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segunda-feira, março 19, 2012

Deixa Falar não desfilava como escola

Marçal, Paulo Barcellos e Bide, fundadores da Deixa Falar, posam no meio das pastoras
A primeira escola de samba da história, a Deixa Falar, na verdade nunca desfilou como escola de samba. Há duas versões para o fato de terem começado a chamá-la com esse “título”. A primeira: lá havia os chamados “professores do samba”, como Ismael Silva, Bide, Marçal, etc. A segunda: em frente a sua sede, havia uma escola normal, onde se ensinava português e matemática; na Deixa Falar, se ensinava samba!

A Deixa Falar foi fundada como bloco, em 12 de agosto de 1928. Lá foram inventados instrumentos como o surdo (criação de Alcebíades Barcelos, o Bide) e a cuíca (invenção de João Mina). Nos carnavais de 29 e 30, a Deixa Falar desfilou como bloco. Em 1931, já se organizava de outra forma, se preparando para, no carnaval de 1932, desfilar como rancho (os grupos de maior prestígio da época).

Neste ano, quando aconteceu o primeiro desfile de escolas de samba, a Deixa Falar não quis participar do concurso – preferiu participar do desfile dos ranchos, concurso muito mais “importante”. E, em vez de sair às ruas com o samba característico, inventado por seus próprios componentes, desfilou com uma marcha-rancho.

O problema é que o desfile foi um desastre, e nem classificada a Deixa Falar foi. Passado o carnaval, a agremiação entrou numa crise complicadíssima. Integrantes da diretoria se acusavam de desvio de dinheiro! Já no dia 15 de fevereiro foi marcada uma reunião para que fosse feita uma prestação de contas do carnaval de 1932 – enquanto isso, os diretores iam se acusando mutuamente pelos jornais.

A reunião do dia 15 não aconteceu, porque muitos dos envolvidos não compareceram. Mas a ferida deixou marcas, e a Deixa Falar foi minguando, minguando, até que acabou, naquele mesmo ano! Em 1933, seus integrantes se juntaram aos da União das Cores e formaram a União do Estácio de Sá, cuja sede era no mesmo lugar da Deixa Falar.

E aí acabava a história da primeira escola de samba do Brasil, aquela que foi sem nunca ter sido e que acabou no ano em que houve o primeiro concurso das escolas. Apesar disso, a Deixa Falar tem importância fundamental nessa história, já que deixou como herança instrumentos que são usados até hoje na Avenida e criou uma forma diferente de se fazer samba. Viva a Deixa Falar!

Fonte:http://extra.globo.com/noticias/carnaval

Bide também fez marchas-ranchos

Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal no bairro Engenho de Dentro.

Sambista famoso, nascido e ainda morando no decantado Estácio de Sá, reduto sempre posto em evidência quando se historia a nossa música popular, Bide (Alcebíades Barcellos) não é, no entanto, apenas isto. Glorificado, e com muita justiça, como autor de Meu primeiro amor (com Marçal), Fui um louco, a Malandragem e, principalmente, o universalizado Agora é cinza, no qual teve novamente como parceiro, Armando Marçal, ele é tido apenas como sambista. Pouca gente sabe que Bide também foi autor de bonitas marchas-de-rancho.

A popularidade de seu nome e de seu apelido, trazido de casa desde garoto, e não ganho, como podem supor, no meio musical, se fez, de fato, como sambista. Ainda mais tendo-se em conta que foi ele um dos fundadores da também famosa Escola de Samba (ou bloco carnavalesco) Deixa Falar. Mas quando o conjunto se transformou em rancho (1932) Bide, juntamente com Capellani e Henrique Camargo, foram os principais compositores das marchas entoadas pelo coral nos desfiles dos chamados dias gordos. E o sambista Barcellos, mudando o ritmo, mas sempre rico de inspiração melódica, contribuiu para o êxito de sua agremiação com bonitas e expressivas músicas.

Chico Viola encontra Bide na “gafieira”

A verdadeira projeção de Alcebíades Barcellos na música popular da Sebastianópolis deu-se em 1928 quando, devido ao sucesso de seu samba A malandragem, Francisco Alves (Chico Viola) foi ao seu encontro. Não o procurou em casa ou nas rodas do Estácio de Sá, surpreendeu-o na Estrela D’alva, uma agremiação recreativa (gafieira), então existente no Largo do Rio Comprido. E enquanto os pares dançavam, no bar, esvaziando alguns copos de bia (cerveja), o cantor acertava com o novel compositor a gravação de seu samba que, afirmava entusiasmando-o, ia abafar.

Dias depois, Bide, simples operário da Fábrica de Calçados Bordallo, na Rua do Núncio (agora República do Líbano), vivia um grande momento de sua vida. Encontrava-se na Casa Vieira Machado com aquele que ia ser o intérprete de seu primeiro samba gravado em disco e divulgado por uma editora de músicas para piano. Tímido, mas ao mesmo tempo empolgado, Alcebíades Barcellos, depois de apresentado a Rogério Guimarães, que ali estava, a escrever a melodia, começou a cantar: “A malandragem,/ Eu vou deixar,/ Não quero saber da orgia,/ Mulher do meu bem querer/ Esta vida não tem mais valia.” As notas iam sendo lançadas nas linhas e nos espaços da pauta fixando no papel a composição de estréia de um autor que, rápido, se tornaria um dos grandes nomes de nossa música popular.

Bide, um dos maiorais do “Deixa Falar”

Vivendo num bairro onde o samba tinha o seu culto em diversas modalidades ele pôde escolher. Não quis o pesado (batucada), do alto do Morro de São Carlos. Preferiu o de simples diversão, e que era entoado no próprio Largo do Estácio em frente à Escola Normal que ali estava situada. Tinha pois, forçosamente, que integrar o Deixa Falar. A princípio simples sujo (bloco carnavalesco), era um grupo de sambistas que se reunia no Bar Apoio ou no Café do Compadre, onde cada um dava a pala (amostra) de suas músicas, de suas composições. Depois, nas proximidades dos festejos momísticos, com sua bateria, seus cantores, fazia ensaios no referido largo para sua ida à Praça Onze de Junho nos dias de Carnaval.

Integrado por catretas (catedráticos) tais como Ismael Silva, Nilton Bastos, Armando Marçal, Rubens, Baiaco, Brancura e outros, o Bloco Deixa Falar, depois Escola de Samba, tinha também como um de seus maiorais o Bide. Quando, em 1930, na programação do Carnaval, patrocinou-se uma competição entre as várias escolas então já existentes, no Morro da Mangueira, na estrada do Portela, etc., a rapaziada do Deixa Falar entrou nesse certame. Alcançou o primeiro lugar. Alcebíades Barcellos lá estava martelando o tamborim, cantando os sambas de sua autoria e os de seus companheiros.

A Escola transforma-se em Rancho

Em 1932, por iniciativa de alguns de seus componentes, entre eles Osvaldo dos Santos Lisboa (Oswaldo Papoula), Eurípedes Capellani e Julião Santos, a Deixa Falar transformou-se em rancho, Bide foi escolhido para ser o diretor de harmonia. Aceitou o cargo, e embora sambista, surpreendeu a turma fazendo duas marchas. Ambas bem ao ritmo da nova modalidade com que a vitoriosa Escola ia se apresentar concorrendo com o Flor do Abacate, o Arrepiados, o Miséria e Fome e mais alguns ranchos tradicionais da época. As composições agradaram inteiramente formando, com as de Capellani, Camargo e Julião, o repertório a ser cantado pelo corpo coral.

Intitulada, uma, Meu segredo, tinha o seguinte coro: “As mariposas, tão lindas,/ Nas noites de primavera/ Ao romper da madrugada,/ Vejo cantar a passarada.” Seguia-se o solo onde, em contra-canto, Aurélio, com sua voz bonita, que lhe proporcionou o apelido de Garganta de Ouro, destacava-se em agudos. A outra, Rir para não chorar, igualmente pomposa, além da melodia bonita e a cadência que permitia ao mestre-sala Benedicto Trindade (Rei da Elegância) exibir-se em floreios coreográficos, dizia em sua parte coral: “Rir para não chorar/ Quando passar/ O Deixa Falar./ Velam a nossa beleza,/ Quanta riqueza/ Para quem pode enfrentar,/ Enfrentar!”.

Mas o samba não perdeu um grande compositor

O fato de Bide desviar-se do samba para outro ritmo, o das marchas-de-rancho, que tivera grandes compositores como Sebastião Cyrino, Antenor de Oliveira, Napoleão de Oliveira, Pedro Paulo e muitos mais, foi apenas momentâneo. Não o fez deixar de ser aquilo que de fato era, e é: sambista. Retornou logo ao que era de sua preferência musical e, em 1934, via toda a cidade cantando com ele: “Fui um louco/ Resolvi tomar juízo...“. No ano seguinte, na onda do sucesso, em parceria com Marçal, registrava o máximo de sua carreira com o clássico de nossa música popular, o Agora é cinza.

Não são apenas estes os melhores sambas dentre os muitos que Bide, sozinho ou em parceria, conta na sua grande produção musical. Muitos outros, encontrados facilmente numa relação precisa feita por cuidadosos musicólogos (Almirante, Ary Vasconcellos, José Ramos Tinhorão, Lourival Marques, Lúcio Rangel) atestarão o excelente e genuíno sambista que ele é.

Sambista que, na revelação acima mostrado como autor de marchas-de-rancho, deve ter causado surpresa, inclusive a de que a tão citada Escola de Samba Deixa Falar foi também rancho carnavalesco.

(O Jornal, 21/7/1963)


Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Mano Aurélio

Mano Aurélio, apelido de Aurélio Gomes (Fl. Rio de Janeiro, RJ, década de 30), compositor e cantor, foi um dos fundadores da Escola de Samba Deixa Falar do Estácio de Sá. Segundo depoimento do compositor Ismael Silva, era um ótimo cantor.

Em 1933, lançou o samba Arrasta a sandália (com Osvaldo Vasques), que foi o primeiro grande sucesso do cantor Moreira da Silva, numa época em que ele ainda não era conhecido como o rei do samba de breque.

Com um estribilho curto, intercalado por respostas no estilo de partido-alto, o samba agradou, caiu no gosto do público, permanecendo como sucesso por muitos anos.

Ainda segundo Ismael Silva, seu parceiro Osvaldo Vasques (também conhecido por Baiaco) não era o verdadeiro autor do samba. Dessa opinião discordava Moreira da Silva que, em depoimento fornecido ao Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, atesta: "Baiaco era um compositor de mão-cheia. Dava uma sorte danada com o mulheril, que sempre entregava o dinheiro pra ele."

Fonte: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

domingo, outubro 01, 2006

Deixa Falar, a primeira Escola de Samba

Oswaldo Boi de Papoula, 1o. presidente da Deixa Falar, ao lado de Ismael Silva.

“A gente precisava de um samba para movimentar os braços para a frente e para trás durante o desfile. A gente precisava de um samba para sambar.” A descrição é de Ismael Silva para justificar a novidade na criação dos compositores do bairro do Estácio de Sá, modificando a forma de sambas de sucesso na época, desde Pelo telefone, passando por Jura e Gosto que me enrosco, todos eles guardando ainda estreito parentesco com o maxixe.

Buci Moreira, sambista do primeiro time, ritmista famoso e morador do Estácio, citado pelo pesquisador Nei Lopes, dá outro testemunho valioso: “Minha mãe me mandou comprar manteiga na padaria e no caminho vi quatro camaradas reunidos cantando samba: o Zeca Taboca, um outro rapaz que o pessoal chamava de Brinco, o Edgar com sua camisa de malandro, e o Rubem, muito alto e com cara de grego. Estranhei a novidade e perguntei: ‘O que é isso?’ E disseram: ‘Isso é um samba moderno que o Rubem fez’.

E cada um dizia um verso de improviso.” Mano Rubens era irmão de Bide (Alcebíades Barcelos), autor de A Malandragem, o primeiro samba gravado de tal maneira. Isso acontecia em razão do aparecimento da Deixa Falar, a primeira escola de samba, assim chamada, do Brasil.

Era na verdade um bloco carnavalesco criado no dia 12 de agosto de 1928 no bairro carioca do Estácio de Sá. A sede improvisada ficava no porão da casa n° 27 da rua do Estácio, onde morava o fundador do bloco, Ismael Silva, líder dos sambistas do bairro.

Como nas imediações, mais exatamente no largo do Estácio, funcionava uma Escola Normal, que formava professores para a rede escolar, Ismael resolveu batizar seu grupo de Escola de Samba, já que formaria professores de samba. E a nova Escola já nascia com “corpo docente” da melhor qualidade, pois, além do próprio Ismael, participavam: Mano Aurélio, Nílton Bastos, Armando Marçal, Mano Rubens, Baiaco, Brancura, Heitor dos Prazeres, Mano Edgar e Bide.

A curiosidade em torno do nome sempre existiu e levou Ismael Silva, que o escolheu, a contar como foi em depoimento no Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro: “quanto ao nome, posso dar a explicação: havia uma grande rivalidade entre os agrupamentos de samba, Piedade, Estácio, Mangueira e outros. Cada um queria, naturalmente, ser o melhor e criticavam os outros. Saímos com esse nome, sabe como é, vamos para a frente, ou seja... ‘deixa falar!’ ".

Além de reunir jovens e revolucionários compositores do bairro, a escola pretendia melhorar as relações com a polícia, visto que, sem autorização, os sambistas não tinham direito de promover rodas de samba no largo do Estácio e nem desfilar no Carnaval. Por isso o grupo tratou logo de legalizar a situação, assumindo sua importância para a grande festa e na música popular brasileira.

O surdo e a cuíca, lançados pela Deixa Falar, tornaram-se indispensáveis na percussão do samba, e a influência de seus compositores se nota, de imediato, nas obras de autores como Ary Barroso e Noel Rosa, os primeiros ditos “urbanos” a abandonarem o estilo de Sinhô, para aderirem aos sambistas do Estácio.

Noel Rosa, que aliás tinha muito cuidado ao escolher seus parceiros, fez com Ismael Silva algumas composições. Ambos se completavam, mesmo com estilos de boêmia completamente diferentes, o mais intelectualizado de Noel, criado na burguesia da Vila Isabel, e o voluntarioso e rebelde de Ismael, cultivado na malandragem do Estácio de Sá.

Ismael se auto-retrata musicalmente em samba magistral, O Que Será De Mim?, criticado pelos moralistas e aclamado pela malandragem: “Se eu precisar algum dia / de ir ao batente / não sei o que será. / Pois vivo na boêmia / e vida melhor não há. / Não há vida melhor / e vida melhor não há / Deixa falar quem quiser / Deixa quem quiser falar. / O trabalho não é bom. / Ninguém deve duvidar. / Trabalhar, só obrigado; / por gosto ninguém vai lá”.

Um ou dois empregos de curta duração foram o suficiente para a vida inteira do sambista Ismael Silva. Sempre viveu do samba, que era o que ele sabia fazer de forma excepcional. O historiador Sérgio Cabral diz textualmente, por ocasião da morte de Ismael, em 1978: “Eu tenho uma opinião: o samba carioca só pegou sua forma definitiva por causa daquela geração de sambistas do Estácio, na qual Ismael Silva era um líder. Antes chamava-se de samba um tipo de música que tinha muito de maxixe. Quando o pessoal do Estácio de Sá começou a divulgar seus sambas, os compositores da época protestaram muito dizendo que aquilo era uma deturpação”.

O pesquisador José Ramos Tinhorão caminha na mesma estrada: “o samba vacilante de Donga, Sinhô e Caninha, da década de 20, ganhou no Estácio o ritmo batucado com a geração de compositores da camada mais baixa (Ismael Silva, Nilton Bastos, Bide, Armando Marçal, Heitor dos Prazeres)”.

Ao final de sua vida, Ismael tinha uma discografia que acumulava com raras regravações 85 títulos, a maioria deles hoje citados como básicos para a história da música popular brasileira. Navegou em parcerias clássicas como Não tem tradução (ou O Cinema Falado), com Noel Rosa, e Se você jurar, com Nilton Bastos e Francisco Alves, ou sozinho em grandes sambas como Antonico ou Tristezas Não Pagam Dívidas.

E, ao assistir a um desfile de escolas de samba, a pista iluminada, milhares de sambistas no asfalto, outro tanto aplaudindo nas arquibancadas, Ismael sorriu satisfeito: “Quando é que a gente podia imaginar que aquelas brincadeiras iam dar nisso? Uma coisa de esquina encher avenida? Hoje isso não é mais escola. É universidade, é academia, é faculdade, sei lá! E amanhã é a formatura do pessoal que estudou o ano inteiro. Colação de grau, desfile em passarela, festa maior do mundo. Que coisa!...”

Fonte: História do Samba - Editora Globo