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quinta-feira, agosto 16, 2012

História dos ranchos carnavalescos

O pioneiro dos ranchos foi o "Rei de Ouros", fundado em 06/01/1894 pelo baiano Hilário Jovino Ferreira, que emigrou da Bahia para o Rio de Janeiro indo morar no bairro da Saúde. A primeira de grupo foi paresentar o rancho no Carnaval e não no Natal como era costume em  sua terra.
Os ranchos eram agremiações carnavalescas típicas da cidade do Rio de Janeiro, no final do século XIX e na primeira metade do século XX. Tinham grande influência dos folguedos negros - como os Cucumbis e Congos, possivelmente trazidos pelos escravos de origem Banto, sudanesa - e das tradições musicais populares portuguesas, muito difundidas nas camadas mais desassistidas da população carioca.

O desfile de um Rancho Carnavalesco pode ser descrito como um cortejo, com a presença de um Rei e uma Rainha, ao som de uma marcha-rancho, acompanhado por instrumentos de sopro e corda, ritmo mais pausado que o samba. Não eram usados instrumentos de percussão. Havia os mestres, um de Harmonia, um de Canto e um de Sala, responsável pela coreografia.

Os Ranchos desfilavam com porta-estandarte e mestre-sala que tinham que dançar e ficar atentos a qualquer movimento. A enorme rivalidade entre os ranchos podia causar numa situação humilhante, que era a de ter seu estandarte roubado por um componente de um rancho rival. Naquele tempo o mestre-sala desfilava armado de navalha para proteger o pavilhão de sua agremiação. Com as devidas adaptações, o casal responsável pela guarda do pavilhão do grupo também estará presente nos desfiles das escolas de samba.

A história

A historiografia tradicional do carnaval carioca afirma que os ranchos do Rio de Janeiro descendem dos ranchos de Folia de reis baianos, que saíam normalmente no Dia de Reis. Hilário Jovino Ferreira, em depoimento tardio, afirmou que foi ele quem criou o primeiro rancho carnavalesco no Rio de Janeiro, o Reis de Ouro, após participar do rancho Dois de Ouro, situado no Beco João Inácio. Ainda de acordo com seu depoimento, havia registro de alguns ranchos nesse estilo no Rio de Janeiro anteriormente.

Esta versão, entretanto, deve ser relativizada pois muitos pesquisadores relatam a presença de ranchos nas festas populares (incluindo carnavais) da cidade décadas antes da fundação do Reis de Ouro. Referindo-se aos chamados "ranchos de cucumbys", Mello Moraes Filho afirma que os ranchos existiram no Rio em 1830. Martha Abreu, por sua vez, afirma que os ranchos já existiam no Rio de Janeiro no início do século XIX.

Escrevendo em meados do século XIX, Manuel Antônio de Almeida descreve um "um grande rancho chamado das baianas, que caminhava adiante" de uma procissão no centro da cidade. O pesquisador Brasil Gerson, por sua vez, considera que o primeiro rancho carnavalesco teria sido o Rancho das Sereias, surgido no começo da República, na Pedra do Sal, na Prainha. A variedade de informações aponta para uma origem incerta para os ranchos. O que se pode afirmar é que nos primeiros anos do século XX, os ranchos se tornaram a grande atração do carnaval carioca, principalmente após o primeiro desfile do Ameno Resedá que estabeleceria o formato da brincadeira carnavalesca, apresentando desfiles descritos como verdadeira óperas populares.

Em 1894, o Reis de Ouro foi recebido no Palácio do Itamaraty pelo Marechal Floriano Peixoto. Em 1911, o Marechal Hermes da Fonseca convidou o Ameno Resedá para visita ao Palácio Guanabara. O ano de 1911 também foi marcado pelo primeiro desfile competitivo oficial, organizado pelo Jornal do Brasil.

Em 21 de fevereiro de 1919 foi criada a Liga Metropolitana Carnavalesca, pelos ranchos, contando como membros fundadores: Ameno Resedá, Flor do Abacate, Miséria e Fome, Unidos da Aliança, Arrepiados, Cangaceiros do Caju, Jasmin de Ouro, Lírio do Amor, Cravina, Estopa e Deusa da Folia.

Com o crescimento das escolas de samba, os ranchos foram desaparecendo. No final dos anos 50 estavam em total declínio. O último desfile de ranchos aconteceu no ano de 1980, no Rio de Janeiro, e foi vencido pelo Decididos de Quintino (1).

Em 8 de outubro de 2000, foi criado em Copacabana o rancho Flor do Sereno, com as cores azul, verde e prata, a partir de uma tentativa de estudiosos de reviverem esta tradição aparentemente perdida. Ainda há dúvidas entre especialistas se o Flor do Sereno poderia se configurar como um rancho legítimo, uma vez que não apresenta todos os elementos dos ranchos antigos, e já que foi criado de forma artificial, a partir de uma manifestação popular já extinta há vinte anos (2).



Alguns concursos de ranchos

1911

Flor do Abacate - "Reinado da Turquia"

1912

Ameno Resedá - "Corte celestial"

1914

Ameno Resedá (campeão)

1915

Corbeille de Flores - "Sonho de Dulcinéia"

1919

Flor do Abacate - "Corte dos Doges"

1920

Recreio das Flores - "Aída" (campeão)
Os Arrepiados - "Jardim do amor"
Mimosas Cravinas - "Os Lusíadas" (melhor enredo, originalidade e completo desempenho)
Gualemadas - "Aladdin e a lâmpada maravilhosa"

1921

Recreio das Flores - "Inferno de Dante" (campeão)
Jardim dos Amores - "Jardim dos beatos"
Reinado de Siva - "Lei Áurea"
Flor do Abacate - "O Anel de Nibelungen"
Gualemadas - "As Profecias de Eliseu"
Caprichosos da Estopa (melhor harmonia)
Os Gravatas - "As passagens da vida"

1922

Recreio das Flores - "Paraíso de Dante" (campeão)
Cruzeiro do Sul - "Homenagem ao centenário do Brasil"
Reinado de Siva - "Jardins Suspensos da Babilônia"
Gualemadas - "Carlos Magno e os Doze Pares de França" (melhor arte e originalidade)
Caprichosos da Estopa - "A Cidade do passado e a Corte da Macumba" (melhor estandarte)
Os Gravatas - "As quatro estações do ano"

1923

Ameno Resedá - "Lenda encantada" (campeão)
Cruzeiro do Sul - "Carnaval de Nero"
Caprichosos da Estopa - "Desembarque dos Argonautas na Ilha de Lemnos" (melhor evolução)
Os Gravatas - "O Reino de Júpiter"

1924

1º Flor do Abacate - "Salomão e a Rainha de Sabá"
3º Ameno Resedá - "Hino Nacional"

Outros enredos:

Os Arrepiados - "Últimos Dias de Pompéia"
Caprichosos da Estopa - "Mi-Carême"
Cruzeiro do Sul - "Fonte Castalia"
Miséria e Fome - "Lohengrin"
Estrelas do Paraíso - "Walkírias"
Os Gravatas - "Apoteose ao sol" (melhor harmonia)

1925

Ameno Resedá - "Jupira" (menção honrosa)
Caprichosos da Estopa - "O cerco e a tomada de Calais" (melhor evolução)
Os Gravatas - "Nero contemplando o incêndio de Roma" (melhor harmonia)

1926

Os Gravatas - "A lágrima" (menção honrosa)

1928

Caprichosos da Estopa - "Dionísio" (campeão)
Flor do Abacate - "Orgia latina"

1929

Caprichosos da Estopa - "Nos festins e orgias da encantadora Salomé" (campeão)

1930

Flor do Abacate (campeão)
Os Arrepiados - "Ordem e progresso"

1931

Flor do Abacate - "Átila e os Hunos" (campeão)
Deixa Falar - "O Paraíso de Dante"

1932

1º Flor do Abacate - "A tomada de Babilônia pelos persas"
2º Flor da Lira (Bangu) - "Napoleão Bonaparte em campanha no Egito em 1798"

Prêmio Melhor Harmonia: Os Arrepiados
Prêmio Melhor Enredo: Grêmio Carnavalesco Rouxinol
Prêmio Melhor Evolução: Lyrio Club de Botafogo
Prêmio Originalidade: Destemidos da Caverna
Prêmio Melhor Estandarte: Parasitas de Ramos

Outros enredos:

Grêmio Carnavalesco Rouxinol - "Ourasi"
Parasitas de Ramos - "Os deuses subolímpicos"
Lyrio Club de Botafogo - "Tabu, lenda japonesa. A grande Chechiana"
Aborrecidos do Realengo - "Amor de toureiro"
Elite Club do Realengo - "Condessa de Segur Blondina"
Destemidos da Caverna - "A epopéia dos bandeirantes"
Os Arrepiados - "Sobre rosas"
Deixa Falar - "A Primavera e a Revolução de Outubro"
Miséria e Fome - "Os doze Césares"

1934

Recreio das Flores (campeão)
União das Flores - "No país das pedras verdes"

1936

União das Flores (campeão)

1938

União das Flores - "Capitão Corcoran" (campeão)

1939

Turunas de Monte Alegre (campeão)

1940 Apenas três ranchos desfilam:

Inocentes do Catumbi
Turunas de Monte Alegre (campeão)
Aliança de Quintino

1941

Turunas de Monte Alegre (campeão)

1942

Turunas de Monte Alegre (campeão)

1943/1944/1945 Sociedades, ranchos e blocos não desfilaram devido à Segunda Guerra Mundial.

1946

Turunas de Monte Alegre (campeão)

1947

Turunas de Monte Alegre (campeão)

1954

Embaixadores do Sossego (campeão)

1960

União dos Caçadores - "Arte - incomparável sabedoria de nossa raça"

1963 Desfilaram na Avenida Presidente Vargas(1)

Recreio da Saúde - "Epopéia dos Poetas"
Unidos do Morro do Pinto
Índios do Leme
Unidos do Cunha
Tomara que chova
Decididos de Quintino (campeão)
Aliados de Quintino
Azulões da Torre

1968 Segundo a imprensa da época, esta já era uma tradição que por falta de apoio oficial, já estava morrendo, desfilaram na Avenida Presidente Vargas os seguintes ranchos: (2)

União dos Caçadores
Tomara que Chova
Decididos de Quintino
Ameno Resedá
Índios do Leme
Unidos do Morro do Pinto
Recreio da Saúde - "Exaltação ao Teatro do Brasil"
Aliados de Quintino

1969 Desfilaram na Avenida Presidente Vargas (3)

Recreio da Saúde
União dos Caçadores - "Amor de Carnaval" (campeão)
Unidos do Cunha
Aliados de Quintino
Decididos de Quintino
Azulões da Torre
Unidos do Morro do Pinto
Índios do Leme

1972

União dos Caçadores - "Homenagem a Benjamim de Oliveira"

1977 Desfilaram na Avenida Rio Branco

Império de São Cristóvão
Decididos de Quintino
Azulões da Torre
Unidos do Cunha
Índios do Leme
Lira de Vila Isabel
Aliados de Quintino
Recreio da Saúde
União dos Caçadores
Parasitas de Ramos

1978

Aliados de Quintino (campeão)

1979

1° Aliados de Quintino
2° Império de São Cristóvão
3° Recreio da Saúde

1980

Decididos de Quintino (campeão)

Bibliografia

GONÇALVES, Renata de Sá. Os Ranchos pedem passagem. Rio de Janeiro, PPGSA/IFCS/UFRJ, 2003; FERNANDES, Nélson da Nóbrega. Escolas de Samba: Sujeitos Celebrantes e Objetos Celebrados. Rio de Janeiro, Coleção Memória Carioca, vol. 3, 2001; EFEGÊ, Jota. Ameno Resedá: o rancho que foi escola. Rio de Janeiro, Letras e Artes, 1965; EFEGÊ, Jota. Figuras e coisas do Carnaval Carioca. Rio de Janeiro, Funarte, 1985; ABREU, Martha. O império do divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999; ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 2001; GERSON, Brasil. História das ruas do Rio: e de sua lembrança na história política do Brasil. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2000; MORAES FILHO, Mello. Festas e tradições populares do Brazil. Rio de Janeiro: Fauchon e Cia., 1895.

Referências

(1) Jornal Última Hora, 27 de fevereiro de 1963, caderno 2, página 6 e 1 de março de 1963, caderno 1, página 12; (2) Revista Quatro Rodas, ano VIII, nº91, março de 1961, página 61; (3) Jornal Última Hora, 15 de fevereiro de 1969, caderno 2, pág. 6.

Fontes: Wikipédia; Portal Luis Nassif.

segunda-feira, março 12, 2012

Hilário acusa Sinhô de plágio

Hilário Jovino Ferreira
Em 1920, Hilário Jovino Ferreira, iniciador dos ranchos no Carnaval carioca, “baiano legítimo, da gema, nascido, criado e vacinado na Cidade Alta da Bahia de São Salvador”, apontava o já popularíssimo Sinhô como plagiário. Fazia-o com sua autoridade não de “tenente” que o era da muito satirizada Guarda Nacional, mas de reconhecido conhecedor do autêntico samba cujas “rodas” freqüentava desde menino na “boa terra”.

Sem meios termos denunciava pelas colunas do Jornal do Brasil, onde pontificava um seu amigo, o cronista carnavalesco Vagalume (Capitão Francisco Guimarães) a ilegitimidade da autoria do Fala, meu Louro. Acusação que o jornalista, sempre ávido por uma “fofoca”, imediatamente divulgou com a fidelidade textual: “. . . é um dos mais audaciosos plágios de que há notícia na história dos sambistas”. Isto acrescido de solene desafio ao acusado para que ele e o acusante se submetessem à prova pública fazendo cada um o seu samba.

Um samba agita a “boa terra”

Embora o Fala, meu Louro tivesse sentido ostensivo de glosa política focalizando a personalidade de Ruy Barbosa, subjetivamente seus versos ironizavam também os baianos tidos e havidos como “donos” do samba. Dizendo: “a Bahia não dá mais coco pra botar na tapioca, pra fazer o bom mingau pra embrulhar o carioca”, José Barbosa da Silva, o Sinhô, fazia a um só tempo duas provocações. Coisa que era muito de seu gosto, pois, antes, em 1918, o Quem São Eles?, composto com tal intenção, teve pronta resposta de Pixinguinha no Já Te Digo.

Voltando, dois anos depois, a provocar os baianos, que no samba tinham como seu “maioral” Hilário encontrou pronta reação. O Tenente que, na mesma oportunidade de 1918, também participara da querela musical havida, quando lançou o Não És Tão Falado Assim, não perdoou o antigo rival. Assim que Sinhô lançou e via caminhar para o sucesso sua nova produção, correu ao amigo jornalista com quem contava na imprensa para ver posta em letra de forma a denúncia do plágio. Provaria, então, que a Bahia ainda dava coco e não pretendendo embrulhar ninguém, não o seria, no entanto, embrulhada por um carioca.

Desafio em feitio de samba

Um dos muitos sambas da parceria Noel Rosa-Vadico tem um verso onde ela diz haver feito o seu “samba em feitio de oração”. Pois bem, antes, nessa lide musical de 1930, Hilário, ao taxar Sinhô de plagiário, lançou, como ficou dito, um desafio, não só ao acusado, mas a “todos” os sambistas para que fizessem, de momento, um samba. Concluía o repto, que o mesmo Vagalume tornava público no referido matutino depois de condimentá-lo com certa dose de “veneno”, juntando-lhe um samba ferino, maldoso: Entregue o Samba aos Seus Donos.

Lia-se então o sarcástico poemeto: “Entregue o samba aos seus donos,/ é chegada a ocasião!.../ Lá no Norte não fizemos/ do pandeiro profissão.” A seguir vinha o coro: “Falsos filhos da Bahia/ que nunca pisaram lá,/ que não comeram pimenta/ na muqueca e vatapá,/ mandioca mais se presta,/ muito mais que tapioca./ Na Bahia não tem mais coco?/ É plágio de um carioca.” Era, não resta dúvida um revide duro, na “batata”, à canção que ironizava a decantada “terra de todos os santos” proclamando a falência de seu coco.

O acusado “se mancou”

A gíria carioca, farta e prolífera, consigna a expressão “se mancar” que espontaneamente atentando contra a gramática, significa, entre seus vários sentidos, esconder-se, fugir ao debate, não topar um desafio. Sinhô, ao que se tem conhecimento, não contestou a acusação do Tenente. Surgiu conseqüentemente outro libelo em forma de samba, reforçando a glosa mordaz de Hilário. No mesmo jornal, dias após, Pedro Paulo, renomado autor de um punhado de ranchos carnavalescos, publicava Olé, cujos versos secundavam, também em ritmo de samba, o deboche feito anteriormente.

Acostumado a escrever letras alegóricas, pomposas, Pedro Paulo mostrava-se igualmente capaz de ser irônico ao cantar: “Todo mundo faz um samba,/ eu também quero fazer,/ mas dizer que é da Bahia,/ olé!,/ não pode ser./ A Bahia é boa terra, já não dá mais coco,/ não!, quem quiser tudo saber/ erra,/ olé!,/ é toleirão. Pelo suco tudo passa,/ basta falar em iaiá,/ mas um sambinha/ sem graça,/ olé!,/ não vem de lá.”

Tendo já agora que refutar as imputações de plagiário e revidar com música e versos como era de praxe nas polêmicas entre sambistas, o achincalhe de dois famosos rivais, José Barbosa da Silva não veio à liça, “se mancou”.

Apesar de tudo, a popularidade

A acusação de plagiário feita por figura proeminente do samba como o Tenente Hilário Jovino Ferreira, reforçada, ainda nesse 1920, quando do lançamento do Pé de Anjo, não afetou a popularidade de Sinhô. A primeira, do Fala, meu Louro, ficando circunscrita às rodas dos sambistas não chegou ao conhecimento do grande público. A segunda, identificada facilmente, pois se apontou a origem em uma música francesa, apesar de ventilada na imprensa, também não impediu o sucesso do aproveitamento irregular. Ambas triunfaram de maneira inconteste.

Contando com verdadeira multidão de admiradores, tendo toda a cidade cantando seus sambas, Sinhô fazia-se superior. No próprio Pé de Anjo, ao dizer: “eu tenho uma tesourinha que corta ouro e marfim, serve também pra cortar as línguas que falam de mim”, alheiava-se ao debate, às provocações. Deixava que seus fãs, os fazedores do êxito de suas composições, contestassem seus acusadores. E eles apareciam sempre, pressurosos. Como o fizeram Jacobino Dias e Romualdo Silva num sambinha de rima imperfeita em que diziam: “No samba só conhecemos/ o Sinhô das criaturas,/ não há um samba dele/ que não se cante em todas as ruas.

Pouco lhes importava que fossem ou não, plágio, cópia, utilização dolosa de trabalhos alheios.

(O Jornal, 3/3/1963)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

domingo, outubro 01, 2006

Hilário Jovino Ferreira

Participante ativo da comunidade baiana do Rio de Janeiro, Hilário Jovino Ferreira — na foto com seus filhos — na realidade era pernambucano, criado em Salvador. Líder nato, iria fixar-se já adulto no Rio e não demoraria a se envolver com as coisas da música, transmitindo sua experiência aos novos amigos do Morro da Conceição, onde se instalou.

Aproximou-se do Rancho Dois de Ouro mas não gostou e fundou o Rei de Ouro, um dos muitos que criaria em sua vida de “ranchista”, dentro de moldes nordestinos e fez muito sucesso desde sua estréia, no Carnaval. Figura donjuanesca, indispôs-se com Tia Ciata por ter namorado sua filha Mariquita e fugido com Tia Amélia Kitundi, bonita mulata. amiga da baiana.

Hilário Jovino Ferreira, compositor, chegou ao Rio de Janeiro em 1872, trabalhando depois no Arsenal da Marinha, tendo comprado patente de tenente na Guarda Nacional. Morador do bairro da Saúde, reduto dos baianos no Rio de Janeiro, foi vizinho de Leôncio de Barros Lins, que fundara o Dois de Ouro, embrião de rancho.

Com a colaboração de Atanásio Calisto, Cleto Ribeiro Noela e Gracinda, fundou o Rei de Ouro, baseado na estrutura dos ranchos baianos. Foi ele quem sistematizou as figuras do mestre-sala e da porta-bandeira, adotadas depois pelas escolas de samba. Ajudou a fundar ainda o Rosa Branca e, mais tarde, o Botão de Rosa.

Freqüentador da casa de Tia Ciata, participou da formação do samba urbano, tendo entrado na famosa polêmica entre Sinhô e os baianos. Quando Sinhô escreveu Quem são eles?, respondeu com Não és tão falado assim; ao Fala meu louro, de Sinhô, retrucou com Entregue o samba a seus donos, pois considerava aquele samba ofensivo à Bahia, além de plágio.

Fontes: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora PubliFolha; História do Samba - Editora Globo.