Aqui um artigo sobre um grande locutor — ou "speaker", como eram conhecidos na década de 30 do século passado — que animavam programas musicais daquela nossa jovem MPB ou de "sports", enviando pelas ondas dos rádios dessa época, mensagens aos radio-ouvintes.
Nosso país, diferente dos outros, não cultua valores antigos. Uma gente jovem e estranha com amnésia do passado. Mas deixemos isso pra lá .... Aqui um artigo "ipsis litteris" da revista semanal CARIOCA sobre um desses pioneiros ... (ainda publicarei sobre outro pioneiro chamado Oduvaldo Cozzi):
“Chegando da Bahia, perfeitamente despreoccupado, Erik Cerqueira viu logo, na sua frente, o microphone da Radio Transmissora.
Elle fizera um agradavel passeio viajando daquelle Estado até o Rio, deixando lá atrás, na Radio Sociedade da Bahia, seu cargo de orientador, outro cargo de "speaker" e varias lembranças entre os amigos.
Chegando ao Rio encontrou apenas a Natureza bem intencionada. Oduvaldo Cozzi, que o indicou ao “Programma Casé”, que estava sem “speaker”, e logo depois, ao microphone de PRE-3 a sua espera.
Erik falou, sem pronuncia nortista, explicando tudo e ganhou o logar. Antes delle a transmissora tivera apenas Oduvaldo Cozzi — porque outros locutores não fizeram successo — e agora, depois de Cozzi, apenas elle.
Erik Cerqueira não é, como se chama vulgarmente, um rapaz “de sorte”, que consegue tudo á custa de muita “chance”. Elle é esforçadissimo — tanto que apesar de bem installado como “speaker”, ainda se movimenta agindo muitas vezes como agente de publicidade, etc.
Ambicioso como todo o cidadão que descobre depois de um certo tempo que a vida é o resultado de um esforço bem orientado, trabalha com toda a vontade em pról da sua emancipação financeira.
Começou provisoriamente
— Comecei a falar ao microphone substituindo o locutor da Radio Sociedade aa Bahia, mas depois vi-me obrigado a ocupar definitivamente o logar.
Elle não tinha muita vontade de ser “speaker”. Mas fez successo. Tambem não acreditava na sonoridade da sua propria voz, nem que possuisse um estylo especial. Além de “speaker”, estuda technica radiophonica.
Tem saudades da Bahia
Erik Cerqueira, que ingressou no “broadcasting” em 932 e surgiu no Rio ha pouco tempo, tem saudades dos logares anteriores, onde iniciou a sua carreira.
— Voltarei a Bahia quando puder. Por emquanto, contento-me em enviar para lá uma grande correspondencia. Gosto de lêr cartas. Antes de experimentar o microphone, Erik trabalhava em jornaes da sua terra. Até hoje collabora nelles, embora distante.
— Creio que prefiro fazer improvisos ao microphone do que lêr annuricios longos — diz Erik a CARIOCA.
Mas, apesar disso, presta muita attenção a qualquer observação que lhe façam.
Erik um rapaz que não pensa em Cinema, theatro ou casamento. Empolga-se pelas grandes orchestras.
— Prefiro lêr bons livros e dirigir automovel em grande velocidade.
Elle é uma affirmação de que tambem da Bahia pode vir um bom “speaker”.
Fonte: CARIOCA, de 09 de janeiro de 1937.
segunda-feira, abril 28, 2014
sábado, abril 26, 2014
Jorge Fernandes para os fãs do rádio
"Jorge Fernandes é um dos veteranos do rádio carioca. Intérprete e dos melhores das nossas músicas folclóricas, desde as canções de Hekel Tavares às de Joubert de Carvalho, desde os frevos do Norte às canções nostálgicas do Sul.
Jorge Fernandes já atuou em quase todas as nossas emissoras: Phillips, Tupy e outras. Excursionou pelos Estados, com sucesso, e teve o mesmo êxito em Buenos Aires. Outros artistas do gênero vieram e passaram. Ele, não. Porque é um artista inteligente, estuda, se aperfeiçoa e se apresenta cada vez melhor.
Jorge Fernandes atualmente aprimora sua excelente voz em estudos especiais de canto a sério, com a reputada professora Madame Roxy King Shaw. E obteve grande sucesso no recente recital dos alunos dessa ilustre professora."
Fonte: Revista semanal CARIOCA, de 9/1/1937.
Neide Martins, uma intérprete nova
| Neide Martins - 2/1/1937 |
Neide Martins, por exemplo, uma garota bonita e suave de dezesseis anos, descobriu certo dia que dando uma determinada entonação à voz, tornando-a mais brejeira ou expressiva, conseguia depois calorosos aplausos.
Desde aí, Neide se tornou cantora de sambas, embora o seu olhar continuasse dezesseis anos mais infantil que ela e seu encanto. Neide Martins é, por esse motivo, uma artista verdadeiramente interessante. Surgindo na Transmissora, pela mão de Renato Murce, logo se impôs à curiosidade e admiração dos fãs.
Hoje ela já é uma estrela pequenina, radiosa promessa que surge sobre os melhores auspícios.
CARIOCA foi ouvi-la na PRE-3, estação que descobriu a nova cantora de sambas e marchas, a contratando com exclusividade.
Começou cantando fados
— Quando eu era menor — diz Neide Martins — gostava muito de cantar fados, que também era a música predileta dos meus pais. Devido a isso, e como demonstrasse grande inclinação para a arte, me estreei no "Programa Infantil" da Rádio Guanabara, com a idade de treze anos. Dei-me bem junto das outras crianças, mas não previ, no momento, o resultado da brincadeira: cresci num instante, e fui obrigada a deixar esse programa, continuando, no entanto, a cantar sempre que podia, pois já me encontrava afeiçoada ao microfone.
Depois, veio um longo período de descanso. Neide foi aos poucos aperfeiçoando a sua vozinha infantil, e numa ocasião, aparecendo num festival artístico no Teatro Recreio, conseguiu interessar vivamente Renato Murce, que imediatamente obteve permissão para contratá-la para o elenco da Rádio Transmissora.
— Mudei de gênero, quando descobri que não era inteiramente sem graça na interpretação de sambas e marchas. Hoje ainda não possuo um repertório exclusivamente meu, mas hei de fazê-lo, aos poucos.
Neide é uma artista que interessa aos compositores, uma vez que demonstrando inegável jeito para a interpretação da música popular, aprende muito depressa diversas melodias.
O estúdio é uma brincadeira
— Gosto de vir ao estúdio — diz Neide — Considero emocionante cantar ao microfone, quando ainda não se está habituada. Depois, torna-se muito simples e agradável. Eu aprecio sinceramente todos os meus colegas, sendo grata à atenção e confiança que Renato Murce demonstrou logo de início, pelas minhas aptidões artísticas.
Neide já tem recebido várias propostas de outras emissoras cariocas, porém não pretende deixar a PRE-3. Ela é uma garota alegre e simples que tem um grande amor aos seus pais e não pensa ainda em outra qualidade de afetos.
— Talvez algum dia pense em me casar, naturalmente, porém, me preocupo muito pouco com isso, atualmente.
Ela é entusiasta pela sua carreira. Gosta do cinema americano e alemão: Robert Taylor e Martha Eggerth detém sua preferência sobre artistas cinematográficos. Não aprecia teatro, nem cogita aparecer em filmes brasileiros, por enquanto.
Neide é uma suava garota para quem a vida é uma estrada lisa e reta, cheia de panoramas bonitos pelos lados. Ela não procura se interessar pelos empecilhos do caminho.
— Gosto do rádio principalmente porque nunca precisei me preocupar muito com ele.
Ela é uma artista que venceu rapidamente."
Fonte: CARIOCA, de 2 de janeiro de 1937 (foto mais texto atualizado).
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