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sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Romeu Arêde, o "Picareta"

Romeu Arêde
"Um Romeu apaixonado que o carnaval consagrou como Picareta". Em janeiro de 1918, os ‘apaixonados’, que haviam constituído um bloco (agremiação recreativa), realizavam, no dia oito, um ‘carruscuba’, baile à fantasia, e os anúncios aparecidos nos jornais eram firmados por Picareta. Tinha ele o cargo de secretário do agrupamento e, consoante a tradição momística, seu nome civil — aquele que foi dado e ficou constando dos documentos — deveria, sempre, nas manifestações foliônica, ser relegado. Romeu Arêde, embora sendo a mesma pessoa, tinha uma característica grave e só aparecia em assuntos sérios, importantes, isentos ao contágio carnavalesco.

Assim, nos idos de 1920, ao se iniciar no jornalismo em A Pátria como auxiliar do K. Noa (Antonio Velloso), cronista de Carnaval desse matutino, já era com o apelido de Picareta que aparecia no noticiário. Sendo um ‘apaixonado’ (ainda que apenas carnavalesco), seu nome Romeu, legítimo, confirmado no batismo religioso, seria propício, ou ‘a calhar’, se preferirmos a prosódia lusa. Mas, habilidoso, sabendo meios e modos de conseguir, de cavar as coisas, sugeriu, fácil e intuitivamente, a ferramenta que lhe serviu de alcunha. Ficou sendo Picareta entre os companheiros do bloco e, depois, consagrado nas lides da imprensa e do Carnaval.

Batizado no ‘ninho dos suspiros’

Quando, em 31 de dezembro de 1914, alguns carnavalescos fundaram o Bloco dos Apaixonados e o instalaram na Rua Senador Pompeu nº. 128, ao mesmo tempo em que adotaram as cores branco e roxa denominaram a sede ‘ninho dos suspiros’. Observavam a praxe estabelecida pelos coirmãos: os Fenianos recreavam-se no ‘poleiro’, os do rancho Flor do Abacate no ‘galho’ etc., etc. Romeu Arêde, funcionário da já naquele tempo malsinada Estrada de Ferro Central do Brasil, integrando-se entre os ‘apaixonados’ deveria, também, como seus companheiros Patuscada, Papagaio, Cavaignac e outros, ter apelido.

Escolhida a alcunha e tornada usual — pois no bloco ninguém mais ousava chamá-lo Romeu — faltava, no entanto, proceder-se ao ritual galhofeiro do ‘batismo’. Profana, com o estourar de uma garrafa de champanha cujo líquido se deixou propositadamente molhar fartamente a cabeça de ‘pagão’, essa solenidade se realizou durante um sarau dançante. Na noite de 6 de outubro, quando o baile, animado pelo pianista oficial do bloco, Jayme Arêde (irmão de batizado), atingia ao auge, ela ocorreu. Estava presente o Vagalume (Francisco Guimarães) e, em justa homenagem — pois além de representar o Jornal do Brasil era ele um dos baluartes da crônica carnavalesca — escolheram-no como paraninfo (padrinho).

Na imprensa a serviço de Momo

Renunciando à sua qualidade de ferroviário, Romeu Arêde dedicou-se inteiramente ao jornalismo. Em 1922, com o aparecimento do vespertino Vanguarda, o pseudônimo Picareta estava em suas páginas na coluna dedicada ao Carnaval. Tinha, desde então, a qualidade de titular e trazia para o bom desempenho, aliada à sua militância de ‘apaixonado’ carnavalesco, a prática que adquirira como auxiliar do K. Noa no diário fundado por João do Rio. Proporcionava aos leitores ocasionais de sua página e aos que interessados nos festejos de Momo eram assíduos, um noticioso vasto, detalhado, ao qual se juntavam croniquetas chistosas e ferinas.

A par de sua atividade jornalística promovia e incentivava realizações animadoras do Carnaval tais como batalhas de confete bailes e competições. Tornava-se em pouco tempo um dos maiorais dividindo com seus colegas Vagalume, K. Noa, Raboje (do Jornal do Commercio), Barulho (de A Noite), e Fofinho (do Correio da Manhã), o estrelato da crônica carnavalesca. Filiando-se à Turma dos Cronistas Carnavalescos, mais tarde dela se desligava e fundava o Centro de Cronistas Carnavalescos onde ocupou vários cargos em sua direção. Com tão expressivo cartel, foi ele escolhido para substituir no Jornal do Brasil, em 1930, Ephraim de Oliveira (o Meúdo), sucessor do já citado Vagalume. Afora o prestígio que lhe dava a tradição carnavalesca do veterano órgão, Picareta passou então a dominar, graças, principalmente, ao fato de ter coluna permanente para cuidar de recreativismo durante todo o ano.

Carnaval sem cronistas de ofício

Em maio de 1941, precisamente no seu segundo dia, Picareta falecia num leito do Hospital Gaffrée-Guinle, deixando nome e pseudônimo inteiramente ligados ao Carnaval carioca. Sepultado no cemitério de São Francisco Xavier, teve presente ao seu enterramento numerosa assistência composta por muitos daqueles ‘apaixonados’ com os quais formou um bloco e por gente que com ele folgou nos dias do reinado de Momo. E, por significativa coincidência, a despedida que à beira de sua campa faziam seus amigos e admiradores teve como intérprete Antônio Velloso (o K. Noa), o colega que o iniciara no jornalismo vinte anos antes.

Hoje, a valorização do espaço, a reformulação do espírito carnavalesco e outros fatores facilmente identificáveis, levaram a imprensa a restringir a assistência ampla e constante que dava ao assunto Carnaval. Desaparece ele de suas páginas por quase todo o ano e só nos primeiros meses, os que foram chamados ‘pródromos da folia’, reaparece como noticiário informativo apenas, isento de glosas e galhofas. Conseqüentemente os cronistas carnavalescos de ofício, morrendo quase todos, não tiveram continuadores. Justo, portanto, recordar-se um deles, que se chamava Romeu, foi ‘apaixonado’ e consagrou-se como Picareta.
(O Jornal, 11/07/65)

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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Turunas de Monte Alegre

Com Elizeth Cardoso (indicada pela seta) como porta-estandarte o bloco Turunas de Monte Alegre arrebatou seu primeiro campeonato em 1936 (Foto: Biblioteca Amadeu Amaral - FUNARTE).
“O hexacampeão Turunas deixou de ser rancho por não ter competidores”. Já que eles haviam escolhido o termo ‘turunas’ (brasileiríssimo sinônimo de forte, ou bamba) para designar a sua agremiação, precisavam honrar o título. Tinham que enfrentar os concorrentes com galhardia e em todos os prélios dos quais fossem participantes sair sempre vitoriosos ou, pelo menos, ficar entre os primeiros colocados. Se na lista dos julgamentos aparecessem nos últimos lugares, na ‘rabada’, estavam desmoralizados. Viriam as piadas, o deboche: “Que turunas são vocês?!”

Foi pois na compenetração do nome no adjetivo de seu batismo, que os carnavalescos, fundadores ou simples associados do grêmio carnavalesco Turunas de Monte Alegre, entraram na liça dos folguedos de Momo. Começaram como bloco e ‘paparam’ três campeonatos seguidos. Constituíram-se em rancho, modalidade de maiores exigências artísticas, e por seis vezes triunfaram em primeiro lugar sem ter quem os enfrentasse ou ameaçasse interromper a série de seus triunfos. Resolveram, então, tornar-se em ‘grande sociedade’ e desfilar com alegorias ao lado dos veteranos Tenentes, Democráticos e Fenianos numa competição mais difícil, menos ‘sopa’ que as travadas anteriormente.

Numa esquina, o nascimento


Os Turunas Engarrafados, um ‘sujo’ (grupo carnavalesco) formado pelos sócios do Boqueiro do Passeio e que marcou sua presença na folia de 1906, teve seu nascimento na garagem do próprio clube. Já os Turunas de Monte Alegre, hoje tricampeão dos blocos e hexacampeão dos ranchos, nasceram numa esquina, a da Rua André Cavalcante (ex-Silva Manoel) com a da Rua do Riachuelo. Depois, na casa do Jujuba (Milton Schleder), na Rua Monte Alegre, em 5 de dezembro de 1934, foi que se constituiu clube para participar da farra do Carnaval e competir, como bloco, com outros existentes na época. Iriam desfilar junto com o Eles te Dão, o Respeita as Caras, o De Língua Não se Vence, etc.

Na euforia da fundação, Ernesto, Afonso, Margarida, Fontela, Marçal e mais alguns presentes ao ato deliberaram o comparecimento do clube, apenas como simples bloco, num banho à fantasia a ser realizado no Flamengo. A presença do já denominado Turunas de Monte Alegre, embora sem caráter oficial e não visando a alcançar prêmio algum dos vários a serem distribuídos, resultou, no entanto em vitoriosa estréia. A rapaziada fazia sua primeira saída pré-carnavalesca somente para ‘dar uma pala’ de sua fibra foliônica e, de volta, passando pela esquina onde se reunia, exibia o troféu conquistado. Era o prêmio do primeiro lugar obtido e também sua primeira vitória.

“É chato ganhar sempre”


Animados com o êxito da despretensiosa amostra que fizeram, os Turunas, em 1935, reunindo cerca de setenta figuras e subordinados ao enredo ‘Tribo dos amores’, realizaram sua primeira passeata no Carnaval. Antonio Silva (Galo Cego), o presidente, no inscreveu o clube em competições. Era uma passeata sem compromisso, com o fito único de recreação. No ano seguinte, porém, o Turunas de Monte Alegre aderia ao ‘Dia dos Blocos’, promoção do Correio da Noite, e arrancava o campeonato sobrepujando coirmãos mais antigos e que prometiam ‘abafar’ o novato. Igual proeza levou a efeito em 1936, 37 e 38 participando do mesmo certame e logrando, por isso, o honroso título de tricampeão dos blocos.

Sentindo que não teria dificuldade de suplantar nos anos subseqüentes os possíveis adversários, os turunas renunciaram à condição de bloco. Passaram a ter a constituição de rancho e alinhavam-se entre os conjuntos dessa categoria. Começavam portanto desde 1939 a entrar em cotejo com agremiações que seguiam a tradição dos famosos Ameno Resedá, Flor do Abacate, Caprichosos da Estopa etc., sem ter medo disso, ‘foram pra cabeça’.

Com Elizete Cardoso como porta-estandarte (depois de vencida a resistência de seus pais) e o Duque, garboso, de mestre-sala, o Turunas de Monte Alegre alcançava o primeiro lugar na disputa cujo patrocinador era o Jornal do Brasil.

Em 1940 merecia novamente a láurea de campeão, que também lhe foi outorgada em 41 e 42, assim como em 47 e 48, após a interrupção de 43 a 46 causada pela guerra mundial. Consagravam-se os turunas como hexacampeões dos ranchos, depois de terem sido tricampeões dos blocos. Podiam, assim, exclamar enfastiados: “é chato ganhar sempre!”

A cavalo e com alegorias

Imitando o célebre espanhol que buscava valientes para pelear com ele, o Turunas de Monte Alegre, aureolado por tantos campeonatos e desejando ter nos prélios do reinado de Momo novas emoções, buscou outra modalidade.

Em 1950 filiava-se à Federação dos Grandes Clubes Carnavalescos e na noite de terça-feira, fechando o tríduo álacre da maior festa carioca, entrava na Avenida Rio Branco para seu primeiro desfile com alegorias. A frente, formando a guarda de honra que abria o préstito, os turunas montando bonitos cavalos viam-se aplaudidos pelo povo e reverentes chapeau bas (usando-se o francesismo carnavalesco) agradeciam. Acompanhando-os as moças que vinham no alto dos carros alegóricos também retribuíam a acolhida do público e jogavam-lhe beijos aos punhados.

Como estava previsto, participando de uma competição onde além dos centenários Fenianos, Democráticos e Tenentes, havia o Pierrôs da Caverna, a Embaixada do Sossego e outros antigos — coirmãos, a parada seria difícil. Era o ‘benjamim’ das grandes sociedades, e embora apresentando vistosas alegorias concebidas pelo experimentado Rainha (Antonio Setta), conquistou apenas o longínquo sexto lugar na classificação encabeçada pelos Tenentes. Longe, porém, de o intimidar, esse revés levou o clube Turunas de Monte Alegre a envidar esforços. E pondo sua gente em brio nos anos de 1953 e 57 assegurava para suas cores o vice-campeonato das grandes sociedades.

Encontrando finalmente competidores que não lhe têm permitido reeditar a seqüência de campeonatos que alcançaram como bloco e rancho, os turunas, mesmo assim, estão sempre no páreo, lutam por novas vitórias. O clube que ‘teve seu começo’ na esquina da Rua André Cavalcante com a Rua Riachuelo procura tenazmente não desmoralizar o termo de seu título.

(O Jornal, 14/02/65)

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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

História dos ranchos carnavalescos

O pioneiro dos ranchos foi o "Rei de Ouros", fundado em 06/01/1894 pelo baiano Hilário Jovino Ferreira, que emigrou da Bahia para o Rio de Janeiro indo morar no bairro da Saúde. A primeira de grupo foi paresentar o rancho no Carnaval e não no Natal como era costume em  sua terra.
Os ranchos eram agremiações carnavalescas típicas da cidade do Rio de Janeiro, no final do século XIX e na primeira metade do século XX. Tinham grande influência dos folguedos negros - como os Cucumbis e Congos, possivelmente trazidos pelos escravos de origem Banto, sudanesa - e das tradições musicais populares portuguesas, muito difundidas nas camadas mais desassistidas da população carioca.

O desfile de um Rancho Carnavalesco pode ser descrito como um cortejo, com a presença de um Rei e uma Rainha, ao som de uma marcha-rancho, acompanhado por instrumentos de sopro e corda, ritmo mais pausado que o samba. Não eram usados instrumentos de percussão. Havia os mestres, um de Harmonia, um de Canto e um de Sala, responsável pela coreografia.

Os Ranchos desfilavam com porta-estandarte e mestre-sala que tinham que dançar e ficar atentos a qualquer movimento. A enorme rivalidade entre os ranchos podia causar numa situação humilhante, que era a de ter seu estandarte roubado por um componente de um rancho rival. Naquele tempo o mestre-sala desfilava armado de navalha para proteger o pavilhão de sua agremiação. Com as devidas adaptações, o casal responsável pela guarda do pavilhão do grupo também estará presente nos desfiles das escolas de samba.

A história

A historiografia tradicional do carnaval carioca afirma que os ranchos do Rio de Janeiro descendem dos ranchos de Folia de reis baianos, que saíam normalmente no Dia de Reis. Hilário Jovino Ferreira, em depoimento tardio, afirmou que foi ele quem criou o primeiro rancho carnavalesco no Rio de Janeiro, o Reis de Ouro, após participar do rancho Dois de Ouro, situado no Beco João Inácio. Ainda de acordo com seu depoimento, havia registro de alguns ranchos nesse estilo no Rio de Janeiro anteriormente.

Esta versão, entretanto, deve ser relativizada pois muitos pesquisadores relatam a presença de ranchos nas festas populares (incluindo carnavais) da cidade décadas antes da fundação do Reis de Ouro. Referindo-se aos chamados "ranchos de cucumbys", Mello Moraes Filho afirma que os ranchos existiram no Rio em 1830. Martha Abreu, por sua vez, afirma que os ranchos já existiam no Rio de Janeiro no início do século XIX.

Escrevendo em meados do século XIX, Manuel Antônio de Almeida descreve um "um grande rancho chamado das baianas, que caminhava adiante" de uma procissão no centro da cidade. O pesquisador Brasil Gerson, por sua vez, considera que o primeiro rancho carnavalesco teria sido o Rancho das Sereias, surgido no começo da República, na Pedra do Sal, na Prainha. A variedade de informações aponta para uma origem incerta para os ranchos. O que se pode afirmar é que nos primeiros anos do século XX, os ranchos se tornaram a grande atração do carnaval carioca, principalmente após o primeiro desfile do Ameno Resedá que estabeleceria o formato da brincadeira carnavalesca, apresentando desfiles descritos como verdadeira óperas populares.

Em 1894, o Reis de Ouro foi recebido no Palácio do Itamaraty pelo Marechal Floriano Peixoto. Em 1911, o Marechal Hermes da Fonseca convidou o Ameno Resedá para visita ao Palácio Guanabara. O ano de 1911 também foi marcado pelo primeiro desfile competitivo oficial, organizado pelo Jornal do Brasil.

Em 21 de fevereiro de 1919 foi criada a Liga Metropolitana Carnavalesca, pelos ranchos, contando como membros fundadores: Ameno Resedá, Flor do Abacate, Miséria e Fome, Unidos da Aliança, Arrepiados, Cangaceiros do Caju, Jasmin de Ouro, Lírio do Amor, Cravina, Estopa e Deusa da Folia.

Com o crescimento das escolas de samba, os ranchos foram desaparecendo. No final dos anos 50 estavam em total declínio. O último desfile de ranchos aconteceu no ano de 1980, no Rio de Janeiro, e foi vencido pelo Decididos de Quintino (1).

Em 8 de outubro de 2000, foi criado em Copacabana o rancho Flor do Sereno, com as cores azul, verde e prata, a partir de uma tentativa de estudiosos de reviverem esta tradição aparentemente perdida. Ainda há dúvidas entre especialistas se o Flor do Sereno poderia se configurar como um rancho legítimo, uma vez que não apresenta todos os elementos dos ranchos antigos, e já que foi criado de forma artificial, a partir de uma manifestação popular já extinta há vinte anos (2).



Alguns concursos de ranchos

1911

Flor do Abacate - "Reinado da Turquia"

1912

Ameno Resedá - "Corte celestial"

1914

Ameno Resedá (campeão)

1915

Corbeille de Flores - "Sonho de Dulcinéia"

1919

Flor do Abacate - "Corte dos Doges"

1920

Recreio das Flores - "Aída" (campeão)
Os Arrepiados - "Jardim do amor"
Mimosas Cravinas - "Os Lusíadas" (melhor enredo, originalidade e completo desempenho)
Gualemadas - "Aladdin e a lâmpada maravilhosa"

1921

Recreio das Flores - "Inferno de Dante" (campeão)
Jardim dos Amores - "Jardim dos beatos"
Reinado de Siva - "Lei Áurea"
Flor do Abacate - "O Anel de Nibelungen"
Gualemadas - "As Profecias de Eliseu"
Caprichosos da Estopa (melhor harmonia)
Os Gravatas - "As passagens da vida"

1922

Recreio das Flores - "Paraíso de Dante" (campeão)
Cruzeiro do Sul - "Homenagem ao centenário do Brasil"
Reinado de Siva - "Jardins Suspensos da Babilônia"
Gualemadas - "Carlos Magno e os Doze Pares de França" (melhor arte e originalidade)
Caprichosos da Estopa - "A Cidade do passado e a Corte da Macumba" (melhor estandarte)
Os Gravatas - "As quatro estações do ano"

1923

Ameno Resedá - "Lenda encantada" (campeão)
Cruzeiro do Sul - "Carnaval de Nero"
Caprichosos da Estopa - "Desembarque dos Argonautas na Ilha de Lemnos" (melhor evolução)
Os Gravatas - "O Reino de Júpiter"

1924

1º Flor do Abacate - "Salomão e a Rainha de Sabá"
3º Ameno Resedá - "Hino Nacional"

Outros enredos:

Os Arrepiados - "Últimos Dias de Pompéia"
Caprichosos da Estopa - "Mi-Carême"
Cruzeiro do Sul - "Fonte Castalia"
Miséria e Fome - "Lohengrin"
Estrelas do Paraíso - "Walkírias"
Os Gravatas - "Apoteose ao sol" (melhor harmonia)

1925

Ameno Resedá - "Jupira" (menção honrosa)
Caprichosos da Estopa - "O cerco e a tomada de Calais" (melhor evolução)
Os Gravatas - "Nero contemplando o incêndio de Roma" (melhor harmonia)

1926

Os Gravatas - "A lágrima" (menção honrosa)

1928

Caprichosos da Estopa - "Dionísio" (campeão)
Flor do Abacate - "Orgia latina"

1929

Caprichosos da Estopa - "Nos festins e orgias da encantadora Salomé" (campeão)

1930

Flor do Abacate (campeão)
Os Arrepiados - "Ordem e progresso"

1931

Flor do Abacate - "Átila e os Hunos" (campeão)
Deixa Falar - "O Paraíso de Dante"

1932

1º Flor do Abacate - "A tomada de Babilônia pelos persas"
2º Flor da Lira (Bangu) - "Napoleão Bonaparte em campanha no Egito em 1798"

Prêmio Melhor Harmonia: Os Arrepiados
Prêmio Melhor Enredo: Grêmio Carnavalesco Rouxinol
Prêmio Melhor Evolução: Lyrio Club de Botafogo
Prêmio Originalidade: Destemidos da Caverna
Prêmio Melhor Estandarte: Parasitas de Ramos

Outros enredos:

Grêmio Carnavalesco Rouxinol - "Ourasi"
Parasitas de Ramos - "Os deuses subolímpicos"
Lyrio Club de Botafogo - "Tabu, lenda japonesa. A grande Chechiana"
Aborrecidos do Realengo - "Amor de toureiro"
Elite Club do Realengo - "Condessa de Segur Blondina"
Destemidos da Caverna - "A epopéia dos bandeirantes"
Os Arrepiados - "Sobre rosas"
Deixa Falar - "A Primavera e a Revolução de Outubro"
Miséria e Fome - "Os doze Césares"

1934

Recreio das Flores (campeão)
União das Flores - "No país das pedras verdes"

1936

União das Flores (campeão)

1938

União das Flores - "Capitão Corcoran" (campeão)

1939

Turunas de Monte Alegre (campeão)

1940 Apenas três ranchos desfilam:

Inocentes do Catumbi
Turunas de Monte Alegre (campeão)
Aliança de Quintino

1941

Turunas de Monte Alegre (campeão)

1942

Turunas de Monte Alegre (campeão)

1943/1944/1945 Sociedades, ranchos e blocos não desfilaram devido à Segunda Guerra Mundial.

1946

Turunas de Monte Alegre (campeão)

1947

Turunas de Monte Alegre (campeão)

1954

Embaixadores do Sossego (campeão)

1960

União dos Caçadores - "Arte - incomparável sabedoria de nossa raça"

1963 Desfilaram na Avenida Presidente Vargas(1)

Recreio da Saúde - "Epopéia dos Poetas"
Unidos do Morro do Pinto
Índios do Leme
Unidos do Cunha
Tomara que chova
Decididos de Quintino (campeão)
Aliados de Quintino
Azulões da Torre

1968 Segundo a imprensa da época, esta já era uma tradição que por falta de apoio oficial, já estava morrendo, desfilaram na Avenida Presidente Vargas os seguintes ranchos: (2)

União dos Caçadores
Tomara que Chova
Decididos de Quintino
Ameno Resedá
Índios do Leme
Unidos do Morro do Pinto
Recreio da Saúde - "Exaltação ao Teatro do Brasil"
Aliados de Quintino

1969 Desfilaram na Avenida Presidente Vargas (3)

Recreio da Saúde
União dos Caçadores - "Amor de Carnaval" (campeão)
Unidos do Cunha
Aliados de Quintino
Decididos de Quintino
Azulões da Torre
Unidos do Morro do Pinto
Índios do Leme

1972

União dos Caçadores - "Homenagem a Benjamim de Oliveira"

1977 Desfilaram na Avenida Rio Branco

Império de São Cristóvão
Decididos de Quintino
Azulões da Torre
Unidos do Cunha
Índios do Leme
Lira de Vila Isabel
Aliados de Quintino
Recreio da Saúde
União dos Caçadores
Parasitas de Ramos

1978

Aliados de Quintino (campeão)

1979

1° Aliados de Quintino
2° Império de São Cristóvão
3° Recreio da Saúde

1980

Decididos de Quintino (campeão)

Bibliografia

GONÇALVES, Renata de Sá. Os Ranchos pedem passagem. Rio de Janeiro, PPGSA/IFCS/UFRJ, 2003; FERNANDES, Nélson da Nóbrega. Escolas de Samba: Sujeitos Celebrantes e Objetos Celebrados. Rio de Janeiro, Coleção Memória Carioca, vol. 3, 2001; EFEGÊ, Jota. Ameno Resedá: o rancho que foi escola. Rio de Janeiro, Letras e Artes, 1965; EFEGÊ, Jota. Figuras e coisas do Carnaval Carioca. Rio de Janeiro, Funarte, 1985; ABREU, Martha. O império do divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999; ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 2001; GERSON, Brasil. História das ruas do Rio: e de sua lembrança na história política do Brasil. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2000; MORAES FILHO, Mello. Festas e tradições populares do Brazil. Rio de Janeiro: Fauchon e Cia., 1895.

Referências

(1) Jornal Última Hora, 27 de fevereiro de 1963, caderno 2, página 6 e 1 de março de 1963, caderno 1, página 12; (2) Revista Quatro Rodas, ano VIII, nº91, março de 1961, página 61; (3) Jornal Última Hora, 15 de fevereiro de 1969, caderno 2, pág. 6.

Fontes: Wikipédia; Portal Luis Nassif.

terça-feira, julho 31, 2012

K. Peta, marchista, sambista e revisteiro

Rimus Prazeres, o K. Peta
Embora as bonitas marchas que ele fez para diversos ranchos fossem assinadas como sendo de Rimus Prazeres (síntese de seu extenso nome: Primitivo Rimus Rodrigues Prazeres), também era do K. Peta a autoria. Simplesmente porque os dois eram a mesma pessoa dividindo-se na atuação carnavalesca como letrista das canções entoadas pelos grupos músico-alegóricos e como cronista nas colunas da imprensa. Aos versos condicionados às vibrantes melodias compostas pelos seus parceiros, apunha o nome civil (na abreviatura que usava). Na irreverência satírica de seus escritos no jornal mascarava-se com o pseudônimo.

Assim o K. Peta, homôfono do temível ‘chefão’ do Inferno, mas dele se diferenciando bastante, a começar pela grafia exótica do cognome, procurava separar o poeta Rimus Prazeres de suas ‘fofocas’ jornalísticas. Não sendo, porém, só o gato que ao se esconder deixa o rabo de fora, o endiabrado K. Peta acabou identificado como irmão siamês do menestrel Prazeres cujo estro serviu a um punhado de ranchos. Foi, inegavelmente, usando-se o neologismo trocadilhesco criado por Orestes Barbosa, um ‘marchista’ dos mais disputados e expressivos.

Cronista da série K

Ao tempo em que a imprensa podia prodigalizar farto espaço ao Carnaval mantendo em seu corpo redatorial um ou mesmo dois jornalistas especializados no assunto, Rimus Prazeres foi um deles. Começou adotando pseudônimo da série K na qual avultavam K. Noa, K. Rapeta, K. Dete, K. K. Reco, K. Ico e outros. Com esse apelido assinou diversas crônicas no Diário Carioca, em A Pátria e, principalmente, no semanário O Momo, do qual, com K. Zinho (Oscar Martins) foi um dos diretores. Maliciosos, irônicos, dosados de um humorismo ferino, seus escritos causticavam e faziam rir.

Jornalista ‘de forno e fogão’, capaz de atender bem e com desembaraço a qualquer dos setores do compósito (bonito termo, não?) de um matutino ou vespertino, não se ateve apenas ao carnavalesco. Logo que o assunto referente ao Carnaval começou a ‘mixar’ e ter apenas dois ou três meses de atenção na imprensa, passou ao noticioso generalizado. Conseguiu, então, em 1939, ser admitido como redator da Agência Nacional onde trabalhou até poucos dias antes de sua morte ocorrida em 1 5 de fevereiro de 1957 deixando consternados os que com ele conviveram.

Prazeres ‘marchista’

Filho do carnavalesco Simeão integrado no Flor do Abacate, do Catete, foi levado pelo pai pra o ‘galho’ (nome que tinha a sede da agremiação) e já em 1921 ali recebia missão de relevo. Vitorioso o rancho na mi-carême — realizada em março por iniciativa do Jornal do Brasil — fez parte da comissão que foi receber o troféu. Depois, em 1928, quando já havia lançado, em 1926, com Laudelino Silva, a marcha Crepúsculo e luar, para o Carnaval desse ano, tinha, com Antenor Esteves, o cargo de mestre-de-canto. Davam-lhe incumbência de destaque e incentivavam-no a novas composições que ele próprio as ensaiava e alcançavam o êxito desejado nos desfiles do rancho em cotejo com os coirmãos.

Sem se obrigar a uma exclusividade e solicitado por outros ranchos, Rimus Prazeres já em 1930 atendia ao pedido do Cartolinhas Misteriosas, da Penha, e fazia para esse rancho a marcha Homenagem à imprensa. E mostrando fertilidade, no mesmo ano colaborava no Carnaval do Miséria de Fome, da rua de Santa Luzia, com a marcha Nossa glória, e no do Arrepiados de Laranjeiras, com a intitulada Ideal vencido. Sempre requestado, em 1932, a pedido do presidente Antonio Bernardo, estava no bloco Tomara que Chova, de Botafogo, como seu diretor-técnico, mas continuava versejando novas composições. Pôde, desse modo, escrever para o Recreio das Flores, da Saúde, em 1936, llusão de artista e, após um hiato de doze anos, Nova capital do Brasil, cantada pelo União dos Caçadores quando de sua exibição em 1948.

Também sambista e revisteiro

Jornalista de profissão e excelente poeta, fazendo versos pomposos, alegóricos, bem ao gosto dos ranchos que os queriam com vocábulos preciosos, com palavras difíceis (rosicler, lirial, melopéias etc.). Prazeres foi um ‘marchista’ dos mais brilhantes. Seguiu a mesma linha dos expoentes: Antenor de Oliveira, Napoleão de Oliveira, Pedro Paulo, Bonfiglio de Oliveira, Álvaro Sandim, Sady Bandeira e poucos mais de uma lista no muito numerosa. Mas embora seu forte fosse a marcha-de-rancho, deixou também na sua bagagem litero-músico-carnavalesca, com autoria consignada a K. Peta e Rimus Prazeres, alguns sambas e revistas teatrais. No grupo daqueles (os sambas) destaca-se o É daqui! com o qual o Flor do Abacate glosava os seus rivais Caprichosos da Estopa, Lírio do Amor etc. No destas (as revistas) Chocolate com torradas, Média só, e canja!, Disparates e mais algumas sempre em parceria com Jogo Luiz Pereira (Patativa).

Desse modo, longe de sua autêntica biografia, recordou-se um antigo carnavalesco que, na imprensa e como participante dos bonitos ranchos de outrora, muito contribuiu para os festejos de Momo na terra carioca. Autor de primorosas marchas-de-rancho que, infelizmente, como as de outros compositores especificamente dedicados a esse gênero de música popular, não tiveram quem as recolhesse para a posteridade nem merecia a rememoração ora feita, Primitivo Rimus Rodrigues Prazeres ou Rimus Prazeres na abreviatura que usava, o cronista K. Peta foi sem favor, como está no título, um grande ‘marchista’ a serviço dos muitos ranchos, dando-lhes as bonitas canções entoadas às suas passeatas.


(O Jornal, 11/04/65)

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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

quinta-feira, abril 19, 2012

Camarão, o mestre-sala

Com sua roupagem vistosa, o mestre-sala "Camarão" se exibe com a sobrinha Alice de Sousa, no rancho "Unidos do Cunha", do bairro de Catumbi (Carnaval de 1958).
Já com 62 anos, Camarão ainda saía como mestre-sala defendendo a tradição dos ranchos e de seu apelido no Carnaval carioca. Sem se deixar vencer pela idade, fazendo alarde de sua categoria que durante seis anos consecutivos (1927-1932) lhe permitiu ser escolhido como ‘o melhor mestre-sala’, mostrava-se com garbo e destreza. Exibia-se com porta-estandartes jovens e bonitas fazendo evoluções coreográficas as mais requintadas, nas quais havia um misto de acrobacia e ademanes fidalgas.

Seu nome João Pereira Subtil, substituído pela alcunha herdada de seu pai Álvaro Pereira Subtil, também conhecido como Camarão, poucos o sabiam. Prevalecia sempre a antonomásia fácil trazida desde quando garoto, aos 16 anos, saíra de caboclo, juntamente com o genitor (exímio pandeirista) no Cordão Flor da Primavera. Pouco depois, ingressando no rancho Arrepiados, do bairro de Laranjeiras, e fazendo sua estréia como mestre-sala, já estava, em definitivo, apelidado "o Camarão".

Todo apelido tem uma história

Apelido algum nasce sem uma história, ao acaso. O de Álvaro Pereira Subtil, operário da Fábrica de Tecidos Aliança, que existia na rua General Glicério nº 69, resultou de ser ele muito corado, ‘vermelho’. Assim, quando seu filho foi trabalhar na referida indústria todos o designavam: ‘o filho do Camarão’ ou, com intimidade, ‘Camarãozinho’. Levando-o para o cordão carnavalesco, onde o iniciou nos folguedos momísticos, ninguém mais o chamava pelo nome de batismo, João, optando invariavelmente pela alcunha paterna.

No rancho Arrepiados, que disputava com o seu congênere Unido da Aliança, ambos constituídos por empregados da referida fábrica, a liderança carnavalesca do bairro, todos o chamavam Camarão. A alcunha o identificava de maneira precisa em meio dos outros mestres-salas (Teodoro, João Paiva, Olympio, Gastão, etc.) contra os quais se defrontava na Avenida Rio Branco em competições promovidas pelo Jornal do Brasil. Por fim, vitorioso muitas vezes, dela já se orgulhava e proclamava mesmo os seus foros de tradição.

Camarões formam uma dinastia

Diz o ditério popular que ‘filho de peixe é peixinho’, logo, por extensão, o do crustáceo camarão deveria obedecer à regra. Se o tecelão Álvaro Pereira Subtil levou para o Carnaval seu apelido da fábrica e o transmitiu ao filho João, este, mais tarde, passou-o a um de seus alunos de nome Antônio, dando-lhe o diminutivo da descendência. Criou-se, assim, nos ranchos do Carnaval carioca a dinastia dos Camarões com quatro representantes, pois o mano de João, o Waldemar, também mestre-sala, ganhou igualmente a alcunha de Camarão.

Desaparecidos, primeiro, o velho Álvaro e agora, em 1962, o João, a dinastia ainda não encerrou seu ciclo. O Camarãozinho (o de nome Antônio), ligado aos ranchos de Catumbi e da estação de Quintino Bocaiúva, defende o apelido tradicional. Faz perpetuar-se ao mesmo tempo a autenticidade dos mestres-salas dos ranchos, no genérico chamado ‘balizas’, e que tiveram como expoentes Hilário Jovino Ferreira, Getúlio Marinho (Amor), Maria Adamastor e poucos outros.

Camarão seis vezes o melhor

No apogeu dos ranchos, quando na segunda-feira de Carnaval convergiam para a Avenida Rio Branco as mais famosas agremiações desse gênero, o Arrepiados era uma delas. Apresentando sempre cortejos faustosos, como (para simples exemplo) o fez em 1920 como subordinado ao enredo Jardim do Amor, o mestre-sala era o Camarão. Ufanoso, na elegância de atitudes coreográficas que se fazia mister, arrancava palmas calorosas, empolgava a multidão, contribuía para o êxito de seu grêmio na competição incentivada pelo Jornal do Brasil.

Graças ao garbo de suas exibições em tão renhidas disputas, João Pereira Subtil, o popular Camarão, conseguiu ser eleito seis vezes consecutivas ‘o melhor mestre-sala’. Instituído pelo citado matutino num concurso para que seus leitores apontassem o merecedor de tal qualificação, venceu-o, de 1927 a 1932, seguidamente, o do Arrepiados, o popular Camarão. Somando muitos milhares de votos (45.503 em 1932) o mestre-sala do rancho de Laranjeiras tornava-se imbatível e recebeu até um apelo do cronista carnavalesco Picareta para que não mais se candidatasse.

Camarão também não pode parar

Soldado do Momo, iniciado desde menino nas folganças dos cordões e dos ranchos, Camarão jamais se intimidou com a velhice. Com quase cinqüenta anos de militância carnavalesca, ainda não se decidira a encerrar sua carreira de folião. Formava com Teodoro e Olympio a ’trinca veterana’ dos mestres-salas ainda presente no Carnaval carioca. Vinham, ainda, até o ano findo, integrando os cortejos do Decididos de Quintino, do Unidos do Cunha, do Aliados de Quintino, do Tomara que Chova, do União dos Caçadores e alguns poucos mais.

Sua irmã Beatriz e seu sobrinho Nelson, orgulhosos dos triunfos do mano e do tio, recordam suas vitórias, suas fantasias riquíssimas “bordadas pelas órfãs do Asilo São Cornélio” da Rua do Catete. Falam também com saudade do tempo que Laranjeiras vibrava no Carnaval com as acirradas ‘guerras’ entre os ranchos Arrepiados e União da Aliança, cada um deles avocando a liderança do bairro. E, em meio da rivalidade, ela, Beatriz, dava os últimos arremates nas vistosas capas do mano Camarão para que o mestre-sala jamais deixasse de ser ‘o melhor’.

(O Jornal, 03/02/63)

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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

sábado, março 10, 2012

Penha, prelúdio do Carnaval

Festa da Penha de 1911: Romeiros do grupo "Horror à tristeza" e que com devoção sabem cumprir a obrigação de fazer anualmente essa romaria à santa milagrosa (Revista "O Malho", do mesmo ano).

"As festas que são realizadas nos quatro ou cinco domingos do mês de outubro, em louvor à Nossa Senhora da Penha, não só na sua igreja, lá no alto onde a edificaram, mas, principalmente, no arraial que dá acesso à longa escadaria, embora de cunho religioso, transformavam- se, também, há alguns anos, em prelúdio do Carnaval carioca.

Mais do que os fiéis, do que aqueles que acorriam aos festejos da Penha em romaria para agradecer ou pagar promessas devidas à miraculosa santa, a maior freqüência, aquela que quase na sua totalidade não subia as três ou quatro centenas de degraus para assistir aos atos religiosos, para fazer suas orações, era constituída de gente alheia ao verdadeiro caráter das comemorações.

E no imenso arraial da Penha, levados pelos pequenos e morosos trens da Leopoldina Railway ou em caminhões ornamentados, chegavam famílias de portugueses sobraçando embrulhos com a vitualha para os seus piqueniques. Piqueniques que eram realizados na relva e regados com um bom “verdasco”, bebido em chifres de boi numa revivescência dos velhos costumes pagãos. Chegavam, igualmente, e em grande número, de permeio com os portugueses, os sambistas, os grupos musicais, os malandros dos morros.

Tínhamos então ali no arraial, animado pelos conjuntos musicais, o prelúdio do Carnaval que ia acontecer poucos meses depois.

Nas barracas, em redor das mesas onde se comia e bebia à farta, lançavam-se as primeiras composições para o tríduo de Momo, soltava-se o repertório que ia ser cantado nos três dia de folia.

Outros grupos musicais passeavam pelo arraial acompanhados por uma multidão que logo se formava e transformava-se em participante cantando o estribilho dos sambas e modinhas.

Apareciam sempre na festa da Penha o Grupo Fala Baixo, de Sinhô, que vinha à frente com o seu violão; o grupo do Caninha, o grupo de Pixinguinha com alguns dos elementos que formaram o famosíssimo Oito Batutas, a Tuna Mambembe, de Raul Malagutti, da qual fazia parte também o Benjamin, exímio trombonista, e muitos outros.

O repertório musical carnavalesco tinha, assim, a sua pré-estréia no ambiente de uma festa religiosa e iniciava ali no longínquo subúrbio, a sua popularização para chegar aos dias “gordos” inteiramente conhecido em toda a cidade.

Havia também, de par com as canções de sentido carnavalesco, as que eram dedicadas à santa milagrosa numa exaltação simplória mas muito carinhosa de homenagem e veneração.

Uma delas, de autoria de Ary Barroso, anunciava que o sambista iria à Penha implorar à santa padroeira ajuda para melhorar as qualidades da mulher amada e dizia:

Eu vou à Penha, se Deus quiser,
pedir à santa carinhosa
para fazer de ti, mulher,
de um coração, a rainha
mais poderosa e orgulhosa.

Eu fiz uma promessa à santa milagrosa:
me livre dos maus olhados, oh! mãe carinhosa.
Eu devo a tal promessa e tenho que pagar,
vem ia festa da Penha, vou aproveitar.

Hoje a festa da Penha, vivendo da tradição, ainda realizada no mês de outubro, já não tem essa característica. È quase que apenas uma romaria. Há, ainda, os piqueniques, as barracas vendendo pequenas lembranças — imagens e os clássicos colares de balas e roscas, mas está desfeita a sua caracteristica de prelúdio do Carnaval. Ficou a tradicional festa restrita apenas a um misto de quermesse e de romaria.

Alguns grupos musicais e as atuais Escolas de Samba, entretanto, ainda lhe emprestam um pálido e precário ambiente de festa pré-carnavalesca. Isto, porém, sem o lançamento dos sambas e marchinhas do repertório momístico, como acontecia no tempo de Sinhô, de Malagutti, e com a presença de Pixinguinha, Caninha e muitos outros..."

(Revista da Música Popular, nº 9 — Set. — 1955)

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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

quinta-feira, março 08, 2012

Clélia, a rainha do Carnaval

Na segunda-feira "gorda", Carnaval de 1929, Clélia Affonso empunhando o estandarte, aparece
entre os demais componentes do enredo apresentado pelo Rancho Caprichosos da Estopa.

Quem a vê, hoje, de avental branco, entregue aos seus afazeres no 19º Distrito de Puericultura, instalado na rua do Rezende, nem de longe supõe que ela já foi ‘rainha’. E três vezes: dos ‘caprichosos’, dos ranchos e do Carnaval. Mas, os velhos carnavalescos, aqueles que vêm dos ‘bons tempos’ de nossa famosa festa popular, quando os ranchos eram a grande atração do tríduo momesco, não esqueceram a Clélia Affonso.

Recordam-na garbosa, triunfal, empunhando o bonito estandarte de seu grêmio na renhida disputa da segunda-feira gorda, empolgando a massa humana que enchia a avenida Rio Branco e recebendo os mais frenéticos aplausos.

Isto aconteceu durante vários anos, quando o Caprichosos da Estopa, enfrentando o Ameno Resedá, o Recreio das Flores, o Flor do Abacate, o Miséria e Fome e mais alguns ranchos famosos, tinha-a como condutora de seu pavilhão. Depois, nas festas comemorativas das vitórias alcançadas, era ainda ela quem, no ‘tear’ (nome dado à sede da agremiação), fazia os discursos gratulatórios exaltando tais conquistas e saudando os representantes da imprensa ali presentes.

Possuía, assim, a par da elegância que exibia nos volteios coreográficos durante os desfiles, a ‘bossa’ oratória vibrante e entusiasta de grande efeito nas aludidas solenidades.

De pequenino é que se começa

Filha de um denodado carnavalesco, o Álvaro José Affonso, foi ele mesmo quem a levou para o Caprichosos da Estopa, rancho fundado pelos tecelões da Fábrica Corcovado. Garotinha, entre os seus oito ou nove anos, Clélia tomava parte nos cortejos alegóricos, figurando nos carros que integravam seus enredos. Jogando beijos para retribuir as palmas e os vivas que iam conquistando desde a saída, na rua Conde de Irajá, a menina, já pondo à prova sua fibra foliônica, chegava à avenida esperta, sem se deixar vencer pelo sono ou demonstrar cansaço.

Mocinha, tornando-se uma das mais ardorosas ‘caprichosas’, imbuída do espírito momístico que K. Tuca (apelido de seu pai) lhe impregnara, teve, então, a honrosa incumbência de ser a porta-estandarte do rancho. Conduzida por exímios mestres-salas, dentre os quais Theodoro e Bororó, exibia-se com grande maestria nas evoluções coreográficas ao ritmo das bonitas e pomposas marchas compostas por Pedro Paulo, Bomfiglio de Oliveira, Sebastião Cyrino e outros.

Bem merecia, portanto, a ‘realeza’ depois conquistada em sua agremiação, no conjunto dos ranchos existentes e no próprio Carnaval, onde começou a brilhar bem cedo, antes de atingir a primeira dezena de anos.

Clélia, ‘rainha’ de três tronos

Caricatura de Mendez,
Diário de Notícias/1931
Queridíssima no ‘tear’, foi sempre colaboradora incansável e denodada de seus vários triunfos nas competições que Vagalume, Meúdo, Picareta e A. Zul, cronistas carnavalescos do Jornal do Brasil, promoviam sob o patrocínio desse matutino. Os ‘caprichosos’ à vista disso e por indiscutível justiça, resolveram fazê-la sua ‘rainha’. O grêmio dos operários foliões de uma fábrica de tecidos, que buscaram na estopa resultante da fiação o título para seu rancho, demonstrava na concessão de tal honraria o quanto amavam sua garbosa porta-estandarte.

Mais tarde (1932-33) impondo-se à admiração das agremiações rivais, aquelas que o Caprichosos da Estopa tinha como adversárias temidas nos prélios momescos, também essas escolhiam Clélia Affonso para ‘rainha’ delas todas. Davam-lhe, desse modo, durante dois anos, uma terceira coroa. Antes (1928 e 1929), como atesta a bonita medalha de ouro que ela guarda como relíquia, juntamente com a faixa da ‘realeza’ dos ranchos, já havia sido eleita, por igual período, Rainha do Carnaval.

A menina que se iniciara nas lides foliônicas sentada em precários banquinhos de carros alegóricos ganhava, mocinha, como recompensa, três imponentes tronos.

A ‘rainha’ transfere-se para o ‘cassino’

As desavenças e cisões, ainda hoje costumeiras nos grêmios carnavalescos, fizeram certo dia, a ‘rainha’ abandonar o Caprichosos da Estopa. Lia-se, conseqüentemente, no Diário Carioca, em 1935: “... A embaixada do Benjamim, depois que a graciosa Clélia Affonso tomou conta da defesa do pavilhão do ‘cassino’, está enfezada...“. A já então famosa porta-estandarte ingressara no Lírio Clube, da rua São Clemente, ausentando-se do ‘tear’ que nessa época estava instalado na rua da Passagem. Perda por todos lamentada, principalmente pelo Covinha (Osvaldo Viana), mestre de canto e baluarte da sociedade que perdia tão valioso elemento.

Em seu novo rancho, requestada por todo o quadro social, envaidecendo o Ayres, presidente, por tão importante aquisição, apareceu no certame do Jornal do Brasil com a mesma ufania de antes. Trajava ricas fantasias feitas com idêntico luxo, iguais ou mais vistosas do que as trabalhadas por Natalina, Dolores e Dominguinhos ao tempo de sua permanência nas hostes dos ‘caprichosos’. E, ao ritmo de outras marchas, ainda bonitas e imponentes, tendo como autores Pedro Paulo, Bomfiglio, Cyrino, sempre procurados pelos ranchos, voltava a arrancar aplausos delirantes.

Uma ex-’rainha’ serve à puericultura

Hoje, sem ter conseguido invalidar o que dela disse o cronista K. Rapeta (Arlindo Cardoso) no já citado Diário Carioca, em 1932: “... Clélia Affonso tonteia todo mundo com a sua beleza e gentileza...”, a ex-’rainha’ ainda é entusiasta do Carnaval. Embora os ranchos estejam em inferioridade, sobrepujados pelo fausto das escolas de samba, vai vê-los em seu desfile tradicional. Dá-lhes o seu aplauso cheio de recordações gratas do tempo em que, sendo personagem de destaque dessas paradas músico-alegóricas, pisava com graciosidade o asfalto levada pela mão gentil de um mestre-sala cavalheiresco.

Cedinho, sem aquelas atribulações que, antes, a proximidade do Carnaval lhe trazia nos preparativos das fantasias, nos ensaios das marchas, marca agora o ponto em sua repartição, servindo à puericultura através de um de seus distritos. Ficou longe, mas nunca olvidado, o seu tempo de porta-estandarte quando galhardamente tinha como competidoras a Elisa, do Ameno Resedá, a Rosinha, do Lírio do Amor, e outras, todas sempre leais, amigas, buscando apenas a vitória carnavalesca. Tudo muito grato de recordar à presença de troféus (uma medalha, uma faixa, retratos) guardados carinhosamente.

(O Jornal, 17/02/63)
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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

quarta-feira, março 07, 2012

Maria Adamastor

O rancho Reinado de Siva, tendo Maria Adamastor (indicado pela seta) como mestre-sala.

Seu nome verdadeiro, aquele com que firmava documentos e papéis oficiais, era Maria da Conceição César. Ganhou, no entanto, um apelido que, juntado ao seu prenome, passou, desde então, a identificá-la na vida comum mas, principalmente, nas lides carnavalescas: Maria Adamastor. E foi com essa antonomásia, nascida de simples incidente, de mera brincadeira, que brilhou nos folguedos de Momo integrando, como porta-estandarte e mestre-sala (baliza), vários ranchos dos mais famosos entre seus congêneres.

A velha guarda do tão decantado Carnaval carioca que conheceu a nossa festa máxima nos seus áureos tempos, há de se recordar, sem dúvida alguma, do Rosa Branca, do Flor da Romã, do Papoula do Japão, do Reinado de Siva. Todos eles ranchos que se tornaram tradicionais no histórico da folia momesca e dos quais Maria Adamastor, quando não formou entre os fundadores, teve sempre lugar de destaque como dirigente ou integrando seus vistosos cortejos.

Do navio veio o apelido

Seu apelido, o cognome sob o qual se popularizou, surgiu, com já se disse, de ocasional gracejo: “Puxa, você parece o Adamastor!”. Dessa frase, dita por uma sua colega em quem, durante os ensaios de um dos ranchos a que pertencera, dera acidentalmente um esbarrão fazendo-a cair, originou-se um novo nome para Maria César. Comparando-a ao cruzador português que estava fundeado na Guanabara para, como homenagem do governo luso, participar das festas de posse do marechal Hermes da Fonseca na presidência da República (em 1910), a atingida tornava proscrito o legítimo sobrenome de Maria. Nascia, então, a alcunha Maria Adamastor.

Esse apelido que proclamava a potência da belonave portuguesa, consoante o orgulho da colônia lusa, jamais se despegou da popularíssima carnavalesca. Chegou mesmo a ter foros de nome próprio como se pode deduzir de certa notícia publicada muitos anos depois (1921) no Jornal do Brasil. Registrando a passagem do rancho Reinado de Siva em frente à sua redação disse o veterano matutino: “... Foi mais um grande sucesso na avenida Rio Branco, tendo a mestre-sala, Sra. Maria Adamastor, que se achava ricamente fantasiada, executado admiráveis manobras e dançado com pose inexcedível...“

Do Jardineira ao Reinado de Siva

Carioca, nascida na rua do Hospício (hoje Buenos Aires), Maria César, por sua convivência com os baianos que trouxeram para o Rio os ranchos dos festejos natalinos e carnavalescos da ‘boa terra’, era tida por muitos como vinda daquele Estado. Juntando-se a eles recolheu seus ensinamentos e começou por fundar o Jardineira e, mais tarde, o Rosa Branca. Em 1909, já com sua comadre Juliana Emília dos Santos, a quem se deve muitos dos informes aqui expostos, fazia parte do Papoula do Japão, que tinha sede na rua Dona Feliciana nº 2 e no qual, por eleição, tinha o cargo de Mestra.

Imperando já os ranchos no Carnaval da Sebastianópolis, pois que os barulhentos zé-pereiras e os briguentos ‘cordões’ iam desaparecendo para dar lugar à inovação graciosa e musical, Maria Adamastor passou a ser disputada por quase todos eles.

Formou, assim, no Sempre Vivas, no Flor da Romã, no Rei de Ouros, no Macaco é Outro, e muitos outros. Ora figurava no cortejo como porta-estandarte garbosa, impondo-se aos aplausos do povo, ora era a mestre-sala em bizarras evoluções coreográficas em que demonstrava leveza de movimentos e porte fidalgo.

No Reinado de Siva a despedida

Já consagrada, com o seu nome pronunciado com certa veneração nas rodas carnavalescas, Maria Adamastor ingressava, em 1921, no rancho Reinado de Siva, cuja sede estava situada na rua Senador Pompeu. Suscitava, na ocasião, o seguinte registro num matutino:”... Maria Adamastor, a rainha das diretoras de ranchos, assumiu, de verdade, a responsabilidade das pastoras do Reinado de Siva. O Titinho vai dedicar-lhe uma marcha...”. Tal nota, simples, sintética, dizia bem do valor da aquisição feita pelo grêmio referido para seu próximo desfile nos prélios que então se travavam na avenida Rio Branco.

Tivemo-la, conseqüentemente, brilhando nos majestosos cortejos que o rancho apresentou em 1921 e 22, subordinados, o primeiro, ao tema Lei Áurea e, o segundo, ao Jardins Suspensos da Babilônia. Em ambos, confirmando o renome que tinha, vestida luxuosarnente, exibindo-se com rara mestria, logrou os mais calorosos elogios da crônica carnavalesca que, naquela época, tinha lugar de destaque na imprensa citadina. Achou, porém, que devia encerrar suas atividades carnavalescas e dedicou-se, depois disso, a cuidar apenas de sua casa de petisqueiras a baiana, no velho Mercado Municipal.

Morre Maria, fica a fama

Ataulfo Alves, compositor que tem enriquecido o nosso cancioneiro popular com tantas produções de sucesso, diz numa delas estar certo de que não terá o seu nome jogado “na lama”, pois, conclui rimando, “morre o homem fica a fama”. Com Maria Adamastor que vimo-la triunfante nos ranchos a que pertenceu, que teve em suas casas da rua da América e rua Nabuco de Freitas o assédio de carnavalescos solicitando seu concurso para diversos ranchos, acontece agora exatamente isso. Seu nome, o apelido que a tornou célebre no Carnaval carioca, desfruta merecida fama.

Numa modesta casa de subúrbio na Piedade, depois de longa doença, faleceu deixando um nome que se tornou tradicional entre os carnavalescos dos velhos tempos. Não só a sua fiel comadre e companheira por muitos anos de folguedos, Juliana Emília dos Santos, o pronuncia com veneração. Todos que a conheceram, que conhecem ou vierem a conhecer a contribuição dada por Maria Adamastor à grandiosidade de nosso Carnaval (a despeito de tudo, ainda tido como ‘o melhor do mundo’) hão de, igualmente, perpetuar a sua fama, como proclama o sambista.

(O Jornal, 30/12/63)
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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

sábado, março 01, 2008

Ameno Resedá, o primeiro Rancho

O Ameno Resedá foi o mais famoso de todos os ranchos carnavalescos da cidade do Rio de Janeiro. Criado em 1907 por um grupo de funcionários públicos cariocas, após um piquenique em Paquetá, tinha sua sede no bairro do Catete.

Em 1908 o grupo teatralizou o tema a Corte Egipciana. Essa novidade agradou e foi imitado pelos demais ranchos. Seus enredos eram quase sempre mitológicos e serviam como ponto de união para se contar uma história com princípio, meio e fim. Isso criava condições dentro da visão do povo para maior brilho e explendor. As fantasias eram luxuosas, usavam materiais como lamê, seda e plumas e representavam príncipes, princesas, deuses, flores, caçadores ou animais. As fantasias dos Ranchos costumavam apresentar grandes resplendores e, muitas vezes, alegorias de mão.

Em 1914, O Ameno Resedá desfilou ao lado das sociedades carnavalescas. Em 1917, introduz a Comissão de Rancho, percussora das comissões de frente das escolas de samba. Naquele ano era composta por quatro sátiros transformados em "Príncipes Caçadores" com um séquito de Júpiter, Minerva, Atlas e doze pastores.

O Ameno Resedá tinha entre seus fãs Paulo de Frontin, Arnaldo Guinle, Oswaldo Gomes e Coelho Neto. Entre seus diretores de harmonia, ao longo dos anos, esteve o sambista Sinhô.

Em 1923, Coelho Neto, fã dos ranchos e torcedor do Ameno, faz uma crítica construtiva ao excesso de temas estrangeiros apresentados pelos ranchos, não por serem estrangeiros, mas sim porque na sua opinião eles já haviam sido repetidos com exaustão, a exemplo do que ocorre hoje com alguns enredos de escolas de samba.

O Ameno Resedá então compreende o recado e em 1924 traz o tema O Hino Nacional, considerado revolucionário, não apenas por ser nacional,mas também por ser um tema abstrato. Porém o rancho fica apenas com o terceiro lugar, o que teria levado Coelho Neto a escrever aos diretores do Ameno na época para que não desanimassem, pois nem sempre "quem planta é quem colhe".

Em 30 de janeiro de 1941, o Ameno Resedá realiza sua última assembléia, onde é decidida a sua extinção. Parte de seus bens são doados à Irmandade de Nossa Senhora da Glória.

Fonte:Wikipédia. Leitura Recomendada: JOTA EFEGÊ. Ameno Resedá: o rancho que foi escola. Rio de Janeiro: Letras e Artes, 1965.