das chamadas “Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União”. Por tal norma, em virtude de dívidas, era incorporado (6) ao patrimônio da União o acervo da Rede Ferroviária São Paulo-Rio Grande e os bens das sociedades “A Noite”, “Rio Editora” e “Rádio Nacional”.

Essas últimas, sem passivos que justificassem a medida, eram trazidas para a área do governo por representarem instrumento poderoso de manipulação social, presente, principalmente, na atuação da Rádio Nacional. O fato de pertencer à estrutura da União, isto é, de ser “rádio do governo”, fez com que a Nacional se tornasse, efetivamente, nas décadas de 40 e 50 do século passado, a principal emissora dos chamados “anos de ouro do rádio”.

A partir dessa injeção maciça de recursos, a programação sofreu incremento ainda maior, e, transmitida ao vivo, passou a operar uma espécie de integração cultural brasileira, ainda que extremamente massificada, criando audaciosos programas, como foi o caso de Um Milhão de Melodias.

Particularmente interessa a penetração que teve a Rádio Nacional no que diz respeito à música popular brasileira. Ao lado de poderosas gravadoras de então, tais como Odeon, Columbia, Pharlophon e RCA Victor, ser divulgado ou não poderia ser o sucesso ou o fracasso de muitas carreiras. Não se pode esquecer, ainda, do cinema e de vários órgãos de imprensa, que faziam com o que cantor “ouvido” pudesse ser “visto” por todo o Brasil, corporificando a voz que já era transmitida por meio de discos e de programas radiofônicos.

Os fãs-clubes que então surgem são um reflexo popular e, organizados em pequenos grupos ou células, divulgavam material do ídolo, servindo como uma ponte interessante para as gravadoras e para o próprio intérprete, que, por essas agremiações, poderia ter exata noção da própria popularidade, servindo-se delas para a maior aquisição de seus discos. Essas entidades acompanhavam os seus ídolos em qualquer aparição pública. “O auditório da Rádio Nacional era o ponto de encontro preferido dos fãs, mesmo porque era ali, no palco da emissora, que estavam as vozes mais cobiçadas do momento”.

Sua Majestade, a Rainha do Rádio

A primeira cantora eleita Rainha do Rádio foi indicada por um colégio eleitoral formado por diretores e representantes da direção das emissoras presentes ao baile précarnavalesco. Na noite de 18 de fevereiro de 1936, Linda Batista (7) (1919-1988) recebeu o cetro e coroa do que seria o mais longo “reinado” do rádio.

Somente doze anos após, o concurso teria uma nova feição. E uma finalidade beneficente. A sucessão ficaria em família, com Dircinha Batista (8) (1922-1999), sua irmã, sendo coroada em 1948. Já a eleição do ano seguinte seria bem menos tranqüila, pois envolveu Emilinha Borba (9) (1923-2005), que já era a chamada Favorita da Marinha e com cinco anos dedicados à Nacional. Além disso, Emilinha havia emplacado em 1947 o seu primeiro grande sucesso, a rumba Escandalosa tendo por concorrente a recém-chegada Marlene (10) (1924), que partiu sem temor rumo a disputa da Coroa de Rainha do Rádio. A massa extravasava seu delírio pelos fãs-clubes. Homens e principalmente mulheres, de aparência desleixada e pobre, acotovelavam-se nos corredores da Nacional e nos diversos teatros das cidades. A histeria era tanta que o jornalista Nestor de Holanda cunhou a expressão “macacas de auditório” – o que atingiu, é verdade que de forma preconceituosa, especialmente o contingente negro dessas formações.

Mas, no fundo, o fenômeno trazia uma carga espontânea, sincera: a ansiosa necessidade de fruição do sucesso e de participação na glória artística, mesmo efêmera. A votação se fazia por meio de cupons a serem recortados das revistas especializadas – como Radiolândia e, especialmente a Revista do Rádio. O resultado deixou surpreendido o mais ortodoxo ouvinte, pois o fã-clube de Marlene foi mais eficiente e elegeu a paulista, para Rainha do Rádio de 1949 e 1950. O título possibilitou que a estrela ganhasse um programa próprio na Rádio Nacional. Nesse ínterim, a disputa entre os dois grandes fãs-clubes (Marlene versus Emilinha) continuava acesa. Essa rivalidade, criada muito mais pelas gravadoras de discos, não atingia, ao que parece, as duas cantoras, em âmbito pessoal. Ficavam muito mais para estimular o consumo de seus fãs e a sua própria alienação.

O fã clube de Emilinha reverteria a derrota apenas na eleição de 1953, quando a cantora foi eleita com mais de um milhão de votos. Na seqüência foram eleitas Dalva de Oliveira (11) (1917-1972) em 1951, Mary Gonçalves (12) (1927) em 1952, Emilinha Borba (1923-2005) em 1953, Ângela Maria (13) (1928) em 1954, a portuguesa Vera Lucia em 1955, Dóris Monteiro (14) (1934) em 1956 e Julie Joy (15) em 1958.

Declínio

A concretização dos conceitos modernos de manipulação publicitária de um ídolo dos auditórios chegou ao seu apogeu com Cauby Peixoto (1934) ao longo da década de 1950. Seu empresário, Di Veras, foi o baluarte dessa técnica, que consistia em seduzir as fãs, chegando a pagá-las para gritar, desmaiar e arrancar as roupas do ídolo, em suas passagens. Aliás, a transição para a década de 1950 trouxera muitas novidades, nem todas cercadas de aprovação unânime, apesar do sucesso. O centro das atenções musicais passava a ser ocupado pelo brasileiro cosmopolita, urbano, industrializado, pronto a gozar das delícias do litoral à beira do asfalto. A maior tradução desse novo personagem foi o cantor Dick Farney (16) (1921-1987), transformado pela Nacional em novo ídolo, cantando Copacabana:

Existem praias tão lindas, cheias de luz  /   Nenhuma tem o encanto que tu possuis   / Tuas areias  /  Teu céu tão lindo  /  Tuas sereias sempre sorrindo  /  Copacabana princesinha do mar   /  Pelas manhãs tu és a vida a cantar  /  E a tardinha ao sol poente  /  Deixa sempre uma saudade /  Na gente  /  Copacabana o mar etermo cantor  /  Ao te beijar ficou perdido de amor   / E hoje vive a murmurar   / Só a ti Copacabana  /  Eu hei de amar...

A nascente industrialização do Brasil gerava novos espaços urbanos destinados ao lazer das classes em ascensão. Já então a influência da Nacional na canção brasileira não se limitava ao que era produzido em seus estúdios ou no palco-auditório. Também ali estava o celeiro de novas idéias e sons, de talentos capazes de saciar a fome de sucesso da demanda de um mercado interno exigente. Na Praça Mauá, n. 7, havia um elenco à disposição, uma constelação em que brilhavam astros e rainhas do rádio. A essa altura, o cast da Nacional podia resistir até mesmo à perda do Rei da Voz (Francisco Alves), tragicamente desaparecido em desastre rodoviário em 1952. O patrocinador e a emissora se incumbiram de manter viva a memória desse cantor pela continuidade de seu programa (domingos, às 12h). Na primeira transmissão sem o cantor, Linda Batista interpreta emocionada a canção feita por Antonio Nássara e Wilson Batista, intitulada Chico Viola:

Chora Estácio, Salgueiro e Mangueira, / Todo o Brasil emudeceu, / Chora o mundo inteiro, / O Chico Viola morreu. / Na voz do seu plangente violão, / Ele deixou, seu coração, / Partiu, disse adeus, foi pro céu, / Foi fazer, foi fazer,/ Companhia a Noel.

Mas ali estavam outros astros e estrelas de primeira grandeza. O rádio assumia a tarefa de estimular a produção carnavalesca, secundado pelos musicais da companhia cinematográfica Atlântida, já que a urbanização crescente e as limitações da Guerra estavam acabando com as “batalhas de confete”, os corsos e outras manifestações populares. Nem sempre a realidade social e política inspiravam os compositores carnavalescos.

Mesmo assim, a produção musical do começo da década de 1950 já comportava o lirismo crítico da sociedade. Atento às modificações e influências sofridas pela nossa canção, os responsáveis providenciaram uma nova subdivisão para o Departamento Musical da Nacional, surgindo então o Departamento de Canção Brasileira, uma das atrações do então recém-criado Departamento foi o programa Cancioneiro Royal. Era a Nacional acompanhando os tempos e decretando praticamente a sua condição de veículo de comunicação subalterno. Curiosamente, a primeira tentativa de transmissões de imagens por televisão no Brasil foi feita na Nacional, numa noite de 1950, antes mesmo da inauguração da TV Difusora de São Paulo, empresa dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.

No ano seguinte surgia a primeira emissora carioca, a TV Tupi, também dos Diários Associados. O poderio das empresas presididas por Assis Chateaubriand foi reforçado com a expansão da rede de televisão, que logo chegara a dezoito canais em todo o país, completando o império de comunicação formado por quarenta e três jornais, trinta e seis emissoras de rádio, uma agência de notícias, a revista semanal O Cruzeiro, dez revistas infantis e uma editora, além de laboratórios farmacêuticos e investimentos agropecuários.

A atração do novo veículo preocupava e rondava a sede da Nacional, no prédio de A Noite. Enquanto alguns artistas e administradores se deslumbravam com a expectativa do novo veículo, os verdadeiros homens de rádio se preocupavam com o futuro impacto da telinha sobre o microfone, a quem tanto deviam. Algumas perguntas rondavam as conversas de bares ou os travesseiros dos produtores enquanto o sono não vinha: que problemas traria a vulgarização da TV entre as donas de casa, fiéis consumidoras de radio-novelas? E até quando os patrocinadores continuariam a investir no rádio os anúncios que chegavam a 24% do volume total das verbas publicitárias? Sem recursos para manter elencos estáveis, como fazer um rádio criativo e atraente

Ao lado disso, a competição entre os canais de TV (principalmente entre a Difusora de São Paulo e a Tupi do Rio de Janeiro) ampliaria rapidamente a opção de programas para o público, acarretando a venda de televisores e revolucionando a mídia das agências de publicidade e dos anunciantes diretos. Tampouco estaria nas imediações da Nacional o principal vendedor de programas: depois de dezesseis anos dirigindo a Rádio Nacional, Victor Costa pediu exoneração e transferiu-se para São Paulo, em meio a uma das maiores crises políticas do Brasil e da própria Rádio Nacional.

Quanto ao rádio, Vargas conhecia muitíssimo a penetração da emissora que ele mesmo incorporara à União em 1940 e a cobiça despertada pelo posto de diretor-geral da Nacional. Desde 1938, Victor Costa ocupava tal cargo, e sabia que, com o suicídio de Vargas, seria acusado pela oposição de pôr os microfones da emissora à serviço do getulismo. Ele não seria perdoado pelo jornalista da UDN Carlos Lacerda e pelos militares da Aeronáutica que compunham a chamada República do Galeão, e assim pediu sua exoneração em caráter irrevogável, tendo elogiado a indicação de Heron Domingues para substituí-lo na Nacional.

Mas os dias de glória da Nacional estavam contados, governos se sucederam, privatizações aconteceram e o antigo brilho se apagou. O rádio chegava ao final dos anos 50 e início dos anos 60 consolidado em sua posição de meio de comunicação de massa, como elemento fundamental na formação de hábitos e costumes da sociedade brasileira, mas sua importância foi sendo progressivamente eclipsada pela televisão. No apagar das luzes do século XX e no limiar do século XXI, pode-se dizer que infelizmente a Era do Rádio, e, com ela, os concursos de Rainha do Rádio, perderam lugar para o imediatismo dos acontecimentos e a sua direta proporcionalidade de divulgação para o mundo.

Por: Wagner Tadeu Pietropoli Morais Luiz Eduardo Alves de Siqueira -
(www.escoladeradio.com.br).

(2) Conforme o recenseamento de 1920, havia 71,2% de analfabetos, taxa que decresceu para 61,2% no Censo seguinte, ocorrido em 1940 (FERRARO, 2002). (3) Então chamados speakers. (4) Que imortalizou o Repórter Esso, no ar entre 1941 e 1968. (5) Tanto assim que em fins de 1939 criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), nos moldes do Ministério da Propaganda da Alemanha nazista, visando controlar todos os canais de comunicação (rádio, imprensa e teatro), para que divulgassem apenas feitos laudatórios ou inofensivos ao Estado Novo. (6) O termo jurídico para tal ato é reversão, a qual, segundo a doutrina da Professora Irene Patrícia Nohara, é “uma conseqüência da extinção da concessão e implica a incorporação, pelo poder concedente, dos bens do concessionário necessários à prestação do serviço público”. (7) Nome artístico de Florinda Grandino de Oliveira.(8) Nome artístico de Dirce Grandino de Oliveira.(9) Nome artístico de Emília Savana da Silva Borba. (10) Nome artístico de Vitória Bonaiutti De Martino. (11) Nome artístico de Vicentina de Paula Oliveira. (12) Nome artístico de Nice Figueiredo Rocha. (13) Nome artístico de Abelim Maria da Cunha. (14) Nome artístico de Adelina Dóris Monteiro. (15) Nome artístico de Julie Joy Winniamin Farberow. (16) Nome artístico de Farnésio Dutra e Silva.

sábado, novembro 01, 2008

Paulo Gracindo

Paulo Gracindo (Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo), famoso artista do rádio, teatro, cinema e televisão do país, nasceu em 16 de junho de 1911, na cidade do Rio de Janeiro. Filho de Demócrito Gracindo, que era político e que faleceu em 1928. Foi criado por sua mãe e guardou pela vida afora a educação, os modos, a nobreza de seu lar. Estudou direito, mas desde cedo quis ser ator.

Foi um dos últimos representantes da geração de intérpretes que surgiu nas novelas de rádio dos anos 40. Com uma carreira invejável, coroada de grandes sucessos, ídolo de seus colegas, costumava ser citado por eles como um dos poucos entre os chamados atores de sustentação que conseguiu colocar seu talento acima do charme dos galãs.

Gracindo foi para o Rio de Janeiro e iniciou a carreira teatral com a Companhia de Alda Garrido, tendo também integrado o elenco das principais companhias da época, como as de Procópio Ferreira, Elza Gomes e Dulcina. Ingressou na Tupi, como rádio-ator, passando em seguida para a Nacional. Foi levado pelas mãos de Olavo de Barros, diretor de teatro que também trabalhava na emissora. Interpretou personagens famosos, mas acabou conquistando o sucesso como animador de programas de auditório na década de 40.

Como essa atividade lhe rendesse bem financeiramente, Gracindo ficou anos afastado do teatro. Seguiram-se as novelas, tendo atuado no papel de Albertinho Limonta, herói do dramalhão mexicano O Direito de Nascer, considerado o maior êxito no gênero. Gracindo projetou-se ao lado de Brandão Filho num quadro humorístico que divertiu duas gerações, primeiro no rádio e depois no vídeo, o Primo Rico, que ridicularizava a vida do Primo Pobre.

Com a chegada da televisão, Gracindo levou seu programa de auditório para a TV Rio. Em 1968, transferia-se para a Rede Globo, passando a participar das telenovelas de Glória Madagan. Na emissora, foi o astro de diversas novelas, entre elas, O Bem Amado, onde personificou o prefeito Odorico Paraguaçú e chegou a atingir 70 pontos no Ibope em 1973. Em 1980, o personagem de Dias Gomes era ressuscitado e dava origem a um seriado. Nessa época, Gracindo foi o apresentador do programa 8 ou 800, ao lado de Silvia Falkenbourg.

Ainda pela Rede Globo, fez também as telenovelas A Próxima Atração, Sinal de Alerta (no papel de Tião Borges), Os Ossos do Barão (1973), O Casarão (no papel de um artista apaixonado, ao lado de Yara Cortes), Gabriela (1975, como o coronel Ramiro Bastos) e Roque Santeiro. Suas últimas aparições na TV foi na minissérie Agosto e no especial O Besouro e a Rosa, ambos em 1993.

Gracindo dedicou-se também ao cinema, com o surgimento das companhias Atlântida e Cinédia, atuando em O Meu Dia Chegará, Estrela da Manhã, João Ninguém (1937), Está Tudo Aí (1938), Anastácio (1939), Onde Estás, Felicidade? (1939), A Falecida (1965, de Leon Hirszman), Terra em Transe (1967, de Glauber Rocha), Tudo Bem (1978) e Amor Bandido (1978, de Bruno Barreto).

No teatro, trabalhou em Linhas Cruzadas, Frank Sinatra 4815, ao lado do filho em O Jogo do Crime e com Clara Nunes em Brasileiro, Profissão Esperança. Gracindo Jr. dirigiu o pai nas seguintes montagens teatrais: Paulo Gracindo - O Bem Amado (biografia teatralizada da vida do ator), Num Lago Dourado (1992) e A História é uma História (de Millor Fernandes, em 1994).

Paulo Gracindo faleceu aos 84 anos, em 4 de setembro de 1995.

Fontes: cinetvbrasil - PauloGracindo; Wikipédia - Paulo Gracindo; netsaber - Biografia de Paulo Gracindo.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Floriano Faissal

Floriano Faissal (São Paulo-SP, 1907 - Rio de Janeiro-RJ, 1986), ator, radialista e compositor, era irmão dos também radialistas Roberto, William e Lourival Faissal.

Começou sua carreira como figurante de teatro e escrevendo comédias e revistas musicais, mas foi no rádio a partir de 1938 quando entra para a Rádio Nacional para escrever esquetes para o programa Luis Vassalo que sua carreira decolou.

Floriano foi um dos mais famosos radialistas das décadas de 40 e 50 na Rádio Nacional e chegou a se tornar diretor do Departamento de Rádioteatro da emissora. Na década de 60 ele virou compositor de músicas (Adeus querida, por exemplo) e temas para programas na TV Rio.

Terminou sua carreira profissional produzindo e dirigindo programas para o Projeto Minerva e o Mobral na Funtevê e depois na Rádio MEC. No cinema ele fez apenas dois filmes, sendo o mais conhecido, "Inconfidência Mineira", na década de 40.

Fonte: Wikipédia; Rádio Nacional. .

segunda-feira, novembro 12, 2007

Um milhão de melodias


Um dos mais famosos programas musicais do rádio brasileiro. Um Milhão de Melodias estreou no dia 6 de janeiro de 1943 na Rádio Nacional do Rio de Janeiro e foi um marco importante no processo de alienação cultural dos brasileiros através da música.


Antes desse programa radiofônico, a influência da música norte-americana era restrita ao cinema e mesmo assim para uns poucos iniciados. Os filmes eram legendados e com o elevado número de analfabetos tornava-se difícil a penetração maciça do fox. É verdade que havia o disco mas o consumo era pequeno e havia poucas vitrolas entre os menos afortunados. Com o rádio a coisa era outra.

Através de programas como Um milhão de melodias, Aquarelas das Américas e Aquarelas do Mundo, Nas asas de um Clipper, A hora da Broadway, Your Hit Parade, Big Broadcasting Matinal da Exposição e outros que tais, a música norte-americana foi invadindo os lares brasileiros e induzindo a nossa juventude à adoção dos seus ritmos.

O programa esteve no ar, inicialmente, durante sete anos ininterruptos. Depois ficou de fora por dois anos voltando em 1952/53 para uma nova temporada. Nele desfilaram os maiores artistas do rádio brasileiro e a Orquestra Brasileira comandada por Radamés Gnattali dividia seus números entre os sucessos brasileiros e os sucessos norte-americanos.

Os primeiros produtores do programa foram Haroldo Barbosa e José Mauro e posteriormente, na sua segunda fase, Paulo Tapajós e Lourival Marques.


Fonte: http://www.collectors.com.br/CS05/cs05_03aq.shtml

quinta-feira, outubro 05, 2006

O Rádio no Brasil


A primeira transmissão radiofônica realizada no Brasil ocorreu na Exposição do Centenário da Independência do Brasil em 1922, mas a primeira estação a transmitir regularmente foi a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro inaugurada por Roquete Pinto e Henrique Moritz, em 20 de abril de 1923. A esses dois pioneiros juntaram-se outros como Elba Dias que fundou logo a seguir a Rádio Clube do Brasil e um grupo pernambucano que em 17 de outubro de 1923 iniciou as transmissões da Rádio Clube de Pernambuco.

Os primeiros anos do rádio foram difíceis: muita música clássica, muita ópera e muita colaboração graciosa de alguns artistas da sociedade. Aos poucos, porém, foi se firmando e ao final de 1926 e início de 1927, quando as gravações deixaram de ser mecânicas para se tornarem elétricas, surgiram os primeiros artistas para disputar a preferência dos ouvintes: Gastão Formenti Vicente Celestino, Francisco Alves, Patrício Teixeira, Augusto Calheiros, Elisa Coelho, Albenzio Perrone, Mário Reis e outros.

Mais emissoras foram aparecendo: Rádio Educadora, Rádio Mayrink Veiga, Guanabara, Cajuti, Ipanema, Jornal do Brasil, Tupi, Philips (depois Nacional), Transmissora (depois Globo) e assim sucessivamente.

Em 1930, pode-se dizer, o rádio estourou no Brasil dando início ao que se pode chamar de a Era do Rádio no Brasil. Foi o maior veículo de comunicação, divertimento e formação cultural no país até meados da década de 60 quando a Televisão tomou-lhe o lugar, embora o rádio mantenha ainda o privilégio de ser o maior veículo de comunicação.