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domingo, dezembro 08, 2013

Herivelto Martins - Dicionário Ilustrado

Herivelto Martins é um compositor dos mais irregulares. De repente ele acerta e mete lá um samba de grande classe; mas com a mesma facilidade larga na praça cada bomba de encabular o próprio Getúlio Macedo, que é o Barreto Pinto dos compositores.

Desde que lançou aquele samba da “Praça Onze” que Herivelto sofre o complexo do apito. Quando o “Praça Onze” agradou ele castigou logo em seguida o “Laurindo”, aquele que dizia assim:

— Laurindo, pega o apito... etc., etc.

Laurindo sumiu e o apito ficou com Herivelto. Desde desse tempo ele apita mais que trem Maria Fumaça quando vai chegando em Bonsucesso. Isso é engraçado, porque Herivelto sabe fazer samba. Mas o que é que se vai fazer. Ele quer é apitar e entrar em todas as gravações, para poder — não somente apitar mais — como também gritar: “A União das Escolas de Samba pede Passagem e avisa ao povo que o Carnaval chegoouooooouuuuuuuuu!”. Em seguida um breque do surdo e tome apito.

Outra faceta muito interessante de Herivelto Martins: é doido para botar letra em tudo que é melodia que lhe vem à cabeça. Não quer saber se a melodia é original, se é folclore ou se é do Fernando Cesar — o compositor de sabonete. Ele bota a letra e assina. O resto que se dane. Foi assim agora mesmo, com o tal de “Engole ele paletó”. Foi ele lançar a samba e foi aparecer uma porção de gente pra parceria.

Mas não faz mal. Herivelto é desses que não encabulam. No ano que vem vão derrubar o Teatro Recreio, vão derrubar o morro do Salgueiro e vão tomar outras providências municipais. Dois sambas Herivelto já tem prontos. O primeiro diz assim:

— “A Praça Tiradentes não acaboooooouuuuuu!!!”

E o outro é diferente, pois começa assim:

— “O Salgueiro não morrrreeeeeuuuu!!”

Breque de surdo e tome apito.


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 29/01/1958.

Maysa - Dicionário Ilustrado

Maysa (Perdi meu pente) Matarazzo é Bonjardim de nascença, mas por melhor jardim que ela seja, ser Matarazzo é melhor. Começou a cantar em casa, como todos nós, aliás. Depois — já então casada com Andrezinho Matarazzo — começou a fazer suas musiquinhas e cantar em festinhas íntimas, até o dia em que o Roberto Côrte Real — que é uma espécie de Brício de Abreu, de São Paulo — penetrou numa festa dos Matarazzo e ouviu Maysa cantando. Ficou entusiasmado (aliás não ficou tão entusiasmado assim, mas — sabem como é — a festa estava boa, não custava nada agradar a direção).

Côrte Real era diretor de uma empresa gravadora de S. Paulo — a RGE — e convenceu Maysa de gravar um “long playing” interpretando suas músicas (suas dela). Maysa fingiu que era chato, Côrte Real fingiu que acreditou e insistiu muito. Aí Maysa topou e gravou o disco. O disco começou a agradar e a TV Tupi convidou Maysa para fazer um programa

Maysa fingiu que não queria, a TV Tupi fingiu que acreditou, insistiu muito e Maysa foi. Jordão de Magalhães, dono da boate “Cave”, viu Maysa na televisão e convidou-a para cantar na sua boate. Maysa fingiu que não gostava, Jordão fingiu que acreditou, insistiu muito e Maysa foi.

Aí o Andrezinho se queimou e disse que assim também não. Maysa explicou que era para fundo de benemerência e foi. Um sucesso... Matarazzo ao microfone agrada mais em S. Paulo que gomalina no cabelo do Al Neto.

Maysa já estava consagrada. Veio para o rádio (veio não, foi, porque foi em S. Paulo). Um dia houve uma festa para os melhores do rádio. Maysa foi convidada, Andrezinho acompanhou-a e, quando deu com o ambiente exclamou para si mesmo:

— Eu salto aqui!

E saltou mesmo. Maysa, ao contrário, veio para o Rio, onde o Paul François convidou-a para uma temporada (já como profissional) no seu bar. Maysa fingiu que não queria, Paul François fingiu que acreditou, insistiu muito, ofereceu mais e ela foi.

Aí um empresário de Montevidéu ouviu Maysa, convidou-a para cantar em Punta del Este, Maysa fingiu que não queria, o empresário fingiu que acreditou, insistiu muito e, lá está Maysa... completamente internacional.


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 10/02/1958.

José Vasconcelos - Dicionário Ilustrado

José Vasconcelos — Zé do Vasco para os mais íntimos — é Fluminense, embora do Vasco. É torcedor dos mais apaixonados e aos domingos, enquanto representa, bota um rádio na coxia para ficar sabendo como que é que vai o tricolor no campo. E se o Fluminense faz um “goal” ele pula no palco como se estivesse na arquibancada, pouco se importando com o texto, seja ele de J. Maia, seja de Shakespeare.

Assim é Zé do Vasco, o sujeito complicado mas espontâneo que esta cidade abriga. Na vida artística foi de um tudo: começou locutor na Rádio Ministério da Educação e é muito difícil a gente conceber o gaiato a locutar em tão severos estúdios. Foi por isso talvez que saiu para outros parangolés.

Imitador dos melhores passou a fazer a voz de qualquer speaker conhecido e foi assim que se projetou no rádio. Na Nacional imitava todos, num programa do Paulo Roberto, inclusive o próprio Paulo Roberto, quando este, vítima de algum distúrbio repentino era obrigado a largar o microfone.

Zé do Vasco meteu-se em teatro e ainda não conseguiu sair. Agora mesmo está no Serrador, com a peça “Precisa-se de um Presidente”, onde carrega um grande elenco nas costas, mesmo não sendo um rapaz de costas largas. Certa vez confessou a este seu biógrafo que seu ideal na vida era largar tudo e entrar para o teatro.

— Mas isso você já fez! — insinuamos.

— É mesmo!!! — Exclamou o Zé com um sorriso a iluminar seu rosto.

Mas logo em seguida o sorriso desapareceu e ele, com voz cavernosa, se lamentou:

— Está vendo? Sou um homem sem ideais! — Nessa noite foi pra casa dormir mais cedo.


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 28/01/1958.

Pixinguinha - Dicionário Ilustrado

Pixinguinha, ou melhor, Alfredo da Rocha Viana, é muito justamente considerado o mais puro representante da música popular brasileira tendo mesmo — certa vez — o sociólogo Jeff Thomas chamado o Pixinga de “figura mestra do folclore” o que, está claro, é uma besteira bastante perdoável, em se tratando de Jeff.

Mas não foi por causa dessa citação que Pixinguinha ficou famoso. Antes de Jeff Thomas sair do norte, ele já era popular pouquinha coisa. Tinha tocado na Europa, tinha se destacado como compositor, como orquestrador e como instrumentista.

Ainda mocinho organizou o grupo dos “Oito Batutas”, para tocar no Cinema Falais, com muito êxito. Vanja sai vanja vem, os “Oito Batutas” — que por sinal eram sete — foram para Paris, rebolaram lá à bessa e Pixinguinha ficou com muito cartaz.

Depois voltou, fez-se o melhor orquestrador de música carnavalesca, no tempo que música carnavalesca não era adaptação de calypso, e tocava uma flauta tão bonita que chegaram a apelidá-lo de “o Stanislaw da flauta”. Mas Pixinguinha não era de se chatear. Quando os vivaldinos do teleco teco passaram a dominar o ambiente, Pixinguinha botou a flauta debaixo do braço e ficou sendo uma espécie assim de dona Naná Wynans de Olaria. Organizava festas formidáveis, com chorinho tocando e cachaça descendo.

Diga-se, a bem da verdade, que Pixinguinha sempre foi bom bebedor. Conta-se, inclusive, que de tanto ele derrubar um pouquinho a cachaça no chão, para o “santo”, antes de beber, acabou provocando uma cirrose no dito santo.

Ultimamente, graças à reação imposta por quem aprecia a música popular do Brasil, Pixinguinha voltou ao cartaz e anda gravando como um doido, razão pela qual muita gente foi nas suas águas e faz sucesso relançando sambinha antigo.


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 24/01/1958.

Fernando Lobo - Dicionário Ilustrado

Fernando Lobo, antes de ser Fernando Lobo, era Castro Lobo, violinista e cantor, vejam vocês! Nasceu em Pernambuco, foi criado em Campina Grande e capinou para o Rio ainda mocinho, cidade onde viria a se tornar um dos mais populares autores do samba “Ninguém me ama”.

Compositor de música popular e produtor de programas de rádio, Fernando Lobo, também conhecido pelo apelido íntimo de “Bem-te-vi Maldito”, é dado à vida artística de diversas outras maneiras, tais como a pintura a óleo, a poesia espontânea, o desenho bissexto, etc., etc. Bebe em bar onde seja permitido tirar o paletó e já foi, noutros tempos, um dos mais temidos cronistas da noite. Neste setor foi mesmo um pioneiro, junto com Fred Chateaubriand— que era seu faixa — e Octávio Tyrso, que pertencia a equipe diferente.

Um dia Fernando Lobo se queimou com esse negócio de falar sempre dos mesmos calhordas e resolveu não escrever mais crônica noturna, declarando aos amigos que estava farto de seus personagens. Largou o jornalismo rebolativo e ficou sendo somente crítico. Mas, para provar ao mundo o seu ecletismo, organizou um “show” para determinado empresário, o mesmo a quem ensinara coma se fazia revistinha de “boate”. O empresário era ingrato e Lobinho era queimado, daí o caso formado e nosso biografado sair para outras bossas.

Vanja vai vanja vem, Fernando está se dedicando atualmente à pesca. Mandou vir um caniço muito bom da Suécia (caniço que o Lima Barreto viu e mentiu logo que tinha um igual) e foi pra Barra da Tijuca, esperar que o mar Incendeie para poder comer peixe assado. E lá fica, na areia, de caniço sueco em punho, aguardando os acontecimentos. Em tais ocasiões só atende as pessoas que chamarem, não de Fernando Lobo, mas de “O Lobo do mar”.


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 23/01/1958.

Cauby, o ídolo da juventude brasileira

Foi noutro dia. O Paulo Gracindo, que é um dos maiores gozadores deste país de gozadores, já tinha, maquiavelicamente, imaginado tudo. Chamou o Cauby Peixoto — que vocês devem conhecer ao menos de nome — e propôs:

— Cauby, você vai ser o ídolo da juventude brasileira!

Cauby ficou vermelho de encabulado. Vocês podem pensar que é brincadeira nossa, pois um camarada que se deixa rasgar na rua por macacas contratadas não é de encabular. Mas Stanislaw garante que dessa vez ele encabulou.

Sabem como é, bucho também tem seu dia de vedete, e Cauby, ao ouvir a proposta do Gracindo (Pelópitas para os íntimos) ficou que nem o Ribeiro Fortes quando foi receber o prêmio de melhor ator do ano; sem graça, sem graça!!!

Pelópitas (Gracindo para os de cerimônia), no entanto, insistiu. Que estava falando sério, que a juventude andava mesmo transviada e que ele — Cauby — seria um representante legalérrimo. Depois, sabe como é, a Rádio Nacional estava ali mesmo para oficializar o ídolo. Era só organizar um programa, salpicar umas macacas no auditório e berrar que Cauby era ídolo. As macacas apoiariam e o resto era sopa: mctia-se uma coroa de ídolo na cabeça do “Cauba” e estava oficializado o vexame.

Rapaz de espírito fraco, muito influenciável, Cauby nem percebeu que, por trás dos óculos escuros, Paulo Gracindo satirizava. Recusou ainda, sem muita ênfase e, quando Gracindo já ia desistir dele e começava a pensar no Chico Carlos, falou:

— Então está bem. Eu mando fazer a coroa no meu fornecedor de faixas.

O resto foi realmente um barbada. Naquele programa que o Pelópita faz para chatear o César de Alencar, quando o auditório estava no máximo do seu habitual histerismo, Pelópitas pegou o microfone e anunciou:

— E agora... CA-U-BY PEIXOTO!!! (Gritos de macacas). Atenção, minhas senhoras (senhoras eram as macacas) ... É com a mais subida honra que tenho uma missão a cumprir neste momento (expectativa símia)... Neste instante, aqui neste palco, vai acontecer o maior evento artístico dos últimos tempos. Vou colocar sobre a cabeça de Cauby... (mais gritos das macacas) — a coroa de “Ídolo da Juventude Brasileira”...

Meninos! Parecia que aquela joça vinha abaixo. Delírio na platéia, lágrimas nos olhos de Cauby, rasgação de roupa, o diabo. De pinico na cabeça, a amassar o topete, Cauby se sentia o Tarzan — rapaz que, noutra época, também foi rei dos macacos. Os gritos de “rasga, rasga, rasga” partiam de todos os cantos.

Cauby fugiu para os bastidores com Pelópitas atrás a dizer que ficara uma gracinha, que tinha sido um sucesso, que a juventude afinal ganhara o seu guia espiritual. E Cauby já ia sair para rua com aquilo no alto do quengo, quando Gracindo percebeu e pediu para que ele tirasse a coroa. Não valia a pena sair pra rua assim. Tem muita juventude por aí que não compreende certas coisas e talvez quisesse desagravar a geração.

Mas Stanislaw, que manja Gracindo e sabe que ele é um gozador dos mais lídimos, sabe também que elc está torcendo para haver desagravo. Quanto mais rebolado der a coisa, melhor para o seu programa. No fundo, no fundo o que Pelópitas (Gracindo para os desconhecidos) quer é ver a caveira do Cauby, só para poder anunciar no microfone:

— E agora, senhoras e senhores... a prisão de CA-U-BY PEI-XO-TO!! Sob o alto patrocínio das Lojas Mi Despe, vamos irradiar com exclusividade a prisão de Cauby...

Isto talvez não aconteça, pois até agora a Suipa não protestou contra a eleição do ídolo. Agora, que Paulo Gracindo está torcendo para que aconteça, Stanislaw jura pelas caspas de Jânio Quadros.


Fonte: Jornal "Última Hora", de 16/01/1958 — "Reportagem de Bolso", uma coluna de Stanislaw Ponte Preta.

sábado, dezembro 07, 2013

Manezinho Araújo - Dicionário Ilustrado

Manezinho Araújo — Cem quilos bem arredondados de simpatia — veio de Pernambuquinho Imortal depois de ter se tornado lá um continuador de Minona Carneiro, o grande fazedor de emboladas do nordeste. Manezinho veio numa época mais amena, quando o rádio ainda era uma criança. Francisco Alves ganhava cachê de 30 mangos, e ninguém rasgava as calças do Cauby Peixoto.

Manezinho fez sucesso cantando emboladas e transformou-se num dos maiores cartazes da música popular da época.

Foi mesmo o primeiro artista contratado com exclusividade por determinado patrocinador. Mas depois começou a chegar leva de nordestino. Vinha nordestino de Petrópolis (como o Luiz Vieira), vinha nordestino do Largo da Cancela (como o Jair Alves, que chama a gente de cabra da peste mas que do nordeste só conhece uma folhinha de um armazém de Olinda, que Fernando Lobo deu a ele de festas). Foi aí que Manezinho Araújo viu que a coisa estava com cara de macaco, e disse em casa: — “Eu vou saltar aqui”.

E de fato saltou. Saltou do rádio e nunca mais voltou. Trocou, inclusive, o disco pelo prato, fundando o Restaurante Cabeça Chata, onde passou a faturar melhor com vatapá e frigideira de siri.

Meio sobre o visionário, um dia estava jantando o Álvaro Lins com uns amigos. O hoje embaixador tomou calibrina demais e recebeu um santo protetor. Chamou Manezinho e disse que ia dar um jeito para que lhe fosse concedido um terreno na Lagoa, onde o Manezinho faria um novo e definitivo “Cabeça Chata”. Manezinho estava mais por fora que chefe de repartição e chegou a acreditar mesmo que o Álvaro Lins fosse de fazer alguma coisa pelos outros. Entusiasmou-se com a ideia do novo “Cabeça Chata”, traçou planos, comprometeu-se e, quando viu que tudo era bafo de boca, “se queimou se” e resolveu fazer a coisa na raça, fundando a “Angúbras’, isto é, uma Sociedade Anônima para construção do novo restaurante, com terreno pago e museu de folclore.

Aos poucos a coisa vai indo. Breve Mané inaugura a casa nova, para a devida reação contra os reacionários do tempero, que preferem “petit pois” a farofa de boião. Stanislaw não duvida do sucesso dele não.

Porque Manezinho é assim, quando toma uma resolução, toma com limão.


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 15/01/1958.

Araci de Almeida - Dicionário Ilustrado

Araci de Almeida, segunda pessoa focalizada neste “Dicionário Ilustrado”, ao contrário da primeira — Ari Evangelista Barroso, que não é tão evangelista assim — é evangelista até a alma. Filha de pastor protestante, nascida no Méier e apaixonada por Vila Isabel e residente em São Paulo, Araci vai mantendo há anos uma dignidade artística invejável, cantando com sobriedade e com bossa, sendo talvez a mais brasileira das cantoras brasileiras. E isto quem afirma não é nenhum filho de jacaré com cobra d’água. É o conhecido e aplaudido escriba Stanislaw (o caloroso).

Amiga dileta do samba, Araci vive também para catequizar os hereges tendo mesmo, certa vez, afirmado: “Eu não sou Anchieta não mas já catequizei muito índio”. Aliás, em matéria de frases célebres, a boa Araci goza de fama somente comparável à de Tia Zulmira, veneranda senhora residente em aprazível casarão da Boca do Mato. A respeito do Eclesiastes, que já leu uma centena de vezes, Araci explicou a Stanislaw: “Tu deves ler, neguinho. Aquilo é puro existencialismo”.

Cantando ou falando, o fato é que Araci de Almeida é personalíssima e detesta imitadores, mas nem por isto deixa de tratar bem a todos, legionária que é da Boa Vontade, sendo portanto seguidora de Alziro Zarur — o que nasceu em Marte.

Dentre as maiores provas de carinho e afeição que vem recebendo através de todos estes anos de longa carreira artística, destacamos a que recebeu recentemente em São Paulo, quando da passagem de seu 40° aniversário, houve uma festa e compareceu gente de tudo que foi jeito, culminando a coisa quando deu entrada no recinto o próprio governador do Estado que, por sinal, não fora convidado. O homem entrou, dirigiu-se para ela e disse: “Vim pessoalmente apertar a mão da maior cantora popular do Brasil”. Araci sorriu encabulada e respondeu sincera: “Governador, isto são lantejoulas de sua parte”.

Assim é Araci de Almeida! O samba em pessoa!


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 08/01/1958.

Ari Barroso - Dicionário Ilustrado

Ari (Evangelista) Barroso, que não é tão evangelista assim como à primeira vista possa parecer, nasceu em Ubá (MG), foi menino lá e rapazola também. Depois embarcou para o Rio de Janeiro e foi tocar piano em cinema mudo (segundo o “show” Mr. Samba).

Dentre as suas atividades mais importantes constam: a locutagem esportiva (Ari é Fluminense doente, mas finge de Flamengo há muitos anos), a música (é o compositor mais popular do Brasil) e a direção de um programa de calouros onde, quem não sabe o nome do autor não canta.

Já foi ao estrangeiro com uma orquestra que ele mesmo formou e regia. Esteve no México, no Uruguai e passou quase seis meses em Buenos Aires. Quando voltou estava chamando janela de “ventana”.

Sua grande paixão é mesmo a música. O samba, principalmente. Já fez com telecoteco, já fez abolerado e já fez de exaltação, sendo que neste setor lançou o célebre “Aquarela do Brasil”, onde o coqueiro dá coco. Chamou o Brasil de “mulato inzoneiro” e, por causa disso, teve uma briga feia com Flávio Cavalcanti o Lacerdinha do Samba, quando este fez ver ao mundo que “mulato inzoneiro” é a mesma coisa que “mestiço intrigante”. Ari ficou uma fera e quando Flávio quis reconciliar, prometendo publicamente ir à casa de Ari em visita de cordialidade, comprou um cachorro policial enorme, para atiçar em cima do visitante.

Assim é Ari Barroso! O maior compositor popular do Brasil!


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 07/01/1958.

domingo, novembro 05, 2006

Sérgio Porto

Stanislaw Ponte Preta
Sérgio Porto (Sérgio Marcus Rangel Porto), cronista, radialista e compositor, conhecido também como Stanislaw Ponte Preta, nasceu no Rio de Janeiro (RJ) em 11/1/1923 e faleceu na mesma cidade em 30/9/1968.

Iniciou carreira jornalística escrevendo para a revista Sombra, em 1949. Dois anos depois estava no jornal Diário Carioca, em 1953 na Tribuna de Imprensa e em 1954 na Última Hora, do Rio de Janeiro, onde, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, deu início às crônicas satíricas que lhe deram fama.

Escreveu em 1953 a Pequena história do jazz e no ano seguinte foi colaborador da Revista de Música Popular, fundada por seu tio Lúcio Rangel e Pérsio de Morais. Com Lúcio Rangel e o pintor Santa Rosa fundou a revista O Mundo Ilustrado.

Em 1956 escreveu com Nestor de Holanda TV para crer, e com Luís Iglésias, no ano seguinte, Quem comeu foi pai Adão, revistas teatrais encenadas com êxito. Escreveu shows musicais para boates, entre os quais o levado em 1964 na boate Zum-Zum, do Rio de Janeiro, com Araci de Almeida e Billy Blanco e apresentação dele próprio.

Como compositor destacou-se com o Samba do crioulo doido, gravado pelo Quarteto em Cy no LP Em Cy maior, em 1968, pela Elenco. O samba glosa a dificuldade dos compositores de escolas de samba quando obrigados a estudar a História do Brasil para compor os enredos dos desfiles.

Suas crônicas começaram a ser reunidas em livro a partir de 1961, com Tia Zulmira e eu, culminando em 1966 com o Febeapá, festival de besteira que assola o país. Foi em certo momento, pela linguagem, estilo, temas e críticas, a encarnação da “alma carioca”.


Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha, SP, 1998.