domingo, março 11, 2012

Como nasceu o samba “Jura”

As discografias apontam os nomes de Mário Reis e Aracy Côrtes como intérpretes do bonito samba Jura, do famoso Sinhô. E, de fato, esses dois expressivos nomes de nossa música popular levaram para a fonografia com todos os requintes rítmicos e melódicos a consagrada composição do “Rei do Samba” tornando-a imperecível jóia do cancioneiro carioca.

A verdade, porém, é que o Jura antes de ser gravado, e ter assim maior difusão, registrou o seu primeiro e grandioso sucesso no teatro lançado como quadro de uma revista musicada pelo Sinhô e por um maestro português que se encontrava no Brasil.

Quem o cantou, então, logrando calorosa salva de palmas e tendo de trisá-lo para satisfazer ao numeroso público que lotava toda a platéia, foi Aracy Côrtes, “A Mulata”, como a chamavam seus milhares de fãs sempre presentes aos espetáculos que a tinham como vedete.

No velho Teatro Phoenix

Em 1928, no velho Teatro Phoenix, existente na Rua Almirante Barroso, e há pouco demolido, estreava na noite de 28 de setembro a revista Microlândia. Eram seus autores os mais famosos revistógrafos da época: Marques Pôrto, Luís Peixoto e Afonso de Carvalho, três nomes que ficaram ligados ao histórico de nosso teatro popularesco.

A revista, com a qual fazia sua estréia naquela casa de espetáculos a companhia dirigida por Norka Rouskaya, tinha, ainda como fator de grande atração, seus números musicais que eram de Sinhô e do maestro Antônio Rada, este tido como de nacionalidade portuguesa e que tinha a originalidade de reger a orquestra dançando e fazendo vibrar uma espécie de chocalho metálico.

Havia ainda, e isto como garantia de seu êxito, o nome de Aracy Côrtes estrelando o elenco ao lado do ator cômico Grijó Sobrinho. Tudo posto em destaque nos anúncios e cartazes anexados à porta do teatro pelo empresário M. Franciscus.

“Jura! Jura!”

No programa, onde, como era de praxe, vinham os retratos das principais figuras do conjunto e a enumeração dos quadros da revista, constava no segundo ato, como seu terceiro número, o samba Jura! Jura! Não se indicava, no entanto, que seria Aracy Côrtes a intérprete, e muito menos esperava-se que a nova composição de José Barbosa da Silva, já cognominado o “Rei do Samba” se tornasse no grande sucesso do espetáculo.

Correu o primeiro ato com agrado geral sucedendo-se os quadros musicais e de comicidade sob palmas entusiásticas. E, portanto, foi num ambiente de alegria e satisfação que se iniciou o ato final onde aparece na Aracy Côrtes, que já vinha sendo aplaudida nas intervenções que tivera antes, para depois da introdução faustosa do novo samba de Sinhô, começar com sua voz rica de nuances melódicas: “Jura! Jura!, pelo Senhor... Jura!, Jura!, pela imagem do redentor prá ter valor a tua jura...”.

Passou da primeira para a segunda parte do samba sempre cantando com aquela bossa bem própria, e ao chegar aos versos finais: “... os sonhos meus, bem junto aos teus, para livrar-nos das aflições da dor”, todo o teatro em delírio gritando: “bis!, bis!, bis!”, insistia para que Aracy cantasse novamente uma, duas, três vezes, em verdadeira consagração, à nova composição do já vitorioso autor de tantos sucessos musicais populares.

Sinhô, presente ao espetáculo, apareceu no palco e abraçado a criadora do seu novo samba, a quem beijara efusivamente, agradecia comovido, quase chorando de alegria, os aplausos e as exclamações de júbilo dos espectadores.

A mulata e o português

Figuras tradicionais de nossas antigas revistas teatrais, a mulata e o português, que sempre apareciam nos quadros de comicidade juntavam-se naquela noite ao sucesso de um samba bem carioca.

A mulata Zilda Espíndola, que no teatro tomara o nome de Aracy Côrtes, lançava vitoriosamente uma nova composição do Rei, que até hoje, em gravações sucessivas, em interpretações as mais diversas, se faz ouvir com agrado.

o português Antônio Rada (1), regente exótico, que conduzia a orquestra gingando e dançando ao ritmo da música executada, integrando-se inteiramente no balanço do samba carioca, contribuíra também para a vivacidade interpretativa comunicando aos músicos que dirigia o seu allegro molto vivo. O ritmo brasileiro, contagiante, agressivo, positivava-se de maneira absoluta.

Os jornais disseram

No dia imediato, fazendo a consagração para a posteridade, definitiva e documentária, as colunas dedicadas ao teatro pela imprensa diziam do sucesso do novo samba. Na unanimidade que marca o êxito absoluto, os jornais ressaltavam nas críticas feitas á revista Microlândia o sucesso da composição que vinha enriquecer a bagagem de Sinhô.

Um dos jornais, O Globo, cuja crítica vinha assinada por um simpIes Erre, dizia, depois de louvores iniciais:

“... Quanto à música do maestro Rada e aos sambas buliçosos de Sinhô, seria injusto dizer-se que não agradam vastamente, suscitando aplausos e bis, como aquele “Jura! Jura!” em que a desenvoltura morena da senhora Arcy Côrtes obteve êxito franco...”.

Hoje, decorridos mais de trinta anos, o Jura! Jura! continua registrando o mesmo sucesso obtido num teatro que as picaretas do progresso demoliram, quando a “mulata” Aracy Côrtes e o “português” Rada contribuíam para o lançamento estrondoso desse inesquecível samba do “Rei” Sinhô.

(1). o maestro Rada (Antônio, Serafim) embora fosse espanhol, era tido como português por ter vindo para o Brasil como regente de uma companhia portuguesa de revistas liderada pela atriz Laura Costa e estreou no Teatro República a 21 de abril de 1926.

(O Jornal, 23/12/1962)


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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

sábado, março 10, 2012

No princípio era Adiléia Silva


Meninota, ainda na sua primeira dúzia de anos, já Adiléia Silva, que mais tarde sob o pseudônimo de Dolores Duran, se tornou compositora famosa, assim como uma das mais expressivas intérpretes de nossa música popular, conquistava seu primeiro triunfo.

Cantando Primavera, uma bonita valsa de autoria do maestro Afonso Henriques, autor da música da opereta-fantasia “O Príncipe do Limo Verde”, de Alda Pereira Pinto, a menina Adiléia, uma das principais figuras do Teatro Infantil da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, empolgava o numeroso público presente ao espetáculo que esse brilhante conjunto mirim realizava na manhã (10 horas) de 15 de novembro de 1942 no Teatro Carlos Gomes.

Palmas calorosas e demoradas exigiram bis e a garota Adiléia, graciosa, no desembaraço que já prenunciava a sua futura glória, cantou duas vezes seguidas, com os espectadores acompanhando-a no coro:

Primavera gentil, / um sorriso que a vida nos dá / Flor mais linda e sutil, / neste mundo não há.”

Estrela do Teatro Infantil

Quando em 1941, Olavo de Barros criou na Rádio Tupi o Teatro do Guri para dar a um grupo de crianças a oportunidade de interpretar poesias, monólogos e pequenas peças ao microfone, já esse conhecido diretor teatral tinha em mira levar tal meninada a um palco para representação direta em presença de público.

Foi assim que, com o apoio da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, e sob os auspícios do Serviço Nacional de Teatro do Ministério da Educação, organizou o Teatro Infantil da referida entidade de jornalistas especializados e, no ano seguinte, em 1942, o elenco mirim estreava auspiciosamente no Teatro Carlos Gomes com a peça “A Gata Borralheira”, de Teófilo de Barros Filho, musicada por Afonso Henriques.

E, dentre os intérpretes estavam Adiléia Silva, Diva Pieranti, Natália Tinberg, Daisy Lúcidi, Gerdal dos Santos, Eugênia Levi, Yvette Magdalena, Arlete Saraiva, Bila Manganelli, Artur Costa Filho, Domingos Martins, Lourdes Nazareth e vários outros, garotos e garotas que, hoje (verifiquem bem a relação), têm lugar de destaque no teatro, no rádio, no balé e na música, confirmando os dotes então revelados.

O sucesso do espetáculo de estréia animou os criadores do Teatro Infantil e, sempre logrando grande êxito, prestigiado por numeroso público que lotava os teatros (Carlos Gomes e República) onde o conjunto de crianças se apresentava, encenaram novas peças no grupo das quais figuraram “Aladim ou a Lâmpada Maravilhosa”, “A Bela Adormecida no Bosque”, interessantes adaptações das conhecidas lendas, feitas, respectivamente, por Teófilo de Barros Filho e Alda Pereira Pinto, com números musicais, ambas de Afonso Henriques, além da participação do balé infantil do Teatro Municipal, dirigido por Maria Olenewa e com a orientação coreográfica de Yuco Lindberg. Houve, também, a apresentação de “O Menino Jesus”, adaptação de um conto de Coelho Netto por Silvia Autuori, musicado por Jerônimo Cabral.

Em todos os espetáculos estava presente Adiléia Silva e sempre dando aos papéis que lhe cabiam, com perfeita intuição, a exata característica da personagem. Representava e cantava com o desembaraço de uma autêntica estrela de dez ou doze anos de idade, fazendo adivinhar a grande Dolores Duran que ela seria mais tarde.

A primeira canção

Muito embora em todas as peças apresentadas pelo Teatro Infantil da Associação Brasileira de Críticos Teatrais a menina Adiléia atuasse com destaque, o seu maior sucesso foi, sem dúvida, na opereta-fantasia “O Príncipe do Limo Verde”.

Coube-lhe na distribuição dos papéis representar a Primavera, o que lhe dava ensejo de interpretar uma bonita valsa de Afonso Henriques, cuja letra é a seguinte:

Queres saber dos sonhos, dos amores,
Dos castelos feitos de quimera?
Corre aos jardins, aos verdes campos,
Pois somente as flores
Poderão falar de mim, assim:
A Primavera.

Coro

Primavera gentil,
Um sorriso que a vida nos dá.
Flor mais linda e sutil
Neste mundo não há.
Trazes no olhar sonhador
Todo um poema de amor.
Primavera gentil,
Primavera em flor!”.

O sentimento que a garota Adiléia deu à interpretação dos versos, assim como a suavidade com que cantou a linda melodia, permitiram-lhe dar um esplêndido realce à canção. E dessa maneira, com toda a platéia aplaudindo-a entusiasticamente, pedindo insistentemente bis, Adiléia cantou pela segunda vez o seu bonito número, tornando-se a vedete do espetáculo.

Sua primeira e vitoriosa canção, aquela que verdadeiramente marcou o início da brilhante carreira artística de Dolores Duran, o pseudônimo que continuou no rádio e nos discos, a precocidade de Adiléia Silva, bem merecia ser revivida numa gravação para a alegria dos milhares de fãs que a saudosa cantora e compositora, ainda hoje tão lembrada, têm por todo o Brasil.

Confirmação de vaticínios

A garotada que integrava o Teatro Infantil da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, sempre teve nos comentários que seus espetáculos mereciam da imprensa, amplos louvores. E, como seria de esperar, tais elogios dos críticos teatrais de então (Mário Nunes, Astério de Campos, Brício de Abreu, João de Deus Falcão, José Lyra, Heitor Muniz, Luiz Palhano, Geysa Bôscoli, Bandeira Duarte e muitos outros) vaticinavam o sucesso futuro de tais crianças.

Relendo-se, hoje, aqueles elogios e os vaticínios, vemos que eles foram merecidos e se confirmaram. Afora Adiléia Silva, que se tornou artisticamente Dolores Duran e consagrou o pseudônimo que adotou como compositora e cantora, suas colegas de elenco também triunfaram no teatro, no rádio, na televisão e no balé.

Basta que se leia na lista citada linhas acima os nomes das figuras componentes de tão magnífica troupe de garotos e garotas para se constatar que os críticos da época vaticinaram certo.

Dolores Duran, continuação da menina Adiléia Silva, que numa manhã de domingo (15 de novembro de 1942) empolgou o numeroso público que foi vê-la na opereta “O Príncipe do Limo Verde”, no Teatro Carlos Gomes, não ficou no registro dos jornais de então como simples “menina-prodígio” iniciou-se, isto sim, como autêntica vedete e como tal permaneceu ainda hoje, nas muitas e bonitas canções que escreveu e interpretou.

(Singra, 25-31/3/1960)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

Penha, prelúdio do Carnaval

Festa da Penha de 1911: Romeiros do grupo "Horror à tristeza" e que com devoção sabem cumprir a obrigação de fazer anualmente essa romaria à santa milagrosa (Revista "O Malho", do mesmo ano).

"As festas que são realizadas nos quatro ou cinco domingos do mês de outubro, em louvor à Nossa Senhora da Penha, não só na sua igreja, lá no alto onde a edificaram, mas, principalmente, no arraial que dá acesso à longa escadaria, embora de cunho religioso, transformavam- se, também, há alguns anos, em prelúdio do Carnaval carioca.

Mais do que os fiéis, do que aqueles que acorriam aos festejos da Penha em romaria para agradecer ou pagar promessas devidas à miraculosa santa, a maior freqüência, aquela que quase na sua totalidade não subia as três ou quatro centenas de degraus para assistir aos atos religiosos, para fazer suas orações, era constituída de gente alheia ao verdadeiro caráter das comemorações.

E no imenso arraial da Penha, levados pelos pequenos e morosos trens da Leopoldina Railway ou em caminhões ornamentados, chegavam famílias de portugueses sobraçando embrulhos com a vitualha para os seus piqueniques. Piqueniques que eram realizados na relva e regados com um bom “verdasco”, bebido em chifres de boi numa revivescência dos velhos costumes pagãos. Chegavam, igualmente, e em grande número, de permeio com os portugueses, os sambistas, os grupos musicais, os malandros dos morros.

Tínhamos então ali no arraial, animado pelos conjuntos musicais, o prelúdio do Carnaval que ia acontecer poucos meses depois.

Nas barracas, em redor das mesas onde se comia e bebia à farta, lançavam-se as primeiras composições para o tríduo de Momo, soltava-se o repertório que ia ser cantado nos três dia de folia.

Outros grupos musicais passeavam pelo arraial acompanhados por uma multidão que logo se formava e transformava-se em participante cantando o estribilho dos sambas e modinhas.

Apareciam sempre na festa da Penha o Grupo Fala Baixo, de Sinhô, que vinha à frente com o seu violão; o grupo do Caninha, o grupo de Pixinguinha com alguns dos elementos que formaram o famosíssimo Oito Batutas, a Tuna Mambembe, de Raul Malagutti, da qual fazia parte também o Benjamin, exímio trombonista, e muitos outros.

O repertório musical carnavalesco tinha, assim, a sua pré-estréia no ambiente de uma festa religiosa e iniciava ali no longínquo subúrbio, a sua popularização para chegar aos dias “gordos” inteiramente conhecido em toda a cidade.

Havia também, de par com as canções de sentido carnavalesco, as que eram dedicadas à santa milagrosa numa exaltação simplória mas muito carinhosa de homenagem e veneração.

Uma delas, de autoria de Ary Barroso, anunciava que o sambista iria à Penha implorar à santa padroeira ajuda para melhorar as qualidades da mulher amada e dizia:

Eu vou à Penha, se Deus quiser,
pedir à santa carinhosa
para fazer de ti, mulher,
de um coração, a rainha
mais poderosa e orgulhosa.

Eu fiz uma promessa à santa milagrosa:
me livre dos maus olhados, oh! mãe carinhosa.
Eu devo a tal promessa e tenho que pagar,
vem ia festa da Penha, vou aproveitar.

Hoje a festa da Penha, vivendo da tradição, ainda realizada no mês de outubro, já não tem essa característica. È quase que apenas uma romaria. Há, ainda, os piqueniques, as barracas vendendo pequenas lembranças — imagens e os clássicos colares de balas e roscas, mas está desfeita a sua caracteristica de prelúdio do Carnaval. Ficou a tradicional festa restrita apenas a um misto de quermesse e de romaria.

Alguns grupos musicais e as atuais Escolas de Samba, entretanto, ainda lhe emprestam um pálido e precário ambiente de festa pré-carnavalesca. Isto, porém, sem o lançamento dos sambas e marchinhas do repertório momístico, como acontecia no tempo de Sinhô, de Malagutti, e com a presença de Pixinguinha, Caninha e muitos outros..."

(Revista da Música Popular, nº 9 — Set. — 1955)

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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.