sábado, maio 27, 2017

O cantor das Graças de Iemanjá

"Peguei um Ita no Norte, e vim pro Rio morar ..." e Dorival contempla nostálgico o navio que talvez o
tenha trazido da Bahia ...

Dorival Caymmi é um acontecimento na música popular brasileira. O cronista e compositor Antônio Maria diz que só deixará de falar nele “quando morrer” ... E todos nós gostamos desse poeta do nosso mais puro folclore ... (Reportagem de Zenaide Andréa e fotos de Kásmer)

“Quem quiser vatapá ... que procure fazê, primeiro o fubá, depois o dendê ...”

Parecia estarmos em plena Bahia, com todo o doce feitiço que emana da sua gente, das suas festas mais típicas, e de todas aquelas crendices que tão fundo marcam a alma do seu povo. Era a saudade que falava alto e sonoro, contando a noite, o vento, a aventura dos saveiros pelos mares de Castro Alves, a história do casario colonial, a solidão do Pelourinho “quando a madrugada purifica e salva o homem que a ladeira cansou, que a vida tentou matar” — conforme disse mesmo Antônio Maria, autor do texto do show que nos deu toda essa impressão, lá na boate Casablanca.


Ao seu lado, a incomparável Ângela Maria, indiscutivelmente a nossa maior cantora no gênero, e outra figura feminina que se Impõe nos nossos meios artísticos: Tereza Austregésilo, que interpreta, em gracioso “travesti”, um personagem das ruas de Salvador, o poeta “Cuíca de Santo Amaro”. Há, também, o jovem ator Paulo Maurício (que já viveu na tela o tipo do cantor de “Espumas Flutuantes”) e unia porção de garotas bonitas e bastante harmoniosas com o ritmo dolente que nos vem, assim, da velha Tomé de Souza ...

Carlos Machado, sempre gentil e interessado em presentear o Rio com belas e novas emoções noturnas, faz parar um instante os trabalhos da representação, para que Dorival venha ao nosso encontro. As pequenas, porém, continuam a repetir os últimos versos que ele entoava, e a bambolear os quadris, como as pitorescas vendedoras das praças públicas de Salvador:

“Não pára de mexê, que é pra não embolá ...”

Caymmi começa, então, a conversar conosco. São flagrantes de sua existência, fragmentos de suas inúmeras lembranças, que lhe acodem naturalmente à memória, nesse instante em que lhe pedimos um pouco do seu destino, para narrar aos nossos leitores... Ele é uma dessas vocações autênticas, absolutamente sinceras, e, como tal, não costuma falar muito de si mesmo. Prefere dizer de suas alegrias ou de seus dissabores cantando, ou compondo, “O Mar”, “Marina”, “O que é que a baiana tem” etc, e, agora, esse fatalista samba-canção que andou já na boca de toda gente: “Não tem solução”...

— Qual, dentre as músicas que fez, é a sua predileta? — indagamos, após recordarmos alguns dos seus maiores sucessos.

— Não tenho preferências, nesse sentido. Para mim, todas se parecem e estão no mesmo plano. O povo é que escolhe ... Por último, acho que preferiu, por exemplo, o “Nem eu” e “Não tem solução”, este feito de parceria com Carlos Guinle.

— E como escreve as suas músicas? Tem algum lugar ou hora especial, para isso?

— Faço-as a qualquer momento, em qualquer canto. Mas, geralmente, trabalho em casa.


Como se sabe, Dorival é casado com a cantora Stel Maris, que abandonou as suas atividades profissionais (na Mayrink Veiga, onde esteve por um ano, e isso depois de surgir vitoriosamente como amadora) pelas obrigações do lar. O casal possui três filhos, Dorival, Danilo e Nana, que constituem o encanto dos Caymmis e dos quais ele nos fala com o mais grato e espontâneo entusiasmo.

Tínhamos sabido que se cogitava de uma reedição do “Cancioneiro da Bahia”, a notável compilação de Dorival, com prefácio de Jorge Amado e ilustrações de Clóvis Graciano. O “cantor das graças de Iemanjá” confirmou a informação — o que é especialmente interessante para quantos apreciam o nosso folclore, e ainda não dispõem desse volume, como é o nosso caso — e acrescentou:

— Será completada pelas minhas novas canções.

A seguir, passamos a tratar de cinema e teatro. Dorival fez parte da representação de “Joujoux e Balangandans”, levada à cena no Municipal há alguns anos, conforme devem recordar os que nos leem. E na tela ainda pela mão do escritor Henrique Pongetti, o responsável por aquele espetáculo, apareceu no “short” “A jangada voltou só”, de Ruy Santos, tendo ainda figurado noutro filme de valor, “Estrela da manhã”, com “script” de Jorge Amado, para a Filmoteca Cultural.

Hoje, porém, dada a intensidade do seu trabalho, na boate da Praia Vermelha, no rádio e na Televisão Tupi, nesta capital e em São Paulo, e às suas gravações e outros misteres correlatos, Caymmi não dispõe de maior tempo para devotar aos estúdios cinematográficos e ao palco. Aliás, em relação ao teatro, embora elogiando o que Pongetti dele conseguiu àquela ocasião a que nos referimos, afirma ter desistido por completo.


Cremos que a sétima arte também não o atrai muito, a não ser como espectador, talvez. Seu gosto pelas coisas da Bahia e o seu amor sem limites pela música que compõe e que canta, são, em definitivo, as “constante” de seu temperamento. Fora disso, tudo o mais será paisagem, para ele — e não a imorredoura sensação da paisagem de Itapoã ...

Dorival nasceu em 30-4-1914. Seus cabelos vão já grisalhando, mas sua face é límpida e sem rugas, com um ar de candura satisfeita, que lhe deve vir da infância livre e descuidada, lá pelas terras cheias de sol da sua querida Bahia...

Tem já o seu nome numa praça de Salvador, na qual cantou para uma grande multidão, que o aplaudiu delirantemente. Não há quem não goste dele. E Antônio Maria escreveu que só deixará de falar de Caymmi, quando morrer ... Nada mais justo e compreensível, acreditem.


Fonte: Cinelândia, edição 24, novembro de 1953 (Rio Gráfica e Editora)

Mary Gonçalves: Ela ama a vida e é amada por todos ...


Estreando no rádio aos 14 anos de idade, Mary Gonçalves só tem colhido aplausos em sua trajetória artística ... Elogiada por Villaret ... O cinema é seu sonho ... (Reportagem de Rita D'Assis e fotos de Milan - Cinelândia, novembro/1953)

Neste minúsculo apartamento em que nos encontramos, já couberam nada menos de 70 pessoas, festejando o aniversário de Mary Gonçalves ... É a sua residência, na qual imprimiu todo o encanto de uma personalidade moça e vibrante, apesar da exiguidade do espaço. Na parede nobre do living (que serve também de dormitório), uma original decoração que logo indica ser uma cantora moderna quem mora ali: capas de álbuns de discos de Sinatra, Elvira Rios, Frankie Lain, Ella Fitzgerald, Billy Eckstine e de Dick Haymes, o novo amor de Rita Hayworth ...

Achamos Incompleta essa exposição: faltava-lhe justamente a capa do long-play “Convite ao romance”, que a artista vem de gravar na Sinter, com oito canções que são “O que é amar”, “Dentro da noite”, “Tédio”, “Não vá agora”, “Duvidando”, “Podem falar”, “Escuta” e “Estamos sós” ... E foi Isso que lhe dissemos, quando veio toda sorridente ao nosso encontro, alguns minutos após a nossa chegada, desculpando-se muito por não ter aparecido imediatamente.

— É que estive filmando o dia inteiro, lá no Jóquei Clube, certas cenas de “Uma vida em 15 minutos”, da Sociebrás. Acabava de entrar debaixo do chuveiro ... Quanto ao meu disco, a que se refere, ainda não o recebi, e, por isso, não pode figurar aí ...

O calor da sua presença juvenil, dos seus gestos tão cheios de graça e de espontaneidade, como que faz viver de uma nova vida todo aquele pequeno mundo que a cerca, e que é um pouco de si mesma. Trajando “slacks” e suéter, sua plástica surgia admiravelmente realçada pelas linhas bonitas do conjunto. E, em seu rosto, limpo de qualquer pintura, brilhava o entusiasmo dos verdes anos ...

— Você faz o papel de amazona, nesse filme, não?

— De uma proprietária de alados corcéis, como diria o poeta ... Tão alados, que hoje quase levei uma queda, cavalgando um deles, que tomou o freio nos dentes ...

— Gosta de trabalhar no cinema?

— Adoro! É o que mais me empolga. Entretanto, até então não tive muita sorte com os papéis que me confiaram. Sonho com muito mais!

— E merece, sem dúvida. Não é à-toa que você já ganhou dois “Índios”: em 1948, com “Fantasma por acaso”, de que vimos uma reprise recente; e, em 47, com “Vidas solitárias”, do saudoso Moacyr Fenelon ...

— Este foi o meu primeiro filme. E o último que fiz, até “Uma vida em 15 minutos”, foi “Asas do Brasil”, também desse inesquecível batalhador do cinema nacional. Isso, há três anos já.

Como se vê, era essa uma pausa longa demais para quem tanto se apaixona pela arte da tela. Acontece, porém, que, não obstante a sua esplêndida vitalidade, Mary Gonçalves não chega para as encomendas ... Atua nos “shows” do Casablanca, nos programas das rádios Nacional e Mayrink Veiga, grava discos e, às vezes, integra elencos teatrais. E, é lógico, há ainda o amor, a moda, as reuniões sociais, e tudo o mais quanto a existência oferece a uma pequena assim interessante e sempre interessada por este nosso humano universo ...

Sabíamos, contudo, que a rainha do rádio de 1952, estando nos Estados Unidos, em 51, tivera uma proposta da Columbia Pictures para filmar, e que fizera um teste na RKO para uma gravação “double-face”, em inglês e português.

Confirmou-nos ela ser tudo verdade. Mas, acerca da Columbia, não lhe foi possível aceitar o convite, por estar já de partida marcada para o Brasil.

Indo até à pequenina cozinha do seu apartamento, que ela mesma guarneceu de faceiras cortininhas, Mary começou a preparar um café para nós, enquanto prosseguiu a conversa.

— É solteira? — indagamos, ao constatar assim as suas habilidades de dona de casa.

— Completamente...

— Mas tem seus amores, não?

— Até agora, e por dois anos consecutivos, tive um amor definitivo: Bill Parr.

— Teve? ...

— Bem, nunca se sabe, ao certo, o que pode suceder a um amor, mesmo definitivo ...

Pronto o café, e servido em xícaras coloridas, Mary nos disse que o seu hobby n.º 1 é arrumar o seu cantinho doméstico, escolher os objetos que ali põe logo em uso (nada para guardar — acrescenta — que o lar não é museu!) e ... no momento procurar um novo apartamento, pois quer morar com mais conforto e poder receber melhor as suas relações.

— E qual o seu maior desejo?

— Conservar-me sempre jovem, e também viajar.

— E quanto às suas aspirações artísticas?

— Que o público me aplauda sempre, que jamais me esqueça!

Isto, realmente, não é difícil, tratando-se de Mary Gonçalves, elogiada por todos, querida das plateias elegantes e dos radiouvintes de todo o país, e a quem Villaret saudou como a intérprete mais pessoal no gênero de canções a que ela se dedica.

Aliás, desde muito cedo que a risonha artista revelou a sua vocação. Nascida em Santos, a 25-10-1927, estreou como rádio-atriz na Tupi de São Paulo, já aos 14 anos de idade. A arte estava em seu sangue, pois seu pai, hoje advogado, o Dr. José Figueiredo Rocha, que é português de origem, fora ator em Coimbra, e, em Santos, onde a família fixou residência, atuou na rádio Atlântida.

Daquela cidade do litoral paulista, vem Mary paia o Rio, na época em que funcionavam os casinos, contratada como “crooner” da boate Meia-Noite e para o show do “Grill-room” do Copacabana. E daí para o cinema o rádio e o teatro cariocas foi apenas um pulo, ou melhor, um recorde de salto para as alturas.

Sorte é o que não lhe falta, apesar do que ela nos declarou sobre os papéis que tem desempenhado no cinema. Também, pudera: Mary não passa debaixo de escada, não pode ouvir a palavra "azar" sem bater na madeira, etc. e tal! ... Em compensação, julga o número 13 um bom fetiche. Entenda-se a alma feminina ...


Fonte: Revista "Cinelândia", edição 24, novembro de 1953 - Rio Gráfica e Editora.

quarta-feira, maio 24, 2017

Esther de Abreu, o Rouxinol de Coimbra


Esther de Abreu foi ficando no Brasil ... e o Brasil gostou de Esther de Abreu - Uma voz do cancioneiro português que sabe também interpretar a nossa música popular. (Reportagem de Armando Migueis e fotos de Milan)

Não foi sem surpresa que entramos no apartamento de Esther de Abreu, numa rua tranquila de Copacabana. É que a bonita intérprete do cancioneiro português entregava-se, então, à limpeza do lustre que orna a sua sala de estar. Percebendo nosso espanto, fez questão de declarar que, como ex-interna do Colégio Santo Antônio, em Lisboa, é uma completa dona de casa, sabendo cozinhar, cerzir meias, fazer tricô e, ainda, cuidar da arrumação do “lar, doce lar”, conforme víramos.

Espírito comunicativo e folgazão, Esther de Abreu coloca o jornalista a vontade, lamentando a ausência de um bom licor da santa terrinha. E, com a desculpa, vem a informação de suas preferências culinárias. Ela não é do bacalhau à moda, nem tampouco das papas. Gosta, isto sim, de uma valente feijoada completa. Também admira, e muito, a comida à baiana. Às vezes, porém, para variar, enfrenta mesmo um cozido.

A “glamorosa” intérprete de “Coimbra” não fuma. Justifica esse desinteresse pelo cigarro por entender que ele quebra a linha de feminilidade que toda representante do sexo frágil deve possuir. Em compensação, distrai-se jogando “buraco”. Confessa fazer diabruras quando consegue uma “canastra” ... Aliás, Esther lamenta o tamanho do apartamento, em que se encontra provisoriamente e que não permite reunir as pessoas de suas amizades para uma partidazinha. Em compensação, de sua varanda, pode olhar sua filhinha Maria Manoela, que estuda num colégio em frente, e isto, a seu ver, compensa.

Numa atitude glamorosa, a intérprete do cancioneiro português posa com seu vestido de baile.

A exclusiva da Rádio Nacional é uma recordista de viagens. Conhece o território brasileiro de ponta a ponta. Já cantou para os nossos irmãos do Norte; exibiu seus dotes vocais para os nossos patrícios do Sul, e vive alegrando a turma do Centro. Assim, quando do lançamento de “Coimbra”, conseguiu vender quase cem mil discos, embora tivesse de enfrentar a concorrência de outros grandes intérpretes, como Alberto Ribeiro, Albertinho Fortuna, etc. Aliás, com a belíssima composição de Antônio Ferrão, Esther de Abreu levantou a taça de “Parada dos maiorais”, instituída pelo programa César de Alencar.

Mas não só a música portuguesa tem entrado nas cogitações da vitoriosa artista. Ela é francamente de nossas melodias: estreou num dos carnavais cariocas interpretando duas marchinhas. Fez sucesso, e acabou caindo no samba rasgado e no baião, cantando “Serenata”, samba escrito por Linda Batista há mais de dez anos, e “Baião do Amor”, composto pela queridíssima Carolina Cardoso de Meneses. São duas gravações Sinter que revelam claramente as qualidades de Esther de Abreu para a música popular brasileira.

Esther tem ganho lembranças artísticas e vários troféus. Eis um deles no flagrante.

Vindo ao Brasil para participar do show “Sonho nas berlengas”, apresentado pelo Copacabana Palace, a intérprete de “Cabral no Carnaval” convenceu, deixando-se ficar por estas plagas. É que seu contrato com aquela casa de espetáculos, em virtude do êxito obtido, teve de ser dilatado.
E, nessa altura dos acontecimentos, aconteceu a Rádio Nacional. Ingressando no “cast” da PRE-8, conquistou de imediato, a simpatia geral, a ponto de participar da maioria de programas musicais dessa estação. Com o contrato da Rádio Nacional vieram outras propostas. Turnês pelo Brasil fora. Participação nos shows das grandes boates. Temporadas nas emissoras do interior. Tudo isso, trocado em cruzeiros, representa uma apreciável parcela no orçamento de quem vive do canto.

Esther de Abreu descende de uma família de artistas. Agora mesmo, na Companhia de Walter Pinto, figura uma de suas irmãs. É a vedete Gilda Valença. Anteriormente, outra de suas irmãs brilhou numa companhia de revistas. Referimo-nos a Julieta Valença, que o casamento afastou da ribalta, apesar da carreira promissora que vinha realizando. Outro parente próximo da cantora integra um conjunto musical. Com esse punhado de valores entre os seus, Esther não escapou à vocação. Tanto que continua aumentando o cartaz da família, quer participando dos programas da Rádio Nacional, quer gravando bonitas composições, como o fado “Confesso”, de Frederico Valério, que a Sinter lançou. Também de Paulo Tapajós, a exclusiva da PRE-8 gravou “Segredo”. Com esse número, Paulo Tapajós estreou no fado. Estreou por sinal auspiciosamente conhecendo-se a personalidade da intérprete.

Entre a música e o lar vive, portanto, Esther de Abreu. Uma vida agradável para quem nasceu “cigarra”. Para quem procura alegrar a alma do povo com as melodias suaves do cancioneiro internacional.  Sim, porque ela canta em quatro Idiomas. Tanto que, ao microfone da Emissora Nacional de Lisboa, conquistou um prêmio interpretando composições em inglês, francês, espanhol, português. Em nosso idioma ela escolheu “Maringá”. Saiu-se a contento e a contento continua no agrado dessa gente hospitaleira que nasceu sob o signo do Cruzeiro do Sul.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 21, setembro de 1953