segunda-feira, abril 17, 2006

Carolina

A timidez de Chico Buarque foi indiretamente responsável pela existência de “Carolina”. Contratado pela TV Globo para comandar “Shell em Show Maior”, ao lado de Norma Bengell, ele chegou a gravar o primeiro programa, mas não houve argumento capaz de convencê-lo a gravar o segundo. Nem mesmo o de que teria de pagar uma multa por descumprimento de contrato.

Foi então que entrou em cena o diretor da emissora, Walter Clark, com a solução conciliatória: a multa seria cancelada em troca da inscrição de uma composição de sua autoria no II Festival Internacional da Canção, promovido pela Globo. Esta composição foi “Carolina”, terceira classificada no festival e pela qual Chico jamais se entusiasmou, apesar do grande sucesso que obteve.

Ainda pertencente ao período lírico-nostálgico que marcou o início de sua carreira, “Carolina” também não entusiasmaria a ala, digamos, mais avançada da crítica. Mas é certamente um belo samba romântico, um tanto amargo, sobre o desencanto de uma mulher que se esqueceu de viver, enquanto “o tempo passou na janela”.

Concluída às pressas, em meio a uma viagem de avião, a composição foi gravada e defendida no festival pelas irmãs Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy, recebendo em seguida gravações de Elizeth Cardoso, Isaura Garcia e Nara Leão (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Carolina (samba, 1967) - Chico Buarque


B7/5+       E7+/9
Caroli .... na
                  D#m7/5-
Nos seus olhos fun ...... dos
G#7                C#m7
Guarda tanta dor
     G#m7     C#7/9-         F#m7  B7/9
A dor    de to ..... do esse mundo
     F#m7                  B7/9
Eu já    lhe expliquei que não  vai dar
    E7+/9
Seu pranto não vai nada ajudar
   C#m7/9            F#7
Eu já     convidei para dançar
  F#m7              B7/9-
É hora, já sei, de aproveitar

     E7+/9                       D#m7/5-  G#7/13-
Lá fo .... ra, amor, uma rosa nasceu
              C#m7               Bm7  C#7/9-
Todo mundo sambou  Uma estrela caiu
F#m7      Am6               E7+/9
Eu bem   que mostrei sor .... rindo
C#m7                   F#7/13    F#7/13-
Pela janela, ói que lin ..... do
F#7                 F#m7  B7/5+
Mas Carolina não viu

      E7+/9
Caroli .... na
                   D#m7/5-
Nos seus olhos tris ...... tes
G#7                 C#m7
Guarda tanto amor
      G#m7      C#7/9-      F#m7  B7/9
O amor    que já       não existe
      F#m7               B7/9
Eu bem    que avisei vai acabar
   E7+/9
De tudo  lhe dei para aceitar
    C#m7/9            F#7
Mil versos cantei pra lhe agradar
 F#m7           B7/9-
Agora não sei como    explicar

     E7+/9                     D#m7/5-  G#7/13-
Lá fo .... ra, amor Uma rosa morreu
             C#m7               G#m7/5-   C#7/9-
Uma festa acabou  Nosso barco partiu
F#m7      Am6               E7+/9
Eu bem   que mostrei a e .... la
  C#m7                 F#m7
O tempo passou na jane .... la
         B7/9-           G#7/13  G#7 C#7/9-
Só Caroli .... na não viu
F#m7      Am6               E7+/9
Eu bem   que mostrei a e .... la
  C#m7                 F#m7
O tempo passou na jane .... la
         B7/9-           Em6
Só Caroli .... na não viu

Bye bye Brasil

Cena do filme Bye bye, Brasil de 1979
Os casais Cacá Diegues/Nara e Roberto Menescal/Iara foram vizinhos durante anos em um prédio de apartamentos em Ipanema, tendo Cacá, num encontro cotidiano, proposto a Menescal que compusesse a trilha musical de seu filme “Bye Bye, Brasil”, sugerindo Chico Buarque como letrista. Juntos pela primeira vez numa parceria e indecisos sobre quem faria antes a sua parte, Chico e Menescal acabariam concordando que qualquer um poderia começar, a partir do momento em que tivesse uma boa idéia.

Um dia, voltando de São Paulo pela ponte aérea, o violonista teve de repente “a boa idéia”, uma melodia inspirada pelo próprio título do filme. O curioso é que a inspiração surgiu quando ele aguardava, sentado numa poltrona do avião, espremido entre dois sujeitos enormes, que fosse resolvido um problema para a decolagem. Anotada a frase inicial numa pauta improvisada e concluída a melodia um dia depois, Menescal entregou-a a Chico e ficou esperando a letra. Só que o poeta demorou tanto, que chegou o dia da gravação sem que ele a tivesse aprontado. Finalmente, na hora da mixagem, com o tema principal gravado no seu tom, Chico entrou no estúdio trazendo uma imensa tira de papel, com uma letra maior do que se poderia desejar... Mas Cacá logo resolveu a parada da maneira mais prática. Leu os versos até certo ponto e decretou: “tá bom até aqui”, cortando o resto com uma tesoura.

Assim foi gravada por Chico Buarque a excelente canção “Bye Bye, Brasil”, bem vinculada ao enredo do filme, com um personagem narrando num telefone público suas aventuras ambulantes para a namorada: “Oi, coração / não vai dar pra falar muito não / espera passar o avião / assim que o inverno passar / eu vou te buscar / aqui tá fazendo calor / deu pane no ventilador / já tem fliperama em Macau...”

Foi desta gravação que se originou o compacto duplo do filme de grande sucesso. Depois, Chico fez nova gravação com outro arranjo de Menescal para o elepê, enquanto o músico a gravava em versão instrumental para o seu disco Ditos e feitos. Existem ainda outras versões de destaque como a do Grupo Pau Brasil e a de Zé Roberto Bertrami, com Hélio Delmiro, premiada pela revista Playboy.

Meses mais tarde, Menescal viveria uma experiência pitoresca em Cabo Frio. Tocando numa reunião de amigos, foi interpelado por uma garota: “Você sabe aquela música do Chico Buarque, ‘Bye Bye, Brasil’? Ah, toca pra gente cantar...” Então, com sua calma habitual, o autor ignorado tocou sua música, por sinal uma das mais difíceis de sua obra. Que o digam os que se atrevem a gravá-la, pois enquanto a melodia tem diferenças sutis, às vezes apenas uma notinha entre-frases aparentemente iguais, a harmonia é uma sugestiva sucessão de acordes ao improviso (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Bye bye, Brasil (1979) - Chico Buarque e Roberto Menescal


Em 
Oi, coração
             A4/7      A7 
Não dá pra falar muito não
         D7+ 
Espera passar o avião
              F#m7 
Assim que o inverno passar
B7/9-             Em 
Eu acho que vou te buscar
          A4/7 
Aqui tá fazendo calor
A7            Am 
Deu pane no ventilador
            C/D 
Já tem fliperama em Macau
           G7+               F#7 
Tomei a costeira em Belém do Pará
  B7+                G#m7 
Puseram uma usina no mar
   Am                    C/D 
Talvez fique ruim pra pescar
    F#m7 B7/9- 
Meu amor

Em 
No Tocantins
            A4/7        A7 
o chefe dos Parintintins
            D7+ 
vidrou na minha calça Lee
            F#m7 
Eu vi uns patins prá você
B7/9-            Em 
Eu vi um Brasil na tevê
           A4/7 
Capaz de cair um toró
A7            Am 
Estou me sentindo tão só
C/D             G#7+ 
Oh! tenha dó de mim
   G7+              C7/9 
Pintou uma chance legal
   F#m7            Bm7 
Um lance lá na capital
    G#m7            C#7 
Nem tem que ter ginasial
     F#7+  B7/9- 
Meu amor

Em 
No Tabaris
            A4/7           A7 
o som é que nem os Bee Gees
               D7+ 
Dancei com uma dona infeliz
            F#m7 
Que tem um tufão nos quadris
B7/9-            Em 
Tem um japonês atrás de mim
              A4/7 
Eu vou dar um pulo em Manaus
A7            Am 
Aqui tá quarenta e dois graus
            C/D 
O sol nunca mais vai se pôr
            G7+               F#7 
Eu tenho saudades da nossa canção
   B7+                G#m7 
Saudades de roça e sertão
    Am                 C/D 
Bom mesmo é ter um caminhão
     F#m7 B7/9- 
Meu amor

Em 
Baby bye, bye
           A4/7       A7 
Abraços na mãe e no pai
            D7+ 
Eu acho que vou desligar
             F#m7 
As fichas já vão terminar
B7/9-             Em 
Eu vou me mandar de trenó
           A4/7         A7 
Pra Rua do Sol, Maceió
             Am 
Peguei uma doença em Ilhéus
C/D                G#7+ 
Mas já estou quase bom
 G7+               C7/9 
Em março vou pro Ceará
    F#m7              Bm7 
Com a bênção do meu Orixá
 G#m7               C#7 
Eu acho bauxita por lá
     F#7+  B7/9- 
Meu amor
Em 
Bye,bye Brasil
        A4/7     A7 
A última ficha caiu
              D7+ 
Eu penso em vocês night and day
            F#m7 
Explica que tá tudo ok
B7/9-           Em 
Eu só ando dentro da Lei
            A4/7          A7 
Eu quero voltar podes crer
            D7+ 
Eu vi um Brasil na TV
             F#m7 
Peguei uma doença em Belém
B7/9-         Em 
Agora já tá tudo bem
          A4/7           A7
Mas a ligação está no fim
           D7+ 
Tem um japonês atrás de mim
           F#m7 
Aquela aquarela mudou
B7/9-             Em 
Na estrada peguei uma cor
           A4/7      A7
Capaz de cair um toró
            D7+
Estou me sentindo um jiló
           F#m7 
Eu tenho tesão é no mar
B7/9-              Em 
Assim que o inverno passar
             A4/7        A7 
Bateu uma saudade de ti
                   D7+ 
Estou a fim de encarar um siri
                F#m7 
Com a bênção do Nosso Senhor
B7/9-            Em 
O sol nunca mais vai se pôr

Apesar de você

Chico e Marieta
Na Europa havia mais de um ano, Chico Buarque voltou ao Rio em março de 70, influenciado por André Midani, diretor de sua gravadora, que lhe assegurava “estar melhorando a situação no Brasil”. Mas descobrindo ao chegar que, ao contrário, a situação piorara, externou seu desapontamento no samba “Apesar de Você” que, entre outras coisas, afirmava: “Você vai pagar / cada lágrima rolada / nesse meu penar / apesar de você / amanhã utro dia / você vai se dar mal / etc. e tal...”

Por incrível que pareça, este desabusado recado à ditadura, propositalmente muito mal disfarçado numa fictícia briga de namorados, passou pela censura e foi lançado por Chico num compacto simples. Resultado: o samba estourou nas rádios e já se aproximava da citra de cem mil discos vendidos, quando o governo entendeu a mensagem e, imediatamente, proibiu a música, recolheu e destruiu os discos e, para completar, puniu o censor incompetente. Apenas se esqueceu de destruir a matriz , o que possibilitou a reedição do original, depois que a tempestade passou.

Daí em diante, e até o final da ditadura, Chico Buarque seria implacavelmente marcado pelos censores, sofrendo suas letras os mais absurdos vetos e rejeições. A situação chegou ao ponto de ele ter que se disfarçar, sob os pseudônimos de Julinho da Adelaide e Leonel Paiva, para aprovar três composições que incluiria no elepê Sinal fechado, em 1974. Descoberta a farsa, porém, a censura criou novas exigências: toda letra apresentada teria que ser acompanhada de cópias da carteira de identidade e do CPF do compositor (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Apesar de você (samba, 1970), Chico Buarque


Am     Am7+       Em7/5-
Hoje você é quem manda
 D7/9            G7/13
falou, tá falado
            C7+/9     E/G#
Não tem discussão, não
Am       Am7+       Em7/5-
A minha gente hoje anda
          A7                G/A    A7/5+
falando de lado e olhando pro chão, viu
  D7/9        G7/13      C7+
Você que inventou esse estado
       Fm9         C7+       Fm9     Em    C7/9 F7+
e inventou de inventar toda a escuridão
             E/G#       Am
Você que inventou o pecado,
     C7/9          F7+ G7/13 C   G7/13  C 
esqueceu-se de inventar o perdão
  G7/13     C               A7/5+     Dm7    G7
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
              Dm7
Eu pergunto a você
               G7
onde vai se esconder
           Dm7  E/G#   
da enorme euforia
Em7/5-           A7
Como vai proibir
                  G/A A7/5+ Dm7   Fm9
quando o galo insistir em cantar
    Bb7        Em7   A7/5+  
Água nova brotando e a gente
   D7/9   G7/13  C     E/G#
se amando sem parar
Am         Am7+     Em7/5-
Quando chegar o momento,
    A7/5+    D7/9    G7/13
esse meu sofrimento
             C7+/9    E/G#
vou cobrar com juros, juro
Am          Am7+      Em7/5-
Todo esse amor reprimido
              A7
esse grito contido,
               G/A  A7/5+
este samba no escuro
    D7/9               C7+/9
Você que inventou a tristeza,
     Fm9        C7+   Fm9     Em7  C7/9  F7+
ora, tenha a fineza de desinventar
           E/G#      Am
Você vai pagar e é dobrado,
    C7/9       F7+
cada lágrima rolada,
G7/13     C      G7/13  C
nesse meu penar
  G7/13     C               A7/5+     Dm7    G7
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
              Dm7
Eu pergunto a você
               G7
onde vai se esconder
           Dm7  E/G#   
da enorme euforia
Em7/5-           A7
Como vai proibir
                  G/A A7/5+ Dm7   Fm9
quando o galo insistir em cantar
    Bb7        Em7   A7/5+  
Água nova brotando e a gente
   D7/9   G7/13  C    
se amando sem parar