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terça-feira, janeiro 22, 2013

Rio de Janeiro em versos de samba

Eu nasci em Catumbi / Em Catumbi, em Catumbi / Mas sou filho de Oxalá / Oxalá, Oxalá

Esta quadrinha gostosa é de um samba que J. B. Silva apresentou em 1924, chamado Cabeça de promessa. Dá a mesma medida exata do que tem feito os sambistas cariocas mais autênticos no canto de louvor a sua cidade, no geral, e no seu bairro, de modo especial. Loas e exaltações que tem o seu tanto – e natural – de vaidade, mas de modo aberto, sem o caráter agressivo de outros povos do Brasil e/ou do estrangeiro.

Certo, o Rio tem sido cantado em bloco, como cidade do amor e ventura / que tem mais doçura. Cânticos que têm chegado até a declaração de amor: Rio de Janeiro / gosto de você… Mas é na poesia do bairro que o letrista tem-se excedido, mais como um camelô das virtudes dos seus vizinhos do que, propriamente raciocinando. Grita as vantagens dos seus bairros por gritar, porque lhe faz bem assim proceder. Ou em resposta, responso coral quase, às proclamações de rivais – responso que toma o caráter de peça em detrimento dos rivais.

Assim, José Francisco de Freitas e D. M. Carneiro não faziam, em 1930, mais do que responder a Almirante e Candoca da Anunciação, quando escreveram: No Grajaú, Iaiá / No Grajaú. O seu bairro mais venturoso e mais aventuroso, mesmo, do que a mais longínqua e desértica Pavuna da gente reúna. Afinal, para a Pavuna o convite era:

Vem pra batucada
Que de samba na Pavuna
tem doutor


Ao otimismo malandro dos pavunenses (e isto não quer dizer que os autores do samba, bairrista fossem, necessariamente, seus habitantes), opunham o burguesismo do Grajaú, já então, talvez mais do que hoje, bairro metido a besta. O convite para ida à Pavuna não parecia sensibilizar ao autor da Dondoca e da Zizinha.

As origens das canções de exaltação aos bairros se perdem nos anos imperiais, talvez na própria e minguada cidade colonial. Neste século, entretanto, tais canções se tornaram mais constantes, acompanhando o progresso e o crescimento horizontal e vertical da metrópole. Às vezes, é uma fuga ao bulício do centro comercial o que leva um Hermes Fontes e um Freire Júnior a juntos compor uma coisa tão linda como aquela que declara: Paquetá é céu profundo / Que começa neste mundo / E não sabe onde acabar. É preciso cantar, cantar sempre – como diz a inimitável Nara Leão – e Paquetá era o recanto para a fuga às canseiras do crescente e barulhento Rio de Janeiro. Como um quarto de século depois seria (apenas idealmente) aquele samba bossa-novista primitivo que idolatrava Copacaba / Princesinha do mar…

E a oposição Zona Norte-Zona Sul? Já era tão forte no tempo de Noel Rosa que este antepunha à areia dos piratas de Ary Barroso, das moreninhas sapecas de João de Barro e de  Lamartine Babo, uma palmeira de mangue: e o Mangue – que o montanhista Idalicio Manuel de Oliveira Filho sempre soube escalar como ninguém, sendo o dono do assunto nos últimos trinta anos – convenhamos, o Mangue era, por aquela época, puro fogaréu.

O Mangue e toda a Zona Norte. Em 1930, por exemplo, Teobaldo M. Gama lançava na voz de Sílvio Caldas Um Samba no Rocha, descrevendo as vantagens dessa estação da central. Não esqueçamos que

A primeira escola de samba
Nasceu no Estácio de Sá

Aliás, mestre Idalício – bem o sabe o Cony, o Jotaefegê e outros bambas – é cidadão nativo e com muita honra do Estácio. Perto do Estácio, a grande zona do samba, o berço e talvez o túmulo – se o simonal e outros comprimidos favoráveis à dor de cabeça resolverem se abancar por ali. Pois o Rio inteiro cantou quase chorando, já em 1942:

Vão acabar com a praça Onze
Não vai haver mais
Escola de samba, não vai!

Não resta dúvida que o grande samba do Grande Otelo fez história: evitou que a praça Onze se transformasse em simples trecho da avenida Presidente Vargas, conservando um pouco que fosse, das suas tradições. Contudo, amigos da Zona Norte existe a Vila, imortalizada por Noel e Vadico, a Vila Isabel heróica:

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba


Idalício não nasceu na Vila, mas sambista mais autêntico não existe – e por isso tem sido visto muitas vezes passeando pela praça Barão de Drummond. Não admira, a Vila, do ponto de vista do samba, atrai, prende, escraviza, mesmo considerando os outros bairros: Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira / Osvaldo Cruz e Matriz…

Mas a Zona Sul – ao contrário do que podem pensar os adventícios, os neófitos e os beócios reunidos – não foi descoberta pela brotoeja bossa-novista. Muito antes, já em 1936, Carmem Miranda e Sílvio Caldas entoavam um sambinha gostoso que dizia:

Quando passarmos
Lá no Leblon
Pra turma ver
Vou fazer assim

O tema do samba? Na batida tradicional, no telecoteco, um passeio de automóvel com buzina Fon-Fon – antecipando de muitos anos Il Sorpasso

No mesmo ano, Ari, mineiro de Ubá, apaixonado pela orla marítima, fazia um samba-comentário indagando:

Será você a tal Suzana
A casta Suzana
Do Posto Seis?

Porém, é evidente – e está o José Lino Grünewald, testemunha auricular dos 78 rpm, para confirmar – que a Zona Norte sempre surrou a Zona Sul em matéria de samba bairrista. Exemplo frisante é aquela marchinha de carnaval: Por um carinho teu / Minha cabrocha / Eu vou até o Irajá / Que me importa que a mula manque. Ou aquele sambinha cantando, simultaneamente, um bairro e sua estréia, minha falecida amiga Zaquia Jorge: Madureira chorou / Madureira chorou de dor. Ou aquele clássico: Vou à Penha / Vou pedir à padroeira.

Naturalmente, de vez em quando os que preferiam aparecer como geógrafos, distribuindo simpatia a vários bairros, se espalhavam. Um deles, em 1937, cantou simultaneamente o bonde e o seu itinerário (Din-Din ou Seu condutor):

O bonde Uruguai
É duzentos que vai
O bonde Tijuca
Me deixa em sinuca
E o Praça Tiradentes
Não serve pra gente

Lamartine, nos idos de 1931, na base da gozação carioca, acabou citando a comunidade que hoje se distribui na rua André Cavalcanti, e então tomava o bonde Silva Manoel, e foi além, brincando com o inglês (idioma) que se chegava (motivo de troça, como todos se lembram, de músicas de Noel e Assis Valente):

I love you
Forget sciaine
Mine Itapiru

Acima, uma prova concreta de que a Zona Norte e até a meia Zona Norte ganharam sempre da Zona Sul. Mas há um reduto invencível – e o Estácio, garante o Idalício, é centro, centríssimo! – e este reduto, já o falecido Benedito Lacerda, com sua flauta e sua inspiração, encarregou-se de proclamar o maior ao gritar que A Lapa / está voltando a ser / a Lapa!.

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Paiva. Salviano Cavalcanti de. “Rio de Janeiro em versos de samba”. Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 16 de maio de 1965

quarta-feira, março 14, 2012

Zizinha, Lili, Dondoca e Dorinha

José Francisco de Freitas
Zizinha, a “santinha” de quem todos pretendiam “tirar uma casquinha”, foi personagem imaginária tendo a favorecê-la o diminutivo de seu apelido proporcionando rima rica e fácil. Lili, a que foi surpreendida quando era bolinada, igualmente fictícia, permitia também no tratamento íntimo de seu nome um versejar simples e espontâneo. E ainda com Dorinha, a que fazia o amante chorar ante sua indiferença ou não correspondência (igualmente criada pelo compositor) aconteceu o mesmo observado em suas antecessoras.

Já com a Dondoca, a que devia apressar o passo ameaçada por um beliscão na “pernoca”, a coisa foi diferente. Essa existia, e embora popularizada no Carnaval de 1927 sob a suposição de tratar-se de alguma melindrosa (hoje dir-se-ia brotinho), era uma cadelinha a quem José Francisco de Freitas tinha grande estima. Emprestou, pois, o nome pelo qual atendia para uma nova marchinha alegre, brejeira. Música que toda a gente cantou nos três dias do reinado de Momo enriquecendo a bagagem musical de seu dono e ensejando-o ser mais uma vez vitorioso na competição musical carnavalesca.

Passos, o prefeito, ajuda Freitas

Mostrando seus pendores musicais logo nos primeiros anos de idade, aos dez, precisamente, José Francisco de Freitas compunha a primeira música à qual deu o título Pereira Passos. Prestava desse modo sua homenagem ao operoso prefeito que modernizava o Rio rasgando novas ruas, fazendo surgir amplas avenidas. Teve então o pronto reconhecimento do governador da cidade que lhe proporcionou matrícula gratuita no Instituto Profissional Marcolino como gratidão ao garoto pobre e em cuja produção artística deixava nítida sua vocação musical.

No referido estabelecimento de ensino, a par do aprendizado da tipografia que lhe permitiu depois ingressar na imprensa Nacional e do estudo das matérias ali lecionadas, aprimorou-se no conhecimento da música. Seu professor, o consagrado maestro Francisco Braga, transmitiu-lhe um amplo cabedal de noções graças ás quais se tornou não só apreciável compositor, mas, ao mesmo tempo, exímio executante ao piano. Podia, por isso, divulgar em toda a expressão do que lançava na pauta as muitas composições de seu apreciado repertório.

Um pianista na Rua da Carioca

Dominando com muita técnica o teclado alvinegro, Freitinhas, como o tratavam nas rodas dos musicistas de sua época, ligou-se à Casa Carlos Wehrs, editora de todas (ou quase todas) suas composições. Passou a ser o pianista oficial do antiqüíssimo estabelecimento da Rua da Carioca, Ali, antes e depois de atender ao seu horário na Imprensa Nacional, era sempre encontrado “passando” partituras para os fregueses que as queriam conhecer antes de comprá-las, ou executando suas próprias músicas que já eram de franco sucesso.

Na temporada carnavalesca, principalmente, era mais assíduo. Quando ainda não havia o rádio e a divulgação das canções carnavalescas se fazia através das revistas teatrais ou executada pelos seus autores nas casas vendedoras de músicas, Freitas pontificava todas as tardes na Carlos Wehrs. Sentado ao piano colocado bem próximo à porta, dedilhava com mestria o instrumento e suas marchinhas buliçosas, saltitantes, faziam parar os passantes que formavam uma audiência numerosa e entusiasta. Essa mesma gente, já impregnada do vírus momesco, formava então um coral improvisado que entoava alto, sem cerimônia, a letra da composição que estava ouvindo.

Zizinha, Lili, Dondoca e Dorinha consagram o “marchista”

Quando José Francisco de Freitas, no Carnaval de 1925, lançou sua marcha Zizinha viu-a dominante com toda a cidade cantando: “Zizinha!,/ Zizinha!,/ Ó vem comigo, vem, minha santinha,/ Também quero tirar minha casquinha.” Estava iniciado o desfile de suas personagens fictícias. No ano seguinte era a Lili quem tinha sua vez de se popularizar, pois, por toda a parte, durante o tríduo foliônico todos afirmavam: “Eu vi!,/ Eu vi!,/ Você bolinar Lili, Lili/ Quando beliscava assim,/ Ela nervosa, enfim,/ Ficou ao ver-me ali.”

O êxito das duas marchas e, conseqüentemente, das “moças” que as intitulavam, levou Freitas a pensar numa terceira. E sua cachorrinha cujo nome apontava um punhado de rimas ficou sendo, por suposição do povo, a nova protagonista. Surgiu, pois, em 1927 a advertência: “Dondoca!,/ Dondoca!,/ Anda depressa! Que eu belisco essa pernoca.

Acompanhou-as, mais tarde (1929), registrando o mesmo sucesso de suas antecessoras Dorinha, cujos versos suplicavam: “Dorinha, meu amor.! Por que me fazes chorar?/ Eu sou um pecador/ Que vive só pra te amar.” Tinha-se, portanto, através de quatro mulheres não identificadas a consagração do “marchista” Freitinhas.

Perenidade do mito e da música

Tornando perene o mito de suas personagens, posto que até hoje, vencidos mais de trinta anos, Zizinha, Lili, Dondoca e Dorinha, ainda são evocadas e tornaram-se popularíssimas, José Francisco de Freitas viu consagradas também suas músicas. As regravações que delas vêm sendo feitas (principalmente as devidas a Altamiro Carrilho e sua bandinha) trouxeram-nas até nossos dias para seus contemporâneos e para a nova geração.

Formaram o documentário do farto e magnífico repertório de um autêntico compositor popular. Produções que, como acertadamente as definiu o cronista carnavalesco K. Noa (Antônio Veloso) em comentário no Diário de Notícias, nos dias de 1931: “. . . são harmoniosas e brejeiras, de música leve, saltitante e letra cuidadosamente escrita, sem pornografia ou ofensas diretas ou indiretas à educação do povo.”

Hoje, quando imperam em nossa música popular falsos valores à força de divulgação comercializada ou da “caetutagem” (divulgadores profissionais) desabrida, Freitinhas bem merece que se recorde seu nome e suas marchinhas. Todas elas com muito sabor de graciosidade e leva- das à preferência do povo em suas primeiras execuções feitas pelo autor no piano da tradicional Casa Carlos Wehrs ou nas noitadas dançantes do famoso rancho Ameno Rosedá.

Bailes que eram, desde 1924, sempre animados pela “excelente jazz-band do Maestro Freitas” como frisavam nos convites e nas notícias enviadas aos jornais.

(O Jornal, 17/3/1963)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

segunda-feira, abril 03, 2006

Zizinha

Carmen Lobato na
revista Ai! Zizinha
A melodia simples, o ritmo alegre, saltitante, a letra satírica, bem humorada, com pitadas de malícia ( "Zizinha / Zizinha / Zizinha / Zizinha / Ô vem comigo / Vem minha santinha / Também quero / Tirar uma casquinha...."), enfim, as principais características da marcha carnavalesca já estão presentes em "Zizinha" e outras peças do gênero lançadas na década de 1920.

De diferente mesmo das marchas que vieram nas décadas seguintes, pode-se notar somente uma certa analogia rítmica com o fox-trote e o charleston. Zizinha tem entre seus autores José Francisco de Freitas, um dos principais responsáveis pela fixação da marchinha.

Zizinha (marcha / carnaval, 1926) - José Francisco de Freitas - Intérprete: Fernando

Disco selo: Odeon R / Título da música: Zizinha / José Francisco de Freitas "Freitinhas" (Compositor) / Fernando (Intérprete) / Coro do Jazz Band Sul Americano Romeu Silva (Acomp.) / Nº do Álbum: 122942 / Lançamento: 1926 / Gênero musical: Marcha da Folia / Coleções: IMS, Nirez



Por ser deveras conhecida / palavra, eu ando aborrecida
em qualquer lugar / quando passear
sou muito perseguida / o meu tormento não tem fim
nunca pensei sofrer assim / velhos e mocinhos
pedem-me beijinhos / dizendo, enfim , prá mim

Zizinha, Zizinha / Zizinha, Zizinha
ó, vem comigo, vem / minha santinha
também quero tirar uma casquinha

Noutro dia num bondinho / um coronel muito velhinho
deu-me um beliscão / pegou-me na mão
tais coisas fez enfim / que quando olhei admirada
até parece caçoada / ainda suspirou
os olhos revirou / dizendo assim prá mim

Zizinha, Zizinha...



Fontes: A Canção no Tempo - 85 anos de Música Brasileira Vol. 1: 1901-1957, 1a edição, 1997, editora 34; Instituto Moreira Salles; Discografia Brasileira - IMS.