terça-feira, abril 03, 2012

O frevo estreando no Rio

Alguns componentes do Misto Vassourinhas, quando de sua primeira saída, em 1935.
Pelo fato de haver dito que o moleque Ricardo “quando ouvia na rua um clube passando, caía no frevo, instigado sem saber por quem”, José Lins do Rêgo não merece a láurea de vanguardeiro. Fez pouco para ser apontado como “um dos maiores colaboradores na luta pela implantação do frevo no Brasil inteiro”.

O confrade Salvyano Cavalcante de Paiva ao fazer tal afirmativa em fevereiro de 1963, no Correio da Manhã exagerou. No Rio de Janeiro, ou dizendo melhor, no Carnaval carioca, o frevo entrou com sua música vibrante e seu passo (“chã de barriguinha”, “tesoura”, “dobradiça”, etc.) por iniciativa de pernambucanos de condição humilde. Foram eles, salvo qualquer omissão involuntária: um alfaiate, um sargento do Exército, dois marinheiros, um motorista e alguns mais de igual nível social.

A primeira mostra foi feita no alto da Rua Jogo da Bola, n.° 173, no antigo bairro da Saúde. Data do evento: domingo, 23 de dezembro de 1934, quase um mês após a fundação do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas, em 27 de novembro. Ali, numa modesta casa, presente um único representante da imprensa, o do Diário Carioca — já que os demais jornais, embora convidados por Henrique Bonfim e Edgard Wanderley, iniciadores do movimento, fizeram-se ausentes — o frevo iniciava sua entrada no Carnaval carioca.

Com a participação de vários elementos da colônia pernambucana assistindo ao ensaio inicial, o contramestre da banda do Batalhão de Guardas, sargento Jacinto de Carvalho, regia a execução das músicas. Os metais atuavam uníssonos empolgando e dando o ritmo a uns POUCOS passistas que mostravam suas habilidades no pouco espaço da sala.

Pioneiro, o alfaiate Bonfim

Depois de muitas viagens como embarcadiço, nas quais foi seu companheiro em quase todas elas o conterrâneo João de Assis, decidiu Henrique Bonfim fixar-se no Rio de Janeiro e voltar à profissão de alfaiate. Exímio dançarino, freqüentador de bailes, resolveu um dia, como recreativo, participar de uma prova de resistência realizada no Grêmio Arthur Bernardes, em julho de 1926.

No entanto, depois de 51 horas, quando podia prosseguir por mais tempo, a competição foi encerrada, levando-o a protestar contra a resolução. Passou, então, a cuidar da organização de um clube carnavalesco que segundo declaração sua ao matutino A Nação, em 1935, “lançasse no grande Carnaval carioca o frevo do Carnaval pernambucano”.

Assim, em meados de 1934, tendo como companheiros o citado João de Assis; Edgard Maurício Wanderley, sargento-músico do Exército; Abdias e Alexandre, marinheiros; Júlio Ferreira, motorista, e outros pernambucanos de modesta condição social, Bonfim começou a convocar a colônia para o empreendimento.

Com um bonito livro de ouro, buscou e teve o auxílio de figuras naturais de Pernambuco e que aqui estavam em evidência: Pedro Ernesto, João Alberto, Conde Pereira Carneiro, etc. Com essa diligência conseguia o primeiro numerário para a fundação do Misto Vassourinhas cujo título transportava para o nosso Carnaval o famoso clube do Recife de igual nome. Ativo, sentindo a necessidade de ter um vulto de bom conceito financeiro engajado no lançamento do frevo, atraiu o conterrâneo Victorino Rios. Este, empolgado pela idéia, aceitou ser figura de proa, deu-lhe o seu prestígio.

O frevo começa na Saúde

Fundado o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas, na Rua Jogo da Bola, no famoso Bairro da Saúde, onde já havia dois ranchos (o Recreio das Flores e o Gualemadas) predominando no Carnaval carioca, dali descia triunfante para o asfalto da planície.

Antes, no dia 29 de janeiro de 1935, com Momo na iminência de começar seu reinado, a agremiação, por gentileza do Cordão dos Laranjas, também debutante na folia, levava a efeito seu segundo ensaio em homenagem a Pedro Ernesto, governador da cidade. No amplo salão da Avenida Rio Branco, esquina da Rua da Assembléia, onde o Cordão presidido por João Canali se instalara, o frevo com o maestro Garrafinha dirigindo a orquestra, o Bonfim executando manobras (evoluções) e os componentes do clube desengonçando-se no passo para executar a exótica coreografia da dobradinha, da tesoura e do chã de barriguinha, o frevo assentava bases no Carnaval em que imperam o samba e a marchinha.

Finalmente, em fevereiro de 1935, já no tríduo carnavalesco, na segunda-feira, o Misto Vassourinhas fazia sua passeata de estréia apresentando ao povo carioca o Carnaval típico de Pernambuco. Com uma banda de 35 figuras onde se destacavam 9 trombones e 4 pistons, precedida por numeroso grupo de passistas e tendo à frente seu bonito estandarte ladeado por dois balizas vestidos à Luiz XV, o clube deslumbrava e, principalmente, arrastava na sua marcha avassalante quantos estavam no caminho.

Sem corda protegendo os fantasiados integrantes do cortejo, como é comum nos desfiles do Recife e das principais cidades pernambucanas, a onda do frevo ia carregando numa massa compacta, que se dismilinguia no empolgamento agitado, porém rítmica, pernambucanos e cariocas. O frevo impunha-se triunfalmente no Carnaval carioca.

Depois do Vassourinhas outros mais

Vitoriosa a trasladação de uma modalidade típica dos folguedos do reinado de Momo em sua terra para a cidade onde se domiciliaram, outros pernambucanos, e o próprio Bonfim, que mais tarde fundou o Prato Misterioso, organizaram novos clubes.

Desse modo, excluindo-se o Bola de Ouro, que durou apenas quatro anos (1938 a 1942), apesar de sua existência brilhante levando o frevo a salões elegantes, presentemente temos na Guanabara seis conjuntos exibindo no Rio a característica do Carnaval de Pernambuco. Competindo entre eles, aliando-se a alegóricas demonstrações feitas pelos ranchos, escolas de samba e grandes sociedades, os grêmios que arregimentam a gente do leão do norte tornaram-se em expressiva atração do Carnaval carioca.

Assim, apesar da restrição feita pelo colega Salvyano, expert do assunto, afirmando em sua Teoria e Prática do Frevo que “até hoje o frevo que se toca e dança no Rio não é o verdadeiro frevo pernambucano”, ele aí está agradando (ou enganando) ao carioca. E desse modo ficou consagrada a iniciativa de Henrique Bonfim, Edgard Wanderley, João de Assis, Abdias, Alexandre, Julio Ferreira, Victorino Rios e seus companheiros.

O frevo que em 1934 soltou os primeiros acordes de suas marchas no alto da íngreme Rua Jogo da Bola convidando o carioca ao passo, continua marcando sua presença em nosso folguedo momesco. Através dos metais de suas bandas junta aos nossos sambinhas e marchinhas (agora tão pífios) as composições de Capiba, de Nelson Ferreira, dos irmãos Raul e João Valença e de outros que os seguem. E com isto nos ajuda a manter o galardão de “o melhor Carnaval do mundo”.

(O Jornal, 21/02/1965)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

domingo, abril 01, 2012

Vagalume: capitão do samba e do carnaval

Mais do que o seu nome prevalecia o pseudônimo: "Vagalume". Com ele assinava as reportagens policiais e as seções carnavalescas nos vários jornais em que trabalhou na imprensa carioca. Vez por outra, no entanto, antes ou após o apelido, reforçando-o, pespegava o seu jamegão solene: Capitão Francisco Guimarães. Com qualquer das duas identidades, a legítima — constante do documento civil — ou a que criara no jornalismo, gozava, reconhecidamente, de sólido prestígio entre a gente do samba e os adeptos de Momo.

Tido como o pioneiro do colunismo dedicado ao Carnaval, freqüentando os seus redutos e as agremiações que lhe davam contribuição precípua e ostensiva, Vagalume acabou sendo um autêntico expert. Além da amizade que o ligava aos mais destacados foliões, estava a par de todos os acontecimentos relacionados com a nossa festa máxima e, como sempre acontecia, furava no seu noticioso todos os colegas. Até mesmo a confecção dos préstitos das alegorias dos grandes clubes e os enredos dos ranchos, realizados sob segredo que supunham impenetrável, o Capitão Guimarães os desvendava e trazia-os para sua seção carnavalesca.

De ferroviário a jornalista

O primeiro emprego de Francisco Guimarães logo que saiu do Instituto Profissional, foi o de auxiliar de trem, em 1877, na antiga Estrada de Ferro D. Pedro II. Pouco depois, porém, por intermédio de Luiz Gama, iniciava-se no jornalismo com o encargo de noticiar os fatos ocorridos não só na ferrovia onde fora trabalhar, mas, igualmente, na Rio Douro e na Leopoldina Railway.

Passou a ser o que hoje, no escalonamento profissional jornalístico, chama-se “repórter de setor”. Ativo, integrando-se rapidamente naquilo que era sua vocação, não se demorou preso por muito tempo a tal incumbência e tornava-se repórter policial e de assuntos gerais, ou seja, todos os de interesse dos leitores.

Já integrado na redação do Jornal do Brasil, numa época em que apenas a imprensa escrita era o único veículo informativo, Guimarães ganhava destaque para suas matérias e recebia, então, convites de outros periódicos. Aceitou o de A Tribuna e ali começou a assinar uma seção intitulada “Vagalume” que acabou sendo o pseudônimo com o qual se popularizou em toda a cidade e dominou nas rodas dos sambistas e dos carnavalescos. Foi com essa alcunha que no Jornal do Brasil tendo a seu dispor toda uma página (às vezes duas) passou a dar amplo incentivo ao Carnaval e atingiu à liderança entre os cronistas surgidos em outras folhas.

Um Capitão a serviço de Momo

Francisco Guimarães que se alistou como voluntário no Batalhão Tiradentes e nele, em 1893, participou da revolta chefiada por Custódio de Mello defendendo a legalidade, mereceu de Floriano Peixoto excepcional distinção. O Marechal de Ferro “cingiu-lhe ao punho o galão de ouro de Alferes Honorário do Exército”, segundo o escrito de um relato da época. Militarizado por deferência especial, o jornalista ganhou, passados alguns anos, uma promoção, pois, em nova homenagem, o governo lhe dava o posto de capitão de um dos batalhões da Guarda Nacional. Orgulhoso dessa patente, embora — supõe-se — jamais houvesse envergado a farda da corporação, gostava que a declinassem quando a ele se referiam.

Assim, portanto, como capitão e jornalista, Vagalume foi um denodado entusiasta do samba e do Carnaval, setores nos quais conviveu durante toda sua vida de imprensa. Pôde por isso, quando morreu a 10 de janeiro de 1947, deixar valiosos subsídios, apreciável contribuição para investigações que se venham a fazer a respeito do folclore carioca.

Seu livro Na Roda do Samba, de pequena edição e hoje raro, sem ser erudito ou de grande apuro de escrita, tem reconhecido valor como documentário. Do mesmo modo, o folhear das coleções dos jornais (Diário Carioca, Crítica, Diário de Notícias, Rio Jornal, etc. inclusive os já citados) onde Francisco Guimarães foi cronista carnavalesco, atestará a assertiva aqui feita.

Ligado aos pretos e às suas religiões

Fiel à sua cor, Vagalume sempre se incorporava aos movimentos que visassem a elevar os pretos e dar-lhes dignificação social. Dentro desse propósito fez parte de várias associações destinadas a tal fim. E quando o jornalista negro norte-americano Robert Abott, em 1913, visitou o Brasi!, realizando uma campanha anti-segregacionista, Guimarães foi um de seus recepcionistas. Incorporou-se também a todas as homenagens que lhe prestaram.

Posteriormente (1933) além de dedicar o seu livro a dois famosos pais-de-santo, como o foram Henrique Assumano Mina do Brasil e Tenente Hilário Jovino Ferreira, escreveu na Crítica uma série de reportagens intitulada Mistérios da Mandinga. No seu estilo leve, despreocupado, contou coisas interessantíssimas falando dos terreiros que freqüentou e de seus contatos com alufás e feiticeiros alquimistas de despachos e ebós os mais exóticos.

Resta ainda muito a ser escrito rememorando-se o cronista carnavalesco que tanto serviu à maior festa do povo carioca. E para que não paire dúvida de exagero transportemos aos nossos dias os termos com que o Clube dos Zuavos, na noite de 3 de fevereiro de 1918, dedicou-lhe “farandólico guizantíssimo e poli-desengonçadérrimo baile à fantasia”. Recorrendo a tão estranha adjetivação chegavam ao motivo da homenagem que era o de “profundo tributo aos incomensuráveis préstimos do mais lídimo apóstolo da propaganda ao Deus da Troça, o jornalista Capitão Francisco Guimarães, o Vagalume”.

(O Jornal, 10/01/1965)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

sexta-feira, março 30, 2012

Vagalume

Vagalume (Francisco Guimarães), jornalista e cronista, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 1875, e faleceu na mesma cidade, em  9 de janeiro de 1946.

Filho de família pobre estudou e em 1887 tornou-se funcionário da Estrada de Ferro Dom Pedro II, onde começou suas atividades de jornalista, comentando os fatos ocorridos nas linhas.

Trabalhou em diversos jornais cariocas durante cerca de 50 anos. Foi pioneiro ao criar uma coluna sobre notícias carnavalescas no Jornal do Brasil, logo imitada por outros jornais, no qual assinava com o pseudônimo de Vagalume.

Publicou "Na roda do samba" (Rio de Janeiro: Tipografia São Benedito) em 1933, no qual contou a história do samba, de seus criadores e intérpretes mais importantes. O livro foi reeditado várias vezes pela Funarte.

Fontes: História e Historiadores da Música Popular Urbana no Brasil - José Geraldo Vinci de Moraes (USP); Dicionário Cravo Albin da MPB.