domingo, abril 29, 2012

Comendador Cotia

A centenária Casa da Cotia que se fez conhecidíssima na Av. Passos...
Já que a sua casa contava com uma grande freguesia de carnavalescos dando-lhe preferência na compra de fantasias e, bem assim, os cordões procuravam-na para confecção de adornos, o comendador Cotia fez-se reconhecido. No intuitivo interesse comercial resolveu também incentivar os festejos de Momo. A princípio, antecedendo-se aos crediários e facilitários hoje tão propagados, dividia em prestações suaves os pagamentos. Depois, provocando a emulação entre os grupos que consumiam seus estoques de cetins, belbutinas, gorgurões, veludos, arminhos etc., oferecia-lhes prêmios: liras, harpas, palmas e coroas.

Desse modo, desde seu início em 15 de agosto de 1853 (ou 52), na antiga Rua do Erário, mais tarde denominada do Sacramento e agora a atual Avenida Passos, a Casa da Cotia, que as picaretas estão botando abaixo, vinculou-se à principal festa do povo carioca. Firmou, igualmente, em sua existência de mais de um século, tradição sólida que não permite se assista desaparecer o velho estabelecimento sem recordar o quanto possível fatos de sua história no comércio da Sebastianópolis.

O armarinho do comendador

Ao tempo em que ainda tínhamos nas ruas os mascates envergados ao peso de maletas atufadas de fazendas e petrechos de costura, um português de sobrenome Cotia, portador de dignificante título de comendador, instalava modesto armarinho na Rua do Erário. Ali vendia ao menor preço possível e enfrentando a concorrência então bem agressiva, da qual dá expressiva mostra este excerto de um anúncio da Chapelaria Universal na Rua do Ouvidor nº 103, alardeando o motivo de sua barateza: “... para espancarem e desenferrujarem a língua os infamantes e invejosos e crapulosos”.

Maneiroso, ‘com jeito para a coisa’, via seu comércio crescer e as peças de fazenda iam desaparecendo das prateleiras através de vendagem, contínua, de côvados e a seguir da metragem hoje correntia. Tornou-se conseqüentemente popular a casa do Cotia, depois tornada a Casa da Cotia, tendo à porta, como símbolo até agora vigente, as figuras dos conhecidos roedores. Chegou, assim, até aos nossos dias passando da Monarquia para a República, somando anos e estabelecendo uma tradição que desaparece com o derrubar de suas paredes de sua fachada diante da qual cordões e ranchos desfilavam para receber os lauréis e prestar homenagem ao Comendador ou continuador da firma.

Vestindo e incentivando o Carnaval

Sem pretensões maiores do que arregimentar uma clientela numerosa capaz de lhe permitir prosperar, o comendador Cotia traçou uma diretriz seguida pelos seus sucessores até o momento de cerrar as portas para submeterem-se à demolição. Não adotou para sua casa nomes afrancesados como outras congêneres: “Bijou de La Moda”, “La Poupée”, “Maison Rouge”. Não se fazia anunciar também como magasin ou fornecedor da haute couture. Firmou-se, isto sim, como estabelecimento popular e marcou tal característica vendendo roupas de vestir, de cama e de mesa, mas dedicando-se principalmente a fornecer fantasias para o Carnaval: dominós, clowns, diabinhos, morcegos, caveiras etc., etc.

Ampliou em etapa natural do rumo de seu florescente comércio a participação da casa nos festejos carnavalescos, aprestando-se para confeccionar o vestuário dos zé-pereiras e dos cordões. E quando surgiram os ranchos, o próprio comendador e seus continuadores nas firmas que as foram formando para continuar a tradição da Casa da Cotia (ultimamente composta dos Srs. Mário José da Silva, Francisco Bastos Pinto e Leonel Campos Viegas) anunciavam em 1911 que tinham “oficina de pintura a cargo do hábil artista Charles Dun para executar qualquer estandarte”. Informava ao mesmo tempo a distribuição de cinco prêmios às agremiações que maiores compras fizessem.

Com préstito nas ruas

Ainda em 1911, quando contava com bom número de concorrentes dentre os quais A Bola de Ouro de Francisco Storina (fundada em 1879) e situada na Rua Sete de Setembro nº 164, e a Casa Fortuna, na Praça Onze de Junho, já tradicional estabelecimento dava participação efetiva ao Carnaval. No domingo, 12 de fevereiro, antecedendo-se ao desfile das três grandes sociedades e bem antes do tríduo de Momo, que foi de 26 a 28, o Grupo dos Prontos da Casa da Cotia comunicava a realização de “luxuosa e deslumbrante passeata com todo esmero e arte possíveis”. Apresentava em prosseguimento a descrição do préstito que teria dois carros alegóricos: Apoteose ao Reino Animal e Palanquim Oriental.

Iniciando o itinerário do cortejo na Avenida Passos, e levando-o até a Avenida Central com passagem pela Guarda Velha e Rua da Carioca, o referido Grupo tinha uma “comissão de frente rigorosamente trajada a rei da gafanha” precedendo “vibrante banda de clarins ricamente trajada de clowns trazendo no alto da sinagoga o vitorioso emblema da Casa da Cotia.” E do sucesso dessa passeata deu notícia no dia seguinte o Jornal do Brasil escrevendo: “... os tais prontos se apresentaram na avenida Central de ponto em branco, ricos e luzidios, arrancando do povo merecidos aplausos”.

Nênia também para a Cotia

Lamentando a morte por insolvência financeira de O Camiseiro, popularíssimo com suas ‘loucuras’ desde 1919 quando se fundou, o poeta Carlos Drummond de Andrade pediu uma nênia “à musa, da crônica”. Tem também merecimento a idêntico sentir a centenária Casa da Cotia, que se fez conhecidíssima na movimentada Avenida Passos e, ao chegar do Carnaval expondo em suas vitrines os estandartes do Jasmim de Ouro, da Papoula do Japão e de tantos outros ranchos coirmãos, alvoroçava a cidade para sua maior festa. Oferecia-lhe ao mesmo tempo fantasias as mais variadas, e isto às claras no proceder diverso de uma sua similar da rua dos Latoeiros nº 97 que, nos idos de 1854, declarava “aos patuscos de todas as nações” possuir “quarto para vestir e saída particular para não serem vistos do público”.

Entoem pois os carnavalescos da ‘velha guarda’ e mesmo os da geração atual, que ainda alcançaram a centenária Casa da Cotia exibindo máscaras, apregoando lustrosas fazendas para fantasias, igual nênia à que foi pedida pelo poeta em lamento do saudoso armarinho do comendador. Ele também merece ser pranteado pois, embora próspero, foi obrigado a entregar-se à insensível demolição já quase concluída pelas picaretas do progresso indiferentes à tradição e apenas a favor do urbanismo.

(O Jornal, 12/04/1964)

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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

Adilson Bispo

Adilson Bispo (Adilson Pinheiro Bispo), compositor, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 8/5/1952. Em 1979 teve gravada, no LP de Almir Guineto Jeito de Amar, sua composição Chantagem (com Zé Roberto).

Em 1984, Beth Carvalho registrou uma composição sua, Coração feliz (c/ Marquinhos PQD e Gérson do Vale), em disco. Dois anos depois, Almir Guineto gravou Conselho (c/ Zé Roberto).

No ano de 1986, Beth Carvalho gravou  Falso reinado (c/ Zé Roberto). No ano de 1987, no LP Perfume de champanhe, Almir Guineto gravou outra composição de sua autoria: Mensagem, em parceria com Zé Roberto;  Agepê incluiu em seu LP Canto pra gente cantar, a música Ilusão e Reinaldo, no disco Aquela imagem, registrou as composições Coisa de amante e Falso rubi, ambas de sua autoria em parceria com Zé Roberto. No ano seguinte, Elza Soares em seu disco Voltei, pela RGE, interpretou Ânsia louca (c/ Zé Roberto).

Em 1989, Zeca Pagodinho incluiu uma das músicas que seria um grande sucesso do cantor, Pinta de lord (c/ Zé Roberto), no disco Boêmio feliz.

Em 2010 comandou a festa em comemoração ao Dia Nacional do Samba, realizada pela UFRJ, no pátio da Reitoria, na Ilha do Fundão. No palco principal também se apresentaram os convidados: Noca da Portela, Dominguinhos do Estácio, Pedrinho da Flor, Adalto Magalha, Chiquinho Vírgula, Elaine Machado, Efson, Riko Dorilêo, Wanderley Monteiro, Anderson Baiaco, Rogerinho Ratatúia e Muleque Xibiu.

Obra

Ânsia louca (c/ Zé Roberto), Chantagem (c/ Zé Roberto), Coisa de amante (c/ Zé Roberto), Conselho (c/ Zé Roberto), Coração feliz (c/ Marquinhos PQD e Gérson do Vale), Falso reinado (c/ Zé Roberto), Falso rubi (c/ Zé Roberto), Ilusão (c/ Zé Roberto), Mensagem (c/ Zé Roberto), Pinta de lord (c/ Zé Roberto).

Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.

terça-feira, abril 24, 2012

Coelho Netto, o amigo do Carnaval

Coelho Neto
Rancho carnavalesco famoso, o Ameno Resedá teve entre seus admiradores inúmeras figuras importantes e, dentre elas, demonstrando-lhe sempre grande apreço, Henrique Maximiliano Coelho Netto. Em alguns de seus importantes eventos, pois era convidado para todos eles, o consagrado escritor esteve presente, levando também sua família, prestigiando a agremiação e sendo alvo de carinhosas homenagens. Daí o saudoso grêmio do bairro do Catete ter como persona grata, muito mesmo, tão destacado nome de nossas letras.

Nas recordações que agora, ao ensaio do centenário de seu nascimento (21 de fevereiro de 1864), estão sendo escritas em reverência ao Príncipe dos Prosadores, não poderia ser olvidado o carnavalófilo que foi. Exatamente isso que o neologismo faz entender: amigo do Carnaval. Não simples e extremado folião ou carnavalesco desses que, dando seu esforço para o brilhantismo dos festejos de Momo, não o sentem na sua grandeza folclórica. Coelho Netto foi um interessado pelo típico do recreativo momístico procurando nele influir com lições e ensinamentos.

Coelho Netto na ‘jarra’

Fazendo parte da diretoria do Ameno Resedá e sendo amigo de Coelho Netto, Manoel Aarão, independente dos convites que a sociedade sempre enviava ao escritor, encareceu-lhe quanto seria honrosa sua presença. Assim, atendendo ao que lhe era solicitado, e querendo retribuir as reiteradas provas de estima recebidas, compareceu à ‘jarra’ (nome pelo qual era designada a sede do rancho) no dia 17 de fevereiro de 1919. Comemorava-se nessa data o décimo segundo aniversário e então realizar-se-ia o que denominaram um ‘chá-tango’.

Sensibilizados por tão cativante distinção os dirigentes do ‘rancho-escola’ (denominação que lhe foi dada pela crônica carnavalesca) cercaram Coelho Netto e as pessoas de sua família de múltiplas atenções. Mais tarde, jubilosos, faziam inserir no jornalzinho que a agremiação editava uma alentada notícia na qual diziam: “... o nosso presidente de honra, Sr. Maximiano Martins, em breve alocução enalteceu o merecimento honroso...“. E, após descrever com minúcias o que foi a festa, o registro concluía: “... O Dr. Coelho Netto, em arroubos de eloqüência, agradeceu a saudação a si dirigida patenteando em alusivas frases a alegria demonstrada por todo este ameno conjunto".

O desportista e o carnavalófilo

Aficionado dos esportes, principalmente do futebol, em cuja prática no seu querido Fluminense viu brilhar seus filhos, Coelho Netto está sendo relembrado não só como literato, mas, ao mesmo tempo, como desportista. Teve, pois, de um cronista (Geraldo Romualdo da Silva), que forma entre os melhores na especialidade, a classificação de ser “um dos mais vibrantes, liberais e frenéticos defensores dos esportes". Outros jornalistas e escritores que o rememoraram exaltando seu valor literário não deixaram de aludir ao tricolor entusiasta que Coelho Netto foi, capaz, por isso de revoltado, investir contra um ‘juiz ladrão’.

Mas, se o autor de Turbilhão, Inverno em flor e tantos outros livros tinha grande paixão pelos esportes, não menor, embora pouco divulgado, era seu interesse pelas coisas do Carnaval. Disso faz prova o excerto que aqui se junta extraído de um seu artigo no Jornal do Brasil, de 13 de fevereiro de 1923, quando saudava o aparecimento dos ranchos: “... Enfim os ranchos aí estão para estimular os clubes que poderão, querendo, dar uma nova feição ao nosso Carnaval. (...) os foliões dos ranchos mergulham na tradição, digamos no folclore, e trazem à tona, não só a poesia como a música...”.

Nacionalização do Carnaval

Apontado por muitos analistas de sua vultosa obra como helenista, valendo-se em demasia dos símbolos da mitologia, Coelho Netto foi, entretanto, um pugnador pela nacionalização das manifestações carnavalescas. Afirmativa que se faz reproduzindo trecho de uma sua colaboração em A Noite de 23 de fevereiro de 1925, onde, condenando o excesso do aproveitamento de lendas gregas e romanas nos cortejos alegóricos dos chamados ‘grandes clubes’, exclamava decisivo: “... os folcloristas exultaram e entre eles foram dos mais entusiastas Sílvio Romero e Melo Moraes Filho, que até se fizeram corifeus de ranchos, senão para os acompanhar nas ruas, ao menos para inspirar-lhes idéias e ensaiá-los. E os tradicionalistas festejaram a vitória da poesia popular sobre as moxinifadas mitológicas dos grandes préstitos de papelão...

Essa sua pregação para que se desse aos divertimentos dos três dias do reinado de Momo um acentuado e puro cunho nacional e típico, logrou de pronto franca acolhida. Deu-a, justamente, o Ameno Resedá, pois, acatando-a, fez publicar no Jornal do Brasil, de 15 de março de 1924, longa carta que assim tinha início: “Ilustre escritor. — Foi logo após o Carnaval do ano passado que V.S. em interessante crônica inserida num órgão de nossa imprensa, referindo-se às chamadas pequenas sociedades, apelou para o patriotismo das mesmas...”. Prosseguia a missiva apoiando o que Coelho Netto escrevera para ter na sua conclusão a seguinte frase: ”... O Ameno Resedá deliberou apresentar a V.S., com toda a sinceridade, os motivos expostos e uma vez que o seu Carnaval externo foi idealizado e executado sob um ponto de vista patriótico apresentado pelo ilustre escritor, é que tomamos a liberdade de solicitar de V.S. o obséquio de se manifestar a respeito”.

Estima do Resedá e de outros ranchos

Persona (muito) grata do Ameno Resedá, que visitou não só em 1919, mas, outra vez, em 1922, quando o rancho inaugurou sua nova ‘jarra’, na Rua Carvalho de Sá (hoje Rua Gago Coutinho), Coelho Netto tinha da sociedade uma homenagem especial repetida todos os anos. No itinerário de seus vistosos cortejos estava sempre marcada a passagem pela Rua do Rozo a fim de que o escritor, seus familiares e pessoas amigas os vissem antes de rumar à Avenida Central (depois Rio Branco) para o confronto com os coirmãos. Reconhecidos à distinção merecida, todos quantos ali se encontravam aplaudiam calorosamente o préstito e faziam chover sobre seus integrantes densa chuva de confete.

Mas, se o escritor tinha do Ameno Resedá tal estima, graças à aproximação feita por Manoel Aarão, não era apenas o ‘escola’ que o distinguia. Outros ranchos, e eram muitos o que então abrilhantavam o Carnaval, tributavam merecida veneração ao grande vulto de nossas letras.

Isto o constatou o seu filho, Paulo, quando estudante, numa noitada de sábado, entrou em determinado rancho da Rua São Clemente (deve ter sido o Lírio do Amor), e ao pagar o seu ingresso, foi reconhecido por um dos dirigentes que exclamou: “Não senhor! O filho do grande Coelho Netto aqui não paga nada...”.

(O Jornal, 08/03/64)

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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.