domingo, junho 23, 2013

Vicente Sabonete


Vicente Gagliano, compositor, violonista e sambista, conhecido como "Vicente Sabonete" ou "Sabonete", nasceu provavelmente em 1888, no Rio de Janeiro, RJ, falecendo na mesma cidade em 23/05/1966.

Segundo Jaci Pacheco, em Noel Rosa e sua época, a origem desses apelidos estaria no fato de Vicente ter arranjado emprego para os filhos em uma fábrica de sabonetes. Já Almirante, em No tempo de Noel Rosa, acredita que esteja relacionado ao início de sua vida profissional, quando negociava com perfumarias.

Foi contemporâneo, em sua juventude, do grupo dos chorões de Anacleto de Medeiros e Candinho Trombone. Residia já na década de 1920 no bairro carioca de Vila Isabel, onde conhecia demais o seu jovem vizinho, o estudante de medicina, boêmio e talentoso compositor Noel Rosa.

Embora aqui não se queira adentrar na história de Noel, mas sim, na de Vicente Sabonete, os poucos registros do chorão e sambista Sabonete invocam sempre a vida (ou a morte) do famoso compositor da Vila: Noel morreu no seu chalé da Rua Teodoro da Silva, às 23 horas do dia 4 de maio de 1937, enquanto na casa em frente uma festa comemorava o aniversário de dona Emília, mulher de Vicente Sabonete, amigo do compositor.

Assim comenta um tal Aníbal, integrante desta festa de aniversário, numa reportagem do Jornal do Brasil: "A gente não sabia que ele estava morrendo. Foi um choque quando a notícia chegou".  

Sepultado compositor da velha guarda


"O sambista e compositor Vicente Gagliano, mais conhecido pelo apelido de Sabonete, foi sepultado ontem, às 14 horas, no Cemitério do Caju. Vicente, que contava 78 anos, morreu na tarde de domingo, em sua residência, na Rua Teodoro da Silva, 385, Vila Isabel, vítima de ataque cardíaco. Deixa viúva dona Emília Gagliano e dez filhos.

Vicente Sabonete, compositor da velha guarda, foi amigo de Noel Rosa, Pixinguinha, João Pernambuco e Nelson Cavaquinho. Suas composições mais conhecidas são "Emília" e "Feiticeira", além de diversas composições em parceria com Noel Rosa (1), que morreu no dia 4 de maio de 1937, na casa vizinha a de Vicente (Gagliano), onde naquele momento se realizava uma festa.

Seus dez filhos são: Salvador, Vicente Gagliano Filho, Marieta, Jacy, Aída. Ondina, Norma, Marina, Tereza e Ênio." (Correio da Manhã, 24/5/1966)

(1) Talvez tenham feito mesmo essas composições no papel, nunca gravadas no vinil. Noel Rosa era assim, escrevia sambas com os amigos na taberna...

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Fontes: Correio da Manhã, de 24/05/1966; Jornal do Brasil, de 30/11/1990; Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha; Dicionário da MPB.

sábado, junho 22, 2013

Edgard Velloso

Edgard Velloso, cantor, atuou no começo da década de 1930 fazendo apresentações em Rádios e gravando discos pela Odeon e Parlophon nos quais registrou composições de Ary Kerner, José Maria de Abreu, Osvaldo Santiago, Abdon Lyra, Eduardo Souto e Gastão Lamounier.

Estreou em disco em 1930 gravando pela Odeon com acompanhamento da Orquestra Guanabara a toada-canção O que tu és para mim, de Ary Kerner V. de Castro, e a valsa Vênus carioca, de Gastão Lamounier e Osvaldo Santiago.

No mesmo ano, gravou com acompanhamento da Orquestra Copacabana a valsa Amor e orgulho e a toada-canção Ciumento, da dupla Abdon Lira e Eustórgio Wanderley, a marcha Brasileira, de Mário Ramos e Salvador J. Morais, e a valsa Teus olhos são!, de Eduardo Souto.

Ainda em 1930, gravou pela Parlophon, com acompanhamento da Orquestra Brasil o samba Sinhazinha, de Ary Kerner V. de Castro, e a valsa Anseios d'alma, de L. C. Vogeler Gomes e J. Fortes.

No ano seguinte, gravou um disco que curiosamente não continha nem a indicação de acompanhamento nem os autores das músicas: Teu sorriso é minha dor e Rio Grande de pé.

Em 1932, gravou a valsa Maria do céu, de José Maria de Abreu e Iapuru, e o tango O que faz teu olhar, de Arnaldo Arantes e O. de Assis.

Em 1934, a revista O Malho escrevia estas linhas sobre o cantor: "Um cantor fidalgo, de voz bellissima e educada, é o que os ouvintes de radio dizem de Edgard Velloso. Está actualmente, na Cajuti de onde é exclusivo. Edgard Velloso tem um publico numeroso e selecto, que o procura atravéz dos microphones, dando-lhe uma preferencia desvanecedora."

Playlist




Discografia


1930 O que tu és para mim/Vênus carioca • Odeon • 78
1930 Amor e orgulho/Ciumento • Odeon • 78
1930 Brasileira/Teus olhos são! • Odeon • 78
1930 Sinhazinha/Anseios d'alma • Parlophon • 78
1931 Teu sorriso é minha dor/Rio Grande de pé • Odeon • 78
1932 Maria do céu/O que faz teu olhar • Odeon • 78

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Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB; O Malho, de 05/07/1934.

Augusto Calheiros, a "Patativa do Norte"

“Quem não conhece Augusto Calheiros a "Patativa do Norte"? Como cancioneiro ele conquistou uma posição de relevo junto ao público de todo o Brasil. 

 

Palestrar com Augusto Calheiros é conhecer o velho sertão, com todas as suas belezas e costumes e ter momentos inesquecíveis de boa prosa. Esse é o segredo de sua vitória nos meios radiofônicos e teatrais. Sabe cativar a amizade dos ouvintes, dos espectadores, enfim de todos aqueles que lhe dedicam estima pessoal.


Augusto Calheiros venceu em toda a linha e o seu programa de atividades vem sendo cumprido com destaque, merecendo uma apreciação sincera através desta nossa crônica, que lhes dedicamos prazerosamente, reafirmando o propósito de divulgar a vida artística das mais consagradas figuras do broadcasting nacional que cultivam o gênero sertanejo e o folclore da nossa terra.

— Nasceu Augusto Calheiros em Alagoas a terra dos grandes generais. Criou-se em Pernambuco, onde desde criança nasceu-lhe a vocação para cantar as nossas modinhas e canções. Quando já rapaz foi um grande seresteiro das ruas do "Leão do Norte".

Um belo dia, já integrado no ambiente seresteiro, manifestou desejo de conhecer a "cidade maravilhosa". Formando um grupo que deu o nome de "Turunas da Mauricéia" embarcou para o Rio aonde chegou em 1927 estreando incontinenti no melhor teatro daquela época que era o saudoso Lírico.

Alcançando grande sucesso percorreu o conjunto vários teatros até que encontraram em Domingos Secreto um grande benfeitor e admirador. Augusto Calheiros manifesta-se grato e considera-o um grande e sincero amigo.

O Correio da Manhã foi o criador deste sugestivo nome "Patativa do Norte" e Calheiros considera este jornal como seu padrinho. Andaram os Turunas da Mauricéia pelo interior e várias cidades do sul, levando a música genuinamente brasileira por todos os recantos do Brasil.

Voltando à Capital da República o conjunto se dissolveu. Isto em 1932. Restam hoje dos integrantes apenas Augusto Calheiros e Romualdo de Miranda, sendo que os demais já faleceram nesta querida cidade.

Confessa a "Patativa" que foi aqui que se aperfeiçoou e que quando se dissolveu o conjunto foi para a "Casa do Caboclo", no antigo São José, logo após o incêndio, onde encontrou a festejada dupla Jararaca e Ratinho.

Alcançou sucesso na Rádio Clube Sociedade, atualmente do Ministério da Educação, Mayrink Veiga e presentemente está na Rádio Nacional, onde é contratado atuando nesta emissora a um ano e meio.

Afirma Calheiros que as músicas que cantou mais, e sempre interpretou com alma e coração foram Revendo o passadoChuá-chuá — e Ave Maria.

Canta as demais com prazer e vive procurando novidades que se adaptem ao seu temperamento sentimental de cantor das canções melodiosas.

Tem em Catulo da Paixão Cearense, Hermes Fontes, Cândido das Neves e especialmente Olegário Mariano, valores incontestáveis e dignos de serem interpretados com especial respeito. Voltando ao norte, para rever velhas amizades foi recebido em várias cidades com manifestações de apreço e admiração pelo valor inegável desta "Patativa".

Na Bahia, a terra que sabe distinguir valores na arte e na música, batizaram em plena rua a Augusto Calheiros, como o "cidadão baiano", tal o carinho que dedicam a este amigo da boa música.

Hoje ele se confessa a mais triste de todas as criaturas, que cantam, só confia em Deus para que o proteja no final de sua carreira que desejava fosse breve, caso encontrasse alguém que lhe desse um outro trabalho e então cantaria só para os amigos quando quisessem ouvi-lo.

Está Augusto Calheiros disposto a colaborar para o nosso governo se necessário for às Forças Expedicionárias Brasileiras e ao poeta Medeiros Lima Filho, já se prontificou a cantar em sua festa, oferecida aos mutilados, recreando o espírito dos nossos valorosos soldados da vitória.

Dessa forma, Calheiros vê concretizada a sua missão perante seus admiradores e amigos, que o tem na estima e o consideram com toda a justiça como uma legítima patativa do Norte."

(Escreveu Milton Filgueiras de Lacerda)

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Fonte: A Cena Muda, de 19/06/1945.