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quinta-feira, outubro 03, 2013

A massa


A Massa (1980) - Raimundo Sodré e Antônio Jorge Portugal - Intérprete: Raimundo Sodré

LP A Massa / Título da música: A Massa / Raimundo Sodré (Compositor) / Antônio Jorge Portugal (Compositor) / Raimundo Sodré (Intérprete) / Gravadora: Polydor / Ano: 1980 / Nº Álbum: 2451 144 / Lado A / Faixa 1 / Gênero musical: Regional.


Tom: G
Introd.: C  G/B  G  G  D7  G  G  D7  (2x)  
         G  D7  G   ( C  D7  G  D7  G )  

         C               D/C       Bm7
A dor da gente é dor de menino acanhado 
        E7/9     C                 D7        G     C  G 
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar.
               C                D/C      Bm7
Que salta aos olhos igual a um gemido calado 
            E7/9        C                 D7        G   C  G 
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar. 
 
                          B7           Em       
Moinho de homens que nem girimuns amassados 
         D        C           D           G       C  G 
Mansos meninos domados, massa de medos iguais.
             C               B7         Em
Amassando a massa a mão que amassa a comida 
          D         C                 D          G    G D G D G
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais.

                     D7           G        D7    G 
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe,   da massa ( 4x )

         C               D/C       Bm7
A dor da gente é dor de menino acanhado (Repete dessa parte)

                    D7            G        D7    G 
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe,   da massa  ( 4x )

 ( G  D7 ) .......... (Fica repetindo esse dois acordes)
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe, da massa
Nunca mais me fizeram aquela presença, mãe 
Da massa que planta a mandioca, mãe 
A massa que eu falo é a que passa fome, mãe  
A massa que planta a mandioca, mãe 
Quand je rappele de la masse du manioc, mére  
Quando eu lembro da massa da mandioca 
 
Lelé meu amor lelé no cabo da minha enxada não conheço coroné 
Eu quero mas não quero (camarão) 
Minha mulher na função (camarão) 
Que está livre de um abraço, mas não está de um beliscão 
Torna a repetir meu amor: ai, ai, ai! 
É que o guarda civil não quer a roupa no quarador 
Meu Deus onde vai parar, parar essa massa 
Meu Deus onde vai rolar, rolar essa massa.

Letra:

A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar
Que salta aos olhos igual a um gemido calado
A sombra do mal-assombrado
É a dor de nem poder chorar

Moinho de homens que nem girimuns amassados
Mansos meninos domados, massa de medos iguais
Amassando a massa a mão que amassa a comida
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais

Quando eu lembro da massa da mandioca mãe, da massa
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe, da massa
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe, da massa

A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar
Que salta aos olhos igual a um gemido calado
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar

Moinho de homens que nem girimuns amassados
Mansos meninos domados, massa de medos iguais
Amassando a massa a mão que amassa a comida
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais

Quando eu lembro da massa da mandioca mãe, da massa
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe, da massa
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe, da massa

When I remember of "massa" of manioc
Nunca mais me fizeram aquela presença, mãe
Da massa que planta a mandioca, mãe
A massa que eu falo é a que passa fome, mãe
A massa que planta a mandioca, mãe
Quand je rappele de la masse du manioc, mére
Quando eu lembro da massa da mandioca

Lelé meu amor lelé
No cabo da minha enxada não conheço "coroné"
Eu quero mas não quero (camarão)
Minha mulher na função (camarão)
Que está livre de um abraço, mas não está de um beliscão
Torna a repetir meu amor: ai, ai, ai!
É que o guarda civil não quer a roupa no quarador
Meu Deus onde vai parar, parar essa massa
Meu Deus onde vai rolar, rolar essa massa

domingo, abril 28, 2013

O massacre da "Sabiá"

Chico Buarque e Tom Jobim
Não há brasileiro, vivo ou morto, que não tenha uma vizinha gorda e, além de gorda, patusca como uma viúva machadiana. Dirão os idiotas da objetividade que vizinha é a que mora ao lado, ou defronte, ou ali na esquina ou, ainda, na mesma rua. O caso não me parece tão simples. O que eu chamo de vizinha é, antes de mais nada, um certo tipo físico, uma certa e generosa adiposidade. Dizia-me um amigo, a propósito de não sei de quem:

— "Gorda como uma vizinha".

Aí está dito tudo. E se tiver varizes, melhor. Ah, esquecia-me das brotoejas. É preciso que desponte, no seu decote, uma constelação de brotoejas. Assim é, fisicamente, a vizinha. Do ponto de vista de caráter, sentimentos e modos tem de ser patusca. Imaginem uma víbora gaiata — é a vizinha, como a imaginava o nosso Machado de Assis.

Se, por acaso, mora ao lado uma senhora esguia, de lindas maneiras e nobres sentimentos — estejamos certos de um equívoco, de uma fraude ou de uma confusão de endereço. Reside a dois passos, mas é a falsa vizinha, a antivizinha, sem nada de machadiano.

Fiz esta breve introdução para concluir: — tenho, na minha rua, uma senhora que é a vizinha perfeita, irretocável. Está sempre na janela. Eis aí um costume típico. Como se sabe, a janela foi a televisão das gerações passadas. Hoje, tudo mudou. Há pessoas que passam anos e não usam a janela nem para cuspir. Resumindo: — a janela só existe e sobrevive nas letras do Chico Buarque de Holanda.

Mas onde é que eu estava? Ah, na vizinha gorda, a quem chamam de "Moby Dick", a baleia. E a santa senhora, instalada no seu primeiro andar, toma conta de tudo e de todos. Vê quem chega, quem parte, quem namora e quem prevarica.

Ontem, ao sair de casa, quem vejo eu? A vizinha.

Quase atravessei a rua. Mas já a vizinha crispava no meu braço a sua mão pequena e voraz de gorda. Não tive outro remédio senão parar. Agrediu-me com a pergunta:

— "O que me diz do Festival?".

Não me lembro se disse "Gostei" ou "Não gostei". Agora me lembro. Minha resposta foi exatamente esta:

— "Mais ou menos".

Só. Por coincidência, também ela achara "mais ou menos". Vendo, ali, uma similitude de gosto, de sentimentos, vibrou a vizinha. Conversamos uns quinze minutos. E, por fim, quando me despedi, ela fez mistério, fez suspense. Disse, sem desfitar-me:

— "Nada como um dia depois do outro".

Aquilo ficou na minha cabeça. "Nada como um dia depois do outro." Só uma vizinha gorda diria isso. Sim, a frase era um achado de vizinha gorda, patusca e cheia de varizes. Mas como ia dizendo: — despedi-me e, em seguida, apanhei o táxi. Vim para a cidade ressoante do "Nada como um dia depois do outro". E, então, pensei no Festival.

Em São Paulo, quando se escolheu a música paulista, os fanáticos de Vandré promoviam uma apoteose para o seu ídolo e, ao mesmo tempo, massacravam a música de Caetano Veloso. E não só a massacravam, como também massacravam o autor. Se vocês assistiram ao teipe da Paulista, hão de se lembrar. Pela primeira vez viu-se uma pobre canção linchada. A canção, digo eu, e respectivo autor.

E mais: — enquanto Caetano Veloso queria cantar, a platéia — sapateando como uma espanhola — fazia um coro feroz, unânime e obsceno. Mas o artista deu-lhe o bravo troco. Chamou os jovens ululantes de "imbecis", "analfabetos", "débeis mentais" etc. etc. E disse tanto que a obscenidade emudeceu. O comportamento de tal platéia — e toda ela "festiva" — foi de uma indignidade inédita.

Vejam como cabe, aqui, o "Nada como um dia depois do outro" da minha vizinha. No Rio, novamente, apoteose para Vandré e vaia para "Sabiá". Em São Paulo, porém, o "Proibido" foi realmente proibido pela platéia, e saiu do Festival. Aqui, o vaiadíssimo "Sabiá" ganhou e vai representar o Brasil.

Mas o que ainda me assombra é o poder de promoção da "festiva". O povo acha graça e vamos e venhamos: — o simples nome de "festiva" é um apelo ao ridículo. Realmente, há o ridículo, sem prejuízo, todavia, do gênio promocional das esquerdas. O leitor não tem noção do que sejam os bastidores da glória, do sucesso, da consagração. Hoje, só se é poeta, romancista, sociólogo, crítico, cineasta, se as esquerdas o permitirem. Cabe então a pergunta: — e por quê? Vejamos.

Porque a "festiva" infiltrou-se nas redações, nas rádios, nas TVs. Há um escritor que não escreve, não lê, não pensa? Outro que é cineasta inédito? E outro ainda um romancista que não fez, nem fará jamais um romance? Como desfilam em passeatas e xingam os Estados Unidos — são grandes sociólogos, cineastas, romancistas e poetas. E há o caso de Gilberto Freyre.

As esquerdas o abominam. Por que, não se sabe, ou, por outra, sabe-se perfeitamente. Gilberto Freyre é um homem livre. Pensa, vejam vocês e pasmem: — pensa. Pois bem. Até outro dia era, na vida intelectual do Brasil, uma presença enorme, obrigatória, obsessiva. Lembro-me de que, certa vez, as grandes figuras literárias do Brasil propunham que ele fosse o nosso candidato ao prêmio Nobel. E, súbito, desaba sobre o seu nome e sua obra um vil silêncio. É solidamente ignorado pelos nossos jornais. Não há mais notícia, nem reportagem, nem crônica, nem artigo sobre Gilberto Freyre. Acabou? Morreu? Deixou de pensar, ler, escrever? Não, mil vezes não.

Simplesmente, não aceitou a pressão das esquerdas. E estas, que têm a posse de todos os meios de promoção, não falam em Gilberto Freyre, negam-lhe uma notícia de duas linhas ou uma vaga referência. Bem. Volto ao Festival.

Vejam vocês: — a "festiva", com o seu horror ao risco, não deu um tiro em 31 de março, não matou um passarinho em 1º de abril. E nem vai mover uma palha ou tirar uma cadeira do lugar. Mas só se tem talento com a sua licença. E, domingo, no Maracanãzinho, as esquerdas caíram do cavalo. Esperavam o primeiro prêmio para Vandré e quem ganhou foi "Sabiá". Entre parênteses, não nego o talento de Vandré. Sua "Marselhesa" nada tem de "Marselhesa" e, pelo contrário, soa como berceuse e o próprio autor a canta como tal.

Mas, berceuse ou "Marselhesa", há talento. E o resultado doeu na "festiva". Logo, com aquela sua coragem sem risco, saiu pelas redações, rádios e TVs. O nosso Vandré teve uma imprensa que nem Rui, nem o barão do Rio Branco, nem Santos Dumont mereceram. Mas era pouco. A glória impressa era pouco. E que fizeram elas, as esquerdas? Vejam que golpe bem imaginado. Na terça-feira, em jornais, rádios e TVs, largaram a bomba:

— Tom e Chico iam renunciar.

Nada descreve o meu espanto. O prêmio, se não me engano, é de 25 milhões. Vinte e cinco milhões — o brasileiro não é assim. Mesmo o nosso milionário não é assim. Um dia, o Walther Moreira Salles ganhou um prêmio menor no "Seu Talão". Pois meteu-se na fila e foi buscar o dinheiro. Por que, e a troco de que, Tom e Chico iam enfiar no bolso de Vandré os 25 milhões? O Chico não está presente. E, se o Tom aceitasse a coação sentimental e realmente idiota, estaria merecendo um urgente tratamento psiquiátrico.

Sim, e nós o amarraríamos num pé de mesa e lhe daríamos água numa cuia de queijo Palmira.

[3/10/1968]
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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo:  Companhia das Letras, 1995.

sexta-feira, junho 01, 2012

Adonis Karan

Adonis Karan, produtor cultural, nasceu na cidade de Novo Horizonte, SP, em 28/06/1943. Foi diretor nacional de projetos e eventos especiais da Rede Tupi de Televisão e coordenador geral de eventos da Rede Globo.

Durante seis anos, Karan viveu em Paris, como correspondente da Rede Globo. Nessa ocasião , foi ainda diretor artístico da casa noturna "Via Brasil", que levava artistas brasileiros e os divulgava na Europa. E foi assim que levou Martinho da Vila, Beth Carvalho, Jorge Ben Jor, Jair Rodrigues, Tânia Maria, Baden Powell e outros.

Para a RTF- Antenne 2, realizou um curta-metragem com Martinho de Vila. E dirigiu o documentário: "Bresil Insolite".

Além disso, organizou e coordenou festivais de música popular brasileira, como o" MPB-TV" Record em São Paulo; o "Brasil Canta no Rio", pela TV Excelsior; o "Festival Universitário" e de "Músicas para o Carnaval", da Rede Tupi; o "MPB Shell", para a Rede Globo; o "Som das Águas", para a Rede Manchete. Foram esses festivais que revelaram nossos principais compositores e compositores, tais como: Chico Buarque, Ivan Lins, Caetano Veloso. Gilberto Gil, Alceu Valença, Geraldo Vandré, Martinho da Vila e muitos outros.

Tendo essa ligação tão forte com todos esses artistas, produziu e dirigiu shows com todos eles, tanto  no Brasil, como nos Estados Unidos, onde, além dos citados acima, promoveu show com Elba Ramalho, João Gilberto, Carlos Lyra.

Karan foi diretor geral  da comemoração dos 50 anos de carreira de Sérgio Ricardo, que aconteceu no Rio de Janeiro e que contou com a presença de inúmeros outros artistas de relevância e também da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio.

Foi ainda produtor e coordenador geral do " Festival de Choro do Estado do Rio de Janeiro', que foi transmitido pela TVE- Rede Brasil.

Fonte: Museu da TV.

sábado, outubro 01, 2011

Tuca

Tuca (Valenza Zagni da Silva), cantora e compositora, nasceu em 17/10/1944, em São Paulo, SP, e faleceu em 8/5/1978, na mesma cidade. Presença marcante nos festivais da MPB, tão contantes na década de 1960, formou-se em música erudita em 1957, pelo Conservatório Paulista, começando a compor nesse mesmo ano. Fez parte do Grupo de Música Popular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Em 1962 teve, pela primeira vez, uma canção de sua autoria registrada em disco, com a gravação de sua música Homem de verdade, pela cantora Ana Lúcia. Sua primeira apresentação profissional foi no programa "Primeira audição", produzido por João Leão e Horácio Berlinck para a TV Record (SP).

Participou, ainda na década de 1960, dos seguintes festivais: Festival Nacional de Música Popular da TV Excelsior (SP), interpretando com Airto Moreira a música Porta estandarte, de Geraldo Vandré e Fernando Lona, classificada em 1º lugar e premiada com o Berimbau de Ouro (1966); I Festival Internacional da Canção da TV Rio (RJ), apresentando Cavaleiro, de sua autoria e Geraldo Vandré, classificada em 2º lugar na fase nacional do festival (1966); O Brasil canta no Rio, interpretando, com a soprano Stella Maris, a canção de sua autoria Paixão segundo o amor, classificada em 3º lugar; e III Festival Internacional da Canção da TV Globo, apresentando a canção Mestre sala, de Reginaldo Bessa e Ester Bessa (1968).

Seu primeiro disco, Eu, Tuca, lançado pela Chantecler, com composições de sua autoria, introduziu a viola caipira nas orquestrações.

Convidada pelo Itamaraty, participou, ao lado de Gilberto Gil e do Jongo Trio, da Semana de Arte Brasileira, realizada na África. De volta ao Brasil, apresentou-se com Miéle e Ronaldo Bôscoli no Rui Bar Bossa (RJ), com o show "Uma noite perdida". Ainda com Miéle, inaugurou a boate Blow Up (SP) e apresentou-se na casa noturna Sucata (RJ).

Em 1969, viajou para a Europa, fixando residência em Paris durante seis anos. Fez turnês por vários países como Espanha, Itália e Holanda.

Voltou para o Brasil em 1975, para o lançamento de seu LP Drácula, I love you, gravado na França.

Em 1977, produziu um quadro com Fafá de Belém para o especial de Milton Nascimento realizado na TV Bandeirantes (SP) por Roberto de Oliveira.

Morreu no ano seguinte, aos 34 anos, em função de uma parada cardíaca provocada por sucessivos regimes de emagrecimento.

Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.

sexta-feira, julho 09, 2010

Edmundo Souto

Edmundo Souto (Edmundo Rosa Souto), compositor, instrumentista, escritor e arquiteto, nasceu em 30/3/1942, em Belém, PA. Aos oito anos, transferiu-se de Belém para o Rio de Janeiro com seus pais, fixando residência nesta cidade desde então.

Em 1963, compôs a trilha sonora do curta-metragem Garoto de calçada, de Carlos Frederico Rodrigues. Nesse mesmo ano, teve suas primeiras composições, De brincadeira (c/ Danilo Caymmi) e Candomblé (c/ Paulo Antônio Magoulas), gravadas em LP pelo Conjunto Mário Castro Neves.

Entre 1964 e 1966, estudou violão com Oscar Castro-Neves.

Em 1967, formou-se em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conciliando a atuação profissional nessa área com a carreira de compositor.

No ano seguinte, compôs, com Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós, a música Andança, que conta com mais de 150 gravações, no Brasil e no exterior.

Destacou-se como compositor da geração dos festivais, tendo conquistado as seguintes premiações:

1968: 2º lugar no I Festival Universitário de Música Popular (RS) com "Canto pra dizer-te adeus (c/ Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós), defendida por Iracema Werneck (1968);

1968: 3º lugar na fase nacional do III Festival Internacional da Canção (FIC) com Andança, defendida por Beth Carvalho e o grupo Golden Boys;

1969: 1º lugar na fase nacional e 1º lugar na fase internacional do IV Festival Internacional da Canção (FIC) com Cantiga por Luciana (c/ Paulinho Tapajós), defendida por Evinha;

1969: 6º lugar na II Olimpíada Musical da Canção em Atenas (Grécia) com Rumo Sul (c/ Paulinho Tapajós), defendida por Beth Carvalho;

1974: 4º lugar no Festival Universitário de Juiz de Fora com Pra ninguém chorar (c/ Paulo César Pinheiro), defendida por Beth Carvalho.

Em 1970, compôs para trilhas sonoras de novelas as canções Tema de Regina (c/ Paulinho Tapajós), para a novela A próxima atração (TV Globo), e Onde você mora (c/ Paulinho Tapajós), para a novela Verão vermelho (TV Globo).

Em 1984, escreveu, com Paulinho Tapajós, o livro infantil Verde que te quero ver (Editora Record), cujo texto foi adaptado, pelos autores, para um musical infantil de televisão (Rede Globo) e teatro. Compôs algumas músicas da trilha sonora do musical, posteriormente lançada em LP. Ainda nesse ano, a escola de samba Unidos do Cabuçu venceu o desfile com o samba-enredo "Beth Carvalho, a enamorada do samba", de sua autoria e dos parceiros Iba Nunes, Luís Carlos da Vila e Paulinho Tapajós.

Em 1989, escreveu o livro infantil, A pipa arco-íris, publicado pela Editora Record. Adaptou o texto para o teatro e compôs a trilha sonora do musical.

Em 1999, concluiu o MBA (Master Business Administration) em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Em 1999 e 2000, trabalhou na Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro.

Idealizou e produziu a Sinfonia Sacopenapã, composta de dezessete canções em homenagem à Lagoa, bairro do Rio de Janeiro, tendo parceiros como Sérgio Natureza e Paulinho Tapajós, entre outros. A Sinfonia Sacopenapã foi apresentada no Parque do Cantagalo, na Lagoa (RJ).

Obra

Andança (Edmundo Souto / Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós); Ao Chico com carinho (Edmundo Souto / Moacyr Luz e Paulinho Tapajós); Alpendre da Saudade (Edmundo Souto / João Pacífico); Água-pé (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Beth Carvalho, a enamorada do samba (Edmundo Souto / Iba Nunes, Luís Carlos da Vila e Paulinho Tapajós); Bloco Leblon (Edmundo Souto / Tavito); Boto desbotado (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Caminho de São Thiago (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Caminhos (Edmundo Souto / Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós); Candomblé (Danilo Caymmi e Paulo Antônio Magoulas); Cantiga por Luciana (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Canto de saudade (Edmundo Souto / Paulo Antônio Magoulas); Canto pra dizer-te adeus (Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós); Cavalheiro andante (Edmundo Souto / Arnoldo Medeiros); Cansaço (Edmundo Souto / Paulo César Pinheiro); Canção do arco-íris (Edmundo Souto / João Pacífico e Paulinho Tapajós); Conquista do cacique (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Contraste (Edmundo Souto / Arnoldo Medeiros); Canção do despertar (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Dança de brinquedos (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); De brincadeira (Edmundo Souto / Danilo Caymmi); De pé no chão (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Disfarce (Edmundo Souto / Noca da Portela); História de São João Batista (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Joatinga (Edmundo Souto / Beth Carvalho e Paulinho Tapajós); Mais que um sorriso (Edmundo Souto / Jorge Aragão) Onde você mora (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Palhaço real (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Pra ninguém chorar (Edmundo Souto / Paulo César Pinheiro); Rancho dos boêmios (Paulinho Soares e Nei Barbosa); Reencontro (Edmundo Souto / Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós); Regina (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Rumo sul (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Samba-enredo exaltação à mulher (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Sempre só (Edmundo Souto / Joaquim Vaz de Carvalho); Só quero ver (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Soda com cachaça (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Sou frevo (Edmundo Souto / Arnoldo Medeiros); Vaqueirada (Edmundo Souto / Bororó Felipe e Nei Lopes); Verde que te quero ver (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós); Verso e cantoria (Edmundo Souto / Bororó Felipe e Paulinho Tapajós); Vivências (Edmundo Souto / Chico Lessa e Paulinho Tapajós); Xote dos pássaros (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós).

Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB; Wikipédia.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Dia das rosas

Sônia Delfino
Dia das rosas (canção, 1966) - Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo - Intérprete: Sônia Delfino

Compacto simples / Título da música: Dia das rosas / Luiz Bonfá (Compositor) / Maria Helena Toledo (Compositor) / Sônia Delfino / Gravadora: RGE / Ano: 1966 / Álbum: CS-70236 / Lado B / Marcha-rancho.



Hoje é dia das rosas
Que enfeitam formosas
Amores se unindo
Num lindo jardim
Porque o berço da flor
Vem do encanto de nós
Que nascemos de nós
E vivemos de amor

Ah! que tristeza viver sem amor
Ah! que certeza do amor
Nossas mãos, mãos tao sozinhas
Não sabem o que querem
Porque nao procuram saber de você

Rogo em nome das flores
Irmãs dos jardins
Eu proclamo voce
A rainha de nós
E em todas as cores
Você foi capaz
De trazer pra essa gente
Um mundo de paz

sábado, novembro 01, 2008

Márcia

Márcia (Márcia Elisabeth Raimundo Barbosa), cantora, nasceu em São Paulo SP em 25/11/1943. Começou a cantar como crooner na Orquestra de Erlon Chaves, atuando em bailes e clubes.

Por intermédio de Erlon Chaves e Kalil Filho, foi contratada pela TV Tupi, em 1958. Dois anos depois, mudou-se para Porto Alegre RS, passando a trabalhar na Rádio Farroupilha e na TV Piratini. Entre 1960 e 1963, ganhou diversos prêmios de melhor cantora dados pelas emissoras de rádio e televisão.

De volta a São Paulo, participou de várias apresentações em boates, teatros e televisões e, em 1965, recebeu o prêmio Berimbau de Ouro, em uma das fases eliminatórias do 1º Festival Nacional da MPB, da TV Excelsior, em Guarujá SP, defendendo Miss Biquini (Silvio Mazzuca).

Dois anos depois, participou do 3° Festival da MPB, da TV Record, de São Paulo, com a música Eu e a brisa (Johnny Alf) que, embora desclassificada, tornou-se mais tarde um de seus maiores sucessos. Gravou essa música num dos três LPs do Festival e, em 1968, lançou seu primeiro LP —Eu e a brisa — pela Philips, cantando, entre outras, Pra machucar meu coração (Ary Barroso) e Aula de matemática (Tom Jobim e Marino Pinto), além da canção-título.

Gravou seu segundo LP Márcia, pela Philips, em 1969, incluindo cinco composições de Johnny Alf.

No ano seguinte, a Philips lançou novo LP, Márcia volume II, e em seguida passou para a Odeon, gravando um compacto duplo com E lá se vão meus anéis (Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro), Minha (Francis Hime e Rui Guerra), Eu e o crepúsculo (Johnny Alf) e Té amanhã (Baden Powell e Paulo César Pinheiro). Em seguida, saiu pela Odeon seu LP Rimas, em que cantou entre outras, Ilustre visita (Noel Rosa) e Fez bobagem (Assis Valente).

Com Baden Powell e Vinícius de Moraes, fez uma temporada em Portugal, em 1972, apresentando-se em boates e teatros. Dois anos mais tarde, participou com Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro do show O Importante é que a nossa emoção sobreviva, que ficou em cartaz por longo período no Teatro Oficina, em São Paulo.

CD

Tudo o que mais nos uniu: Eduardo Gudin, Márcia e Paulo César Pinheiro, 1996, Velas 11V198.

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e PubliFolha.

terça-feira, outubro 21, 2008

Paulinho Tapajós

Paulo Tapajós Gomes Filho, compositor e cantor, nasceu no Rio de Janeiro-RJ, em 17/8/1945. Filho do músico Paulo Tapajós, com quem teve as primeiras noções musicais, começou a compor na década de 60, participando de festivais.

Seu maior sucesso, Andança (com Edmundo Souto e Danilo Caymmi) ficou em terceiro lugar no III Festival Internacional da Canção da TV Globo, em 1968, defendida por Beth Carvalho e os Golden Boys. No ano seguinte o primeiro lugar foi de sua música Cantiga por Luciana (com Edmundo Souto), na interpretação de Evinha. Outro sucesso em parceria com Danilo Caymmi foi Canto pra dizer-te adeus.

Mesmo com os sucessos musicais, formou-se em arquitetura em 1971. Trabalhou com trilhas para televisão (como a da novela Irmãos Coragem) e fez a produção musical do Fantástico entre 1977 e 1980.

Também foi produtor de discos de Jorge Ben Jor, Vinícius de Moraes e Toquinho, MPB-4, Fagner, Sivuca, Gonzaguinha e outros. Seu primeiro disco foi em parceria com a irmã Dorinha Tapajós, em 1972, pela gravadora Forma, Paulinho e Dorinha. Dois anos depois veio o primeiro lançamento individual, Paulinho Tapajós (RGE/Fermata).

Suas mais de 200 composições foram registradas por artistas como Clara Nunes, Alcione, Joyce, Ivan Lins, Chico Buarque, Milton Nascimento e muitos outros. Na década de 90 lançou dois CDs pela gravadora CID: Coração Poeta (1996) e Reencontro (1998).

Sua atuação como escritor também é destacada. Já lançou mais de dez livros infantis e a coletânea de letras de músicas De Versos (1986).

Fontes: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e PubliFolha; Rio de Janeiro - Cariocas.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

A estrada e o violeiro

Sidney Miller
A estrada e o violeiro - Sidney Miller

Tom: A

A                 E      A                      G       A
Sou violeiro caminhando só, por uma estrada caminhando só
G      A                    C Bm A
Sou uma estrada procurando só levar o povo pra cidade só
B           E        A
Parece um cordão sem ponta, pelo chão desenrolado
B         E             A
Rasgando tudo que encontra, a terra de lado a lado
F#m               C#m           F#m           C#m
Estrada de Sul a Norte, eu que passo, penso e peço
F#m               A        A7                D
Notícias de toda sorte, de dias que eu não alcanço
B                E                               A
De noites que eu desconheço, de amor, de vida e de morte
B       E               A
Eu que já corri o mundo cavalgando a terra nua
B             E              A
Tenho o peito mais profundo e a visão maior que a sua
F#m          C#m        F#m           C#m
Muitas coisas tenho visto nos lugares onde eu passo
F#m           A             A7           D
Mas cantando agora insisto neste aviso que ora faço
B              E                           A   G A
Não existe um só compasso pra contar o que eu assisto
E   A                     G     A
Trago comigo uma viola só, para dizer uma palavra só
G     A                      C Bm   A
Para cantar o meu caminho só, porque sozinho vou à pé e pó
B                 E           A
Guarde sempre na lembrança que esta estrada não é sua
B            E       A
Sua vista pouco alcança, mas a terra continua
F#m      C#m               F#m       C#m
Segue em frente, violeiro, que eu lhe dou a garantia
F#m            A         A7          D
De que alguém passou primeiro na procura da alegria
B                E                            A
Pois quem anda noite e dia sempre encontra um companheiro
B              E           A
Minha estrada, meu caminho, me responda de repente
B              E              A
Se eu aqui não vou sozinho, quem vai lá na minha frente?
F#m         C#m          F#m           C#m
Tanta gente, tão ligeira, que eu até perdi a conta
F#m       A            A7                  D
Mas lhe afirmo, violeiro, fora a dor que a dor não conta
B              E                             A
Fora a morte quando encontra, vai na frente um povo inteiro
E    A                      G    A
Sou uma estrada procurando só levar o povo pra cidade só
G    A
Se meu destino é ter um rumo só,
C   Bm  A
choro em meu pranto é pau, é pedra, é pó
B           E            A
Se esse rumo assim foi feito, sem aprumo e sem destino
B       E          A
Saio fora desse leito, desafio e desafino
F#m         C#m           F#m          C#m
Mudo a sorte do meu canto, mudo o Norte dessa estrada
F#m          A             A7            D
Em meu povo não há santo, não há força, não há forte
B             E                       A
Não há morte, não há nada que me faça sofrer tanto
B         E               A
Vai, violeiro, me leva pra outro lugar
B       E          A
Eu também quero um dia poder levar
F#m         C#m F#m C#m
Toda gente que virá
F#m   A   A7      D
Caminhando, procurando
B      E          A
Na certeza de encontrar

quarta-feira, outubro 10, 2007

5° Festival da MPB


5° Festival da MPB - TV Record (novembro, 1969): 1º - Sinal fechado, de Paulinho da Viola, com Paulinho da Viola. 2º - Clarisse, de Eneida e João Magalhães, com Agnaldo Rayol. 3º - Comunicação, de Hélio Matheus e Edson Alencar, com Vanusa. 4º - Gostei de Ver, de Eduardo Gudin e Marco Antônio da Silva Ramos, com Márcia e Os Originais do Samba. 5º - Monjolo, de Dina Galvão Bueno e Eric Nepomuceno, com Maria Odete.

"...A Record, coitadinha, já sem poder de fogo, para estar de acordo com os padrões e não ser afastada de algumas verbas oficiais, resolveu fazer o festival seguinte proibindo a utilização de guitarras elétricas.

Como eu não tinha mais espaço, pois as marcas tropicalistas deixadas pelo festival de 68 haviam me incompatibilizado com a postura política que o Paulinho de Carvalho foi obrigado a adotar, senti que minha temporada na Record estava chegando ao fim. Além do mais, todos os compositores e cantores com quem eventualmente poderia contar para algum evento musical de importância estavam no exílio ou sem condições de atuar. Eu não via sentido em trabalhar com a música brasileira naquele momento.

A direção do festival de 1969 passou para o meu ex-assistente, Marcos Antônio Rizzo, assistido pelo meu também ex-assistente “Fifuca”, apelido de Flávio Porto, irmão do genial Sérgio do mesmo Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, que tanto material teria hoje para o seu FEBEAPÁ, “Festival de Besteira que continua a Assolar o País”.

Apesar de significativamente a música vencedora ter o título de Sinal fechado, de Paulinho da Viola , tenho de reconhecer que o Festival da Record de 1969 foi o festival do Rizzo. Com sua sempre inexplicável incoerência, Paulinho de Carvalho ainda conseguiu realizar a segunda Bienal do Samba, três anos depois da primeira..."

Fonte: Prepare seu Coração (A História dos Grandes Festivais) – Solano Ribeiro – Geração Editorial, 2002

sábado, outubro 06, 2007

4° Festival da MPB

Gal Costa defendendo "Divino Maravilhoso". Festival de 1968.

4° Festival da MPB - TV Record (novembro-dezembro, 1968): 1º - São São Paulo, Meu Amor, de Tom Zé, com Tom Zé; 2° - Memórias de Marta Sare, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, com Edu Lobo e Marília Medalha; 3º - Divino maravilhoso, de Gilberto Gil e Caetano Veloso, com Gal Costa; 4° - Dois Mil e Um, de Rita Lee e Tom Zé; 5º - Dia da Graça, de Sérgio Ricardo, com Sérgio Ricardo e Modern Tropical Quintet.

“...O festival de 68 foi um pouco de tudo. O sucesso dos baianos no ano ano anterior fez com que a maioria dos compositores fantasiasse suas apresentações. Teve até guitarrista vestido de padre. Caetano e Gil, pela primeira vez em um festival, formaram uma parceria, e com a mudança de nome da “Gracinha”, a Maria da Graça, para Gal Costa, diziam que tudo era perigoso no seu Divino Maravilhoso.

Tom Zé venceu com São São Paulo Meu Amor, música muito abaixo da média de seu trabalho, que, quase como um castigo, não recebeu da Prefeitura um prêmio especial a que fez jus, tal burocracia vigente na cidade. Mas o ano de 68 ainda reservava outras surpresas.

Fui convidado pelo Renato Correa de Castro, meu ex-assistente no festival da Record de 66, e que havia sido contratado pela TV Globo para coordenar a parte paulista do III FIC (Festival Internacional da Canção), para ajudá-lo na seleção das músicas que iriam concorrer em São Paulo, classificando algumas para a final no Rio de Janeiro. Gil e Caetano inscreveram músicas que trilhavam um caminho experimental: Questão de Ordem e É Proibido Proibir, respectivamente. Das que Geraldo Vandré inscreveu escolhemos Para não dizer que não falei de flores.

Na primeira eliminatória no Tuca (Teatro da Universidade Catóica), templo da juventude politizada da época, a música do Gilberto Gil foi arrasadoramente vaiada, talvez por fugir dos chavões festivalescos, e desclassificada pelo júri. A rejeição foi gerada por uma estranheza estética, e não pelo rompimento do conservadorismo formal que o Gil propunha, fortemente influenciado por Jimi Hendrix. Não era realmente uma música de fácil digestão para quem então já estava mais habituado a aplaudir convenções e desdobradas de ritmo com queixada de burro do que a quebra de padrões musicais.

Caetano, que ousou propor para aquela platéia que era proibido proibir, juntando versos de Fernando Pessoa, emoldurados pelos corajosas desarmonias dos Mutantes, apesar de hostilizado pela platéia, foi classificado para a eliminatória que iria indicar as músicas de São Paulo que passariam para as apresentações no Maracanãzinho.

Naquela noite, a intolerância daquela gente atingiu o paroxismo. Objetos eram atirados no palco com uma agressividade que eu jamais poderia imaginar, vinda de uma platéia que deveria representar a elite política e intelectual daqueles tempos. Grande engano. Era um típico exemplo de como, às vezes, as paixões chegam a confundir as mentes, que, sem se deter para uma reflexão, ainda que superficial, assumem posições absolutamente contrárias ao que sua cartilha ideológica reza.

A palavra de ordem dos estudantes europeus naquele momento deveria coincidir com a dos nossos, que já haviam provocado grandes manifestações em gigantescas passeatas contra a ditadura, que apertava cada vez mais o cerco às liberdades individuais. “É proibido proibir” era frase definitivamente revolucionária para o momento.

Mas Caetano, enfrentando a reação absurda daquela platéia que o agredia com palavrões, ao mesmo tempo que atirava sobre o grupo no palco o que conseguisse apanhar, com a moral de quem está convicto de suas posições, colocou, aos gritos, enfurecido: “Vocês não estão entendendo nada. Se forem em política [tão reacionários e intolerantes como] o que são em estética, pobre do nosso país. Vocês querem matar hoje o velhote que já morreu ontem”.

Aquela platéia, com sua reação, mostrava ser a esquerda na direita sem se dar conta. A explosão de Caetano, na minha leitura, foi mais importante do que a música. Foi um manifesto passional, lúcido, poético, determinado, corajoso e, acima de tudo, coerente.

Naquela mesma noite, liguei para o André Midani, então diretor da Phillips, de quem o Caetano era contratado, e implorei que transformasse aquele momento raro em disco. O som, com a participação especial do Renatão, foi tirado às escondidas do teipe da Rede Globo. O disco saiu com o esdrúxulo título “Ambiente de Festival”...”

Fonte: Prepare seu Coração (A História dos Grandes Festivais) – Solano Ribeiro – Geração Editorial, 2002

3° Festival da MPB

Edu Lobo e Marília Medalha, vencedores do Festival com Ponteio

3° Festival da MPB - TV Record (outubro, 1967) 

1º - Ponteio, de Edu Lobo e Capinan, com Edu Lobo e Marília Medalha, Quarteto Novo e Momento Quatro; 2º - Domingo no parque, de Gilberto Gil, com Gilberto Gil e Os Mutantes; 3º - Roda viva, de Chico Buarque, com Chico Buarque e MPB-4; 4º - Alegria, alegria, de Caetano Veloso, com Caetano Veloso e Beat Boys; 5º - Maria, carnaval e cinzas, de Luiz Carlos Paraná, com Roberto Carlos.

"...O festival de 1967 foi, talvez, o mais rico musicalmente. Mais uma vez recorde de audiência, não somente para musicais, mas atingiu um número de espectadores jamais igualado até hoje por qualquer programa da TV brasileira. Era o ponto culminante do trabalho de todo aquele elenco, que tinha a platéia ideal para exercitar suas ousadias.

O júri prévio teve grande trabalho. Reunido mais uma vez nos fundos da casa dos Medaglia, teve dificuldade em definir as 36 eleitas. Sérgio Cabral defendeu com unhas e dentes a classificação de um samba estranho do Sérgio Ricardo, Beto Bom de Bola, que mais tarde iria dar o que falar. Gil, para fugir do regulamento, inscreveu como de autoria da Nana Caymmi Bom Dia, mais um tema urbano que chamou a atenção do júri prévio. Johnny Alf classificou Eu e a Brisa; Edu Lobo, Ponteio; Chico Buarque veio com Roda Viva.

Convocando Elis para defender sua música, Dori Caymmi e Nelson Motta classificaram O Cantador; Luiz Carlos Paraná convenceu Roberto Carlos a cantar Maria, Carnaval e Cinzas; O Combatente era uma triste tentativa de Walter Santos e Tereza Souza de entrar no clima festivalesco, contrariando todo o seu trabalho anterior, que o júri prévio deixou passar muito provavelmente por respeito aos autores. O Vandré, buscando um tema que não ferisse suas posições e representasse a classe que presumia ser seu eleitorado, classificou uma coisa estranha, movida a buzinas iluminadas, em uma tentativa de repetir o efeito causado pela queixada de burro, que falava do chofer de caminhão, De como um Homem Perdeu seu Cavalo e Continuou Andando, ou Ventania.

As gravadoras, percebendo o grande veículo em que o festival havia se transformado para seus artistas, passaram a incentivar a formação das torcidas, o que viria a perturbar o desenvolvimento normal da competição, desviando-a do caminho político,que havia ocupado até então, para o do marketing de artistas e gravadoras.

Em 1967, logo na primeira eliminatória, uma imensa torcida foi organizada para “apoiar” O Combatente, cantada pelo Jair Rodrigues. Sua desclassificação foi merecida no meu entender, pois era um trabalho que nada tinha a ver com o que o Walter Santos e a Tereza Souza haviam feito até então, que buscava nitidamente a reação da platéia através de recursos festivalescos. Foi a primeira. grande vaia dos festivais, o que deu início a uma seqüência de acontecimentos desagradáveis.

Mais grave foi a rejeição, pela platéia, ao samba de Sérgio Ricardo, Beto Bom de Bola, que mais uma vez, ajudado pelo jurado Sérgio Cabral, conseguiu ser uma das classificadas para a finalíssima. Era um samba mal-ajambrado que, a não ser pelo lado social, com argumento de Sérgio Cabral, nada tinha a ver com o talento de Sérgio Ricardo, que por sinal cantou muito mal.

Quando a música foi apresentada na final, Sérgio, que já tinha sido mal recebido, pediu a atenção para o “novo” arranjo, o que desagradou ainda mais a platéia, além de contrariar o regulamento, que não permitia que a música sofresse qualquer modificação entre uma apresentação e outra. Sérgio tentou cantar, mas a manifestação foi tão ruidosa que ele nem sequer conseguia ouvir o acompanhamento. Interrompeu a música e tentou argumentar. Como a vaia era ininterrupta, passou a ameaçar a platéia. Era ele contra uns três mil, mais ou menos. Em determinado momento, perdendo totalmente o controle, gritou: “Está bem, vocês venceram”, quebrou o violão no banquinho e o atirou na platéia. Foi desclassificado. Nem precisava.

Nesse festival o júri deixou passar em brancas nuvens Eu e a Brisa, do Johnny Alf, lindamente defendida pela Márcia, felizmente descoberta pelo público, que a transformou num dos maiores sucessos de 67. Fico pensando no que teria acontecido se a linda melodia de Johnny Alf tivesse sido cantada pela Elis. O júri prévio também andou dando suas mancadas, não percebendo Máscara Negra, do Zé Keti, que arrasou no carnaval seguinte.

Aos que protestaram contra o júri prévio, alegando que suas músicas não tinham sido ouvidas com a atenção merecida, abrimos o Teatro Record e permitimos que fosse feita uma apresentação das músicas dos compositores que se julgavam injustiçados. Demos aos insatisfeitos todas as condições técnicas e tempo para que ensaiassem. Depois de alguma divulgação, na noite dos revoltados, o Teatro Paramount estava lotado. O clima era de hostilidade, afinal cada compositor inscrito achava ser a sua a melhor música jamais composta. Era só apresentá-la e esperar pela entrega do cheque. Foi uma noite cheia de manifestações de novas torcidas a defender parentes e amigos. Por momentos chegou até a lembrar um festival de verdade.

A manchete do Jornal da Tarde, no dia seguinte, foi a melhor resposta que poderíamos ter tido: “O Júri Tinha Razão”. Edu Lobo, com um trabalho impecável, venceu o festival de 1967 com Ponteio, que tinha a parceria de Capinan. Era de uma competência impressionante e de uma força irresistível, sem apelar para os chavões que levantavam as platéias. Edu, Marília Medalha, o vocal do Momento Quatro e o Quarteto Novo fizeram uma apresentação que dificilmente outra música poderia superar, mas foi também exemplo de que, em geral, um júri, por mais que apregoe modernidade, tem sempre uma tendência conservadora.

Era um período de mudanças. O mundo jovem se agitava. Na Europa, o som dos rapazes de Liverpool, de Jimi Hendrix e Janis Joplin quebrava tabus e as novas gerações questionavam o que lhes era servido como moral. A primeira vez que ouvi o disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, foi na cabine do Teatro Record.

Zuza Homem de Mello, então principal engenheiro de som da emissora, havia recebido um exemplar e, tendo aparecido na minha sala com a novidade, onde eu fazia uma reunião com Caetano Veloso, não conseguiu mais se livrar de nós, até que, vencido pelos vários apelos e algumas ameaças, nos levou para que finalmente pudéssemos conhecer o que viria a ser um dos marcos dos anos 60. Após A Day In The Life, a última faixa do LP, saí da cabine como se tivesse sido dopado, tal a impressão que o disco causou. Caetano e eu descemos em silêncio até a minha sala e assim ficamos por muitos minutos, pois nada havia para ser dito naquele momento de espanto.

She’s Living Home, um marco contra a hipocrisia e a intolerância dos pais ante a nova postura dos jovens. George Martill, o produtor musical e arranjador do disco, utilizando as experiências contemporâneas de Stockhausen em A Day In The Life, rompia os limites da música pop. Lucy In The Sky With Diamonds abria mentes e permitia que, sem lenço e sem documento, Alegria Alegria sugerisse esse tipo de sutileza quase subliminar. Embora Caetano negue que tenha sido intencional, e ele deve falar a verdade, a associação é inevitável.

Domingo no Parque, com sua cinematográflca abordagem do drama do João, que amava Juliana, que amava José, tão bem arranjada pelo Rogério Duprat, que se lembrou do talento dos The Six Sided Rockers, significativamente rebatizados de Mutantes, derrubou a barreira do preconceito que os tradicionalistas erguiam contra uma linguagem universal para a música brasileira. A reação da platéia diante de Gilberto Gil foi de delírio total, transformando em sussurro as eventuais vaias que tentavam impedir que guitarras elétricas acompanhassem uma das manifestações mais significativas da cultura brasileira da época. Já na tarde de sua primeira apresentação, o ensaio foi arrasador.

Era o assunto de todos os que acompanhavam os trabalhos no Teatro Record, mas principalmente assunto do próprio Gil, que falava tanto e tão alto que atrapalhava os ensaios das outras músicas que seriam apresentadas. Fui obrigado a chamar sua atenção, o que o fez sair meio ressabiado. Algumas horas depois, recebo um telefonema do Paulinho de Carvalho. apavorado, dizendo que o Gil se recusava a apresentar a música naquela noite, por ter sido destratado por mim na frente de todo mundo. O Paulinho foi ao hotel Danúbio, onde Gil estava hospedado com Nana Caymmi, então sua mulher, tentar convencê-lo a desistir da desistência. Paulinho encontrou o Gil deitado, com rosto coberto por uma grande toalha enrolada na cabeça e outra nos pés, dizendo que já estava feliz pelo resultado da gravação do Domingo no Parque, que tinha acabado de registrar, e que não set sentia com condições psicológicas para cantar naquela noite.

É evidente que Gil estava pressionado por uma tremenda insegurança afinal, estava quebrando tabus e limites sem saber qual seria a reação da ala conservadora da MPB à sua ousadia. Lá fui eu me desculpar com o tagarela, que estava quase perdendo a oportunidade de dar um salto fantástico em sua carreira, além de transformar aquela noite em história para a MPB.

Em outra eliminatória encontro o Guilherme Araújo, muito apreensivo antes da apresentação de Alegria Alegria. Caetano havia escolhido para acompanhá-lo um grupo de músicos chamado Beat Boys, que tocavam absolutamente imóveis e, em suas apresentações no Beco, uma casa noturna de grande sucesso na época, então dirigida com grande competência e classe por Abelardo Figueiredo, emocionavam os que já amavam os Beatles e os Rolling Stones. Grandes cabeleiras, armados de guitarras e baixos elétricos, mais poderiam parecer os inimigos do Fino do que defensores da MPB tão amada.

Caetano estava longe do tímido baiano que arrasava ao ouvir do Blota: “...e a palavra é...”. Naquela noite, sua boa palavra seria julgada naquele teatro lotado de gente emocional e emocionada. Sua entrada no palco, cabelos encaracolados, o mesmo terno quadriculado e o sorriso irônico que mais parecia o do Coringa, saído das histórias em quadrinhos do Batman, acompanhado daqueles estranhos seres, que carregavam instrumentos até então proibidos, chocou a platéia, que, parecia, iria rechaçá-lo ao primeiro acorde. A vaia foi monumental.

Caetano entrou no palco enfurecido, caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento. Mas os sons e o ritmo alegre e descontraído da marchinha Alegria Alegria acabaram por fazer aquela gente ouvir a pergunta crucial que a letra sugeria para aquele momento maravilhoso: “Por que não?” e repetia “por que não?”, e mais uma vez ainda: “por que não?” Aquela gente então deve ter se perguntado: “Ora, e por que não?”, e aplaudiu em delírio o assustado Caetano, que, de tão surpreso com a ovação inesperada, caiu de bunda no palco, sorrindo, consagrado, maravilhado. Ele, o filho abusado de dona Canô, o exibido de Santo Amaro da Purificação, o irmão da Berré, que, se dependesse de seu empresário, nem deveria cantar.

Guilherme Araújo, com lágrimas nos olhos, invadiu os bastidores. Ao passar por mim, agarrou os meus braços e, parecendo não acreditar no que tinha acontecido, perguntava sem parar: — Meu querido, você viu? Você viu? — Viu o que, Guilherme? — Viu o que aconteceu com o Caetano? — Claro que vi, Guilherme. E o Brasil inteiro também viu".

Fonte: Prepare seu Coração (A História dos Grandes Festivais) – Solano Ribeiro – Geração Editorial, 2002

quarta-feira, outubro 03, 2007

Bienal do Samba

I Bienal do Samba - TV Record (maio, 1968):

1º - Lapinha, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, com Elis Regina; 2º - Bom tempo, de Chico Buarque, com Chico Buarque e MPB-4; 3º - Pressentimento, de Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho, com Elza Soares.

“O protesto dos sambistas, endossado pelos jornalistas, críticos de música, principalmente os do Rio de Janeiro, reclamando que o samba não tinha tido uma presença marcante no festival, fez com que criássemos a Bienal do Samba.

O sucesso do programa “Bossaudade”, apresentado por Ciro Monteiro e Elizete Cardoso, com um elenco basicamente “velha guarda”, justificava mais esta experiência. Um evento competitivo, cujos participantes foram escolhidos por uma comissão especial. Cada compositor indicado inscrevia a música que quisesse, sem julgamento prévio, desde que foss inédita, cláusula do regulamento que, para meu desespero, causou a desclassificação da belíssima Wave de Tom Jobim, porque já tinha sido gravada nos Estados Unidos por Sérgio Mendes.

Chico Buarque inscreveu um maxixe, Bom Tempo; Ataulfo Alves veio com Laranja Madura; Paulinho da Viola trouxe Coisas do Mundo, minha Nega; Baden Powell inscreveu Lapinha, em parceria com Vinícius de Moraes, que seria cantada por Elis Regina.

Enquanto eram concluídos os preparativos para a Bienal, em uma tarde de ensaios, pelos corredores do Teatro Record, ouvia-se o eco de uma batucada irresistível. Um bando de sambistas irradiando uma alegria contagiante ensaiava um número no qual faziam a base rítmica para algum samba a ser apresentado no “Bossaudade”. Eram Os Originais do Samba.

Imediatamente os convoquei para participarem da Bienal, e qual não foi a minha surpresa quando a maioria dos compositores inscritos, à medida que iam ouvindo o grupo, fazia questão de tê-los participando de seus números. Foi difícil deixar de atender. O resultado final foi de uma lógica cristalina: Lapinha, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, cantada pela Elis e com o apoio dos Originais do Samba, dominou a Bienal desde a sua primeira apresentação e se tornou um número imbatível. Além de levar Lapinha ao primeiro lugar, Elis foi a melhor intérprete.

Em segundo lugar ficou Bom Tempo, de Chico Buarque, em terceiro Pressentimento, de Élton Medeiros e Hermínio Belo de Carvalho, em quarto Canto Chorado, de Billy Blanco, em quinto Tive Sim, do Cartola, em sexto Coisas do Mundo, minha Nega, de Paulinho da Viola, e em sétimo Marina, de Sinval Silva.

Na preparação da Bienal do Samba a necessária convivência com o elenco do programa “Bossaudade”, além de uma experiência humana maravilhosa, às vezes nos levava a momentos engraçados. Era comum a turma liderada pelo Ciro Monteiro, e sempre na companhia de Araci de Almeida, sair para jantar depois do programa. Antes e durante a gravação era regra que ninguém bebesse, mas depois...

Após um ruidoso jantar, aquele grupo alegre e descontraído de sambistas perdidos na noite da paulicéia desvairada saía a pé pelas ruas do centro, caminhando e sambando, em uma verdadeira crucis pelos bares onde ainda existia música ao vivo rolando. De canja em canja, e de gole em gole, a noite ia passando e o time aumentando. Era comum aquele bando acabar no café da manhã do Hotel Normandie, na avenida Ipiranga, onde a Record tinha permuta para hospedar seus artistas.

Certa madrugada, com os primeiros lampejos do dia nos ameaçando, ao passarmos pela esquina da avenida Ipiranga com a São João, Araci de Almeida, com seu jeito autoritário, disparou com solenidade: “Agora, em homenagem ao Paulinho Vanzolini, que fez a fama desta avenida, eu convido todo mundo para uma última rodada”. Assumiu então a frente do grupo, que, obediente, não . tinha outra alternativa senão segui-la. Uma dose a mais ou a menos já não faria muita diferença. Para surpresa geral, a Araca levou a turma para uma farmácia e foi logo ordenando a um espantado atendente: “Manda uma vitamina B12 na veia dessa moçada, senão ninguém vai chegar em casa com o figado inteiro”, e acrescentou: “Essa quem paga sou eu!”.

Na verdade, tanto nos festivais da Excelsior como no da Record, o samba mostrou que não tinha como competir, pelo menos naquele momento, com os novos ritmos que dominavam a música popular brasileira, principalmente com as novas formas dinâmicas dos arranjos feitos especialmente para obter reações emocionais das platéias, já condicionadas a eleger sua favorita e torcer por ela.

A competição trouxe muitas deformações, mas era o que atraía a atenção para o espetáculo do festival, sempre construído de forma a ser, desde as eliminatórias, um simples mas atraente programa musical de televisão. Minha intenção sempre foi utilizar o festival como um painel do que estava sendo feito na música popular em todo o país. Isso resultou em uma diversidade muito grande de ritmos e estilos, do regional ao experimental, que eu fazia questão de manter sempre presente.

A possibilidade de apresentar um novato ao lado de um nome consagrado em igualdade de condições fazia do festival a única porta de entrada para um novo compositor e também para o lançamento de novos cantores e grupos, pois o seu extraordinário sucesso atraía todas as atenções, não só do público, dos críticos e da imprensa em geral, mas também dos responsáveis pelo mercado do disco, em geral incompetentes para lançar qualquer coisa que não preencha as expectativas do que costumam rotular de comercial ou, como se usa hoje, de mercado.

Confundem popular com vulgar e esquecem que a platéia brasileira responde de imediato e com entusiasmo toda vez que é colocada diante de uma música de boa qualidade. Hoje o peso da televisão é muito grande, mas infelizmente a maioria dos seus dirigentes está mais preocupada com os índices de audiência e não com qualquer compromisso coerente com a cultura do país, considerando a música brasileira mero subproduto.

Raras foram as vezes em que a MPB foi utilizada como um trabalho especialmente composto para o seu principal instrumento de faturamento que são as novelas. É impressionante constatar que o veículo que poderia ser importantíssimo para a divulgação do trabalho de compositores brasileiros e da nossa música em geral, popular ou erudita, é utilizado para o lançamento de coletâneas desconexas, aproveitando ou até fazendo o sucesso do que já foi testado como comercial.

A tal trilha internacional então é aberração definitiva. Assistimos, em um contexto brasileiro, a um personagem brasileiro ser brindado com um tema completamente dissociado de seu caráter, a serviço do lançamento de algum novo fonograma que tenha aparecido com algum destaque na parada de sucesso internacional.

A esperança é que a TV a cabo consiga valorizar a segmentação e que a força do mercado convença as Emitivis a aumentar ainda mais a participação da música brasileira nas suas programações e não tenhamos mais de assistir aos DJs falando nomes absolutamente desconhecidos do nosso público, com tal naturalidade e intimidade, como se tivessem acabado de encontrá-los na esquina. Quem sabe ainda teremos alguma EmePeBeTV. E não pensem que eu não gosto da música americana. Mas isso fica para depois.”

Fonte: Prepare seu Coração - A História dos Grandes Festivais - Solano Ribeiro - Geração Editorial.

A derrocada dos Festivais

Aquele Abraço - Campanha publicitária da Petrobrás em 1969Com a imposição do Ato Institucional n° 5, seus efeitos fizeram-se sentir na sociedade como um todo. As expressões culturais em geral, e a música em particular, já eram vistas como espaços possíveis de resistência e subversão. 

O IV Festival de MPB da TV Record mal havia terminado, quase coincidindo com a edição do AI5 e, a 27 de dezembro de 1968, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram detidos em São Paulo, em princípio para prestar depoimentos. Numa perua Veraneio, veículo de transporte da polícia, os dois compositores terminaram no Rio de Janeiro no Regimento de Pára-quedistas, de onde só cinco meses depois seriam soltos para, a “conselho” das autoridades, deixarem o país. Do exílio, em Londres, só voltariam quase três anos depois. Para justificar a prisão desses artistas, o DOPS buscou outros indícios para reforçar a medida:

Declarações datadas de 27.11.1969 de Antonio Carlos Martins, argentino, traficante de tóxicos — cocaína. Com referência a Caetano Veloso, consta que é ‘seu cliente’ (Documento 50-Z-9-1 1915. Arquivo do DOPS. Arquivo Público do Estado de São Paulo).

Para além da acusação de subversão, somava-se um depoimento talvez forjado — que permitia enquadrar Caetano Veloso corno um drogado. No arquivo do DOPS, Caetano Veloso freqüentemente é citado como “marginado” (sic), “sem qualificação” e, agora, como viciado em drogas. Se olhássemos friamente essas fichas, sem o conhecimento da obra de Caetano, imaginaríamos outra pessoa, incapaz de criar versos que até hoje, há 30 anos, nos vêm facilmente à memória e remetem ao entendimento de uma época. Mesmo presos, Gil e Caetano tinham livre sua obra, que mesmo em outras vozes ousavam desafiar:

Informe n. 42 datado de 17.2.1969 da 4a. Zona Aérea, constando que no programa de televisão “Vida Paixão e Banana do Tropicalismo”, havia alguns pontos discutidos e recusados pelos patrocinadores pelo seu conteúdo agressivo, fora de lugar, num programa que deveria ter sido um musical. Entre os tópicos cortados, consta a parte musical de números como “Tropicália’, de Caetano Veloso, onde inclusive constam no arranjo, algumas notas do hino internacional comunista etc. (Documento 50-D-26-787. Arquivo do DOPS. Arquivo Público do Estado de São Paulo).

A música Sabiá, referia-se ao exílio de intelectuais e políticos de oposição e que logo atingiria os compositores da MPB. Geraldo Vandré, que fora para o Chile, Chico Buarque, para a Itália e Edu Lobo para os EUA, comporiam o time de artistas “convidados” ao retiro. Ainda que o exílio significasse, para quem o impôs, urna forma de afastar alguma voz incômoda, a ausência desses compositores era lamentada por parte do público, como na carta de uma leitora do semanário Pasquim:

Tendo acabado de ler o número 12 desse precioso informativo, tomo da máquina de escrever para rogar-lhes responder-me, com urgência urgentíssima, uma questão de suma e vital importância: Cadê o Chico Buarque? Sem ele, o PASQUIM não é PASQUIM, e sim pasquim. Assim como, sem ele, onde está a música? Só tem dado música por aí. Talvez possam os senhores (podem acrescentar um ‘digno’ antes dos senhores, não vou cobrar) também informar se e quando Chico está por estas bandas (juro que não foi intencional) ou, pelo menos, quando é que vou ficar de novo grudada na vitrola, sentindo todas as poesias que ele se dá ao luxo de musicar. Quando é que vamos ter mais Chico? Chico é poesia e sem poesia a vida é muito chata (Carta enviada pela leitora Adélia Cruz, de São Paulo, capital, para o Pasquim, n. 13, setembro de 1969, p. 16).

Se a presença desses autores incomodava pelo movimento de reflexão que proporcionavam, a ausência deles não cessava esse movimento. Os compositores e intérpretes que aqui ficaram não gozaram de melhor sorte, pois o cerco da censura sobre suas composições crescia e era quase impossível o trabalho autônomo, sem a interferência da censura. Os festivais organizados a partir de 1969, sem a presença daqueles compositores consagrados, sentiram os efeitos daquela “diáspora” e da repressão. A ausência daqueles abre espaço para novos compositores, mas o contexto político-ideológico contribuiu para o aparecimento de canções que destoavam das que, até então, marcaram indelevelmente os festivais. A exceção, talvez um último suspiro da MPB nos festivais, tenha sido a música Sinal Fechado, de Paulinho da Viola, vencedora do V Festival de MPB da Record:

Olá, como vai / Eu vou indo e você tudo bem / Tudo bem eu vou indo / Correndo pegar meu lugar / No futuro e você / Tudo bem eu vou indo / Em busca de um sono tranqüilo / Quem sabe / Quanto tempo, pois é quanto tempo / Me perdoe a pressa / E a alma dos nossos negócios / Pois não tem de que / Eu também só ando a cem / Quando é que você telefona / Precisamos nos ver por aí / Pra semana prometo talvez nos vejamos / Quem sabe / Quanto tempo, pois é quanto tempo / Tanta coisa que eu tinha a dizer / Mas eu sumi na poeira das ruas / Eu também tenho algo a dizer / Mas me foge à lembrança / Por favor telefone eu preciso saber / Alguma coisa rapidamente / Pra semana — o sinal / Eu procuro você — vai abrir / Prometo não esqueço / Por favor não esqueça / Não esqueça Adeus — adeus

VIOLA, P. da. Sinal Fechado (LP). Paulinho da Viola. São Paulo: EMI-Odeon (31C 052422023), s/d.

As outras músicas classificadas no mesmo festival já não traziam qualquer denúncia mais explícita sobre a realidade da época. Vejamos a letra de outra vencedora, Cantiga por Luciana, de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, interpretada pela estreante Evinha, que venceu o IV Festival Internacional da Canção, da TV Globo, em 1969:

Manhã / No peito de um cantor / Cansado de esperar só / Foi tanto tempo que nem sei / Das tardes tão vazias / Onde andei / Luciana, Luciana / Sorriso de menina / Dos olhos de mar / Luciana, Luciana / Abrace essa cantiga / Por onde passar / Nasceu / Na paz de um beija-flor / Um verso em voz de amor / Já desponta os olhos da manhã / Pedaços de uma vida / Que abriu-se em flor / Luciana, Luciana (...)
(*) SOUTO, E. e TAPAJÓS, P. As canções que lembram você (LP). Evinha. São Paulo: EMI-Odeon (60560088), s/d.

Músicas como esta, certamente não se destacariam naquele ano se não fosse o cerco imposto à MPB. Havia música popular brasileira, mas a MPB, sigla que designava uma música propiciadora de reflexão e portadora de uma postura crítica, migraria para espaços menos privilegiados, nos interstícios do sistema, naquilo que Gilberto Vasconcelos designou de “frestas”.

Em Sinal Fechado, o autor já colocava em dúvida o possível reencontro com os compositores que se foram: “Quando é que você telefona / Precisamos nos ver por aí / Pra semana prometo talvez nos vejamos / Quem sabe ...“. O futuro era incerto e, por enquanto, havia obstáculos para se dizer, a afasia imperava na música: “Tanta coisa que eu tinha a dizer (...)“.

Enquanto a MPB se mantinha na intenção, esse espaço outrora repleto de protestos e denúncias, alguns mais explícitos, ou mesmo poéticos, era preenchido por canções afásicas, destituídas da incipiente tradição constituída nos festivais. Uma tradição que fora construída nas composições, em versos bem trabalhados, no palco, onde a disputa se dava a partir da mensagem crítica e, para além de tudo isso, no público, que se posicionava aplaudindo, vaiando e utilizando o espaço dos festivais para interferir na realidade.

Levamos ao conhecimento dessa Chefia que segundo comentário no meio estudantil de São Paulo, Chico Buarque de Holanda, Wilson Simonal e outros artistas vinculados ao setor radiofônico estariam articulando a realização de uma passeata, que aparentemente se relacionaria com o ‘Festival da Música Popular Brasileira’. Essa passeata, no entanto, propiciaria a infiltração de universitários que, ao seu final, apresentariam faixas e cartazes anunciando o encerramento do XXIX Congresso da UNE, burlando, dessa forma, a repressão policial. Segundo consta, ainda, o único que por enquanto manifestou-se contrário à idéia, foi o cantor Roberto Carlos, que colocou-se à margem dos entendimentos que nesse sentido estariam entabulados.

Nota: É de se notar que o referido festival foi inaugurado, há cerca de quinze dias, com uma concentração e posterior passeata, que se iniciou no Largo São Francisco com destino ao Teatro Record-Centro (Teatro Paramount). ‘SEP’, em 7-Ago-1967.( Documento 50-C-22-1647. Arquivo do DOPS. Arquivo Público do Estado de São Paulo).

O festival mencionado foi o III Festival de MPB da TV Record que, além de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, contou com a presença de Roberto Carlos. Com o endurecimento do regime político e o A.I.5, os festivais foram sendo conquistados, pois, se a cultura é um campo de lutas, os festivais, em todos os seus espaços de atuação, também o eram.

Em 1970, Caetano e Gil ainda em Londres, Chico Buarque retorna ao Brasil, e o compacto com a música Apesar de Você é vetado pela censura. (Enquanto isso, o hino Pra Frente Brasil, de Miguel Gustavo, feito para a seleção brasileira de futebol que buscava a conquista do tri-campeonato mundial no México, alcançava enorme êxito popular).

Amanhã vai ser outro dia / Hoje você é quem manda / Falou, tá falado, não tem discussão, / A minha gente hoje anda falando de lado / E olhando pro chão, viu / Você que inventou esse estado / E inventou de inventar toda a escuridão / Você que inventou o pecado / Esqueceu-se de inventar o perdão / Apesar de você, amanhã há de ser outro dia / E eu pergunto a você onde vai se esconder / Da enorme euforia / Como vai proibir / Quando o galo insistir em cantar / Água nova brotando, e a gente se amando sem parar / Quando chegar o momento / Esse meu sofrimento vou cobrar com juros, juro! / Todo esse amor reprimido, esse grito contido / Esse samba no escuro / Você que inventou a tristeza / Ora, tenha a fineza de desinventar / Você vai pagar e é dobrado / Cada lágrima rolada nesse meu penar / Apesar de você, amanhã há de ser outro dia / Ainda pago pra ver o jardim florescer / Qual você não queria / Você vai se amargar / Vendo o dia raiar / Sem lhe pedir licença / E eu vou morrer de ‘rir / E esse dia há de vir / Antes do que você pensa / Apesar de você, amanhã há de ser outro dia / Você vai ter que ver / A manhã renascer e esbanjar poesia / Como vai explicar / Vendo o céu clarear de repente, impunemente / Como vai abafar / Nosso povo a cantar na sua frente / Apesar de você, amanhã há de ser outro dia /
Você vai se dar mal, etc e tal ... (Apesar de Você)
(HOLANDA, C. B. de. Chico Buarque (LP). Chico Buarque. Rio de Janeiro: Philips (6349398), 1978).

A gravação dessa música seria permitida somente em 1978, momento em que é revogado o A.I.5 e tem andamento o processo de anistia, permitindo o retorno de exilados. Nessa composição, Chico Buarque lança mão outra vez da metáfora do dia que virá. O autor começa com o diagnóstico sobre como é o dia de hoje. O sujeito da letra é indeterminado, mas tem endereço certo: “Hoje você é quem manda / Falou, tá falado, não tem discussão, não (...)“. Enquanto Apesar de Você era proibida, o V Festival Internacional da Canção da TV Globo premiava em primeiro lugar BR-3, de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, na interpretação de Tony Tornado.

A gente corre / E a gente corre na BR-3 / E a gente morre / E a gente morre na BR-3 / Há um foguete / Rasgando o céu, cruzando o espaço / E um Jesus Cristo feito em aço / Crucificado outra vez / Há um sonho / Viagem multicolorida / Às vezes ponto de partida / As vezes ponto de um talvez / Há um crime no longo asfalto dessa estrada / E uma notícia fabricada / Pro novo herói de cada mês / Na BR-3 Por isso eu morro na BR-3 / Por isso eu corro, corro / E tiro do vento na BR-3 / E novo vento na BR-3 / E o mundo se move na BR-3 / I love you baby, baby / Eu morro / Por isso tudo eu corro / Corro na BR-3... (ADOLFO, A. e GASPAR, T. / Sem referência de gravação).

A despolitização dos festivais, devido à repressão expressa na censura às canções e no exílio dos compositores, também contou com a participação da indústria cultural. Se os militares foram responsáveis pelos investimentos que garantiram um suporte tecnológico para o funcionamento de uma indústria cultural, no intuito de promover uma integração nacional — idéia central na ideologia da Segurança Nacional — e unificar politicamente as consciências, os empresários interessavam-se pela integração do mercado consumidor (ORTIZ, R. A Moderna Tradição Brasileira. Op. cit., p. 118).

Como a ideologia da Segurança Nacional é ‘moralista’ e a dos empresários, mercadológica, o ato repressor vai incidir sobre a especificidade do produto. Devemos, é claro, entender moralista no sentido amplo, de costumes, mas também político. Mas se tivermos em conta que a indústria cultural opera segundo um padrão de despolitização dos conteúdos, temos nesse nível, senão uma coincidência de perspectiva, pelo menos uma concordância. (Ibid., p. 119).

A censura é um artifício imanente às ditaduras e, no Brasil, foi o preço a ser pago até pelos empresários, já que o Estado controlado pelos militares era o principal incentivador do desenvolvimento capitalista. A busca de uma identidade nacional pelo Estado pelo viés da indústria cultural é reinterpretada em termos mercadológicos: a “nação integrada” é, antes, a interligação dos consumidores espalhados pelo país. Nesse sentido, o nacional identifica-se ao mercado.

Os festivais de MPB eram locais de resistência para público, compositores e intérpretes e também espaço para início da carreira destes; para os patrocinadores eram vitrinas em que exibiriam seus produtos. As músicas que se destacavam pelo conteúdo de denúncia sócio-política, conectando seus compositores à realidade, na lógica das gravadoras, eram vendidas como produtos no mercado.

Aproveitando-se do sucesso dos festivais, outros produtos eram ligados às músicas, às imagens contidas nas letras, aos instrumentos e aos próprios compositores e intérpretes. Para se ter uma idéia do alcance dos festivais — um dos principais produtos oferecidos pela televisão de então —, em 1959 o número de aparelhos em uso no Brasil era de 434 mil; em 1969 saltou para 4,36 milhões. Levando-se em conta que era comum a reunião de familiares, amigos e vizinhos em tomo de cada aparelho, o público receptor se multiplica.

Os festivais de MPB e suas músicas são apropriados como produtos retrabalhados e re-significados para vender outros produtos. É o caso da Petrobrás que, em 1969, lança uma campanha publicitária cujo mote é Aquele Abraço, aproveitando o título, a letra e as figuras da música de Gilberto Gil, feita às vésperas da partida do compositor para Londres.

Num momento em que o Estado e as multinacionais são os maiores investidores em publicidade, ironicamente o mesmo Estado que prende e depois expulsa do país, utiliza o trabalho de uma persona non grata para promover sua principal empresa. A lógica do mercado esvaziava, assim, qualquer intenção de politização na música.

O Rio de Janeiro continua lindo / O Rio de Janeiro continua sendo / O Rio de Janeiro, fevereiro e março / Alô, alô realengo / Aquele abraço / Alô torcida do Flamengo / Aquele abraço / Alô moça da favela / Aquele abraço / Todo mundo da Portela / Aquele abraço / Todo mês de fevereiro / Aquele passo / Alô banda de Ipanema / Aquele abraço / Meu caminho pelo mundo / Eu mesmo traço / A Bahia já me deu / Régua e compasso / Quem gosta de mim sou eu / Aquele abraço / Pra você que me esqueceu / Aquele abraço (...) Todo povo brasileiro / Aquele abraço (GIL, G. Á Arte de Gilberto Gil (LP Álbum). Gilberto Gil. São Paulo: Fontana (6470537), 1975).

Com o A.I.5, a atuação dos compositores fica restrita, pois o exílio e a censura prévia banem a possibilidade de apresentações e a participação em festivais. As agências de publicidade, vinculando refrões e imagens ligadas às composições, conseguem, pela ótica do mercado de consumo, a obediência que a ditadura não conseguiu com prisões e expurgos. Ao retrabalharem a canção numa linguagem, sobretudo visual, as agências descaracterizam-na, contribuindo para a despolitização das pessoas — tornados consurnidores —, anulando qualquer denúncia e colocando-a a seu serviço, estimulando vendas e, no caso das estatais, revertendo maiores lucros ao governo e fortalecendo-o.

(..) A produção de imagens fornece também uma ideologia dominante. A transformação social é substituída por uma transformação das imagens. A liberdade de consumir uma pluralidade de imagens e bens equivale à própria liberdade. A conota ção da liberdade de opção política em liberdade de consumo econômico exige a produção ilimitada e o consumo de imagens (SONTAG, S. “O Mundo-Imagem”. In Ensaios sobre a Fotografia. Rio de Janeiro: Arbor, 1981, p. 171).

Mesmo antes do A.I.5, essa relação entre festivais e patrocinadores já existia. Juca Chaves, tido como compositor talentoso, associou sua imagem a Abbey, o “whisky dos ‘experts’. Wilson Simonal, participante de vários festivais, até 1969 era garoto-propaganda da Esso; a partir daquele ano trocou o tigre da Esso pelo elefante da concorrente Shell (Revista Veja. São Paulo: Abril, ano II, n. 55, 24 de setembro de 1969, p. 58 e 59.)

Essa apropriação da música pela indústria de consumo, porém, não ficou restrita à MPB. As expressões e as figuras características da Jovem Guarda foram associadas a marcas de cigarros e à própria TV Record, responsável pelo programa dominical. Outra forma de associar um produto aos festivais era tê-lo utilizado pelos compositores e intérpretes. É o caso do violão, carregado de significados, pois representava a brasileira MPB em oposição às guitarras elétricas e instrumentos eletrônicos que abundavam no rock e no ié-ié-ié.

Com o sucesso dos festivais, as vendas de violão crescem consideravelmente, num primeiro momento devido à Bossa Nova e, depois, pelas interpretações marcantes de composições de Geraldo Vandré, Chico Buarque, Sérgio Ricardo e, no pré-tropicalismo, de Gilberto Gil e Caetano Veloso. É revelador o depoimento do presidente da empresa Di Giorgio, à época um estudante que engrossava o público dos festivais:

(...) A empresa... tinha uma linha diversificada de instrumentos, da qual a gente pode destacar cavaquinho, bandolins, viola, chegamos a fabricar até violinos, basicamente instrumentos de cordas acústicos. E após o advento da Bossa Nova e a era dos festivais, nós concentramos e passamos a fabricar somente violão ... Nós conseguimos criar uma imagem forte com o violão em função dessa estrada que nós trilhamos, a partir dos anos 60... Construímos este edifício onde você está agora com o resultado dessa grande venda que teve na época... E nós passamos de uma produção, pra você ter uma idéia, de 50 violões/dia que nós fabricávamos pra 150 violões/dia... A somatória do advento dos festivais com a Bossa Nova foi um divisor de águas para a empresa... foi uma coisa muito importante na época.(...) (Depoimento de Reinaldo Di Giorgio Jr, em 31 de julho de 1997, em São Paulo).

No caso do violão, se a MPB e a Bossa Nova contribuíram para acelerar sua popularização e consumo, a indústria reforçou uma tradição musical: um instrumento vendido como produto de consumo, nas mãos do consumidor torna-se veículo de memória, constituindo-se numa outra fresta por onde a MPB poderia penetrar e manter-se em movimento — sendo cantada e participando das experiências do público.

Fonte: MPB em Movimento - música, festivais e censura - Ramon Casas Vilarino - Editora Olho D'Água.