Mary Gonçalves (Nice Figueiredo Rocha), cantora a atriz, nasceu em Santos, SP, em 25/10/1927. Iniciou a carreira artística como atriz de cinema. No início da década de 1950 foi contratada pela Rádio Nacional.
Estreou em disco em 1951 pela gravadora Sinter interpretando os sambas-canção Penso em você e Só eu sei, ambos de Paulo Soledade e Fernando Lobo com acompanhamento de Lírio Panicali e seu conjunto de boite.
Em seguida, gravou o bolero Aquele beijo, de Claribalte Passos e Lírio Panicali e o samba-canção Chega mais, de Pernambuco e Marino Pinto, com acompanhamento da orquestra de Lírio Panicali. Ainda nesse ano, gravou o samba São Paulo, de Antônio Maria e Paulo Soledade e a marcha Carnaval na Bienal, de Heitor dos Prazeres. Nessa época, passou a atuar como contratada na Rádio Nacional.
Em 1952, foi eleita a Rainha do Rádio com um votação de 744.826 votos. Nesse ano, gravou pela Sinter o LP Convite ao romance no qual incluiu três composições de Johnny Alf, Estamos sós, O que é amar e Escuta. Lançou também, em disco de 78 rotações os sambas-canção Rotina, de Billy Blanco e Vem depressa, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti.
No ano seguinte, gravou com Lírio Panicali e sua orquestra o baião Coreana, de Humberto Teixeira e Felícia de Godoy e o bolero Aperta-me em teus braços, de José Maria de Abreu e Jair Amorim. Ainda nesse ano, gravou o samba-canção Podem falar, de Jonny Alf.
Em 1954, gravou seu último disco na Sinter com o samba-canção Dentro da noite, de Oscar Bellani e Luiz de França e o beguine Não vá agora, de Billy Blanco.
No mesmo ano, foi contratada pela Odeon e gravou o bolero Obsessão, de José Maria de Abreu e Jair Amorim e o samba-canção Diga, de Júlio Nagib. Gravou no ano seguinte o samba-canção Nem eu, de Dorival Caymmi e o baião Meu sonho, de Luiz Bonfá.
Gravou o samba Deixa disso, e Newton Ramalho e Nanci Wanderley e o samba-canção Patati-patatá, de Hianto de Almeida e Francisco Anísio em 1956.
Segundo o jornalista e pesquisador Sylvio Túlio Cardoso, ela "Gravou excelentes discos para a Sinter em 1951, mas os mesmos não tiveram boa repercussão devido a péssima qualidade técnica que o produto daquela gravadora ostentava na ocasião."
Ainda na década de 1950, abandonou a carreira artística e foi viver na Colômbia.
Discografia
(1951) Penso em você/Só eu sei • Sinter • 78
(1951) Aquele beijo/Chega mais • Sinter • 78
(1951) Dorme filho (canção de ninar)/Presente de Natal • Sinter • 78
(1951) Carnaval na Bienal/São Paulo • Sinter • 78
(1952) Rotina/Vem depressa • Sinter • 78
(1952) Convite ao romance • Sinter • LP
(1953) Coerana/Aperta-me em teus braços • Sinter • 78
(1953) O que é amar/Podem falar • Sinter • 78
(1954) Dentro da noite/Não vá agora • Sinter • 78
(1954) Obsessão/Diga • Odeon • 78
(1955) Nem eu/Meu sonho • Odeon • 78
(1956) Deixa disso/Patati-patatá • Odeon • 78
Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.
domingo, junho 02, 2013
sábado, junho 01, 2013
Marília fala de Noel
Mais poeta que sambista - A antiga parceira de Noel desconhece Wilson Batista - A exploração do nome do autor de "Palpite infeliz" - As implicâncias com os garis e com o Casé - Respostas massacrantes - Uns que falando do sambista, fazem autobiografia - Um apelo: "respeitem o ritmo, a melodia e a arte de Noel... e cuidem da sepultura".
"Muito se há escrito e falado sobre a vida de Noel Rosa, o maior compositor de música popular brasileira de todos os tempos. Na ânsia incontida de falar daquele cujo nome ainda ressoa, através de seus bonitos sambas, mais poemas que sambas, pelos quatro cantos do Brasil, muita imprecisão tem sido cometida, muita coisa inventada, pondo à prova a fértil imaginação daqueles que se lançam a biografá-lo. E há até quem, falando de Noel, faça autobiografia completa.
Admiradores que somos, assim como todo o povo brasileiro, do autor de “Palpite Infeliz”, desejamos, em rápidas tintas, que a tanto nos permite o espaço a nós reservado nesta revista, contar a nossos leitores alguns fatos da vida do poeta da Vila. Para isto, procuramos o senhor Almirante que possui farto repositório de tudo o que se relaciona com o assunto que tínhamos em mira focalizar. Para nossa surpresa, porém, ele, sob a alegação de que se fornecesse dados para nosso trabalho, estaria prejudicando seus objetivos, negou-se, peremptoriamente a falar. Explicamos-lhe nosso objetivo, invocamos sua amizade a Noel e ele sugeriu:
— Faça a reportagem sobre o meu programa; assim eu concordo!
Sim, era uma ótima solução... para ele.
Desistindo, ficticiamente, de nosso desideratum, fomos bater a outra porta, onde não encontramos, felizmente, a má vontade do Sr. Almirante.
Fala Marília Batista
Se há algum que não devia ser procurada para falar sobre Noel, esse alguém é Manha Batista, porque hoje vive inteiramente devotada a seu marido e seus três irrequietos filhinhos e afastada das lides radiofônicas. Mas; como, depois da primeira tentativa fracassada, desejamos, já agora por questão de brio, mostrar ao Sr. Henrique Foreis que faríamos, de qualquer maneira, nosso registro, telefonamos a D. Marília Batista.
— D. Marília, aqui fala da “Revista da Semana”. Nós queríamos uma entrevista sobre Noel.
Através do fio, a resposta veio animadora:
— Estou às suas ordens.
Chegando à sua residência, travamos contacto com ela, o Dr. Hugo, seu marido e seus três levadíssimos garotos.
Entramos logo no assunto:
— Em que circunstâncias a senhora conheceu Noel?
D. Marília recostou-se à poltrona, caminhou no espaço e no tempo e respondeu:
— Conheci-o no Grêmio Esportivo Onze de Junho. Eu ia cantar numa hora de arte naquele grêmio. Cheguei, acompanhada de meu pai, deixei meu violão a um canto e fui, com papai, fazer não me lembro o que. Quando voltei e procurei meu instrumento, ele não estava mais onde o havia deixado. Pensei que o tivessem roubado. Mas não! No palco, um rapaz cantando o “Gago apaixonado” dedilhava meu violão — era Noel...
— E depois disso...
Reclamei, e ele veio pedir-me desculpas. Fui ao palco e cantei algumas músicas de minha autoria. Ele ouviu e daí começou a me dar músicas suas para eu cantar.
Depois de nos contar este episódio, D. Marília recomendou:
— Tome nota direito, porque estas entrevistas geralmente saem deturpadas.
Explicamos que não aconteceria isto porque temos noção de responsabilidade e depois voltamos a perguntar:
— A senhora pode responder, precisamente, contra quem foi escrito o “Palpite Infeliz’?
— Não sei! Foram feitos contra um certo rapaz que atacara a Vila.
—... Wilson Batista, completamos.
— Isso eu ignoro. Só vim a conhecer Wilson Batista depois que Noel morreu porque, enquanto vivo, eu só tomava conhecimento daquelas respostas massacrantes, a alguém. Agora, que esse alguém seja esse que você citou não me consta.
— A senhora pode lembrar como surgiu o “Palpite Infeliz?”.
— Noel compôs o “Feitiço da Vila”:
“Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba”.
— Mais adiante, continua D. Marília, ele dizia que a Vila tinha “feitiço sem farofa”, “a lua nasce mais cedo”, falava na dança dos galhos do arvoredo. Pois bem, alguém escreveu um samba discordando de Noel e ele nos deu então: “Quem é você, que não o sabe o que diz Meu Deus do céu que palpite infeliz..”.
— A senhora quer dizer-nos outras respostas de Noel a Wilson Batista ou a quem seja, afinal.
— Você se lembra daquele: “Deixa de arrastar o tamanco, tamanco nunca foi sandália, tira do pescoço o lenço branco, compra sapato e gravata?”. E’ outra resposta de Noel em que ele pulveriza seu adversário, dizendo mesmo: “eu já te dei papel e lápis, arranja um amor e um violão”, em que parecia desconhecer o valor de seu adversário. Ele diz também: “Joga fora esta navalha que te atrapalha”, o que me faz pensar em algum malandro.
— A senhora sabia que Wilson foi parceiro de Noel?
— Não me consta que ele fizesse nenhum trabalho de parceria com Wilson Batista.
A implicância de Noel
A entrevista decorria animada, quando D. Marília perguntou:
— Você quer um caso interessante?
Claro que queríamos:
— Noel foi contra-regra da antiga Rádio Philips, no programa Casé; nessa época qualquer um era contra-regra, às vezes o próprio Casé. Um dia, exercendo suas funções, aproximou-se de uma cantora clássica e perguntou:
— Que você vai cantar?
— “Você” não, eu sou uma senhora casada, respondeu a mulher, irritada com o tratamento. E foi ao Casé fazer queixa do Noel.
— Qual a atitude do Casé, perguntamos.
— Nem queira saber, disse D. Marília arrancou da mão do Noel a papeleta que usava para anotações, humilhou-o passou-lhe uma lição incrível.
— E a cantora, quem era? Quisemos saber.
— Com todo “senhora” não sei quem é. Ofuscou-se completamente. Quanto a Noel, todos já sabemos, começou a subir... subir sempre.
— Quer dizer-nos alguma característica interessante de Noel?
— Era muito implicante. Casé foi uma de suas maiores vítimas. Certa vez, evoca D. Marília, chegou ao programa depois de o mesmo começado. Casé estava irritadíssimo e quis saber o motivo. Calmamente ele respondeu:
— O bonde furou o pneu, Casé...
Outra vez, prossegue nossa, entrevistada, explicou em idênticas circunstâncias:
— Esqueci onde era a Rádio Philips, Casé...
— Mais alguma coisa D. Marília?
— Sim, quando Noel lançou “Conversa de Botequim” o samba fez um sucesso absoluto: os pedidos choviam para que introduzisse sempre a música em seu programa.
— Como Noel sempre repetia o mesmo número, Casé proibiu-o de cantar o samba.
— Mas, um dia, já na Rádio Sociedade, sendo Casé o contra-regra e perguntando a Noel o que ele iria cantar, chegou o dia da vingança:
— Vou cantar, informou o poeta, o samba cm primeira audição intitulado “Ilusão”, e dizendo isto, deu o tom a Nonô (nessa época não havia ensaio). Como se tratava de uma primeira audição, fato sempre esperado com ansiedade, todos fomos ouvir, inclusive o Casé. Alias o próprio Noel recomendar que ninguém faltasse e que reparássemos no Casé, quando ele iniciasse o samba. Dada a introdução, ele cantou: “Ó seu garçom faça o favor...” provocando gargalhadas gerais... Era “ilusão” para o Casé!
— Alguma outra implicância com o Casé?
— Assim de pronto não me lembro; sei que ele costumava imitá-lo falando com a esposa ao telefone. Mas há uma outra implicância digna de registro: voltando de uma hora de arte, vínhamos eu e papai, Noel e Djalma Ferreira, no carro do Djalma. Quando passávamos por uns garis, Noel que sempre mexia com os mesmos, gritou:
— A galinha comeu...
— Interessante..., aventuramos.
— Não, o interessante veio depois, quando, o carro enguiçou mais adiante e os garis sairam correndo atrás do veículo com suas vassouras. Que susto!
— Outra implicância D. Marília.
— Lembro-me da última: já doente, poucos dias antes de morrer, pediu a sua mãe que o levasse até a janela. Feita a vontade, gritou ao jardineiro, com quem implicava desde criança:
— Tesoura! Tesoura!
— Por que fazia isto, perguntamos.
— Só para ouvi-lo xingar...
A morte do poeta
Já se fazia tarde e não queríamos continuar tomando tempo daquela que tão gentilmente nos ajudara a compor nosso modesto trabalho: por isto fizemos a última pergunta:
— Como foi a morte de Noel?
— Foi um episódio tristíssimo. A vila inteira compareceu para chorar o passamento de seu poeta. Meu pai que estava presente, diz nunca haver assistido a coisa mais comovedora.
— A senhora se lembra de algumas de suas últimas palavras?
— Guardo como o maior elogio à minha carreira artística, uma de suas últimas frases. Na hora da morte chamou meu irmão Henrique e disse:
— Seu amigo, Henrique, agora, "nunca mais".
— Nunca mais, respondeu Henrique, é o nosso samba, meu e da Marília.
— Sim, respondeu Noel, o mais simples e o mais bonito.
— Mais alguma coisa D. Marília?
— Sim, quero que você apele para esta gente para que respeite o ritmo, a melodia e a arte de Noel e... que cuide da sua sepultura.
O repórter na Vila
Depois da entrevista que tivemos com D. Marília, fomos à vila ouvir os velhos moradores; uma vizinha de Noel, de nome Dorica, íntima da família acrescentou alguns subsídios ao nosso trabalho:
— Um dia dei uma festa aqui em casa, época de São João, e Noel era convidado obrigatório. Eu estava lá dentro arrumando umas coisas quando ele entrou e disse:
— Dorica, dê-me papel e lápis.
— Estranhei, mas fiz-lhe a vontade. Daí há pouco, ouvi acordes de um violão e a sua voz que cantava: "Nosso amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa noite de S. João...' Compreendi, então, para o que pedira o lápis e o papel.
Dona Dorica foi pessoa íntima da família de Noel e sabia de muitas coisas interessantes sobre o poeta da Vila. Solicitada por nós, continou contando:
— Uma vez eu estava já deitada. Seriam duas horas da manhã quando alguém me chamou à janela: "Dorica, ó Dorica, abra a porta". Era Noel que me explicou que precisava tomar um banho e mudar a roupa porque a que usava, branca, estava enxovalhada pela chuva. Dei-lhe toalha e sabonete e, pouco depois, saía ele para outra festa que não aquela de onde viera.
— Lembra-se de mais alguma coisa D. Dorica?
— Muita coisa poderia contar ainda. Lembro-me de que ele penetrava em casa de gatinhas ao passar pela janela do quarto de D. Marta para não acordá-la; dos jogos de botões, as serenatas que costumava fazer até altas horas, uma série de coisas que lhe contaria, se tivesse tempo para isto.
De repente, nossa entrevista nos chamou a dar uma volta pela Vila. Consultamos os antigos moradores: um lhe aconselhava sempre a ir embora mais cedo, outro farreara com ele, mas não se lembrava de mais nada. De positivo mesmo, nada.
De casa em casa, D. Dorica nos levou à residência de uma senhora cujo nome, a seu pedido, omitimos e que foi noiva de Noel, antes de ele casar-se:
— Os retratos que eu tinha destruí quando me casei, declarou-nos, a única recordação que tenho é que ele passava por mim, já meu noivo, com outras moças.
— E a senhora não brigava com ele?
— Reclamava, mas ele sempre dizia:"Isso é brincadeira, minha filha, eu só caso com você". E casou com outra...
Deixando aquela senhora, D. Dorica nos levou a um dos velhos habitantes que nos contou:
— Lembro-me quando o "queixinho" surgiu, aí por volta de 1919 ou 1920. Cantou, num clube local, uma embolada de sua autoria, de improviso. O garoto tinha bossa e passou a ser assunto obrigatório da Vila.
— Lembra-se de mais alguma coisa?
— Recordo-me de que, em toda a casa onde havia festa, Noel e os componentes do antigo Vila Izabel F. C. usavam de um expediente interessante para comer toda a ceia dos festejadores. Noel cantava uma seresta e enquanto os moradores cativados por aquela voz desviavam sua atenção para a música, seus colegas faziam a limpeza..."
______________________________________________________________________
Fonte: Reportagem de Jorge Lyra - Revista da Semana, de 21/07/1951.
"Muito se há escrito e falado sobre a vida de Noel Rosa, o maior compositor de música popular brasileira de todos os tempos. Na ânsia incontida de falar daquele cujo nome ainda ressoa, através de seus bonitos sambas, mais poemas que sambas, pelos quatro cantos do Brasil, muita imprecisão tem sido cometida, muita coisa inventada, pondo à prova a fértil imaginação daqueles que se lançam a biografá-lo. E há até quem, falando de Noel, faça autobiografia completa.
Admiradores que somos, assim como todo o povo brasileiro, do autor de “Palpite Infeliz”, desejamos, em rápidas tintas, que a tanto nos permite o espaço a nós reservado nesta revista, contar a nossos leitores alguns fatos da vida do poeta da Vila. Para isto, procuramos o senhor Almirante que possui farto repositório de tudo o que se relaciona com o assunto que tínhamos em mira focalizar. Para nossa surpresa, porém, ele, sob a alegação de que se fornecesse dados para nosso trabalho, estaria prejudicando seus objetivos, negou-se, peremptoriamente a falar. Explicamos-lhe nosso objetivo, invocamos sua amizade a Noel e ele sugeriu:
— Faça a reportagem sobre o meu programa; assim eu concordo!
Sim, era uma ótima solução... para ele.
Desistindo, ficticiamente, de nosso desideratum, fomos bater a outra porta, onde não encontramos, felizmente, a má vontade do Sr. Almirante.
Fala Marília Batista
Se há algum que não devia ser procurada para falar sobre Noel, esse alguém é Manha Batista, porque hoje vive inteiramente devotada a seu marido e seus três irrequietos filhinhos e afastada das lides radiofônicas. Mas; como, depois da primeira tentativa fracassada, desejamos, já agora por questão de brio, mostrar ao Sr. Henrique Foreis que faríamos, de qualquer maneira, nosso registro, telefonamos a D. Marília Batista.
— D. Marília, aqui fala da “Revista da Semana”. Nós queríamos uma entrevista sobre Noel.
Através do fio, a resposta veio animadora:
— Estou às suas ordens.
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"Entre eu e Noel Rosa, só existiu uma grande e desinteressada amizade" - disse-nos Marília |
Entramos logo no assunto:
— Em que circunstâncias a senhora conheceu Noel?
D. Marília recostou-se à poltrona, caminhou no espaço e no tempo e respondeu:
— Conheci-o no Grêmio Esportivo Onze de Junho. Eu ia cantar numa hora de arte naquele grêmio. Cheguei, acompanhada de meu pai, deixei meu violão a um canto e fui, com papai, fazer não me lembro o que. Quando voltei e procurei meu instrumento, ele não estava mais onde o havia deixado. Pensei que o tivessem roubado. Mas não! No palco, um rapaz cantando o “Gago apaixonado” dedilhava meu violão — era Noel...
— E depois disso...
Reclamei, e ele veio pedir-me desculpas. Fui ao palco e cantei algumas músicas de minha autoria. Ele ouviu e daí começou a me dar músicas suas para eu cantar.
Depois de nos contar este episódio, D. Marília recomendou:
— Tome nota direito, porque estas entrevistas geralmente saem deturpadas.
Explicamos que não aconteceria isto porque temos noção de responsabilidade e depois voltamos a perguntar:
— A senhora pode responder, precisamente, contra quem foi escrito o “Palpite Infeliz’?
— Não sei! Foram feitos contra um certo rapaz que atacara a Vila.
—... Wilson Batista, completamos.
— Isso eu ignoro. Só vim a conhecer Wilson Batista depois que Noel morreu porque, enquanto vivo, eu só tomava conhecimento daquelas respostas massacrantes, a alguém. Agora, que esse alguém seja esse que você citou não me consta.
— A senhora pode lembrar como surgiu o “Palpite Infeliz?”.
— Noel compôs o “Feitiço da Vila”:
“Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba”.
— Mais adiante, continua D. Marília, ele dizia que a Vila tinha “feitiço sem farofa”, “a lua nasce mais cedo”, falava na dança dos galhos do arvoredo. Pois bem, alguém escreveu um samba discordando de Noel e ele nos deu então: “Quem é você, que não o sabe o que diz Meu Deus do céu que palpite infeliz..”.
— A senhora quer dizer-nos outras respostas de Noel a Wilson Batista ou a quem seja, afinal.
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Na Rua Teodoro da Silva, n. 392, ainda pode ser vista a casa onde nasceu e morreu o poeta da Vila. |
— A senhora sabia que Wilson foi parceiro de Noel?
— Não me consta que ele fizesse nenhum trabalho de parceria com Wilson Batista.
A implicância de Noel
A entrevista decorria animada, quando D. Marília perguntou:
— Você quer um caso interessante?
Claro que queríamos:
— Noel foi contra-regra da antiga Rádio Philips, no programa Casé; nessa época qualquer um era contra-regra, às vezes o próprio Casé. Um dia, exercendo suas funções, aproximou-se de uma cantora clássica e perguntou:
— Que você vai cantar?
— “Você” não, eu sou uma senhora casada, respondeu a mulher, irritada com o tratamento. E foi ao Casé fazer queixa do Noel.
— Qual a atitude do Casé, perguntamos.
— Nem queira saber, disse D. Marília arrancou da mão do Noel a papeleta que usava para anotações, humilhou-o passou-lhe uma lição incrível.
— E a cantora, quem era? Quisemos saber.
— Com todo “senhora” não sei quem é. Ofuscou-se completamente. Quanto a Noel, todos já sabemos, começou a subir... subir sempre.
— Quer dizer-nos alguma característica interessante de Noel?
— Era muito implicante. Casé foi uma de suas maiores vítimas. Certa vez, evoca D. Marília, chegou ao programa depois de o mesmo começado. Casé estava irritadíssimo e quis saber o motivo. Calmamente ele respondeu:
— O bonde furou o pneu, Casé...
Outra vez, prossegue nossa, entrevistada, explicou em idênticas circunstâncias:
— Esqueci onde era a Rádio Philips, Casé...
— Mais alguma coisa D. Marília?
— Sim, quando Noel lançou “Conversa de Botequim” o samba fez um sucesso absoluto: os pedidos choviam para que introduzisse sempre a música em seu programa.
— Como Noel sempre repetia o mesmo número, Casé proibiu-o de cantar o samba.
— Mas, um dia, já na Rádio Sociedade, sendo Casé o contra-regra e perguntando a Noel o que ele iria cantar, chegou o dia da vingança:
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Marília divide a atenção entre seus filhos e a entrevista que nos presta. |
— Alguma outra implicância com o Casé?
— Assim de pronto não me lembro; sei que ele costumava imitá-lo falando com a esposa ao telefone. Mas há uma outra implicância digna de registro: voltando de uma hora de arte, vínhamos eu e papai, Noel e Djalma Ferreira, no carro do Djalma. Quando passávamos por uns garis, Noel que sempre mexia com os mesmos, gritou:
— A galinha comeu...
— Interessante..., aventuramos.
— Não, o interessante veio depois, quando, o carro enguiçou mais adiante e os garis sairam correndo atrás do veículo com suas vassouras. Que susto!
— Outra implicância D. Marília.
— Lembro-me da última: já doente, poucos dias antes de morrer, pediu a sua mãe que o levasse até a janela. Feita a vontade, gritou ao jardineiro, com quem implicava desde criança:
— Tesoura! Tesoura!
— Por que fazia isto, perguntamos.
— Só para ouvi-lo xingar...
A morte do poeta
Já se fazia tarde e não queríamos continuar tomando tempo daquela que tão gentilmente nos ajudara a compor nosso modesto trabalho: por isto fizemos a última pergunta:
— Como foi a morte de Noel?
— Foi um episódio tristíssimo. A vila inteira compareceu para chorar o passamento de seu poeta. Meu pai que estava presente, diz nunca haver assistido a coisa mais comovedora.
— A senhora se lembra de algumas de suas últimas palavras?
— Guardo como o maior elogio à minha carreira artística, uma de suas últimas frases. Na hora da morte chamou meu irmão Henrique e disse:
— Seu amigo, Henrique, agora, "nunca mais".
— Nunca mais, respondeu Henrique, é o nosso samba, meu e da Marília.
— Sim, respondeu Noel, o mais simples e o mais bonito.
— Mais alguma coisa D. Marília?
— Sim, quero que você apele para esta gente para que respeite o ritmo, a melodia e a arte de Noel e... que cuide da sua sepultura.
O repórter na Vila
Depois da entrevista que tivemos com D. Marília, fomos à vila ouvir os velhos moradores; uma vizinha de Noel, de nome Dorica, íntima da família acrescentou alguns subsídios ao nosso trabalho:
— Um dia dei uma festa aqui em casa, época de São João, e Noel era convidado obrigatório. Eu estava lá dentro arrumando umas coisas quando ele entrou e disse:
— Dorica, dê-me papel e lápis.
— Estranhei, mas fiz-lhe a vontade. Daí há pouco, ouvi acordes de um violão e a sua voz que cantava: "Nosso amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa noite de S. João...' Compreendi, então, para o que pedira o lápis e o papel.
Dona Dorica foi pessoa íntima da família de Noel e sabia de muitas coisas interessantes sobre o poeta da Vila. Solicitada por nós, continou contando:
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Marília posa com sua sobrinha após entrevista com a Revista da Semana. |
— Lembra-se de mais alguma coisa D. Dorica?
— Muita coisa poderia contar ainda. Lembro-me de que ele penetrava em casa de gatinhas ao passar pela janela do quarto de D. Marta para não acordá-la; dos jogos de botões, as serenatas que costumava fazer até altas horas, uma série de coisas que lhe contaria, se tivesse tempo para isto.
De repente, nossa entrevista nos chamou a dar uma volta pela Vila. Consultamos os antigos moradores: um lhe aconselhava sempre a ir embora mais cedo, outro farreara com ele, mas não se lembrava de mais nada. De positivo mesmo, nada.
De casa em casa, D. Dorica nos levou à residência de uma senhora cujo nome, a seu pedido, omitimos e que foi noiva de Noel, antes de ele casar-se:
— Os retratos que eu tinha destruí quando me casei, declarou-nos, a única recordação que tenho é que ele passava por mim, já meu noivo, com outras moças.
— E a senhora não brigava com ele?
— Reclamava, mas ele sempre dizia:"Isso é brincadeira, minha filha, eu só caso com você". E casou com outra...
Deixando aquela senhora, D. Dorica nos levou a um dos velhos habitantes que nos contou:
— Lembro-me quando o "queixinho" surgiu, aí por volta de 1919 ou 1920. Cantou, num clube local, uma embolada de sua autoria, de improviso. O garoto tinha bossa e passou a ser assunto obrigatório da Vila.
— Lembra-se de mais alguma coisa?
— Recordo-me de que, em toda a casa onde havia festa, Noel e os componentes do antigo Vila Izabel F. C. usavam de um expediente interessante para comer toda a ceia dos festejadores. Noel cantava uma seresta e enquanto os moradores cativados por aquela voz desviavam sua atenção para a música, seus colegas faziam a limpeza..."
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Fonte: Reportagem de Jorge Lyra - Revista da Semana, de 21/07/1951.
Marta Janete
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Marta Janete - 1954 |
Em 1954, lançou pela RCA Victor com acompanhamento de conjunto o samba Fui ao seu casamento, de Jessie Mae Robinson e Haroldo Barbosa, e o samba-canção Eternamente só, de Antônio Nunes e Nunes Filho. No ano seguinte, foi uma das concorrentes a "Rainha do Rádio".
Em 1956, gravou na RCA Victor com acompanhamento de orquestra o tango Inspiração, de P. Paulus, Rubinstein e Lourival Faissal, e o fox-blue Minha devoção, de O. Sezana e Lourival Faissal. No ano seguinte, transferiu-se para a gravadora Copacabana e registrou com acompanhamento de orquestra o fox-trote Ohô-ahá, de H. Gietz e K. Feltz com versão de Caribé da Rocha, e o beguine Meu quarto vazio, de Vicente Paiva e Meira Guimarães.
Em 1963, gravou pela Chantecler com orquestra e coro sob a direção do maestro Elcio Alvarez o fox Adeus, meu amor, uma adaptação de Fred Jorge para a música Tristesse, de Chopin, e a balada Hás de ouvir, de Vaughn e Wood em versão de José Rosas.
Embora com um bom início de carreira, não conseguiu acompanhar as transformações ocorridas na música popular brasileira na década de 1960 e afastou-se da vida artística.
Não basta possuir boa voz para ser cantora...
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Marta Janete - 1955 |
Sua mãe já estava ficando nervosa, pois não conseguia entender o que a menina queria dizer. Somente cinco minutos depois, com a respiração ainda opressa é que a menina pôde contar que se inscrevera num concurso de calouros, no circo do bairro, e ganhara o primeiro prêmio. Triunfante, exibiu para a genitora as notas que trazia amarfanhadas na mão: Cr$ 15,00.
Isto aconteceu há muito tempo com uma menina de dez anos que mais tarde viria a ser conhecida como cantora da Rádio Mayrink Veiga, sob o nome de Marta Janete.
Foi assim cantando num circo que Marta descobriu sua vocação. Mas o papai não sabia da história e quando soube não gostou, pois queria que sua filha se dedicasse a outras coisas, fizesse carreira como professora. Por ai pode-se ver que o pai de Marta não tinha o rádio em muito bom conceito ou talvez não acreditasse nas aptidões artísticas da pequena.
Mas, feita a experiência, Marta gostou e sua mãe, como todas as mães, procurou ajudá-la, levando-a para atuar no “Programa do Guri”, que era apresentado pela antiga Rádio Clube Fluminense. Acontece que Marta tinha que estudar e Niterói fica muito longe de Madureira. Como sua mãe não podia levá-la sempre, acharam melhor parar com o rádio pelo menos por uma temporada.
Marta Janete aproveitou o tempo para educar-se, tendo estudado no Colégio Piedade e no Arte e Instrução. Foi até o quinto ano ginasial e pretendia fazer o curso de professora quando o rádio novamente tomou conta de sua vida. Conhecendo o pianista Carlinhos e várias vezes falando com ele, manifestara o desejo de fazer um teste numa emissora para ver se melhorara ou piorara com o passar dos anos. Carlinhos 1evou-a à Mayrink Veiga e apresentou-a ao Jair de Taumaturgo, assistente da direção artística. Foi-lhe concedido um teste. Jair gostou de sua voz e de sua maneira de cantar. Assim, em 1953, quase no fim do ano, Marta passou a cantar na PRA-9, embora só tenha assinado contrato no dia 24 de janeiro do ano seguinte.
Pouco tempo depois falecia seu pai e a cantora teve aumentadas suas responsabilidades. Quem a visse ir e voltar da rádio, sempre acompanhada de sua mamãe, não poderia nunca imaginar o grau de sua coragem e espírito de iniciativa. Um dia, pensou consigo mesma que para ter sucesso completo como cantora precisava gravar. Pediu a alguns amigos para apresentá-la aos diretores artísticos das fábricas gravadoras, mas reparou que todos sempre estavam multo ocupados e sem tempo para atendê-la. Então resolveu que para gravar teria que procurar sozinha uma oportunidade. Não teve dúvida, tomou um carro na porta da rádio e mandou tocar para a RCA-Victor. Lá chegando, procurou Ernesto de Matos Filho, diretor artístico, e manifestou suas pretensões. Pediram-lhe um acetato de prova de sua voz. Feito o acetato, Ernesto estudou-o e achou que valia a pena contratá-la. O seu primeiro disco, que já está na praça, compõe-se de dois sambas-canções “Fui ao seu casamento” e “Eternamente só”. Diz Marta que está bem colocado nas paradas de sucesso em São Paulo. É preciso explicar que ela também atua na Rádio Nacional paulista dois dias por semana às segundas-feiras no “Cartaz da Dez” e às terças-feiras no “Programa Manoel de Nóbrega”.
Um dia, conversando com Gilson do Pandeiro, do regional de Canhoto, este perguntou-lhe se estava interessada em trabalhar em boate. Naturalmente que interessava e Marta foi apresentada a Guio de Moraes, diretor musical da boate “Beguin” e dirigente da orquestra que lá se exibe. Resultado: Marta assinou contrato com a boate e lá se encontra há 8 meses como cantora da orquestra e participando do espetáculo “No pais dos Cadillacs”. Como a boate Beguin vai fechar para reformas a cantora está disposta a aceitar um convite da boate Vogue.
Já falamos tanto sobre a carreira de Marta que precisamos agora descrevê-la para que os leitores a conheçam melhor, completando as fotografias. Tem 1 metro e 70 de altura, 63 quilos de peso, olhos castanhos, cabelos escuros e busto semelhante ao da Lolobrigida. Adora a praia e a frequenta quando pode. Mas, trabalhando em boate até de madrugada, pouca oportunidade tem tido ultimamente de queimar-se ao sol. Adora brincar no balanço do Parque da Prefeitura na Praia do Russel (defronte da boate Beguin), parecendo voltar à infância, que não vai muito longe. Sua maior ambição é ir aos Estados Unidos para conhecer Hollywood e, se possível, trabalhar lá. Apesar disso, afirma que não tirará retrato de maiô, porque acha que uma cantora deve mostrar a voz e não as pernas.
Diz que não tem tipo de homem ideal, porque ainda não apareceu seu príncipe encantado. Quando ele surgir deverá ser alto, moreno, de olhos verdes e cabelos pretos, o que parece ser a descrição de um de seus mais fervorosos admiradores paulistas. Para finalizar, podemos informar que com tantas viagens entre o Rio e São Paulo, Marta, dentro em breve deverá receber o título de “Milionária do Ar”. (Texto: Fernando Luís - Revista do Rádio, de 05/03/1955)
Discografia
(1954) Fui ao seu casamento/Eternamente só • RCA Victor • 78
(1956) Inspiração/Minha devoção • RCA Victor • 78
(1957) Ohô-ahá/Meu quarto vazio • Copacabana • 78
(1963) Adeus, meu amor (Tristesse)/Hás de ouvir • Chantecler • 78
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Fonte: Revista do Rádio; Dicionário Cravo Albin da MPB.
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