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quinta-feira, março 08, 2012

K. Veirinha e o Bola Preta

K. Veirinha
Nas proximidades do Carnaval que, naquela época (1918), começava a ferver desde outubro nos festejos da Penha, o folião K. Veirinha erguendo seu copo de chope resolveu desafiar o chefe de polícia: “Vamos formar um cordão!” E, mostrando sua disposição de luta contra a autoridade, concluiu: “Ele disse que vai fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha! O nosso é de bola preta!”

Toda a turma, já com duas ou três altas pilhas de cartões na mesa, topou a parada e resoluta, pondo em alvoroço o Bar Nacional, da famosa Galeria Cruzeiro, prorrompeu em vivas seguidos.

Nascia, desse modo, em meio de uma reunião boêmia, que acontecia normalmente, todas as tardes, o já hoje tradicional Cordão da Bola Preta, conhecido em todo o Brasil e também no estrangeiro. Ficava, igualmente, consagrado como folião, pois que já o era desde rapazola, o Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido no Clube dos Democráticos como Trinca Espinha, apelido mais tarde substituido pelo de K. Veirinha.

À guisa de biografia

Antigamente, todos os associados de destaque dos grêmios carnavalescos adquiriam um pseudônimo sempre precedido de aristocrático Iord. Assim, Álvaro de Oliveira que, ainda garoto, de menor idade, conseguiu ser sócio dos Democráticos quando o alvinegro tinha sede no largo do Machado, ganhou a sua alcunha. Deram-na, mais tarde, já na rua do Hospício (hoje Buenos Aires), para onde o clube se transferiu, uma bem divertida: Lord Trinca Espinha. Continuou com ela na rua dos Andradas e também na do Passeio, locais em que os valorosos ‘carapicus’ estiveram instalados.

Só em 1918, depois da terrível epidemia da ‘influenza espanhola’, da qual, conseguindo escapar, ficou, no entanto, bastante magro, esquelético, perdeu sua antonomásia. Um amigo vendo-o em tal estado exclamou: “Puxa! Você parece uma caveira”. À tarde, na costumeira chopada do Bar Nacional, a turma homologou definitivamente o apelido: “Viva o K. Veirinha!” Nunca mais se deixou de chamá-lo por esse diminutivo ou de completar o seu verdadeiro nome com ele: “o Álvaro K. Veirinha”.

K. Veirinha enfrenta o chefe Leal

Carnavalesco de quatro costados, integrante de um grupo do qual faziam parte, entre outros, os irmãos Oliveira Roxo (Jair, Jorge e Joel), Chico Brício, Archimedes Guimarães (Fala Baixo), Álvaro de Oliveira era desassombrado. Ao ler nos jornais uma portaria do chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal, achou o momento propício para mostrar sua coragem. Rigorosa, ameaçadora, a publicação dizia: “Os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão as suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei”. Proibia, ainda, mais adiante, de maneira igualmente decisiva, a fundação de grupos similares.

Longe de se amendrontar e disposto a topar uma parada com o ‘chefão’ temido, o grupo das alegres reuniões chopísticas de um dos bares da Galeria Cruzeiro seguiu coeso o líder K. Veirinha. Iriam, todos, desobedecer o mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na rua dos Passeio, e na noite de 31 de dezembro de 1918 com um ‘maxixético e rebolativo baile’ (como era de praxe qualificar-se as festas dançantes carnavalescas) consumavam a deliberação. Iniciava, assim, o hoje famosíssimo Cordão da Bola Preta a sua brilhante e vitoriosa trajetória.

Tradição da Bola Preta

O sucesso da noitada de nascimento do Cordão da Bola Preta, com o salão apinhado e a fachada do clube feericamente iluminada, abriu-lhe caminho fácil nos meios carnavalescos. Seus iniciadores (K. Veirinha, Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros) puderam levar avante o foliônico grêmio sempre com seus bailes excessivamente concorridos. Sem instalação definitiva, realizando seus fandangos na rua 13 de Maio, no Palace Clube, na Cinelândia, num salão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, acabou, por fim, rico e poderoso, com a sede própria que ora possui.

Álvaro de Oliveira viu, desse modo, triunfar a sua iniciativa ao mesmo tempo que se firmava uma tradição levando o nome do cordão até às ‘estranjas’ como fator preponderante do fascínio de nosso Carnaval. Os turistas que aqui chegam para conhecer o nosso famoso tríduo de Momo desembarcam na Praça Mauá ou no Galego perguntando pelo baile do Teatro Municipal e também pelo do ‘Bôle Preete’. Coisa que, inegavelmente, apesar de seu feitio boêmio, desprendido, envaidece o K. Veirinha, fundador e sócio número um, benemérito, na prestigiosa agremiação.

Saudosista mas não muito

Afastado das homéricas ‘farras’ dos áureos tempos em que o Carnaval carioca conseguia dividir durante o ano inteiro a cidade em três facções: ‘baetas’, ‘gatos’ e ‘carapicus’, Álvaro de Oliveira é, agora, um homem tranqüilo. O folião K. Veirinha hoje é apenas um assistente da festa de Momo. As vezes, matando saudades, aparece no cordão e vê seus consócios vibrando, entoando o hino feito pelo maestro Vicente Paiva e Nelson Barbosa para em polgar a moçada: “Quem não chora no mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou, então, no Bola Preta”.

Recorda, vendo a animação reinante, os bons tempos. Lamenta não encontrar ali a ‘velha turma’, em grande parte desaparecida ou, como ele, fora da ‘linha de fogo’. Orgulha-se, porém, de ver o seu cordão vibrante, nascido de uma rebeldia momentânea, resultado de desobediência ao ‘chefão’, abrilhantando de maneira decisiva a maior festa da Cariocolândia. Caminhando para o meio século de existência o Cordão da Bola Preta, sólido e vitorioso, faz também (reconhece ele feliz e exultante) a consagração de seu apelido: K. Veirinha.

(O Jornal, 27/01/63)
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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

terça-feira, outubro 03, 2006

O Cordão da Bola Preta

Foto: Chico Brício, um dos fundadores do Cordão da Bola Preta.

"Quem não chora, não mama / Segura meu bem, a chupeta
Lugar quente é na cama / Ou então, no Bola Preta.
Vem pro Bola, meu bem / Com alegria infernal
Todos são de coração / Todos são de coração
Foliões do Carnaval / Sensacional!"


(Nelson Barbosa / Vicente Paiva - 1962)

Enquanto os versos famosos do hino do Cordão da Bola Preta não forem entoados, no centro do Rio de Janeiro, ao meio-dia do Sábado Gordo, precedidos das tradicionais clarinadas, o carnaval carioca não estará oficialmente aberto. O que acaba sendo mais uma ironia da mui heróica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, famosa por seu bom humor.

Acontece que o Bola Preta nasceu para brigar com as autoridades e mesmo sem abrir mão de sua posição, contestando e protestando a cada carnaval, por meio de suas fantasias, desfiles e músicas, acabou sendo escolhido para abrir, a cada ano, o carnaval oficial da cidade. Não importa que, já há muito tempo, a folia comece até quinze dias antes da data marcada no calendário, ela só vale oficialmente depois que o Cordão da Bola Preta desfilar.

Estudiosos garantem que cordão (cuja primeira citação na imprensa aparece em 1886) surge como uma sátira popular, desabafo anônimo e coletivo contra o estabelecimento de fatos que desagradem ou prejudiquem o povo. No caso da origem, foram o vice-reinado português e depois o próprio D. João VI e sua corte, os alvos das brincadeiras dos cordões.

Dentro dessa filosofia, surgiu o que viria a ser o mais famoso deles, o Cordão da Bola Preta. Álvaro de Oliveira era o que se chamava na época — final dos anos 20 — de um folião de quatro costados. Soube pelos jornais que o chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal (o mesmo que com sua ordem contra os cassinos clandestinos, em 1916, dera origem ao samba Pelo telefone), baixara uma portaria determinando que “os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei”.

Foi o que bastou para que o corajoso K. Veirinha (apelido de Álvaro, também conhecido como Trinca Espinha) se dispusesse a topar a parada contra o chefão. Reuniu os amigos de sempre — Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros, a turma do chope —, nos bares da Galeria Cruzeiro, e planejaram a desobediência ao mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na rua do Passeio, e no reveillon de 1918, com um “maxixético e rebolativo baile”, como explicitava o convite, consumaram a provocação.

Era a primeira festa das milhares que se seguiriam. O sucesso animou a turma a criar o clube e a data de 31 de dezembro de 1918 ficou definida como a da fundação. O sobradão da rua da Glória, 88, foi alugado e as festas ali jamais terminavam no mesmo dia. Começavam sábado à tarde e prosseguiam até a manhã de segunda-feira.

O clube, que não tem sócios, mas “irmãos”, ficou conhecido como reduto de artistas, ou “recanto de inspiração”. Ali compareciam nomes famosos da música popular, Ary Barroso, ou Mário de Azevedo e Patrício Teixeira.



Uma outra versão conta que no ano de 1917, um grupo de associados se desligou do Clube dos Democráticos passando a se encontrar no Bar Nacional (atual Edifício Avenida Central) e, entre chopes e conversas de aventuras carnavalesca, resolveu fundar um "Cordão".

Enquanto o cordão não acontecia, o grupo que se compunha de Gomes de Oliveira, "o Caveirinha", Francisco Brício, João Torres, Eugênio Ferreira, Joel de Oliveira Roxo, Jair de Oliveira Roxo, Arquimedes Guimarães e outros, denominava-se, ironicamente, de "Só se bebe água" - única bebida que não ingeriam ao se reunirem. O nome foi trocado logo depois por "Cordão da Bola Preta" em homenagem a uma "mulher bonita com um vestido colante branco de bolas pretas” que passou pela calçada do Bar Nacional, parou, sentou à mesa e fez parte do grupo.

Surgiu assim, a 31 de dezembro de 1918, o Cordão da Bola Preta. Devido a problemas financeiros, apenas alugavam lugares para bailes carnavalescos, sendo o primeiro deles o Cabaré dos Políticos (atual Cinema Palácio). Outros se seguiram, como o antigo Cassino Beira-Mar, onde hoje é o chafariz da Praça Paris.

Com a Lei de 1904, que obrigam os clubes a terem um endereço social, o "Cordão da Bola Preta, alugou a sua primeira sede na Rua Bittencourt da Silva, 26-B, sobrado. Foi então mais fácil reunir associados, que abandonaram o Bar Nacional. Com os próprios barris que eram consumidos pelos integrantes do "Cordão", pois a fama do "Só se bebe água" continuava, era recolhida uma contribuição da sede própria.

Em 1947, com Wolney Braune na presidência do clube, lançou-se a ideia da compra do terceiro pavimento do Edifício Darke de Matos , então em construção. O que pareceu" loucura", do início, a custa de muito sacrifícios tornou-se realidade. Antes do dia 31 de Dezembro de 1949, o "Cordão" anunciava sua instalação em sede própria.

Atualmente no terceiro pavimento encontram-se o salão de festas e o restaurante, na sobre-loja, a secretaria e sala de diversões, com jogos permitidos por lei e no 15º pavimento, um conjunto de salas. O clube, situado à Rua 13 de Maio, 13, compõe-se de 13 salas, correspondente a 553 m2 e o 3º pavimento da edifício da sede ocupando 1010 m2 abrange uma área de 1563 m2. Possui o "Cordão" uma sede campestre no km 31 da Rio-Petrópolis, inaugurada em outubro de 1973, com objetivo de proporcionar um local de lazer às crianças e aos mais idosos.

Inicialmente, o grupo, ou seja, o "Cordão", precisava de um "xerife", tendo sido escolhido o Álvaro Caveirinha. Já em 1941, com uma sede, elegeu-se a primeira diretoria do Cordão da Bola Preta. Muitos candidatos ao "Cordão" foram eliminados por não possuírem os requisitos exigidos: ser "bom no copo", (o candidato era testado em uma chopada), ser alegre (condição primordial e eliminatória; tinha que ser um bom carnavalesco); ser maior de 21 anos; apresentar provas de que trabalhava (os integrantes eram e são empregados, comerciantes ou industriais; "vagabundo não era admitido").

Desde 1941, desfila o Cordão da Bola Preta, que "abre" o carnaval com sua alegria contagiante, às 10 horas do sábado de carnaval, tremulando o estandarte branco com uma bola preta dentro de um desenho em forma de ogiva.

Satirizando o representante do carnaval carioca, sua Majestade Rei Momo I, o grupo carnavalesco criou a "Rainha Moma", representada por um "homem", intitulada: Sua Majestade Frederica Augusta coração de Leda, escolhido entre os próprios foliões, com obrigação de desfilar em carro alegórico no sábado de carnaval.

Em 1960, a Secretaria de Turismo propôs à diretoria do Cordão da Bola Preta a substituição da Rainha, homem, por uma mulher, a "Rainha Moma do carnaval Carioca". A partir de 1961, tradicional desfile de domingo de carnaval se realiza com todas as pompas de um "desfile de rainha", com cortejo, carros alegóricos, cavalos, comissão de frente e, como não poderia faltar a tradicional "Bola Preta".

É famoso o caso de um comandante de aviação que na Europa ficou sem seus documentos, restando-lhe apenas a carteira de sócio do Bola Preta. Que foi reconhecida pelas autoridades e serviu para trazê-lo de volta ao Brasil.


Fontes: Ruas e Praças; História do Samba - Editora Globo.