segunda-feira, dezembro 09, 2013

Os três Barbosa

O cantor, o compositor e o engraçado...


Três, — diz um provérbio, — o diabo os fez... Isto, certo, não se aplica as “trincas” que se apresentam no “broadcasting” brasileiro. Quem não sabe, por aí, da existência das três Miranda, — Carmen, Aurora e Cecília? Das três Batistas, que não são irmãs de sangue, mas o são de arte — Dircinha, Linda e Marília? E dos três Barbosa, — Paulo, Luiz e Barbosa Júnior?

Certo, não há um só radiouvinte que não as conheça. A trinca Miranda deixou agora de ser trinca. Passou a quadra, com a incorporação de mais um elemento, Oscar Miranda, irmão das três cantoras, do “broadcasting”, na Rádio Mayrink Veiga. Os três Barbosa, como os Três Reis Magos, continuam, porém, a ser apenas três, embora cada um deles valha por quatro ou cinco.

Dos três Barbosa, o Júnior, paradoxalmente, é primeiro, na ordem com que vieram ao mundo.

— Barbosa Júnior?

— Hein?

— Como vai passando?

— Eu? Bem —... Bem. Depois que fiquei bom, melhorei um pouquinho...

É essa a sua chave de irradiação. Ficou logo popularíssima a sua entrada de programa, o sinal de sua presença no “broadcasting”. O público já sabe que é para rir e ri mesmo, com suas anedotas, seus “sketches”, suas paródias musicais. Barbosa Júnior tem feito teatro e cinema. No teatro, deu-nos um Carlito estupendo, numa peça de Henrique Pongeti. No cinema, pode-se dizer que foi um achado. No rádio, uma descoberta. Barbosa Júnior é engraçado por natureza. Damos aqui o testemunho de sua mamãe:

— O "Tutu” desde pequeno que é engraçado...

"Tutu" é o apelido familiar do mais velho dos três Barbosa, o Júnior...

O segundo é Paulo. Como o apóstolo, sabe ele que Roma não se fez num dia.

Por isso mesmo, vai pouco a pouco construindo sua reputação de compositor. É o homem que nos deu a célebre “Caninha verde”, do Carnaval passado, e que agora nos vai dar as marchas “Carlota”, “Olé, Carmen”, “Sou da folia”, “Casaquinho de tricô”, e outras, algumas das quais já gravadas por Carmen Miranda, José Lemos, Manoel Monteiro e Barbosa Júnior.

O terceiro Barbosa é Luiz, que, de fato, devia ser o júnior, como mais novo que é. Luiz Barbosa é um dos sambistas máximos do Brasil, é o Maurice Chevalier da nossa música popular, homem que elevou o chapéu de palha à categoria de instrumento musical, situando-o entre o tamborim e a cuíca. Nasceu em Macaé, a terra de Washington Luís, e ganhou há pouco, um concurso no Espírito Santo, para inauguração da Rádio Chanaan.

Dos três Barrymore, John, Ethel e Lionel, diz a imprensa americana que formam a “royal family da Broadway”. E os três Barbosa não serão o mesmo, para o nosso meio radiofônico?


Fonte: Carioca, de 04/01/1936.

domingo, dezembro 08, 2013

Herivelto Martins - Dicionário Ilustrado

Herivelto Martins é um compositor dos mais irregulares. De repente ele acerta e mete lá um samba de grande classe; mas com a mesma facilidade larga na praça cada bomba de encabular o próprio Getúlio Macedo, que é o Barreto Pinto dos compositores.

Desde que lançou aquele samba da “Praça Onze” que Herivelto sofre o complexo do apito. Quando o “Praça Onze” agradou ele castigou logo em seguida o “Laurindo”, aquele que dizia assim:

— Laurindo, pega o apito... etc., etc.

Laurindo sumiu e o apito ficou com Herivelto. Desde desse tempo ele apita mais que trem Maria Fumaça quando vai chegando em Bonsucesso. Isso é engraçado, porque Herivelto sabe fazer samba. Mas o que é que se vai fazer. Ele quer é apitar e entrar em todas as gravações, para poder — não somente apitar mais — como também gritar: “A União das Escolas de Samba pede Passagem e avisa ao povo que o Carnaval chegoouooooouuuuuuuuu!”. Em seguida um breque do surdo e tome apito.

Outra faceta muito interessante de Herivelto Martins: é doido para botar letra em tudo que é melodia que lhe vem à cabeça. Não quer saber se a melodia é original, se é folclore ou se é do Fernando Cesar — o compositor de sabonete. Ele bota a letra e assina. O resto que se dane. Foi assim agora mesmo, com o tal de “Engole ele paletó”. Foi ele lançar a samba e foi aparecer uma porção de gente pra parceria.

Mas não faz mal. Herivelto é desses que não encabulam. No ano que vem vão derrubar o Teatro Recreio, vão derrubar o morro do Salgueiro e vão tomar outras providências municipais. Dois sambas Herivelto já tem prontos. O primeiro diz assim:

— “A Praça Tiradentes não acaboooooouuuuuu!!!”

E o outro é diferente, pois começa assim:

— “O Salgueiro não morrrreeeeeuuuu!!”

Breque de surdo e tome apito.


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 29/01/1958.

Maysa - Dicionário Ilustrado

Maysa (Perdi meu pente) Matarazzo é Bonjardim de nascença, mas por melhor jardim que ela seja, ser Matarazzo é melhor. Começou a cantar em casa, como todos nós, aliás. Depois — já então casada com Andrezinho Matarazzo — começou a fazer suas musiquinhas e cantar em festinhas íntimas, até o dia em que o Roberto Côrte Real — que é uma espécie de Brício de Abreu, de São Paulo — penetrou numa festa dos Matarazzo e ouviu Maysa cantando. Ficou entusiasmado (aliás não ficou tão entusiasmado assim, mas — sabem como é — a festa estava boa, não custava nada agradar a direção).

Côrte Real era diretor de uma empresa gravadora de S. Paulo — a RGE — e convenceu Maysa de gravar um “long playing” interpretando suas músicas (suas dela). Maysa fingiu que era chato, Côrte Real fingiu que acreditou e insistiu muito. Aí Maysa topou e gravou o disco. O disco começou a agradar e a TV Tupi convidou Maysa para fazer um programa

Maysa fingiu que não queria, a TV Tupi fingiu que acreditou, insistiu muito e Maysa foi. Jordão de Magalhães, dono da boate “Cave”, viu Maysa na televisão e convidou-a para cantar na sua boate. Maysa fingiu que não gostava, Jordão fingiu que acreditou, insistiu muito e Maysa foi.

Aí o Andrezinho se queimou e disse que assim também não. Maysa explicou que era para fundo de benemerência e foi. Um sucesso... Matarazzo ao microfone agrada mais em S. Paulo que gomalina no cabelo do Al Neto.

Maysa já estava consagrada. Veio para o rádio (veio não, foi, porque foi em S. Paulo). Um dia houve uma festa para os melhores do rádio. Maysa foi convidada, Andrezinho acompanhou-a e, quando deu com o ambiente exclamou para si mesmo:

— Eu salto aqui!

E saltou mesmo. Maysa, ao contrário, veio para o Rio, onde o Paul François convidou-a para uma temporada (já como profissional) no seu bar. Maysa fingiu que não queria, Paul François fingiu que acreditou, insistiu muito, ofereceu mais e ela foi.

Aí um empresário de Montevidéu ouviu Maysa, convidou-a para cantar em Punta del Este, Maysa fingiu que não queria, o empresário fingiu que acreditou, insistiu muito e, lá está Maysa... completamente internacional.


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 10/02/1958.