quinta-feira, março 01, 2012

Nosso Sinhô do Samba - Parte 4

Sinhô não se considerava mulato. Numa terra de mulatos geniais, o sambista não topava a classificação. Dizia-se com certa ufania “caboclo autêntico”. Tinha o pernosticismo característico dos homens de cor, sujeitos no seu tempo ainda a restrições vexatórias, de que se vingariam demonstrando inteligência e ousadia e conseguindo destacar-se notadamente em atividades artísticas, o que no tempo não era muito fácil.

Natural que se sentisse vaidoso diante do bom êxito das suas composições e da popularidade que dia a dia mais lhe exaltava o nome. Não se lhe podia negar o sucesso alcançado pelas composições que a cidade cantava e assobiava e que saltavam das ruas para o teatro musicado, em fase de grande animação.

Quando da sua visita ao Rio, os reis belgas demonstraram nítida simpatia pelas produções de Sinhô ao ouvirem música nacional no encouraçado São Paulo, que os trouxe ao Brasil. Dentre as melodias executadas pelo quinteto de bordo, a rainha apreciava especialmente o samba Fala meu louro, grande sucesso de Sinhô. Vasseur, que integrava o conjunto, foi solicitado várias vezes a executar as composições de Sinhô para a rainha. E o jornal A Noite, de 25 de setembro de 1920, publicava pequena nota: “Em uma das últimas refeições no Palácio, S. M. a rainha Elisabeth manifestou desejos de ouvir uma das nossas músicas populares. Por acaso o maestro Pinto de Oliveira, diretor da Orquestra do Palácio, tinha ensaiado o Papagaio louro (Fala meu louro) e executou-o. A rainha aplaudiu a música e seus executantes”.

O compositor carioca quis provar seu reconhecimento aos ilustres visitantes organizando um álbum de suas produções que lhes foi ofertado.

A propósito, conta Augusto Vasseur que o álbum a princípio era feio e mal arranjado, numa capa de papelão ordinário, com a dedicatória grafada no próprio cursivo de Sinhô: “Aos Reis da Bélgica, Srs. Alberto e Elisabeth - oferece Sinhô”. Dedicatória simples e sincera, mas que feria os preceitos majestáticos. Vasseur mandou fazer urna encadernação decente, bonita, com ofertório adequado e impresso.

De qualquer forma, o fato teria de despertar a inveja dos concorrentes. Sinhô conquistava terreno em todas as camadas sociais. Continuava cada vez mais a destacar-se. E não era somente à custa dos trouxas do Rio de Janeiro, como haviam cantado Pixinguinha e China.

Mas não se diga que o sambista vitorioso tenha fugido às camadas de onde viera. Nada disso. Tanto freqüentava a Kananga. como as casas mais ilustres que o acolheram. Era amigo de políticos e figurões que o prestigiavam. Nos morros, ou na zona sul, nos subúrbios ou na Tijuca, Sinhô tinha trânsito livre. Nunca abandonou as chamadas rodas da malandragem. Foi amigo do famigerado Sete Coroas, salteador que se fez famoso, a quem o compositor dedicava um samba que parece não foi gravado, e é raríssimo hoje.

Na fase ascensional de Sinhô tinha ele em Caninha (José Luís de Moraes) não um inimigo, mas um rival de categoria. Eram dois bambas da música popular carioca e não seria exagero o que diria a quadrinha popularizada:

São dois cabras perigosos,
Dois diabos infernais:
José Barbosa da Silva,
José Luís de Moraes.


Essa rivalidade era inteligentemente explorada pelos dois compositores, na época dos mais destacados no Rio. Em 1921 , Caninha já se fizera detentor de alguns sucessos carnavalescos, entre os quais Me leva, me leva seu Rafael (Quem vem atrás fecha a porta) e Esta nega qué me dá.

Também foi Almirante quem relatou no rádio, e depois em palestra, um dos encontros dos dois bambas da música, no ano de 1921, numa festa da Penha, naquele tempo o campo experimental das músicas de Carnaval, na própria expressão da maior patente do rádio. 

Vários grupos se apresentavam visando ao lançamento das suas composições. Para aumentar o interesse competitório, o industrial Eduardo França, o homem da Lugolina e do Vermutin, que foi sempre grande animador da música popular e do Carnaval carioca, instituíra uma taça. Lá estavam Os Africanos (Vila Isabel), o Grupo do Louro e o afiadíssimo Grupo dos Hanseáticos, chefiado pelo Caninha. Uma mu1tidão cercava os concorrentes no festivo arraial. E eram centenas os que já sabiam de cor os versos da bonita marcha lançada pelo Caninha, Me sinto mal:

Ai, ai
Me sinto mal
Depois do Carnaval.
Quando chega o Carnaval
Ninguém lembra a carestia
Vamos todos pra Avenida
E caímos na folia.


Tem gente que cai na farra
Na véspera do Carnaval
Na quarta-feira de cinzas
Sempre diz: me sinto mal.


O Grupo dos Hanseáticos parecia vitorioso. O samba de Caninha despertara o maior entusiasmo. Todos ali o cantavam. Mas eis que se aproxima Sinhô, logo recebido com alegria pelos circunstantes. Chegava sobraçando belíssimo violão cravado de madrepérolas. Cercavam-no alguns companheiros, todos sem instrumentos. Sinhô começou sozinho a cantar sua marcha Fala baixo, especialmente composta para aquele lançamento. Os versos eram fracos. Apenas o estribilho tinha grande força (1). Mas a melodia agradava e daí a pouco eram dezenas os que cantavam o poemazinho; onde havia a palavra rolinha, que bem podia ser referência ao apelido dado a Artur Bernardes:

Quero te ouvir cantar
Vem cá, rolinha, vem cá
Vem pra nos salvar
Vem cá, rolinha, vem cá.

Não é assim
Assim não é
Não é assim
Que se maltrata uma mulher.


Não satisfeito do sucesso da marchinha que se estenderia ao Carnaval de 1922, tornando popularíssimo o refrão, Sinhô ainda lançou outro número de êxito certo, o samba Sai da raia, talvez sua composição mais feliz do referido Carnaval e que seria cantada e executada por grupos e orquestras durante vários carnavais subseqüentes.

Na época, a festa da Penha era de fato uma festa. Depois do Carnaval seria o maior acontecimento popular do Rio. Verdadeiras multidões acorriam ao subúrbio que todo se transformava num arraial de verdade. A imprensa abria colunas largas para noticiário dos domingos festivos durante todo o mês de outubro. E de 1920 em diante até alguns anos depois a Penha seria de fato o início do Carnaval pelo menos no que se refere à música. Compositores e músicos comandando conjuntos amestrados lançavam as composições, muitas delas focalizando a festa religiosa, mas já de olho na festa profana do ano seguinte. Sinhô, Caninha e outros a essa época já eram veteranos da Penha.

O Jornal do Brasil, que graças a seu cronista Vagalume, sempre dispensou atenção especial aos festejos do subúrbio leopoldinense, na sua edição de 23 de outubro de 1911, já estampava algumas fotos, numa das quais aparece Sinhô, ainda não batizado como compositor. Verdadeiras multidões acorriam ao subúrbio e daí a razão dos lançamentos ali das músicas de Carnaval. Composição consagrada na Penha era êxito indiscutível em fevereiro.

Os encontros de Caninha e Sinhô se apresentavam sempre sensacionais. E naquele 1921,  o compositor de Fala baixo e Sai da raia fora o grande vitorioso da Penha, triunfo que se consolidaria no Carnaval vindouro. Mas ali mesmo Sinhô também sentiu o amargo da derrota que lhe infligira o seu temível rival.

Curioso que a vaidade de Sinhô nem sempre o levasse a festivais e espetáculos para os quais era insistentemente solicitado. Tomou parte, contudo, na Noite brasileira, realizada no Teatro Fênix em março de 1927 e na Noite luso-brasileira, em homenagem ao aviador Sarmento de Beires, realizada no Teatro República na noite de 4 de junho do mesmo ano. Nessa festa, José do Patrocínio Filho proferiu uma palestra e Sinhô foi coroado Rei do Samba, depois de vitorioso no concurso ali efetuado.

Quase dois anos mais tarde, em maio de 1929, iria a São Paulo chefiando um grupo que deu uma récita no Teatro Municipal, com a presença do senhor Júlio Prestes, então candidato à presidência da República. O pretexto era o lançamento da marchinha de Freire Júnior, Seu Julinho vem. A propósito do espetáculo, evidentemente uma promoção política.

O Estado de São Paulo, de 21 de maio de 1929, fez o seguinte comentário: “Com a presença e a cumplicidade de altas autoridades do Estado e do Município, o Teatro Municipal, anteontem à noite, esteve em pleno domínio da fuzarca. Certo é que a noitada paulista se não foi uma apoteose ao candidato Júlio Prestes o foi a Sinhô, talvez o maior vitorioso da noite, pois também compusera o samba Eu ouço falar:

Eu ouço falar
Que para o nosso bem
Jesus já designou
Que seu Julinho é quem vem.

Deve vir esse caboclo
Pra matar nossa saudade
Para o riso ser leal
No coração da humanidade.


Essa história que anda aí
De “vem pra ganhar vintém”
Ele no precisa disto
Nem de “aproveitar também”.
(2)

Eu no quero que este samba
Vá contrariar alguém
O caboclo é da fuzarca
E só trabalha para o bem!
Olé!


O sabujismo naturalmente bem pago e de certo modo compreensível levava o popular compositor a tais exageros. O candidato oficial se transformava em ‘caboclo da fuzarca’ e o compositor além de mau profeta chegava a ser blasfemo.

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(1) Característica maior de Sinhô. Era um fabuloso estribilhista. (2) Expressões de outra marchinha do ano sobre o mesmo tema.

Fonte: "Nosso Sinhô do Samba" / Edigar de Alencar - Edição FUNARTE - Rio de Janeiro 1981.

sábado, fevereiro 25, 2012

Nosso Sinhô do Samba - Parte 3

Sinhô por Álvarus
Sinhô era temperamental. Um emotivo. Daí a tradição de brigão que dele ficou, ainda que as suas brigas não tivessem conseqüências maiores. Indispunha-se momentaneamente com os companheiros e logo esquecia para daí a pouco novamente provocar turras, ou topá-las se a provocação vinha dos outros, o que não era raro notadamente nos seus primeiros anos de compositor.

A glória que lhe veio rápida, embora bem diversa da que hoje favorece os artistas, pois também lhes dá quase a indispensável compensação financeira, mais lhe acenderia os humores. Com apenas dez anos de produção, ganhou ‘oficialmente’ o título de “Rei do Samba” (1) numa época em que não havia muitos disputantes do título. Mas os havia de valor. Pode-se dizer que eram poucos mas bons. O título, no entanto, já lhe outorgara o povo, inclusive através do julgamento de oficiais do mesmo ofício.

Naturalmente pernóstico e além disso atucanado pela inveja e despeito de alguns, Sinhô se mostrava de quando em quando irritadiço. Sobre essa sua característica poucos divergem. Mozart de Araújo teve a impressão de que o sambista era algo intratável. Muito vaidoso. Certa vez o viu deblaterando na Casa Édison. Reclamava, ao que parece, melhor paga e em dado momento, mais exaltado, exclamou abrangendo com um gesto largo as prateleiras do estabelecimento:

— Tudo isso é meu!

Querendo significar que a prosperidade do incansável Fred Figner em grande parte lhe fosse devida.

Sob o aspecto do gênio, Sinhô não é bem referido por muitos dos que o conheceram. Uns o dão como muito mentiroso, ou melhor, gabola.

‘Conversava’ muito. Prometia ainda mais, sem nenhuma intenção de cumprir. Exagerava na vanglória. Tinha talento, afirma outro, mas era pretensiosíssimo. Falava mal de muitos. Era o que hoje se chamaria fofoqueiro.

Manuel Bandeira, que lhe foi apresentado na câmara-ardente de Zeca Patrocínio, na igreja do Rosário, teve impressão terrível do sambista de quem era admirador e a quem dedicou página antológica:

“Sinhô tinha passado o dia ali, era mais de meia-noites ia passar a noite ali e não parava de evocar a figura do amigo extinto, contava aventuras comuns, espinafrava tudo quanto era músico e poeta, estava danado naquela época com o Vila e o Catulo, poeta era ele, músico era ele. Que língua desgraçada! Que vaidade!”

A propósito, R. Magalhães Júnior conta que no velório, lá pela madrugada, Sinhô bastante ‘alto’ se aproximou do caixão e quis prestar uma homenagem ao grande amigo morto:

— Zeca, meu filho... Escuta aqui... Estás ouvindo?

E com o olhar cravado na face do morto, começou a tamborilar um samba na madeira do próprio caixão. De repente, volta-se para Álvaro Moreira, quase num grito:

— Dr. Álvaro, o Zeca está se mexendo!

Heitor dos Prazeres. com quem teve alguns dissídios por causa de trechos de sambas, afirmou que Sinhô era mesmo tratado pelos companheiros como o leviano! Não o considerava mau e sim malandro.

Contudo, mesmo os que fazem ainda hoje tais afirmações não lhe negam qualidades de bom companheiro em outros instantes. E a quase completa ausência de maldade nas suas fofocas e invenções, a que a maioria não dava grande importância. Brigava com todo mundo, mas ninguém era seu inimigo. E teve amigos devotados e entusiastas como José do Patrocínio Filho, Luís Peixoto, Álvaro Moreira, Vila-Lobos, Benjamin Costalat, Mário Reis, Augusto Vasseur etc. Procurava ser polido, era divertido e exuberante e se esmerava no trajar.

Juntem-se à vaidade, ao renome que logo granjeou, as dificuldades da vida, os seus problemas de ordem íntima e sentimental e a inveja que provocava e aí estarão justificados as suas brigas e azedumes.

Quando lançou o Quem são eles?, teve réplicas até de Hilário, o bom Hilário. A que mais lhe deve ter atingido foi, repitamos, a invectiva sonora dos irmãos Pixinguinha e China, na verdade a mais impiedosa, pois além de lhe espinafrar a carcaça, aludia a seu fracasso na flauta, instrumento aliás que nunca o seduziu. Ferino e direto, o samba-resposta a um simples título tomado como deboche tonteou o sambista estreante que procurou contornar a situação (2). Aproximou-se do Clube dos Democráticos, a quem dedicou o samba Confessa meu bem (3), composto para o Carnaval de 1919. Ele mesmo ao piano, na sede do veterano clube, iria divulgá-lo. Ou trabalhá-lo, como se diz hoje. E já na primeira noite de apresentação, toda a sala acompanhou o pianista-compositor. cantando:

Confessa, confessa
Meu bem
Fala, fala, fala,
Meu bem
Que eu não digo nada
A ninguém.

Lingua malvada e ferina
Falar de nós é tua sina
Vou-me embora, vou-me embora
Desse meio de tolice
Estou cansado de viver
De tanto disse-me-disse
Ai, que gente danada
Ai! Não confesso nada.


Como se depreende dos versos, Sinhô aí faz alusões claras e diretas. Inegável que não somente topava provocações como as fazia. Revidava indiretas (ou diretas), formulava queixas em tom nada cordial e gostava de caricaturar também. Em Pé de pilão, marcha carnavalesca de 1922, ao lado de um estribilho lírico, traça um perfil gaiato.

És um mofino,
fino
És narigudo
gudo
Tens pernas finas
finas
E és pançudo
çudo.


Teria endereço? Quem sabe lá? Talvez simples brincadeira. Mas, e em outras composições?

Para o prestígio de Sinhô, cada vez mais acentuado, deveria ter contribuído a sua amizade com o negro Assumano. Henrique Assumano Mina do Brasil, ou o Pai Assumano. Almirante assim se refere ao famoso negro que faleceu em 1933: “Era uma figura impressionante de preto: morava no número 191 da rua Visconde de Inhaúma, num sobrado que conheci. Na sala, nos quartos, pelos tetos, estavam penduradas ervas de virtudes medicinais que espalhavam um cheiro acre que fermentava o ambiente, porque as janelas nunca se abriam. Ninguém ali podia assobiar, falar em mulher ou no diabo”.

Assumano era compadre de Irineu Machado e, segundo a versão corrente, Sinhô nele cria cegamente e não lançava nenhuma das suas composições sem receber previamente a bênção do Príncipe dos Alufás, da lei de Mussulmi ou Mussumiri. Mariza Lira informa que “a primeira audição de suas músicas era feita na residência de Assumano. Acreditava Sinhô que a popularidade de suas composições era devida, unicamente, àquela influência espiritual”. E acrescenta, divergindo de muitos e talvez um pouco aquém da realidade: “Modéstia natural dos que têm valor”.

Certo é que o sambista, como nota ainda Almirante, apesar de carioca legítimo, tinha especial predileção pelos costumes da Bahia e crendices dos seus negros. Sua paixão pela temática baiana viria a criar-lhe casos e despertar ciúmes dos baianos falsos ou legítimos do Rio.

A briga musical já não seria evitável. Sinhô, vitorioso, contando facilidades para a edição das suas composições, não perderia ensejo de responder às críticas e remoques com que o feriam. E uma dessa respostas, dentro da linha fetichista, era o Vou me benzer (1919-1920), também denominado As Criaturas:

Há criaturas que vivem
Porém com tal influência
Que parece ser por elas
Que a gente tem existência.

Vou me benzer
Para me livrar
Desses maus olhos
Que querem me botar.


Desenho de Acquerone - Arquivos Almirante
Museu da Imagem e Som
As suas implicâncias com o China, irmão de Pixinguinha, ainda o fariam voltar à liça e dessa vez com uma composição que seria o maior sucesso popular a marchinha pioneira O Pé de Anjo (1920). Ao que dizem, Sinhô pretendia fixar na marcha os pés enormes de Otávio da Rocha Viana, o China:

Eu tenho uma tesourinha
Que corta ouro e marfim
Serve também pra cortar
Línguas que falam de mim.

Ó pé de anjo, Ó pé de anjo
És rezador, és rezador
Tens um pé tão grande
Que é capaz de pisar
Nosso Senhor, Nosso Senhor.


Certa vez um dos seus desafetos ocasionais (4) tentou agredir o compositor de Quem são eles?. A turma do deixa-disso, não-faça-isso (hoje: deixa-pra-lá) impediu que a coisa se complicasse. Mas Sinhô não esqueceu a ofensa e se valeria do seu habitual processo de revide ou provocação, lançando o samba De boca em boca (1921), depois popularizado com o título O Boi e mais tarde reeditado com a denominação de Segura o boi. Tanto no subtítulo como nos versos era evidente a reação:

Vou lhes confessar sem temor
E mesmo posso jurar
Eu tenho fé em Deus
Que não hão de me matar.

Segura o boi
que o boi vadeia
o boi só está bem
nas grades de uma cadeia.

Deus só quem tem direito
De minha vida acabar
Fica maluco, ó sim
Quem nesta coisa pensar.


De 1924 é Ave de rapina, nome de samba nada carnavalesco. Os versos ao que parece são uma queixa, uma incontida recriminação:

Quem dá esquece
Quem apanha quer vingar
O tempo é pouco
Pra quem não pode esperar.

Apita agora
Ave de rapina
Apita agora
Que é a tua sina.

Formaste o pulo
Como a onça mais ligeira
Fizeste capa
Da nossa pura bandeira.


Simples poema de carnaval ou válvula aberta para a diatribe com uma ave de rapina que apita?

Entre os seus desafetos houve quem o achasse língua ferina. E até Manuel Bandeira, como vimos, taxou-o de língua desgraçada. Mas, por seu turno, o sambista nunca cessou de queixar-se da língua ferina dos outros. Em Quando come se lambuza, samba do Carnaval de 1923, de boa letra, assim a conclui:

Arria a mochila e fala direito
Arria a mochila e fala direito
Tu sabes, língua ferina
Quem é bom já nasce feito.


A frase do último verso lançada no samba Fala meu louro ele a repetiria ainda em outras composições, como no samba de 1928 Quem fala de mim tem paixão, variante do nome de um bloco carnavalesco (Quem Fala de Nós Tem Paixão). Esse samba Sinhô o classificaria de ‘sambamaioral’, o que é outra fórmula de provocação. E não se esqueça que já na famosa marchinha O Pé de Anjo, o compositor se queixava da língua ferina dos outros advertindo sobre a existência de uma tesourinha para cortá-las. O tema ainda retornaria em 1928, quando lançou o samba Tesourinha, em cuja capa (edição Irmãos Vitale) figura uma grande tesoura cortando a língua de um mulato esvaporido (desenho de Wantick).

Felizmente as brigas de Sinhô acabavam em sambas. As agressões, os remoques, a inveja, as provocações e injustiças instigavam o compositor. E o que ele não podia revidar em taponas, tiros ou palavrões, faria mais tarde em sambas, alguns verdadeiras jóias do nosso cancioneiro, cujos versos não traíam os motivos rancorosos dos quais se originavam.

Sabiá (1928), uma das suas mais belas composições, foi composta logo após o desenlace de um dos seus casos sentimentais. De início Sinhô quis reagir violentamente. Confidenciou suas mágoas e seus intuitos a amigos, mas acabou o Sinhô brigão de gênio bom extravasando sua queixa e sua vingança pela forma habitual, a canção:

Quem roubou o meu sossego
A Deus eu fiz entregar,
Pois eu hei de ver no mundo
Alguém por mim se vingar.


Mariza Lira dá versão à notícia de que era sempre com emoção, que ia até à água nos olhos, que Sinhô ouvia cantar esse lindo samba.

Alguns biógrafos e historiadores relatam que para se impelir o nosso José do Patrocínio (pai) aos grandes rasgos de eloqüência bastava que o insultassem, espicaçando-lhe os brios, com a invectiva marcante: - negro!

Com Sinhô dar-se-ia quase a mesma coisa. Quem quisesse empurrá-lo a produzir música o invectivasse.

Resposta a tais afrontas é o samba Macumba (1923), embora aqui a réplica, segundo informação de Almirante, se baseasse ainda em razões de ordem sentimental. De qualquer forma o compositor se defendia:

A inveja é um fato
Que nunca tem fim
Podes vir de feitiço
Pra cima de mim.


E o mesmo infatigável Almirante, a quem se devem todas as primeiras pesquisas a respeito de Sinhô, que informa ter havido em 1920 encrencas do sambista com o Caninha, o Nozinho, o João da Baiana e o Chico da Baiana. Brigas e arrufos que ele esquecia rápido, principalmente se lhe sopravam a gaforinha os ventos veludosos da fama. Era um espadachim teórico. Brigava mais de papo que de sopapo. Sua arma predileta era a solfa. Sua cunhada Maria Barbosa da Silva achava-o calmo e ponderado, inimigo de brigas e de escândalo. E conta que certa vez, levando a sobrinha a uma festa no subúrbio, lá começaram a surgir confusões. Sinhô retirou a moça e suas amigas, abandonando o baile ainda que sob os sussurrados protestos das jovens.

Revide ou agressão também terá sido o seu samba Três macacos no beco (1919), alusão direta e inegavelmente engraçada aos irmãos Pixinguinha e China e ao Donga. E outras questões surgiriam ainda motivadas, segundo seus opositores, por se apropriar de trechos musicais alheios, encaixando-os em suas composições. Mas isto será assunto de outro capítulo.

Seja dito ainda em abono do gênio brigão de Sinhô, que o provocavam aqui e ali os que tentavam negá-lo e não se conformavam com a sua ascensão algo vertiginosa. Vertiginosa para o ascensionário e para os que o viam subir. E repita-se que a glória do compositor era limitadíssima. Não o tornava rico, não o fazia escalar melhor nível da vida. Talvez nem lhe desse mesmo satisfatórias condições econômicas. Era apenas a glória popular, de certo modo a que “fica, eleva, honra e consola”.

Sinhô viveu para a música e da música. Pobremente. Por algum tempo foi estafeta dos Correios. Mas, de uma feita saiu para entregar a correspondência. Encontrou companheiros das rodas de samba. Ficou-se de conversa e bebida e acabou perdendo a correspondência. E também o emprego (5).
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(1) Já em 1922 as suas músicas eram editadas com seu nome e apelido seguidos da designação - O Rei do Samba. A coroação de 1927 foi assim duplamente simbólica. (2) O samba Já te digo logo se tornou popular. A sátira, a pilhéria com o colarinho pé dc Sinhô agradou em cheio. Um sucesso! (3) Gravação Odeon 121528, por Eduardo das Neves. (4) Segundo afirmações de. alguns, Dirceu de Almeida Vale. O incidente origem em comentários políticos. . . (5) Ao que parece a exoneração se verificou no quatriênio Bernardes e teve também como agravante a influí-la a ousadia de Sinhô ao lançar a marchinha Fala baixo, no Carnaval de 1922, fato que por pouco não o levou à cadeia.

Fonte: "Nosso Sinhô do Samba" / Edigar de Alencar - Edição FUNARTE - Rio de Janeiro 1981.

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Rosana

Rosana (Rosana Fiengo), cantora, conhecida posteriormente como Rosanah Fienngo, nasceu e foi criada no bairro do Brás, São Paulo, em 7 de março de 1963. Com seu talento artístico precoce, começou a tocar teclado com 6 anos, incentivada pela tia pianista, Eda.

Filha do músico Aldo Fiengo, começou a cantar profissionalmente com 13 anos de idade, na banda de seu pai, a Casanova's. Fortemente influenciada por Elis Regina e Gladys Knight na adolescência, tanto que em seu aniversário de 12 anos foi presenteada pela mãe,Zenaide, que a levou ao show de Elis e ela pôde abraçar a cantora e falar que queria ser uma cantora também.

Em 1978, ainda na banda do pai e já morando na cidade do Rio de Janeiro, gravou um compacto simples pela gravadora Odeon, com a romântica Fique um pouco mais, que entrou na trilha da novela Pecado Rasgado da Rede Globo e Muito independente, em ritmo de discothèque.A banda Casanova's chegou a aparecer numa cena dessa novela, com Rosana como vocalista.

Participou ainda de diversos programas de televisão da época, como Globo de Ouro, Chacrinha, Carlos Imperial, Sexta Super, Raul Gil e Almoço com as Estrelas.

Aos 18 anos, em 1980, decidiu de fato seguir a carreira profissional de música, mas teve que fazer uma difícil escolha: Passou no vestibular na Universidade Gama Filho no curso de psicologia e teve que optar entre os estudos ou a música, e foi a música que escolheu, apesar de ainda gostar sobre assuntos referentes a psicologia.

Em 1981, classificou-se no Festival MPB Shell da Rede Globo com a canção Pensei que fosse fácil, mas não é, de Zé Rodrix. Em dezembro desse ano posou totalmente nua para a Revista Homem, da Idéia Editorial.

Em 1985, participou de outro festival da Rede Globo, o Festival dos Festivais, e interpretou numa das eliminatórias a canção Vidraça. Ainda naquele ano, participou do especial infantil A Era dos Halley de Augusto César Vannucci, cantando ao lado de Guilherme Lamounier a música Luz de mim de Daltony Nóbrega.

Em 1986, após gravar alguns discos e participar de outros, uma fita com uma gravação daquele que é considerado pela cantora o seu primeiro sucesso da carreira - Nem um toque, foi levada à Rede Globo e acabou inserida na trilha sonora da telenovela Roda de Fogo (1986). Com essa exposição, a música foi exaustivamente executada nas rádios. Rosana então assinou contrato com a CBS/Sony Music (atual Sony BMG) neste mesmo ano, permanecendo neste selo até 1993, quando migrou para a Polygram.

O maior sucesso, porém, ocorreu em 1987, com a canção O amor e o poder, que fez parte da trilha de Mandala (1987). Versão da música The power of love, a faixa ficou por várias semanas consecutivas em primeiro lugar nas paradas de sucesso. O primeiro disco, Coração selvagem, que continha esta canção, vendeu mais de um milhão de cópias, rendendo à cantora vários troféus e homenagens. Em 1988, foi indicada ao Troféu Imprensa nas categorias de Melhor Cantora de 1987 e Melhor Música do mesmo ano. Também foi indicada a este prêmio nas categorias de Melhor Cantora de 1988 e Melhor Cantora de 1989.

Ao longo da carreira, gravou mais de doze discos, dos quais oito tiveram execução fora do Brasil, sobretudo na América Latina e Portugal, contabilizando oito discos de ouro e dois de platina, e também foi convidada para gravar com cantores internacionais, como Ana Gabriel e Emmanuel, e apresentou-se nos principais programas televisivos. Sempre fez muito sucesso com suas músicas de cunho romântico e de sentimentos profundos.

Nos anos 90 dedicou-se a gravar projetos especiais privilegiando outros estilos musicais, tais como o rhythm and blues no álbum Doce Pecado, 1990 gravado em Miami (EUA) com produção de Ronnie Foster, releituras de clássicos da MPB (Gata de Rua, 1993, com produção de Roberto Menescal) ou uma incursão pela dance music (Vende Peixe-Se, 1996).

Em 1991, Rosana fez vocalize no funk eletrônico Mexa-se, faixa do trabalho de estréia da banda Magrellos, participando do clip do grupo veiculado na MTV e também em programas de tv.

Quando se comemoraram os 90 anos de Carmen Miranda, fez uma homenagem a ela excursionando, em parceria ao Quarteto Maogany, com o espetáculo em 1999. A cantora também gravou canções para dois filmes da Disney: O Corcunda de Notre Dame e Oliver & Sua Turma.

Rosana tem como madrinha de carreira a cantora Leny Andrade e é reconhecida como uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos por nomes consagrados como o cantor e compositor Caetano Veloso, e o produtor musical Max Pierre.

No atual Prêmio de Música Brasileira (antigo Prêmio TIM/SHARP) organizado por José Maurício Machline, Rosana é uma das recordistas com 9 (nove) indicações, sendo a última em 2004 pelo álbum Rosana (Movieplay, 2003), e vencedora de 5 (cinco) prêmios de Melhor Cantora Popular em 1987, 1989, 1990, 1992 e 1994.

Vivendo no Rio de Janeiro, a cantora multi-instrumentista, continua fazendo espetáculos pelo Brasil e exterior, cantando e tocando piano e violão.


Em 1998 nasceu seu primeiro filho, Davy. Na época estava casada com o produtor Rodrigo di Castro.

Poucos anos antes de engravidar de Davy, estava grávida, mas perdeu o bebê com 5 meses de gestação, o que a abalou por completo. Esse terrível fato a fez se converter a religião evangélica, mais precisamente a Igreja Batista, igreja essa localizada na Barra da Tijuca, Cidade do Rio de Janeiro, onde vive desde o começo da carreira.

Discografia

1979 - Fique Um Pouco Mais - (EMI-Odeon)
1983 - Rosana - (RCA Victor)
1987 - Coração Selvagem - (Epic/CBS)
1988 - Vício Fatal / Ao Vivo - (Epic/CBS)
1989 - Onde o Amor Me Leva - (Epic/CBS)
1990 - Por Donde el Amor Me Lleva - espanhol - (Epic/CBS)
1990 - Doce Pecado - (Epic/CBS)
1992 - Paixão - (Columbia/CBS)
1993 - Gata de Rua - (Columbia/CBS)
1994 - Essa sou eu - (Polygran)
1996 - Vende peixe-se - (Natasha Records)
2003 - Rosana - (Movieplay)

Fonte: Wikipédia; Dicionário Cravo Albin.