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quinta-feira, fevereiro 13, 2014

O rádio num domingo de 1936

Adhemar Casé, do "Programa Casé", o
mais antigo do "broadcasting" carioca
Os leitores desse artigo, podem imaginar, talvez, a tristeza da falta de uma TV para assistir à um programa dominical, com a família, pelos canais abertos ou pagos. Eu, nos abertos, desligo ou troco de emissora por não suportar os gritos do Faustão e outros similares, também insuportáveis. Na infância ouvi, com os meus pais, as últimas novelas transmitidas pelo rádio.

Em 1964/65, ainda criança, virei "televizinho". Em 1966, vovó comprou um aparelho de TV Semp ... 

Agora transcrevo, para nosso português atual, um artigo que descreve a programação radiofônica carioca aos domingos do ano de 1936, mostrando como os radiouvintes se divertiam girando o "dial" do rádio (quando não iam ao cinema ou namorar):

“Os estúdios radiofônicos do Rio, quase sempre dão bom-dia ao sol e aos ouvintes transmitindo, logo de início, qualquer marcha alegre e movimentada. Depois, com exceção da Rádio Nacional, que transmite pela manhã aulas de ginástica a cargo do conhecido professor Oswaldo Diniz Magalhães, todas elas iniciam muito cedo irradiações de discos populares ou gravações selecionadas.

À noite, somente à noite, é que surge a compensação dos programas de estúdio, com artistas autênticos, que o público pode ouvir e ver. E essas figuras animadas dão uma grande vida ao aspecto dos estúdios — aspecto que se modifica em quase todas as emissoras do Rio aos domingos, dia em que as famílias se reúnem em casa, e no qual os artistas quase sempre preferem passear.

O domingo que despovoa as ruas centrais da cidade e orna as praias com as mais lindas figurinhas é, no entanto, radiofonicamente falando, um dia mal distribuído: enquanto algumas emissoras cerram as suas portas, irradiando unicamente os já conhecidos programas de discos, outras batalham no ar, espalhando melodias generosas.

Noel, o jovem cantor do "Programa Casé"
(desenho de Luiz Gonzaga, de 1936)
Atualmente, pouquíssimas estações de rádio transmitem programas de estúdio, aos domingos, sendo tal fato oriundo dos mais diversos motivos.

A Rádio Guanabara, por exemplo, sempre teve os seus estúdios repletos de artistas e compositores durante as transmissões dos seus programas especiais, aos domingos. O “Nosso Programa”, feliz iniciativa de Cristóvão de Alencar, reunia na “estação do povo” os mais entusiastas elementos do nosso “broadcasting”.

Mas hoje, esperando mudar de frequência e aumentar a força dos seus transmissores, a PRC-8 resolveu abolir os programas de estúdio. E aos domingos, por algum tempo, os ouvintes poderão ouvir a voz do “amigo velho” anunciando os mesmos heroicos discos de sucesso.

A Rádio Jornal do Brasil é uma estação que não apresenta grande diferença nesse particular, porque, possuindo um “cast” selecionadíssimo, e uma coleção de discos verdadeiramente primorosa, não oferece ao ouvinte chance para distinguir um programa de estúdio, de um outro de “música de conserva” ...

A Rádio Educadora possui programas alugados que se apresentam agradavelmente. “Programa de Luiz Vassalo”, durante o dia e “Programa Lamounier”, à noite.

O domingo parece ser mesmo um dia favorável aos programas particulares, os quais encontram amplidão entre as outras “ondas desocupadas”...

O antigo “Programa Francisco Alves” transmitido aos domingos pela PRE-2, estação que atualmente não conta com programas de estúdio aos domingos.

O veterano “Programa Casé”, passeando por várias emissoras do Rio, estando por último na Rádio Transmissora, sempre foi um motivo de agrado dos ouvintes que permanecem em casa, atentos ao receptor.

A Rádio Cruzeiro do Sul, até há poucas semanas, tinha uma grande atração por intermédio do “Programa dos Calouros”, de Ary Barroso. Mas hoje, premiada a “caloura” mais interessante, Clô Hardy, artista que se exibiu em outros programas de estúdio, perdeu a PRD-2 aquela novidade domingueira ...

E os discos ajudam incríveis situações nos estúdios desertos, enquanto outras emissoras apresentam um aspecto quase estranho de força de vontade, em quererem ter um pouco mais de vida.

A Rádio Tupy e a PRE-8, Rádio Nacional, não parecem dar muita importância ao feriado assinalado pela folhinha. O número vermelho — sinal solene de um descanso obrigatório, encontra, muitas vezes, junto ao microfone da PRG-3, os lábios igualmente rubros de Alzirinha Camargo, cantando, em “carne e osso”, junto ao microfone feliz.

Os vestidos leves de Sylvinha Mello decoram e servem de modelo de elegância aos estúdios da Rádio Nacional, demonstrando assim que somente ali fora, nas casas de moda, é que modelos se escondem, aos domingos.

Mas que fazem neste dia outros artistas, que ganham férias?

Muitos são fãs de rádio.

Cristóvão de Alencar
Dora Barbiere Gomes procura ouvir as colegas, passando quase todo o dia às voltas com o “dial”.

Outros preferem ir ao cinema e também muitas vezes assistem novamente aos “colegas”, como Gilda de Abreu, a deliciosa “Bonequinha de seda”.

Luiz Americano, embora quase sempre programado na Rádio Nacional, onde toca com uma grande perícia o seu instrumento predileto: saxofone, possui em casa, completas coleções de discos célebres. Ficando em casa, em raros domingos, ouve todos os artistas notáveis da sua preferência.

Mara da Costa Pereira quando não tem programa na Rádio Tupy, nem quer ouvir falar em lendas amazônicas, microfones, músicas folclóricas. O domingo é para ela, sempre que pode um dia de refúgio para expandir outras predileções e divertimentos.

Tânia Mara, a fina intérprete de canções do Rádio Club, gosta de domingos. Dia burguês e algo deselegante, o domingo sempre o dia que provoca as mais desencontradas opiniões, gere, também, muitas vezes, a lembrança dos melhores folguedos.

Mas no “broadcasting” carioca o domingo é um dia que tem vida própria.”


Fonte: CARIOCA, de 14/11/1936 (fotos e texto atualizado)

segunda-feira, junho 10, 2013

Jorge Murad

Jorge Murad, radialista e humorista, nasceu em 13/04/1910, no Rio de Janeiro, RJ. Também autor de livros e de peças teatrais, além de produtor de televisão e compositor de sambas e marchinhas, iniciou sua carreira em 1929, apresentando-se no Programa Casé.

Animador de programas na Rádio Clube e na Rádio Phillips, recebeu o apelido de o “Sultão da alegria” por seu repertório de anedotas, em programas que se tornaram famosos como Fala meu louro e Pensão do Salomão, líder em audiência na época.

Autor das peças teatrais Carioca da gema, Rumo à Turquia e Dois boêmios do outro mundo, escreveu também vários livros humorísticos como Salada de risos, Salomão a varejo e Anedotas de guerra, tendo sido, por esse último, laureado com a Cruz de Guerra, durante a 2ª Guerra Mundial.

No cinema nacional atuou em filmes como: Alô, alô, Brasil, Alô, alô, Carnaval e Banana da terra.

Faleceu no dia 25 de abril de 1998, no Rio de Janeiro.

O "Sultão da Alegria"

"A carreira de Jorge Murad é uma dessas coisas que entusiasmam a qualquer um e serve mesmo de exemplo a muitos desses pretensos humoristas que usam e abusam da imoralidade para forçar o riso do público. Interpretando com muita propriedade o ‘turco’, ele se tornou conhecido de Norte a Sul do país, conquistando sempre vantajosas ofertas por parte das estações brasileiras, para apresentar sua popular e ouvidíssima Loja do Salomão.

As qualidades de humorista, Jorge Murad alia as de compositor, tendo neste carnaval se apresentado com dois carros de frente: Gioconda e Amendoim torrado, duas interessantes sátiras que lograram êxito almejado pelo seu autor.

O simpático 'turco' é autor ainda de vários livros humorísticos, todos com edição esgotada, como Arak Said, Anedotas de Guerra e Salomão a varejo. Prepara um novo livro sobre anedotas de papagaio, o qual já se encontra no prelo e possui ilustrações especiais de Luiz Sá. Jorge Murad é ainda autor de algumas revistas teatrais, feitas em colaboração com outros ases da ribalta.

Formado em contabilidade, ele preferiu contar anedotas a guardar livros, daí a razão porque começou sapateando um número qualquer. Todos gostaram e forçaram-no a contar uma anedota. Ele contou, e até hoje ainda não parou de contá-las, numa percentagem que não merece desconto..." (A Cena Muda, 11/06/1946).

Salomão é um excelente mestre-cuca, haja vista a frequência de sua popular "pensão...". Aqui o vemos provando um prato que não será servido na sucursal da famosa Pensão do Salomão, localizada nos estúdios da Tupi (Foto: A Cena Muda)

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Fontes: Fundação Museu da Imagem e Som; A Cena Muda, de 11/06/1946 e 16/01/1945.

domingo, novembro 25, 2007

Ademar Casé

Ademar Casé (1902-1993), radialista brasileiro, pai do diretor de teatro e TV Geraldo Casé e avô da atriz Regina Casé. Criador da primeira grande atração do rádio no Brasil, o Programa Casé, começou sua carreira vendendo aparelhos radiofônicos de porta em porta.

Sua técnica de vendas era inusitada: deixava o rádio na casa do freguês em potencial e quando voltava, dias depois, a venda estava garantida. Por seu grande sucesso como vendedor, teve acesso à direção do fabricante dos aparelhos, a Philips, com a qual conseguiu o aluguel de duas horas semanais em sua emissora.

Em 1932, colocou no ar o Programa Casé, que lançaria nomes como Almirante, Nássara, Sadi Cabral e Haroldo Barbosa, entre outros.

Neste programa, famosíssimo nos anos 1930 e 1940, Nássara criou o primeiro jingle brasileiro, Noel Rosa foi contra-regra e Carlos Lacerda, locutor.

Mais vendedor do que artista, Casé foi um pioneiro do rádio, combinando tino comercial e bom humor.