Mostrando postagens com marcador carnaval. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador carnaval. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, junho 06, 2018

Lamartine, o rei dos primeiros carnavais


Se há alguém no Brasil que simboliza a alegria dos primeiros carnavais, essa pessoa é Lamartine Babo. Exímio compositor de marchinhas de carnaval, Lamartine foi um dos primeiros humoristas do país. Em meados da década de 30, quando o que contava ainda era a brincadeira nas ruas e não o desfile das escolas, o carioca, nascido em 1904, reinava absoluto nas festas do Rio de Janeiro. De 1932 a 1936 emplacou os maiores sucessos da Folia de Momo na Cidade Maravilhosa.


Não é difícil compreender o sucesso de Lamartine no Carnaval. Data marcada por uma grande festa no país, o Carnaval é considerado por muitos - especialmente fora do país - como o símbolo da alegria dos brasileiros. Bem humorado, com canções que apelavam para o humor puro, o compositor logo conquistou os cariocas.

"Ele era muito engraçado, e tirava sarro das pessoas com algumas letras. Inclusive, tirava sarro dele mesmo. Até por ser Carnaval, não tinha como fazer letra séria. E ele se destacava", explica o professor de Arte e Cultura da Universidade Metodista de São Paulo, Heron Vargas.

O humor escrachado - por algumas vezes maldoso - se tornou a marca principal da produção de Lalá, como era conhecido. "Nesse ponto ele é praticamente único na música brasileira. Ele mesmo era humorista, trabalhava assim no rádio, apresentando programas. Outros faziam mais sátira, o que é diferente do humor", compara o pesquisador Suetônio Soares Valença, autor do livro Tra-la-lá : Lamartine Babo. "O Lamartine fazia humor puro. Levava tudo mais ou menos na brincadeira, fazendo humor o tempo todo."

Ainda assim, não era apenas o humor que levava Lamartine ao sucesso. Com uma formação musical diferenciada dos demais compositores da época, conseguia resultados mais expressivos com as marchinhas, chegando a emplacar seis grandes sucessos em um mesmo Carnaval.

"Lamartine não teve uma formação musical como a do Noel Rosa, por exemplo. Noel subia os morros e ia ao Estácio para conhecer o samba. O Lamartine não teve essa passagem pelos morros. E por isso que ele fazia muita marcha, que se aproxima mais das operetas e das músicas americanas dos anos 20, que era o que ele acompanhava", complementa Valença.

A fama de Lamartine nos carnavais rapidamente fez com que fosse requisitado pelo rádio e pela TV, ainda nascente nos anos 50. Lá, também alcançaria sucesso, com programas como o "Baú do Lamartine". No rádio, foi pioneiro em usar uma ferramenta que conhecia bem: novamente, o humor.

"Ele é o precursor do humor no rádio. Não era um humorista como o Chico Anysio, mas tinha uma verve, era muito engraçado. Através desse humor, ele foi mais que um compositor, foi um dos responsáveis pelo que se considerou o "Espírito Carioca". É essa coisa do bom humor, da verve, da graça", afirma Valença.

Por Renato Marques

domingo, março 11, 2018

João Roberto Kelly - Biografia


João Roberto Kelly (João Roberto Esteves Kelly), compositor, cantor e produtor, nasceu no Rio de Janeiro-RJ em 23/6/1937. Aos 11 anos, começou a tocar piano de ouvido, aprendendo com a mãe e a avó, ambas pianistas. Depois estudou com professora particular e começou a compor.


Iniciou carreira em 1957, fazendo a partitura da revista Sputnik no morro, que Geysa Bôscoli e Leon Eliachar apresentaram no Teatrinho Jardel, no Rio de Janeiro, em 1957.

Estreou na televisão em 1963, fazendo a abertura musical dos programas da TV Excelsior, onde mais tarde, convidado por Carlos Manga e Chico Anísio, passou a musicar os quadros dos seus shows humorísticos, participando, assim, de um dos programas mais famosos na época (1964), Times Square.

Daí em diante, dedicou-se a televisão, tendo sido produtor e apresentador em varies canais de televisão no Rio de Janeiro — na TV-Rio, produziu Praça Onze, Noites Cariocas e Musikelly; na TV Globo, foi apresentador de Espetáculos Tonelux; e, em 1970, voltando para a TV-Rio, produziu e apresentou Rio Dá Samba.

Tornou-se mais conhecido como compositor carnavalesco, destacando se em vários Carnavais das décadas de 1960 e 1970: em 1964 fez grande sucesso com Cabeleira do Zezé (com Roberto Faissal), marcha gravada por Jorge Goulart; no ano seguinte, Emilinha Borba gravou com êxito sua marchinha Mulata iê iê iê e Dalva de Oliveira interpretou em disco o Rancho da Praça Onze (com Chico Anísio), música que já havia, sido apresentada ao publico em 1960 e que foi modificada para o relançamento; em 1967, sua música Colombina iê-iê-iê (com David Nasser) foi uma das mais cantadas no Carnaval; e, em 1971, sua marcha Paz e amor (com Toninho) foi defendida por Clóvis Bornay.

Venceu, em 1972, o concurso de Carnaval da TV Tupi com Israel (com Carlos Gonçalves dos Santos), cantada por Emilinha Borba, e recebeu o Medalhão de Ouro da TV Globo, em 1974, pelo seu Cordão da Bahia. Ainda nesse ano, gravou um LP pela Odeon, cantando sucessos seus como Boato e Gamação, gravados anteriormente por cantores como Elza Soares, Miltinho e Dóris Monteiro.

Algumas músicas









Obras

Boato, samba, 1961; Brotinho bossa nova, samba, 1960; Cabeleira do Zezé (c/Roberto Faissal), marcha, 1964; Colombina iê-iê-iê (c/David Nasser), samba, 1967; Dor de cotovelo, samba, 1961; Figurinha de boate, samba, 1961; Gamação, samba, 1962; Joga a chave, meu amor (c/J. Rui), marcha, 1965; Linda mascarada (c/David Nasser), marcha-rancho, 1967; Mulata iê-iê-iê, marcha 1965; Rancho da Praça Onze (c/Chico Anísio), marcha rancho, 1965; Rancho do Lalá (c/David Nasser), marcha. 1967; Samba do teleco-teco, samba, 1958; Só vou de balanço, samba, 1963; Times Square (c/Meira Guimarães), hully-gully, 1964.


Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha, SP, 1998.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Pipoca, em flagrantes do Carnaval do passado

"Pipoca", o popular folião, uma figura alegre e bizarra para a época, carioca demais, dando o grito de "Carnaval" pela Rádio Nacional, quando o cantor Orlando Silva iniciou nessa emissora a irradiação das músicas carnavalescas para o Reinado de Momo de 1937.

Pela fantasia, nota-se uma influência do cinema baseada, talvez, em Charles Chaplin? É uma pena que não se tenha mais nenhum dado (por enquanto) desse homem alegre e divertido de um Rio maravilhoso de outrora ... 


Fonte: Foto e reportagem da revista "CARIOCA", de novembro/1936.

terça-feira, dezembro 31, 2013

Prognósticos do Carnaval de 1936

Os "speakers" Afonso Scola, César Ladeira, Cristóvão de Alencar, Aurélio de Andrade, Dilo Guardia e Gastão do Rego Monteiro, avaliam as músicas carnavalescas de 1936 - Fotos: CARIOCA, 01/02/1936.

“O Carnaval está se aproximando rapidamente. O carioca já está começando a se sentir invadido pelo entusiasmo que lhe desperta a presença de Momo — soberano do Riso e da Alegria. As músicas de Carnaval já dominam a cidade. No rádio, nas batalhas de confete e nos bailes.

Era fama na velha Grécia, que o vinho e a música são os dois fatores da alegria humana. A eles dois, devem os foliões render as suas homenagens. Os compositores populares já mostraram as melodias que vão ser cantadas nos três melhores dias do ano. Umas boas, outras más. Todas com esperanças de êxito. Todas com pretensões a sucesso.

CARIOCA, que interpreta o pensamento do nosso povo, quis ter uma impressão acerca das músicas que seriam mais cantadas. Para isto, procurou os “speakers” das nossas estações de rádio. O “speaker” é quem melhor conhece os gostos e preferências do público com quem está sempre em contato através o microfone. Eles podem dizer, com segurança, quais os sucessos de 1936. Várias músicas foram indicadas. Vencerão umas, falharão outras. É muito difícil descobrir a preferência do público, quando se sabe que o sucesso, às vezes, é devido a uma insignificância.

Dilo Guardia, o “speaker” da Rádio Transmissora — a estação mais nova da cidade, declara:

— “A marcha que julgo ser o mais formidável sucesso neste Carnaval é a “Marcha do grande galo”, uma criação de Almirante. Seus autores, Paulo Barbosa e Lamartine Babo foram felizes, pois possui esta música o fator principal para a vitória —  originalidade.

Outras marchas existem que também eletrizam pelas suas melodias, pelas suas letras, mas... os seus estribilhos são menos fáceis de serem cantados pela massa popular carnavalesca da cidade. Refiro-me à “Cadência”, de Nássara, e “A. M. E. I.”, de Nássara e Frazão, ambas lançadas por Francisco Alves.  O “Marido da Eva”, só pelo título é quase que uma cartada certa. Gosto bastante da marcha de Oswaldo Santiago “Você ainda não me deu”, que Gastão Formenti gravou. Também promete.

Sambas? ... Este caso é bastante complicado para se resolver. Não quero que se julgue que pretendo antever sucessos, mas, a julgar pelo que vejo, tenho a impressão que “Palpite infeliz”, de Noel, não deve perder este páreo: “Carnaval de 1936”. Aracy de Almeida lançou-o com grande precisão e depois (dizem os mais entendidos a Vila é o reduto dos sambas que nascem para vencer. Vai daí o meu prognóstico. Orlando Silva também possui criações suas que devem trazer surpresas e não sei como ficará definida tão grande prebenda”.

“Marchinha do Grande Galo”, de Lamartine Babo:

O galo de noite cantou,
Toda gente quis ver
O que aconteceu!
Nervoso, o galinho respondeu:
Có, có, có, có, có, có, có, ró
A galinha morreu...

Có, có, có, có, có, có, có, ró
Có, có, có, có, có, có, có, ró
O galo tem saudade
Da galinha carijó. (Bis)

A minha vizinha também
Certa noite gritou
Toda gente acordou!
Nervoso, o marido respondeu:
Có, có, có, có, có, có, có, ró
Hoje o galo sou eu!

Cesar Ladeira dispensa apresentações. Mais do que ninguém, pode ter autoridade para responder à nossa enquete. Cesar Ladeira é, porém, muito “diplomata” e não quer desgostar ninguém:

— “A experiência já me ensinou a não fazer profecias. Por temperamento, sou realista: amo as coisas positivas. Por isso não gosto de “palpites”. Todas as marchas e sambas que são apresentadas para o Carnaval têm, como objetivo, é claro, vencer, o páreo difícil da preferência pública. Dar “palpites” nesse caso é descontentar os meus particulares amigos — os compositores, prodígios de inspiração carnavalesca. Prefiro gostar de todas. Meu coração é grande: “deixai vir a mim as marchinhas” ... E por falar nisso, que marchinha formidável a do Noel Rosa “Pierrot apaixonado”, hein? Chi! menino, está “abafando”.

Assim falou o mais querido dos “speakers” da cidade.

“Pierrot apaixonado”, marcha de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres:

Um Pierrot apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina
Acabou chorando, acabou chorando (bis).

A Colombina entrou no botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim....
Dizendo: Pierrot “cacete”
Vá tomar sorvete
Com o Arlequim.

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o Pierrot aconteceu assim
Levando esse grande “shoot”
Foi tomar “vermouth”
Com amendoim.

Aurélio de Andrade tem sobre os outros “speakers” da cidade a vantagem de haver vencido em torneio deste gênero, derrotando inúmeros adversários, quando da inauguração da Rádio Tupy. Eis o que nos disse:

— Fazer prognósticos sobre sucessos é quase impossível, por enquanto. O concurso das “ruas” só se decide em definitivo, na quarta-feira de cinzas. Aí é que se conhece o vencedor. Mas... creio que “O marido da Eva” e “Querido Adão” são concorrentes bastante sérios. Ambas as marchas possuem grandes credenciais para o triunfo, tem características de vitória, em sua composição. Assis Valente, que todos nós conhecemos de um sem número de sucessos anteriores, tem “A infelicidade me persegue”, que é um samba ótimo. Não está ainda, é verdade, bastante conhecido. Em pouco tempo porém, sê-lo-á, e então...

“Querido Adão” — Marcha de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago:

Meu querido Adão
Todo mundo sabe
Que perdeste o juízo
Por causa da serpente tentadora
O nosso mestre te expulsou, do Paraíso.

Mas em compensação
O teu pobre coração
Que era pobre, pobre,
Muito pobre de amor
Cresceu e eternizou, meu Adão
O teu pecado encantador.

Gastão do Rego Monteiro é um dos novos na sua arte. Tem pouco tempo de “speaker”, porém, está agradando e dentro em breve será, por certo, um dos primeiros da cidade. Novo como “speaker”, não o é, porém, no rádio. Ao contrário, conhece-o a fundo e sabe o que agrada ao público.

— “Marchinha do Grande Galo” é a que tem mais chance de vencer. Tem mais “carnaval” que qualquer outra e possui uma alta dose de originalidade. Sei que ela está fazendo sucesso, não só pelos pedidos que me vêm às mãos, como também, pelo que tenho observado nas festas. Há outras que devem também agradar, como: “Pierrot apaixonado”, “Vem meu amor” e “Oh! Oh! Não” que, por sinal, é ótima! Em sambas, destaco “Samba”, de Hervé Cordovil, música que tem no nome, o reflexo exato de seu valor. “As lágrimas rolavam”, que é muito carnavalesco e “Palpite infeliz”, são, também concorrentes muito autorizados.

“As lágrimas rolavam” — Samba de Kid Pepe, Germano Augusto e Guará:

As lágrimas rolavam
Na face da mulher
Que eu mais amava e deixei
A meus pés ajoelhada
Ela me implorava... implorava
Perdoa... perdoa.

E eu rude, embrutecido
Fui me embora convencido
E não tive explicação
Desde daí tenho amargado
Por ela ter chorado
A nossa separação.

Eu agora vou voltar
A teus pés para implorar
Com uma dor no coração
Nesta vida me maldigo
Do que aconteceu comigo
Tenho que pedir perdão...

Pouca gente conhece Armando Reis. Muita gente conhece Cristóvão de Alencar. O primeiro é conhecido pelo “pessoal” do rádio. O segundo é conhecido pelo público. A diferença existente entre ambos é que o Armando é compositor e o Cristóvão é o “speaker” da PRC-8, Duas personalidades distintas, numa só criatura — aquele que aos sábados “canta” ao microfone da Guanabara as músicas de sucesso. Como o Armando Reis, não está este ano inscrito no “Grande Prêmio Carnaval de 1936”, o Cristóvão sente-se à vontade para falar:

— Três marchas há, que são dignas de grande sucesso: “O marido da Eva”, “A. M. E. I.” e “Pierrot apaixonado”.  Cada uma dela apresenta uma característica distinta: “O marido da Eva” é toda alegria e vivacidade, “A. M. E. I.” é a marcha sentimental, tipo “Formosa” e, por isso mesmo, capaz de grande sucesso. O “Pierrot” está entre as duas: tem uma parte sentimental que é o estribilho e logo nos versos sente-se a alegria e o bom-humor do autor.

Quanto a sambas, destaco “Palpite infeliz”. Sou aliás, suspeito para falar porque se trata de um samba dedicado à Vila Isabel, bairro que é “do coração”. Reconheço, porém, que “As lágrimas rolavam”, tem muito ritmo carnavalesco e pode mesmo, “abafar”, no Carnaval de rua, no Carnaval popular. Poucas vezes, tenho visto um samba com caráter tão carnavalesco e tão bom para “ranchos” e “cordões”.

“Marido da Eva” Marcha de Nássara:

Você ganhou mas não leva
Eu sou o marido da Eva.

Certidão de casamento
Não resolve de momento
A questão
Se ainda tenho no pescoço
“Entelado” este caroço
Eu sou mesmo, “Seu” Adão.

Descobri no fim da festa
Que a maçã era indigesta
Fiz asneira,
Se a serpente não me engana
Eu comia, era banana
Sobremesa brasileira.

Afonso Scola é o dono daquela voz simpática, a que já se habituaram os ouvintes da PRD-2. Um dos organizadores dos programas de discos, da Cruzeiro do Sul, conhece perfeitamente quais as preferências do público, com quem está sempre em contato pela numerosa correspondência que diariamente lhe chega às mãos, com pedidos de músicas. A sua resposta foi breve, porém expressiva:

— Creio que “Carnaval é rei” é sério concorrente. Possui o nosso ritmo e tem um acento nitidamente carnavalesco. “Pierrot apaixonado”, também é perigoso — mexe com os nervos do carioca. Há ainda uma marcha que está pouco falada porque ainda não está bastante conhecida. É “Fra Diavolo no Carnaval”, da autoria de Carlos Dix. Creio que ela está no páreo. Sambas? ... Acho que para o Carnaval, a marcha é que se impõe. Em todo o caso, dos sambas apresentados “Palpite infeliz” e “As lágrimas rolavam”, são os mais cotados.”

“O Carnaval é rei” — Marcha — Letra de Ernani Campos; música de Antenógenes Silva:

O Carnaval é rei
O rei da animação
Quando ele vem chegando 
Todos nós vamos perdendo
Do juízo a noção (bis).

O seu amor garota
Firmeza nenhuma tem
É como o nosso Carnaval
De duração tão curta
e deixa a gente mal.

Quando você vier
Buscar o meu coração
Você o encontrará pisado
Junto aos confetes
a rolar no chão.


Fonte: CARIOCA, de 01/02/1936

segunda-feira, outubro 21, 2013

O Carnaval de 1907

Ilustração da revista "O Malho" de fevereiro de 1907 sobre o Carnaval carioca da época.

No desfile carnavalesco do Rio de Janeiro de 1907, um padeiro, um senhor ferido e, — imaginem só — a baiana heroica de As laranjas da Sabina, não são poupados aqui na grande confusão da Avenida Central. Imaginem os desfiles sem o batuque de um samba, sem o ritmo de uma marchinha lamartinesca, porque era 1907! Zé-pereiras, o "Abre-alas" de nossa Chiquinha, polcas, dobrados, até fados, animavam esses desfiles das sociedades cariocas de renome, como os Fenianos, Democráticos e Tenentes do Diabo... Segue o diálogo da charge do "Malho" na graphia, digo, grafia, original do português da época:
— Ahi vem o Club da Tijuca !!!
— Vivam os tijucanos ! Viva !
A bahiana: — Viva o diabo que carregue ocês ! Cruzes !
O padeiro: — Lá se foram as laranjas da Sabina !
             Lá se vai o meu pão por agua abaixo !
Um ferido: — A pão e agua fiquei eu e a madama !...


Fonte: Revista "O Malho", de 16/02/1907.

domingo, outubro 06, 2013

Bum bum paticumbum prugurundum

Bum Bum Paticumbum Prugurundum (samba-enredo, 1982) - Beto Sem Braço e Aloísio Machado - Intérprete: Quinzinho

LP Sambas De Enredo Das Escolas De Samba Do Grupo 1A - Carnaval 82 / Título da música: Bum Bum Paticumbum Prugurundum (Império Serrano - Samba-enredo 1982) / Beto Sem Braço (Compositor) / Aloísio Machado (Compositor) / Quinzinho (Intérprete) / Gravadora: Top Tape / Ano: 1981/ Nº Álbum: 503.6014 / Lado B / Faixa 5 / Gênero musical: Samba-enredo / Carnaval.


    C                   F 
Bumbum paticumbum prugurundum, 
                G          
o nosso samba minha gente 
        C           G
é isso aí, é isso aí  
   C                     F    
Bumbum paticumbum prugurundum, 
       G                       C             G
contagiando a Marquês de Sapucaí ( Eu enfeitei )
C     G    C Bb A7         Dm  
En...fei...tei      meu coração 
     A7            Dm                        G
(enfeitei meu coração ) de confete e serpentina 
                                             C       G
Minha mente se fez menina num mundo de recordação ( Eu ... )
 
    C       G         C    G            C   A7
Abracei a coroa imperial, fiz meu carnaval,   
        Dm           G        C    G
extravasando toda a minha emoção
C    A7    Dm   G          C   
Óh, praça onze, tu és imortal, 
G    C           A7     Dm       G                    C
teus braços embalaram o samba, a tua apoteose é triunfal
 G       C        G        C    A7
De uma barrica se fez uma cuíca,    
            Dm      G              C
de outra barrica um surdo de marcação
         Dm       G           C     
Com reco reco, pandeiro e tamborim, 
   A7     Dm        G             C
e lindas baianas o samba ficou assim 
         Dm      G            C     
Com reco reco, pandeiro e tamborim, 
  A7       Dm      G             C      G
e lindas baianas o samba ficou assim 
C   A7        Dm                G               C     G     C       
E   passo a    passo no compasso    o samba cresceu, 
  A7     Dm  G                C          A7        
Na Candelária  construiu seu apogeu, as burrinhas, 
     Dm            G            C
que imagem, para os olhos um prazer
 A7      Dm    G                     C   G 
Pedem passagem,   pros moleques de Debret,  
 C   A7      Dm    G              C  
as afri...canas, que quadro original
G    C    A7       Dm   G                    C  
        Iemanjá, Iemanjá,  enriquecendo o visual 
           G
( Vem meu amor )
C   G      C  Dm           G        C    A7
Vem, meu amor,   manda a tristeza embora,
       Dm                   G             C    
 é carnaval, a folia, neste dia ninguém chora 
C   A7     Dm  G                   C     A7
Vem, meu amor,   manda a tristeza embora, 
       Dm                     G          C
é carnaval, a folia, neste dia ninguém chora 
C       A7       Dm          G         C      
Super escolas de samba S.A., super alegorias, 
           A7     Dm    G        C
escondendo gente bamba, que covardia

sexta-feira, junho 07, 2013

Bloco Carnavalesco Bafo da Onça

O Bloco Carnavalesco Bafo da Onça, fundado em 1956, é um dos mais tradicionais blocos do Carnaval do Rio de Janeiro. Bafo de onça é uma gíria para descrever pessoas com mau hálito, decorrente do fato de que as onças, por serem animais carnívoros, ficam com pedaços de carnes presos nos dentes, que com o passar do tempo, aprodrecem e provocam um odor insuportável associado algumas vezes também aos bêbados, pelo forte hálito de bebida alcoólica.

O nome e origem do bloco estão ligados ao sentido da gíria, isso porque seu fundador Sebastião Maria, carpinteiro de polícia, saía no Carnaval fantasiado de onça e era chegado numa bebida. Então num boteco no bairro do Catumbi, durante um dos porres de Sebastião em 12 de dezembro de 1956, surgiu o nome o Bafo da Onça.

Bloco Bafo da Onça desfila pelas ruas do Centro do Rio (Foto: Arquivo do Bafo da Onça)
Na década de 60, o Bafo da Onça reunia cerca de 1.500 pessoas na Avenida Rio Branco, por onde passa até hoje. "Naquela época era muito diferente", conta Capilé, presidente do bloco em 2006. "Na rua, ficavam as mulheres e as crianças do lado esquerdo e os homens do lado direito, desfilando separados." No final da festa, havia a apresentação das mulatas. "O Sargentelli ia lá buscar as moças para fazer show para ele", lembra o presidente.

No início dos anos 60 o bloco lançou pelo Selo Mocambo, junto com a Fábrica de Discos Rozenblit Ltda, um LP com alguns de seus sambas-de-empolgação. Entre os compositores e cantores do disco, destacaram-se Joaquim Antero de Araújo (Mistura), Walter Terra (Jujuba) e Paulo F. de Lima, além, da figura mais associada ao bloco, o saudoso cantor e compositor Osvaldo Nunes. "Osvaldo Nunes era alma daquilo. Foi o grande compositor da época", declarou a cantora Beth Carvalho em recente entrevista.

As mulheres e crianças saíam, em fila, animando o bloco (Foto: Arquivo do Bafo da Onça)
Até a década de 70 os blocos eram considerados a elite do Carnaval e desfilavam pela Av. Rio Branco alegrando famílias inteiras. Atualmente a realidade é diferente: os blocos andaram quase esquecidos durante um tempo, mas voltaram com força total. O bloco Cordão do Bola Preta, fundado em 1918, o Cacique de Ramos, fundado em 1961 e o Bafo da Onça são juntos os blocos mais tradicionais e importantes do Carnaval.

O Cordão da Bola Preta, que no ano passado viveu maus momentos e chegou a ser despejado do antigo prédio na Cinelândia, se renovou. E ganhou uma nova sede, um Centro Cultural no coração da Lapa. O prefeito Eduardo Paes anunciou no ano passado um crédito no valor de 898.000,00 para que a RioUrbe realizasse a obra de revitalização da sede do Cacique de Ramos. Já o Bafo da Onça continua em sua pequena e humilde quadra situada no bairro do Catumbi a espera de investimentos e pelo menos, quem sabe, cheguem no próximo Carnaval?

________________________________________________________________
Fontes:  Folha do Centro - Fevereiro/2010; UOL Música - 20/2/2006.

quarta-feira, maio 22, 2013

Almirante fala sobre o Carnaval

Na entrevista com a Revista do Rádio, em fevereiro de 1949, Almirante tece comentários sobre antigos carnavais, origens dos seus ritmos, concursos da Prefeitura e outras considerações interessantes.

"Mercê do seu grande conhecimento sobre os assuntos musicais, Almirante é, sem sombra de dúvida, uma das poucas figuras do nosso broadcasting que pode falar com segurança sobre o carnaval, a semelhança das melodias carnavalescas com ritmos de outros povos e a introdução do samba no tríduo da folia.

Assim resolvemos procura-lo em seu gabinete, a fim de ouvi-lo sobre os assuntos em referência. Inicialmente, perguntamos-lhe quando surgiu a primeira música propriamente carnavalesca.

— A primeira, a rigor, foi a da paródia dos “Pompier de Nanterre”, cançoneta francesa, adaptada pelo ator Vasques, que ele cantava com um martelar de bombos, reproduzindo o “Zé Pereira”, que um português de nome José Nogueira de Azevedo Paredes tinha posto em moda aqui no Rio. A cantiga atravessou anos e chegou até nós graças à primeira quadrilha da versalhada do Vasques, que era assim:

E com aquela voz bem conhecida dos rádio-escutas, Almirante cantou:

— "Viva o Zé Pereira / Que a ninguém faz mal! / Viva a bebedeira / Nos dias de Carnaval."

— Acredita que a referida música tenha dado lucros financeiros ao seu autor? — indagamos.

— Não houve e nem podia haver lucro decorrente da cantiga. Naquele tempo, meu caro, não se cogitava de direito autoral...

Prosseguindo, solicitamos ao exclusivo da Tupi que nos traçasse uma ligeira relação das principais músicas de carnaval que apareceram depois.

— É difícil dar uma relação — disse-nos ele. — Em todo o caso, posso apontar o famosíssimo "Abre Alas", de Chiquinha Gonzaga, surgido em 1899 em seguida, o "Vem cá, mulata", de Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre. que esteve em evidência de 1902 a 1906; e o "No bico da chaleira", de Juca Storoni, aparecido em 1909. Isso para falar das primeiras.

— Acha que o ritmo das nossas músicas de carnaval tenha parecença com ritmos de outros povos?

— Acredito que semelhança rítmica, propriamente, pode ser encontrada em certas marchinhas brasileiras, de características acentuadamente portuguesas.

Quisemos saber, em seguida, a opinião do nosso entrevistado sobre qual as melhores músicas, de todos os tempos, que já se fizeram para o Carnaval.

Jeitosamente, disse-nos Almirante:

— Citar algumas e esquecer outras seria cometer uma injustiça. Lembro, entretanto, o "Abre alas" e a magistral adaptação "Teu cabelo não nega", de Lamartine Babo, da marcha "Mulata", dos Irmãos Valença.

Revista do Rádio: Duas atitudes de Almirante, apanhadas em seu gabinete de trabalho. A segunda é bem característica, tal como ele estivesse explicando e detalhando dados, em seu vastíssimo arquivo.

— Quando foi introduzido o ritmo do samba nas músicas carnavalescas?

Fez-se uma breve pausa, em que o famoso produtor consultou a memória, após o que nos respondeu:

— O ritmo do samba, a bem dizer, existe no Brasil desde que por aqui se inventaram as polcas-lundus. Quando, a partir de 1916, depois do aparecimento do "Pelo telefone", as músicas passaram para a nova denominação de "samba", os autores ainda tinham dúvidas sobre quais as que deveriam ser batizadas daquela maneira. A princípio, o que mudou foi somente a denominação. Só mais tarde, as músicas foram tomando o feitio que as enquadravam de maneira mais positiva dentro do novo nome. Se o nome “samba” não tivesse sido adotado em 1916 para designar um gênero de música, o “É bom parar...” talvez fosse classificado como polca; o “Ai que saudades da Amélia”, como tango; assim por diante.

— Qual o compositor que, em sua opinião, tenha escrito as melhores músicas de carnaval?

Denotando grande tato, respondeu-nos Almirante, sorrindo:

— Falemos dos mortos, que serão capazes de perdoar com mais facilidade os esquecimentos: Sinhô, Eduardo Souto e Noel Rosa...

— No seu modo de ver, onde está o sucesso de uma composição carnavalesca: na letra ou na melodia?

— Se alguém tivesse a desejada ciência de saber o detalhe psicológico que determina o sucesso de uma música, esse alguém estaria riquíssimo. Mil fatores contribuem para isso. Mas nunca se pode afirmar que seja uma boa melodia ou uma boa letra, pois são infindáveis os exemplos de péssimas músicas e versos pavorosos que acabam em sucessos marcantes. Às vezes, um pequeno detalhe, um quase imperceptível detalhe na melodia, uma simples palavra, um ingênuo efeito rítmico, podem ser o fator imponderável do agracio.

Desejamos saber, então, das músicas para este ano, qual a que lhe parece com mais possibilidades de sucesso.

Fazendo “blague”, respondeu Almirante:

— Francamente — e por mais que isso pareça incrível! Fantástico! Extraordinário! — não pude me demorar em ouvir o que já saiu para 1949...

— Que acha dos concursos da Prefeitura?

— Nenhum certame, por mais honesto que seja, haverá de contentar, não só ao público como, principalmente, aos compositores, quando realizados antes do Carnaval. Orientando os concursos da Prefeitura, em todos os anos, tem havido elementos que não conhecem o assunto como seria necessário. Daí os comprometedores resultados de alguns deles que nunca chegaram a ser olhados com o respeito que deveria merecer uma iniciativa oficial. Concurso de música carnavalesca deveria ser feito depois do carnaval, e por um sistema de consulta à opinião pública, que não pudesse sofrer o cambalacho dos interessados.

Finalizando, quisemos saber alguma coisa mais sobre os festejos carnavalescos no Rio.

— Sobre o carnaval, acho que a Prefeitura deveria proibir terminantemente os alto-falantes pelas ruas; as barraquinhas de comezainas pelas calçadas em pontos tão próximos da Avenida Rio Branco; deveria ressuscitar a tradição das várias bandas em coretos, avenida e, agora, na Presidente Vargas; e o mais importante: animar a volta dos ranchos e dar maior auxílio às grandes sociedades. Uma ideia que talvez desse resultado fosse o reviver as passeatas de caminhões engalanados, em certo dia do carnaval, premiando os mais merecedores e os portadores da melhor música — concluiu Almirante.

Aí estão diversas sugestões bem interessantes. Por que a Prefeitura não as aproveita?”

________________________________________________________________
Fonte: Revista do Rádio - Fevereiro de 1949.

sábado, maio 04, 2013

Carnaval de morro

Lá está a esconsa ladeira do João Homem, que nos levará ao alto da Conceição. Subamo-la, tranquilamente, porque, quase ao chegar à crista do morrete é que se instala, numa casa de porta de rótula, toda pintada de azul-marinho, a sede da Sociedade Carnavalesca, Familiar, Dançante, Beneficente e Recreativa “Tira o Dedo do Pudim”, ufania e regalo dos moradores do lugar, de moçoilas e rapazelhos que vivem ajanelados em casebres que se dependuram como gaiolas de pássaros pela íngreme viela torta, feia, imunda, porém movimentadíssima.

Das quatro da tarde às nove da noite, nesse alcandorado recanto da cidade, a barulheira referve. Há um zabumbar furioso, infernal, sem armistício, para os nervos e para o ouvido do próximo.

De longe, saúda-nos, agora, a bulha, não do rude e atordoante zé-pereira, já repousado, mudo, porém a de mil bocas: gritos, berros, ou estrídulas risadas, de envolta com o afinar de instrumentos de corda ou sopro, balbúrdia amável e festiva, confuso bruaá, denunciando desafogo e alegria da massa ingênua que livremente se diverte. Subamos.

A vizinhança, a postos, parece satisfeita. A vizinhança é todo o morro. Embaixo, a cidade tranqüila. A noite abafa. Rescalda. Fevereiro. Passam alguns minutos das dez horas.

Suspendamos a marcha aqui; paremos, que diante de nós já se alteia a instalação modesta de jovem grupo. A sédea. Na fachada, escudo feito em folha-de-flandres, pintado com as cores sociais, mostrando uma mão que aponta com o dedo indicador para um disco enorme, vaga lembrança de uma lua-cheia. E mais um S e um C (Sociedade Carnavalesca) antecedendo as letras negras e garrafais do título: “Tira o Dedo do Pudim”.

Portas e janelas estão par a par, abertas, mostrando o interior de um salãozinho que mal comporta a chusma de associados, os seus amigos e penetras. Penetra é sempre o tipo que invade, sem convite, a sede desses grêmios, de tal sorte querendo deles gozar os proventos, sem ônus de despesa. Vezes custa-lhe à audácia um ponha-se-lá-fora, um tranco, uns empurrões, um pontapé vibrado pelo garantia, que é um ás do clube, tipo forte e trastejado, espécie de polícia do salão, fiscal da sociedade e regulador da moralidade na casa. O penetra, porém, que é um homem de pouca ou nula suscetibilidade a par de muita perseverança, em geral, não se dá nunca por achado e, quase sempre, insistindo, volta, sorridente e atrevido, sem temer nova reação do garantia, a ameaça de tranco, de empurrão ou de pontapé. E, quando não se estrepa, que como quem diz, não se desbarata, fica. E goza. De resto, para o penetra que se chama da zona, o do lugar, há indulgências costumeiras. Desde que não haja abuso. Claro. Para os outros, porém, é contar com rigor, sobretudo se o corpo estranho, o intruso, recalcitra ou, petulante, quer impor-se. Aí…

O salão do Tira o Dedo do Pudim é todo ele forrado de um papel azul cor-de-manto-de-Nossa Senhora onde, em desenhos grotescos, prateados e como que em relevo se vêem, em confusão, liras e rosas que se entrelaçam. Um dos grandes caprichos dessas agremiações mômicas é o papel da sala. Tem que ser espalhafatoso e caro. O do Tira o Dedo do Pudim custou uma fortuna e foi votado em assembléia gerá. A luz do belga, lampião a querosene, que está suspenso ao teto, quando resvala pela parede, arranca, do seu prateado escandaloso, chispas alucinantes. Do sereno, que é a platéia que se forma na calçada da rua, e vive das migalhas da folia dos outros, comenta-se gostosamente:

— Beleza de papel!

Luz cheirando a querosene, luz intensa e que não se multiplica apenas em velas, mas em quenturas, transformando o rosto da assistência em verdadeiras cascatas de suor.

Por isso andam de mão em mão os leques e as ventarolas de papel. O tempo é de pouco conforto pelo estio; ventiladores, não existem, sorvete é regalo de rico; calor, definição de Brasil. Pela porta estreita do salão do grêmio, constantemente, entram sócios e convidados. Grandes apertos de mão, abracinhos de três-pancadas. Para as senhoras, espinhas curvas, em bodoque.

Estão vendo pelos cantos do salão uns enormes cartuchos de papel, muitos deles vestidos com malhas de crochet, aplicações de espelhinhos, contas, grotescamente emoldurando fotografias minúsculas, em maioria aproveitadas de cartões-postais? Isso é moda em casa do pobre. Ânsia ingênua de decoração. Cruzando o teto, em diagonal, festões de papel ou pano, uma enfiada de papoulas ou rosas, ornamento e pouso tranqüilo do mosqueiro. Também em grande voga, esses festões, como certas bolas de papel de seda, coloridas e fofas, que se dependuram pelos braços dos aparelhos a gás.

É de praxe, num caixilho doirado e envolto em gaze asa-de-mosca, o retrato do presidente da sociedade, quase sempre entre uma ventarola de pregas e um porta-cartões feito em cartolina e seda, com iniciais, mas sem a menor sombra de cartão ou carta.
Lá está o presidente eleito do Tira o Dedo do Pudim retratado a crayon. Vê-se da rua. É um homem sobrancelhudo e austero, de cabelo à brosse carré e bigodeira enorme, armada em roscas de padaria. Carão bojudo, al var, apagando-se num círculo de cinco ou seis papadas. É o grande homem da casa, é o senhor. Antônio Guimarães, honrado negociante desta praça, com loja de petisqueiras na rua da Saúde – Parreira d’Aquém e d’Além Mar –, grande amigo de patuscadas, de batuques, de crioulas e carnaval. É um amor, o Antônio. Todos sabem disso, até o senhor conselheiro Camelo Lampreia, que é ministro de Portugal, e já lhe prometeu a comenda de Cristo. É um sólido prestígio que começa na poeira da baixada, beirando o cais da Saúde e ascende ao morro da Conceição, pelo aladeirado da João Homem. Dois quarteirões! Dois! Já é… As leis da época garantem-lhe um lugar na política. Podia ser, se quisesse, Conselheiro Municipal. Talvez deputado. Mas, não quer. Contenta-se com a comenda, que espera. Modesto Antônio!

— Homem de valô e inconsideração — diz sempre, no grêmio, o João da Gosma, cabra pernóstico, grande tocador de violão que violentamente o admira e tem conta aberta na Parreira d’Aquém e d’Além Mar…

Tresanda a bodum a sala. Do bom. Do melhor. E não há perfume capaz de vencê-lo ou minorá-lo. O patchuli, a cananga-do-japão, a água-flórida e até o aglaia — que são as grandes essências da moda — nesses ambientes de transudação e de calor, perdem as virtudes trescalantes, a individualidade, o vigor. Apagam-se. Não recendem. Só o petróleo agressivo e violento, nesse conflito de olores desamoráveis, saído do lampião, mantém-se um pouco. Equilibra-se… Há, entanto, quem, voluptuosamente, sadicamente, encontre fragrância nesse fétido, narinas tolerantes que nele se encantam e deliciam. O senhor Antônio Guimarães, por exemplo.

Quando ele chega, depois de fechar a loja das comidas, dentro da sua rabona de sarja, a mostrar um célebre colete de fustão branco com ramagens azuis, que lhe contorna a pança magnífica, estrugem as ovações:

— Viva o nosso presidente! Vivôôôôôô!

O Antônio baba-se por essas coisas. É o seu fraco. Curva-se, agradecido, balouçando as guias do bigode, escancarando a bocarra sensual, as narinas sorvendo o ar, com volúpia, o olho libidinoso fincado nas negras que suam e que tresandam, metidas dentro de vestidos de seda grossa, com fitas cor-de-rosa no cabelo.

Viga-mestra do clube, o Antônio é um presidente como poucos. Um mão-aberta. Franco. Não faz questão de dinheiro:

— O que a rapaziada quiser!

E a rapaziada abusando…

A alma ingênua e bondosa do labrego, entanto, não leva a sério os abusos da rapaziada. Mas que seja! E o dinheiro a rolar, rolar…

— Viva o nosso presidente! Vivôôôôô!

É nessa altura que o Chico Transação, tesoureiro do grêmio, pardavasco pachola e escovado, com sete entradas na Casa de Correção e dois lanhos de na valha na altura de um queixo todo marcado de sinais de bexigas, começa a lhe dar piparotes de confiança no pandulho e a chamá-lo:

— Bichão! Cuera! Cobra-sarado! Bicho bão!

Diante de tanta afabilidade e cortesia o Antônio desarvora, perde as estribeiras, e, em sorrisos, desmancha-se todo. Cada negra fica com um pedaço do Antônio… É uma patuscada!

Quincas Marreta, que já foi o “vilce-persidente” em “exelcício”, é o mestre-sala e ao mesmo tempo o garantia do cordão. É um tipo escalavrado pelo tempo, sovado pela vida, com uma gaforinha em pala resvalando de um testão enorme e polido como uma bola de marfim. Mostra, quando ri, uma estranha e macabra dentadura, composta de um dente incisivo, muito amarelo, enorme, e um caco de molar. No dorso da mão direita, uma tatuagem representando o encouraçado Aquidabã e esta legenda, que vai da proa à popa — Inté depois da morte! Foi meganha (o mesmo que soldado de polícia), ser viu como fuzileiro naval no tempo de Floriano. Usa navalha no cós, pernambucana (faca) na cava do colete e leva sua vantage na hora do pé ou da marreta.

Mestre-sala avisado é quem conhece o protocolo, as etiquetas na sociedade e as aplica. É quem determina o que é de boa ou de má inducação… Bíblia do bom-tom, calepino de cortesias que o grêmio vive constantemente a consultar:

— Seu Quinca, quando os reporte vié, que tem a gente de fazê?

E o homem do protocolo:

— A gente forma tudo em torno dos reporte e grita: Viva a imprênsia! As dâmias põe a mão na cintura e sai de passo mole ciscando e pondo o rabo do oio no estandarte. Pronto! Aí, então, seu Antonho avança para os moço e arrecebe eles. E é só.

Garantia é o Cérbero do respeito a observar na hora em que se dança. Vigia encostamentos, apalpações e outras inconveniências improibidas pelo regulamento da casa.

— O cavaero queira desencastoá a perna dessa dâmia, quando não me obriga a reagi, que o crube é famia, não é porquera. E isso enquanto não viro bicho e lanço mão dos alimento que possuo para garanti a orde e a imoralidade da casa.

Obedecido, toma, logo, de uma rapariga, e, dançando, desliza, porque Quincas ainda é um belo pé-de-valsa, sendo, que, na hora da schotisch, ninguém como ele sabe fazer uma reverência com elegância e com galanteria, o dente amarelo em riste, a cabelancha pela testa enorme revolta e dependurada.

Porteiro-mor, é ele quem decide da entrada dos penetras, comparecendo à porta com o seu sorriso amável e o seu bíceps tranqüilo. Ele é quem diz, maneiroso, ao intruso que não passa da soleira da porta, esfregando as mãos, num gesto da mais profunda condescendência:

— Aqui só entra sócio efektivo e kíkitis cum ricibo do mês transsakto…

Uma vez o Tira-o-Dedo-do-Pudim recebe um penetra de qualidade, Carlos Bittencourt, pela época vagamente repórter do O Paiz, e quase autor dramático. Carlos, para poder penetrar na sede do cordão, alega a profissão de jornalista.

— Vossoria mostre antão os seus dicumentos — diz o garantia, pondo um olho de suspeição e de implicância na indumentária apurada do ainda muito jovem Bittencourt.

Ora, sem uma prova capaz de apresentá-lo, que não seja o seu interessante espírito, Carlos tem uma idéia feliz, toma da palavra e desfecha sobre a cabeça do Quincas Marreta, numa eloqüência condoreira, um discurso formidando. É uma saudação ao rancho, aos carnavalescos presentes, girândola oratória, fogo-de-vistas…

— Bravo! É reporte! O home é bem-falante… — dizem logo, todos. — Reporte!

O documento está apresentado. Antes, porém, de pôr o pé no salão, a transbordar de gente, assim lhe fala o garantia:

– Seu reporte me discurpe mas porém nós percisamos sê gente de rigô par causa dos abuso. Seu reporte qué sabê? Trás antonte aqui veiu um moço que também se dizia sê da imprênsia. Vinha com duas dâmias de carção de circo. Oiei as muié e obtemperei: – Vossoria pode ingressá, as dâmias, porém, não pode por via do itinerário que elas trás que não está de acordo com um salão de fa mia. Pega ele responde: – Se eu entro elas têm que entrá também, por que elas viero cumigo e num vortam. Fez jeito de ciscá e eu ainda reobtempe rei: – Vossoria não insista que se estrepa. Ele insistiu. Foi quando o Gaudêncio, nosso claurinete, afogueado, meteu a cara no grúpo e grampiô o home. Fechou o tempo. Ora a ladeira é ingres, Gaudêncio vê pouco, é milpes, estropeça na carçada e os dois rola João Homem abaixo. Resurta do: apanha o nosso claurineta um tapa-oio que vira dispois numa dispécia fraudulenta na básia no crânis que ele ainda inté hoje tá de cama.

E continuando:

— Que isso aqui, seu reporte, é fa mia. Já se casaro nesta casa oito virge. E ainda hom de se casá mais.

E apontando para Antônio Cheira-cheira, secretário do cordão, um preto que mostra um par de beiços que são dois grossos bifes sangrentos:

– A ermã deste se casou-se aqui. Nós casemo ela. Dispois é que ela andou por aí, dando umas cabeçadas com um guarda-freio da Centrá, ponto de cair na rua de São Jorge. Nós, porém, é que não tem nada com isso… É lá fora. Aqui dentro, é respeito. Agora digo eu a Vossoria: Vossoria entra, mas as dâmias que eston no lado de fora, de sereno e que veio com Vossoria é que não pode entrá, e eu explico a rezão para Vossoria não ficá zangado…

As damas, porém, acabam entrando porque nada mais são que três boêmios, os caricaturistas Raul Pederneiras, Calixto Cordeiro e Luís Peixoto, vestidos de baianas.

O linguajar, nesse ambiente, onde se junta a ralé do morro, a gentalha que sobe da Saúde ou vem das bandas do saco do Alferes e morro do Pinto, é particularmente interessante. Um novo idioma que se ensaia e que se vai formando à revelia do senhor Hemetério dos Santos e outros filólogos de peso. Até o Antônio Guimarães, presidente, quando declara às negras o seu amor aceso, é nesse calão que se explica, destrocando os bb pelos vv, dizendo mel em vez de mele, pele em vez de pel, surripiando as consoantes finais, desarrumando os pronomes, adocicando a fala, de olho lúbrico, e bambo, a remexer as roscas do bigode…

Outro figurão notável nesse meio, conheçamos, é o maestro Turuna. Asclepíades Turu na, negralhão alto, gordo, cabeça raspada a navalha e revelando um microcefalismo deveras impressionante. Mãos enormes. Pés enormes. Beiçola enorme. É um gorila. Traja roupa de brim riscado em xadrez, cor-de-gaiola e mostra, como singularidade, uma unha, muito comprida e muito bem tratada, longa, de uns três centímetros, nascendo de um dedo curto e grosso como um calabrote. Um dia, na regência da charanga, como lhe escapasse das mãos a batuta da regência, dizem que Turuna regeu a música com a unha. É um tipo silencioso, tranqüilo. Não sorri. Quase sem gestos, morre de amores pela Casimira, preta fula que já lhe inspirou uma valsa em si bemol – Luar do meu amor – e uma schotisch em dó sustenido, para ocarina e piano – Foi ela quem me matou.

Quando ele surge na sala, de batuta toda enfeitada com florzinhas de papel, a assistência delira.

Vejamo-lo, agora, dando início ao ensaio das cantigas, muito teso, muito lustroso de suor, a vara da regência erguida no ar, o olho sentimental na negra Casimira:

— Vamo! Escola. Todos pruma só boca! As dâmias ao centro e os cavaeiros marchando em derredor do quadrilátero… Vamo!

E o coro:

As barboleta vom pelo á…

A solfa é dengosa e leve. As mulatinhas cantam-na pondo as mãos nas cadeiras, a fartura dos seios empinados, os pescoços em riste, num retesamento exagerado de cordas vocais:

As barboleta vom pelo á,
Son cor-de-rosa com listra azu,
Queimô no fogo as asa frebi
Dispois nom pode mais avuá!

Duas vozes, em meio a tantas, se destacam: uma, a da crioula Casimira, forte voz de assoprano, como eles do cordão explicam, voz de alguém que canta dentro de um baú; outra, a do moleque Zu, sorveteiro, voz ensaiada no comércio ingrato dos picolés do tempo, violenta, dura, desafinada e estridentíssi ma: voz de antenor…

A toada ábsona, que se berra forte, espalha-se na doçura da noite silenciosa, rola pelas quebradas do morro, passa pelo casario das ladeiras onde mil ouvidos recebem-na, ansiosos e contentes, para ir morrer longe, para as bandas do cais empedrado da Saúde, onde se espicham empregados de trapiche, marinheiros, catraieiros, gentalha do lugar, jogando a vermelhinha entre marafonas de cachimbos na boca, frangalhos humanos, destacados à luz triste e amarelada de alguns bicos de gás. Lá é que vão se apagar os últimos compassos da toada magnífica:

Queimô no fogo as asa frebi
Dispois nom pode mais avuá…

A rivalidade existente entre esses grupos glorificadores de Momo é coisa velha e conhecida. Emulação ativa, concorrência, por vezes, provocadora e perigosa. O que caracteriza as camadas inferiores da nossa sociedade ainda é aquele espírito bárbaro e irrequieto, vindo de velhos tempos de domínio estrangeiro, quando se tomava como matéria-prima para colonização, entre elementos raciais opostos, a massa triste dos degredados, que a justiça portuguesa para cá viveu sempre a enviar.

Naturalmente que a interrupção dessa prática e o fator tempo haviam de minorar os ímpetos do caráter indígena, que a fatalidade histórica, de modo tão pouco amável, comprometeu e assolou. Não obstante, nas camadas populares, onde a instrução penetra a custo, o homem mantém-se, ainda, imoderado e bruto, sanguinário e brigão.

Em 1888, um ano antes da proclamação da República, cafajestes armados até aos dentes ainda saem à frente das nossas bandas militares, atravessam as ruas principais, das mais policiadas da cidade, em pleno exercício da capoeiragem. São divididos em dois grupos: o dos gaiamus e o dos nagôs, os quais por mero sentimento esportivo, em desafogo selvagem, batem-se a cacete e a navalha, atacando, estúpida e desapiedadamente, até pacíficos transeuntes, sem que os poderes públicos possam tomar, pelo que ocorre, medidas moralizadoras e eficazes. De um desses malandros sabe-se que, irritado com a lauta pança de um inofensivo e risonho taberneiro, em pleno centro da cidade, nela plantou uma afiadíssima faca, não sem dizer, com a mais fria das naturalidades, ao que, instantes depois, tombava para sempre:

— Guarda este ferro, aí, ó gordo!

Em 1901-2-3, já não existem mais capoeiras à frente de bandas militares; a coragem do primeiro chefe de polícia republicano nos livrou da indesejável malta, que foi para Fernando de Noronha. Eram, pelo menos, os que formavam o corpo dos profissionais no manejo do pé e da navalha… Cá ficaram, no entanto, os amadores que, se não freqüentavam as famosas escolas ao ar livre, onde se ia cultivar o tenebroso jiu-jitsu americano, ainda se adestram na arte de bem-aplicar no próximo uma boa rasteira, uma cocada ou um rabo-de-arraia… Pelos dias de loucura carnavalesca, a alegria e a cachaça acendem os ânimos desses tradicionalistas. E o homem colonial é o que encontramos na rua vestido de diabo, tendo uma navalha dissimulada na extremidade de uma cauda enorme ou então guardando, sob as dobras macias de um misterioso dominó, um furador de saco de café ou um facão de cozinha. E enquanto não provoca, não luta, não tinge as calçadas de sangue, esse homenzinho não se dá por feliz ou satisfeito.

Por ocasião do carnaval de 1902, as gazetas da terra registram um caso que ilustra o que dizemos.

No domingo, primeiro dia das folganças de Momo, o cordão carnavalesco Filhos da Estrela de Dois Diamantes parte do centro da cidade enchendo um bonde que caminha para Botafogo, batendo pandeiros, raspando reco-recos, dançando, cantando, cheio da mais viva satisfação e de descuido. Quando o veículo da companhia Jardim Botânico vai dobrar a curva da rua Marquês de Abrantes para entrar na praia de Botafogo, é agredido, de surpresa, por vários sócios dos Filhos da Primavera, grupo congênere e rival, que aí se plantaram de tocaia. É uma refrega estúpida e sangrenta. Os homens batem-se como feras. A faca. A tiro. Rolam aos bolos. Sangram-se. Até mulheres entram no conflito, que assume as proporções de uma feroz batalha. Quando serenam os ânimos, a rua é um caudal de sangue. Há mortos, e o número de feridos e contusos é enorme.

Na luta, os atacantes, os do cordão Filhos da Primavera, levam enormes vantagens. Quando chega a polícia, chega tarde; já os da Estrela de Dois Diamantes sucumbem ao peso de uma maioria preparada. E, apenas lavados em sangue, vociferam.

Vale a pena, no entanto, registrar o que sucede, no dia imediato, pelo enterro das vítimas: Angelino Gonçalves, o Boi, e Jorge dos Santos, sem alcunha carnavalesca.

O caso é, realmente, digno de registro.

Saem os corpos do necrotério, que então se instala no edifício da Faculdade de Medicina, isto à praia de Santa Luzia, junto à Santa Casa.

Os da Estrela de Dois Diamantes deixam a morgue organizando o préstito mortuário, com o seu estandarte envolto em crepe, as caixas de rufo teatralmente em funeral, embora os sócios dentro das fantasias as mais escandalosas e berrantes. Os caixões, negros e pobres, vão à frente. A seguir, uma carreta, flores, palmas, coroas e grinaldas. É uma homenagem simples, porém tocante. Desce o préstito, que é numeroso, caminho do Catete. Pelos lugares por onde passa, o povo, reverente, se descobre. As senhoras persignam-se. Rezam. Se a tragédia afligiu toda a cidade! Às janelas das casas chega toda uma multidão de curiosos para gozar o quadro singularmente sombrio e melancólico. Vai o bando lúgubre e silencioso roçando as calçadas do largo da Glória, quando, súbito, lhe surge pela frente, carregando pendões carnavalescos, caixas de rufos, bombos e tambores, um povaréu enorme, que ondula. São várias agremiações congêneres que, em peso, querem, também, homenagear os heróicos batalhadores de Momo, no campo da Honra e do Dever colhidos pela Morte…

Os jornais da época dão o nome dessas associações. São elas: Filhos do Poder do Ouro, Destemidos do Catete, Maçãs de Ouro, Rainha das Chamas e Triunfo da Glória. É um espetáculo magnífico. Verdadeira mobilização de mascarados. Centenas e centenas de homens vestindo as mais berrantes e excêntricas indumentárias de carnaval, com a cara pintada, com sacos de confetti a tiracolo, pacotes de serpentinas debaixo do braço, estandartes policrômicos desenrolados no ar, manchas violentas e alegres de cor num cenário de luto e de tristeza. Formados em continência, deixam passar os esquifes onde repousam os mortos. Depois, incorporam-se à massa espessa dos acompanhadores.

Pela rua do Catete segue o formigueiro humano, caminho de Botafogo, em passo ritmado. De quando em quando novas adesões aumentam a cauda viva, que se encaminha para o cemitério. Mais povo. Mais carnavalescos. Chega a impressionar a majestade do séquito pomposo com que nunca sonharam ter, um dia, Angelino Gonçalves, vulgo Boi, e Jorge Santos, sem alcunha carnavalesca. E vão a marchar, todos, assim, caminho de Botafogo, quando um dos ranchos tem a idéia de fazer soar, sobre a pelica de seus tambores, rufos melancólicos, em ritmada e fúnebre surdina: pram… pram… pram…

A idéia é amável. Agrada. Outros ranchos imitam-na. Rufam também: pram… pram… pram… o ruído dos passos, nas calçadas, é vencido pelo planger das pelicas que as vaquetas barulham. Ganha um pouco de vida a comitiva enorme. À frente, sempre, os dois negros ataúdes que dominós, diabos, clowns e pierrots carregam.

Vão todos em marcha lenta, mais ou menos disposta e aprazida, quando rompe uma voz misteriosa, num cristalino canto que se eleva, em adágio magnífico… E, logo acompanhando-a, o cavo e surdo rumor de instrumentos de sopro…

A toada impressiona. Comove. É profunda. É serena. A princípio desenha angústia. É pranto e é sofrimento. Depois, desenrolada, ganha um ímpeto mais vivo, mais decisivo. Aquece. Arredonda-se. Alteia-se. Destaca-se. Domina. Ouvem-na, todos, curiosos. Depois, subindo sempre, rebenta, num crescendo suavíssi mo, num coro harmonioso, num coro a boca chiusa, que vai, também, por sua vez, avolumando-se, crescendo… Aqui, ali, acolá, já clangoram instrumentos. Esse clangor aumenta. É quando entra, animando-o, a bulha singular dos reco-recos. E dos pandeiros e chocalhos. Dentro de pouco tempo o cantar ensurdece, de tão forte. Toma corpo. Ascende. Transforma o ritmo da solfa, que resvala para um motivo sincopado. Já alegre. E profano. E mômico. E canalha. É o samba! As mulatinhas começam a rebolar as sobras dos quadris, saracoteiam negras crioulas de grandes saias rodadas, fazendo tremer a gelatina dos seios flácidos e disformes; pardavascos agitados, raspam, com fúria, fundos de pratos e reco-recos. Agitam-se pandeiros. Os estandartes rodopiam no ar… Grita-se a mascarados, princesas e velhos, que batem a chula marchando na calçada:

– Corta-jaca! Castigo do corpo! Trama! Remelexo! – Vozeria. Clamor. Desencadeia-se a folia. Delírio. A loucura é geral. Quando chegam ao cemitério, os funcionários da Santa Casa entreolham-se espantados. Entram os dois caixões aos bo léus, os mascarados que os carregam aos empurrões, aos evoés! À frente deles, já passou um bando de índios emplumados, de arco, flecha e tacape, cantando, silvando, vivendo em fogo a pantomima dos seus bailados singulares.

Quando a cova úmida e fria recebe os corpos que se enterram e cruzam no ar confetti e serpentinas, o cemitério está coalhado de máscaras, de fantasiados álacres, que se agitam, massa colorida que se esparrama, fala, ri, barulha, gargalha, entre cruzes de pedra, ciprestes, anjos de mármore que abençoam, lousas, urnas funerárias e salgueiros… E há quem cante. E quem dance…

Sabbat magnífico! Momo domina seus muito amados filhos, soberbo e colossal, do seu trono invisível. É quando se vê um folião representando a figura da Morte, na sua negra e sinistra indumentária, tendo na mão esquerda um crucifixo de prata e na outra uma tíbia, talvez autêntica, talvez achada no lugar, subir para um mausoléu de granito, gritando forte aos carnavalescos que o saúdam, como se fosse ele a própria alma carioca que ali estivesse a gritar, cheia de sinceridade e de vigor:

— Viva o carnaval!

______________________________________________________________________
Edmundo, Luiz. O Rio de Janeiro do meu tempo. Brasília, Senado Federal, Conselho Editorial, 2003 (Edições do Senado Federal, 1), p.505-517

sexta-feira, abril 26, 2013

A rua é do povo

Há 121 anos, esta cidade — logo que chega dezembro — começa a ser sacudida pelos ventos carnavalescos. Iniciam-se os ensaios das escolas de samba, dos ranchos, das sociedades carnavalescas; nascem blocos, surgem as músicas, elas que são a própria alma do carnaval.

Sempre que um grupo de amigos se encontra e conversa, um deles, sendo carioca, perguntará com certeza: — Vocês conhecem este samba? É do carnaval de 1942. — Sim, porque os verdadeiros carnavalescos cultivam em música os passados carnavais, marcados através de marchas ou sambas.

Pessimistas, infelizmente, sempre existiram e são eles os encarregados de bradar todos os anos: — O carnaval está morrendo. — Mas o carnaval continua, modificando-se através das épocas (ninguém pode viver em 1962 como em 1932 ou 1902) mas existindo porque enquanto houver um carioca, ele se encarregará de espalhar o contágio carnavalesco.

Como deve ter sido bonito aquele carnaval de 1888, num momento em que havia grande respeito pelo povo e seus direitos e a Companhia Carris Urbanos chegava a mudar o trajeto dos bondes só para não prejudicar o grande carnaval de rua. Foi na rua que nasceu o nosso carnaval, indo logo depois para os salões. Nesse ano, a rua do Ouvidor, que era chamada “o pulso do Rio de Janeiro”, tornara-se a rua carnavalesca por excelência.

A nós, talvez, pareça impossível que numa ruazinha estreita coubesse tanto movimento. Mas — sabeis — a cidade era menos povoada e a rua do Ouvidor dava para os gastos com a colaboração da Gonçalves Dias, da praça Tiradentes, do largo de São Francisco.

No começo, o carnaval de rua foi horrível. Latas d’água (onde buscá-las hoje?) eram jogadas de janelas, havia limões de esguicho e não apenas água pura molhava os carnavalescos, mas outras águas nada limpas serviam, àquela época, na qual imperava o entrudo, que durou muitos anos. Mas a rua sempre foi, para o carnavalesco, o lugar melhor para rir, brincar, pular, cantar.

Três séculos durou o entrudo — aquele horrível jogar de águas, de polvilho, de sujeiras — cultivado até pelo primeiro imperador, o trêfego Pedro I e que, segundo historiadores, continuou com dom Pedro II, gostando de “brincar” o entrudo na quinta da Boa Vista.

Muito antes da chegada do carnaval propriamente dito, ou sejam, os quatro dias marcados pela folhinha para os folguedos de Momo, as ruas se agitavam com aquilo que então chamavam “comemorações precursoras”. Até comerciantes — eles que hoje só pensam em ganhar dinheiro — promoviam festejos nos quarteirões onde estavam localizadas suas casas de comércio. Talvez estivessem promovendo o que hoje se chama “publicidade”, mas o fato é que o comércio do Rio foi, no passado, um grande amigo e mesmo colaborador do carnaval carioca. Corriam os livros de ouro arranjando dinheiro para que as ruas ficassem belamente ornamentadas com festões, flores, gambiarras, luzes, balões. Ninguém queria fazer feio, principalmente aqueles moradores em ruas por onde passariam os grandes préstitos. E instituíam prêmios para as melhores fantasias individuais como para a melhor sociedade. Em 1889, os fenianos ganharam tantos e tantos presentes que um jornal, registrando o fato, pedia desculpas de não enumerá-los todos, mas só alguns: coroas, vasos de flores, jarros com palmas, jóias de valor, festões de rosas.

Eram importantíssimas as comissões eleitas para o festejo das ruas. Em 1879, os jornais publicavam um anúncio dizendo assim: “Rua Visconde de Inhaúma — Os moradores desta rua, desejosos pelo progresso desta, pedem aos distintos cavalheiros José Júlio Pereira da Silva, Alfredo Coelho da Rocha, Antônio Augusto de Carvalho e Domingos Braga que se encarreguem dos festejos do carnaval desta rua”. (Mantenho o texto tal como foi publicado). Por esse anúncio se sente que não era qualquer um que podia fazer parte de uma comissão de rua. Esses “distintos cavalheiros”, com certeza, já haviam demonstrado, na prática, suas qualidades de carnavalescos e de organizadores.

Nos quatro dias de carnaval, as casas ficavam, de noite, com as luzes acesas, atendendo ao pedido da comissão de folguedos e de algumas delas saíam formidáveis Zé Pereiras “para lembrar aos moradores do bairro o dever de enfeitar suas casas e iluminá-las”.

Em 1889, em todas as janelas da rua do Lavradio (conta o jornal O País), de ambos os lados, queimaram-se fogos de artifício. Em 1891, desceram dos subúrbios para a cidade trinta mil pessoas. Era ainda o carnaval centralizado em determinados pontos do Rio, ele que depois ia ocupar toda a cidade, alastrar-se, subir e descer de morros.

É grande, longa e bela a história do carnaval de rua no Rio de Janeiro. Aos poucos, o carnaval não apenas se descentralizou como usou todos os meios de transporte, fazendo com que tudo compartilhe da folia. Em 1896, os mascarados invadiram os bondes que até hoje continuam veículos muito amados pelos carnavalescos pobres. A viagem é sempre longa, mais barata que a de outros meios de transporte e nela canta-se, brinca-se, namora-se, enquanto a pobre campainha sofre e condutor e motorneiro reclamam. Durante muitos carnavais, os passageiros do bonde Fábrica, que saía do ponto inicial às 7h15min, realizavam renhidas batalhas de serpentinas e confetes. O bonde ia e voltava na “peleja”. Em 1926, até o bonde do Leme entrava no folguedo. Os moradores dali, famílias elegantes, segundo contam os jornais da época, alugavam quatro bondes que, em certo dia carnavalesco, saíam da bela praia para a cidade e a ela voltavam com os foliões. Nessa batalha do bonde do Leme havia farta distribuição de chocolates para as moças e prêmios para os mascarados mais espirituosos. Enquanto os moradores da Zona Norte invadiam os bondes para as batalhas de confete, os moradores do Leme podiam alugá-los. Até nos carnavalescos se encontra a diferença da sorte.

A batalha do bonde do Caju-Retiro foi até registrada em samba; outro bonde de memória carnavalesca é o da Ponta do Caju. Depois dos bondes — mesmo no tempo em que eram puxados a burros — os carnavalescos da rua tomaram conta dos trens, se bem que tivessem conseguido apenas uma grande batalha, no trem que partia da Penhas às 6h55min. Mas brincar mesmo, só podiam nos carros da segunda classe. Por uma dessas ironias do destino, o cordão, promotor dessa batalha num pobre trem de subúrbio, chamava-se Homens de Dinheiro.

Desde que o carnaval existe e dele é dona absoluta esta cidade hoje Guanabara, os carnavalescos da rua escolheram aqueles que melhor lhes parecia. Depois da rua do Ouvidor, quando em 1907 surgiu a avenida Central, o carnavalesco exultou. Agora sim, ia ter espaço para pular. E mesmo que a avenida não fosse como a de hoje, já era uma área maior e mais bela. Foram os foliões que inauguraram, antes da inauguração oficial, a nossa bela avenida hoje Rio Branco. O prefeito Pereira Passos abria a cidade; surgiam jardins, praças, ruas outrora feias e sujas, tortas e estreitas, alargaram-se, foram limpas, tornaram-se retas e claras. Tudo parecia colaborar para a glória maior do carnaval. Em 1908, quinhentas mil pessoas vieram brincar o carnaval na avenida. Era o delírio.

A avenida Beira-Mar, da qual só fora inaugurada a parte correspondente à antiga praça de Botafogo, marcou o carnaval de 1906. Em 1909, a folia alastrou-se pelas ruas vizinhas da avenida Sete de Setembro, “longa rua do largo do Rocio ao largo do Poço”, Uruguaiana, avenida Passos, até a praça da República. Era um mundo em agitação: “gente que sobe, gente que desce, gente que se emaranha e confunde”. Em 1910, o carnaval localizava-se principalmente na Galeria Cruzeiro. Quem poderá esquecer os foliões da Cervejaria Brahma e do Bar Nacional?

Outras ruas tiveram um seguro destino carnavalesco: Santo Amaro, que durante muitos anos manteve o título de foliona, pois nela estavam localizadas nada menos do que cinco sociedades carnavalescas. Aliás, Santo Amaro foi, até a morte do High Life, uma rua que manteve a folia acesa. Mas, sem dúvida, nenhum ponto da cidade foi mais amado pelo carnavalesco da rua do que a praça Onze. Impossível separar o samba carnavalesco da praça Onze que, segundo alguns, lhe serviu de berço. Nascesse onde nascesse o samba, era na praça Onze que ele vinha alimentar seus súditos. Ainda está na memória de todos nós aquele que conta que vão acabar com a Praça Onze (e acabaram mesmo) e que é também um grande hino de despedida à praça do samba, praça sede, berço e mãe protetora de um novo tipo de carnaval: o do povo dos morros, das favelas, das escolas de samba.

Há também um samba declarando, e com toda razão, que a praça Onze não morreu e a prova é que ela se não mais existe, virou um símbolo. Está marcado pelo carnaval o lugar onde ela estava plantada. Ainda hoje, escolas de samba desfilam… na praça Onze.

O largo do Machado também teve sua época, isso em 1896, se bem que os jornais noticiassem que aquele carnaval era “de família”. Sabe-se bem que todo carnaval é de família, pois que durante o reinado de Momo todos parecem se entender, todos cantam, dançam, pulam, como se estivessem em família. E o que são os carnavalescos senão uma grande família?

O carnaval de rua, depois de ocupar os bondes, de tentar ocupar os trens, tomou conta dos automóveis com os grandes corsos que vinham da avenida Beira-Mar até a praça Mauá, com mulheres sentadas nas capotas de autos, com serpentinas indo e vindo, marcando o que então se chamava flirt, com esguichos de lança-perfume, gritinhos e sorrisinhos. Os pedestres colocavam-se ao longo do trajeto do corso e tomavam parte ativa e decidida nas batalhas de confete, serpentina e namoros.

Depois, os carnavalescos ocuparam o mar. Em 1926, apareciam os banhos de mar à fantasia, sem impedir que continuassem as batalhas de confete nas ruas. Confetes que vêm desde 1892 dando cor aos nossos carnavais. (Que beleza é a história do confete, saindo papelinho de Espanha, passando por Paris, mas vindo alojar-se definitivamente nesta cidade). Havia batalhas de confete em ruas pobres e em ruas ricas, com grandes comissões de festejos onde se encontravam comendadores, coronéis, doutores. Batalhas de confete simples, por amor ao carnaval, e outras servindo para fins beneficentes e elegantes, com prêmios valiosos. A primeira grande batalha de confete organizada pelo jornal O País, na avenida Beira-Mar, foi uma beleza. Carros e mais carros desfilavam com dominós pretos, brancos, vermelhos, guardando incógnitos. Todos se fantasiavam; ninguém queria perder a alegria de brincar livremente o carnaval e, para tal, nada melhor do que uma fantasia de dominó com máscara de seda.

Outras, muitas outras batalhas de confete ficaram célebres: a da rua Haddock Lobo, a do boulevard em Vila Isabel, a célebre batalha de confete da rua Dona Zulmira.

O leitor(a) perguntará: — E hoje, de tudo isso, o que há? — Responderei: — Bom, naturalmente os tempos mudaram, duas guerras enlutaram e tornaram mais difícil a vida de nossa geração, além das constantes guerras frias. O mundo evoluiu, o progresso, a civilização, deu aos homens novas condições de vida e de luta, mas não se enganem: nosso carnaval de rua não morreu. Vejam, por exemplo, num domingo de carnaval, os bondes de Copacabana ou dos subúrbios. As batalhas continuam. Vejam os banhos de mar à fantasia, vejam as batalhas de confete, com suas novas características.

O carioca de hoje em dia, açoitado pela inflação, diverte-se como pode, se bem que muitos carnavalescos gastem, muitas vezes, no carnaval, mais do que podem. E fique claro: o que caracteriza um verdadeiro folião é que desde priscas eras até nossos dias, para se divertir, principalmente nos quatro dias, para pular, dançar, rir, beber e amar (verbos muito peculiares aos folguedos de Momo), ele jamais pensou em miséria, carestia, salário baixo, falta d’água e de conforto. Vende, empenha, toma emprestado, cava, dá golpes, mas brinca.

Hoje, várias ruas de Copacabana, como a Miguel Lemos, a Cinco de Julho, a Joaquim Nabuco e ultimamente a Constante Ramos, promovem carnaval de rua, com palanques para crianças. Na frente de uma casa de apartamentos, rapazes iluminam o trecho da rua, alugam uma orquestra, passam cordas para evitar a invasão de outros estranhos à rua e os bailes furam as noites com muita alegria e sambas cantados aos gritos.

O leitor(a), se for pessimista, continuará perguntando: — Por que não enche mais a avenida? — A resposta é assim: — Porque a cidade cresceu muito, as distâncias são longas, a condução é difícil e cara, os moradores do subúrbio preferem ficar nos seus bairros e neles promover o carnaval. Querem ver com os vossos olhos que a terra fria há de comer? Ide, num domingo de carnaval, a Madureira. Vede como há uma multidão agitada, pulando, cantando. O trem que serve aquele subúrbio também toma parte nos folguedos. Sobe e desce abarrotado de mascarados.

Eu aconselharia (e não sou de aconselhar) que aqueles que não acreditam no carnaval — o que significa não acreditar no povo carioca, pois o carnaval é a sua festa máxima — fossem ao subúrbio. Lá encontrarão um carnaval do passado, um carnaval simples e ingênuo, com mascarados de mãos dadas, com um ir e vir em torno de palanques e coretos armados, um carnaval alegre onde ainda há dominós, pierrôs, mortes.

* * *

O que sempre marcou o carnaval de rua foram as fantasias. O chamado “sujo” sempre existiu. No começo, até famílias se fantasiavam de “sujo” para sair dando trotes em amigos e conhecidos. Esse tipo de carnavalesco tem a idade do próprio carnaval. Não se pense que só se fantasia de “sujo” quem sai coberto de molambos, caras pintadas com papel de seda vermelho, homens vestidos de mulher e vice-versa. Não; a característica do “sujo” não é ser sujo mesmo, porém vestir qualquer coisa para esconder-se no anonimato: a casaca do papai, uma antiga roupa da vovó, também servem aos “sujos” que tiveram ou tem pai com casaca e a vovó viva ou morta porém com bonitas roupas. Esse tipo de carnavalesco existe ainda nos estados, onde grupos de famílias se organizam, tornam-se irreconhecíveis e promovem visitas provocando “assustados”, as festinhas familiares do Norte e do Nordeste, improvisadas mas sempre muito alegres.

Há outra espécie de “sujos” que continuam até hoje; em grande maioria, o que lhes dá a fantasia é a miséria, a falta de dinheiro para comprar qualquer coisa que o torne diferente do pacato cidadão que é, antes ou depois do carnaval. No passado, lá pelos oitocentos, o “sujo” chamava-se Zé Códea. Muito devem os cariocas a Zé Códea e aos “sujos” de todas as épocas. Lá vão eles, tocando pandeiros, algumas vezes um bumbo, cantando e pulando enquanto uma caixinha ou uma tampa de queijo é apresentada aos que assistem a suas passagens. Níqueis colhidos para o auxílio às cervejas.

Mas o que marcava os carnavais dos oitocentos era o diabinho. De tal maneira, que sem diabinho nem parecia haver carnaval. Os jornais ora protestavam; onde estão os diabinhos?, ora comemoravam: — Ontem, vimos mais de dez diabinhos. Vermelhos, com grande rabo reto, máscara animalesca de grandes chifres, na mão um tridente, eles eram o próprio carnaval. A fantasia de diabinho, segundo alguns autores, veio até 1920. Mas a partir de 1900, já a rua apresenta outros tipos além do grupo do Zé Pereira com seu zabumba, do diabão, do dominó, que tanto servia aos bailes como à rua. Já se encontravam os morcegos, os bebês, a pastorinha, os princés (que afinal é apenas um príncipe), o burro doutor, o palhaço, o marinheiro, o clóvis (que é clown), índios e aquela horrível figura da morte — uma caveira que toca uma campainha — até hoje tão do agrado dos carnavalescos.

Naturalmente, o dominó dos bailes e dos corsos não era o mesmo das ruas. Os primeiros exibiam-se em riqueza, os segundos em qualquer fazenda lisa. Como não havia nenhuma espécie de proibições aos carnavalescos, a rua dava muito padre, soldados, marinheiros, oficias do Exército ou da Guarda Nacional. E também os originais: um homem fantasiado de “inglês”; outro de “doutor”, montado num enorme cavalo, desfilou pela avenida, mas, segundo o cronista Efegê, entre as figuras carnavalescas de maior sucesso estava o “velho” que vinha à frente dos cordões, fazendo misérias. E cantando:

Eu sou o velho
Dizem todos…
Mas um velho folião
Não é de nenhum reumático
É de puxa… cordão

Não falemos das brigas entre cordões. Estamos aqui apenas para saudar as realizações do carnaval carioca de rua. Nos bailes, as fantasias cada vez mais luxuosas, nas ruas os “sujos” e as improvisações surgidas em cada ano através dos chamados “brinquedos”: bigodes postiços, barbas idem, o índio que até hoje parece liquidar com os espanadores da praça, tantas penas a fantasia exige, o “Pai João”. No Pai João havia o negro, enquanto o Zé Códea era o branco, naturalmente, o português pobre.

Blocos improvisados ou organizados e cordões foram de início os proporcionadores da grande alegria nas ruas, sem falar nos préstitos das grandes sociedades, onde até hoje o povo mais olha do que toma parte. Mas o carnaval de rua, como o grande carnaval carioca, tomou uma nova forma — melhor e mais bela — quando, segundo Almirante, nasceram em 1915-1916, as escolas de samba.

O que há hoje em dia como carnaval de rua? Tudo, modificado é claro, mas pobre, infelizmente, mas ainda há, mascarados e rara é a noite em que, a partir de dezembro, não se tem que correr à janela para ouvir e ver passar uma escola de samba ou um bloco que está ensaiando para os quatro dias. Ensaiando só? Não. Está já fazendo o seu carnaval. As músicas diferem, se bem que há outras que vêm do passado, ficando como que arraigadas ao corpo dos carnavalescos. Ao corpo e à memória.

* * *

Houve uma democratização no carnaval carioca. No começo, as senhoras “bem” não tomavam parte nas batalhas nem nos folguedos da rua do Ouvidor ou da avenida. Ficavam olhando das janelas enfeitadas ou brincando entrudo umas com as outras. As menos “bem” alugavam cadeiras nas calçadas para olhar. O tempo passou, o micróbio carnavalesco (é um micróbio, sem dúvida) tomou conta da cidade. Quando as senhoras começaram a invadir os bailes iam tão irreconhecíveis que — pensavam — com aquela fantasia estavam zelando e defendendo a dignidade da família. Hoje os bailes não exigem tanto; as “bem” e as “mal” não precisam esconder o rosto. O carnaval é para todos.

A rua é do povo e é o povo — que continua mais sofredor que ontem — sempre carnavalesco, realizando o seu carnaval, com sapatos ou tamancos, de “sujo” ou de camisa listrada, as morenas, de odaliscas, escurinhas, de cabeleiras brancas, a rua do povo continua o seu papel de servir carnavalescamente ao povo.

Um grande carnaval para vocês, leitores.

______________________________________________________________________
Eneida. “A rua é do povo”. Revista Senhor. Rio de Janeiro, fevereiro de 1942

Eneida (Eneida Costa de Morais), jornalista e escritora, nasceu em Belém, PA, em 23/10/1904, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 27/4/1971. Com apenas 15 anos, foi secretária da revista literária A Semana, em Belém, e em 1929 lançou o livro de versos Terra verde.No mesmo ano, foi para o Rio de Janeiro, onde se radicou, tendo trabalhado em vários jornais cariocas (inclusive A Manhã, do barão de Itararé), fixando-se como cronista do Diário de Notícias, da década de 1950 até a morte. Conhecida como a maior foliã do Carnaval da cidade, criou o famoso Baile do Pierrô, realizado todos os anos em boates de Copacabana, aos quais compareciam os maiores artistas plásticos, escritores e cantores, todos fantasiados de pierrô.