quinta-feira, outubro 26, 2006

Roberto Paiva

Através de sua voz encorpada, os sambistas Geraldo Pereira e Nelson Cavaquinho estrearam em disco. Ele foi o primeiro a gravar a trilha da peça Orfeu do Carnaval de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, além de interpretar um dos grandes sucessos do carnaval de todos os tempos, o samba de protesto O trem atrasou (Paquito/Estanislau Silva/Villarinho), depois regravado por Nara Leão.

Pelo nome da identidade - Helim Silveira Neves, carioca da Vila Isabel, nascido em 1921 - ninguém o conhece. Mas Roberto Paiva, o cantor, entrou para a história da MPB por todas essas e várias outras façanhas.

Começou como calouro na era do rádio (Club Fluminense, em Niterói). Depois, Ciro Monteiro o levou para a Mayrink Veiga. Aí conheceu o pianista Nonô e o violonista Laurindo de Almeida, que o apresentaram na gravadora Odeon, onde ele estreou em disco, aos 17 anos, em 1938. Elogiado pelo rei da voz Francisco Alves, no primeiro disco cantou composições dos padrinhos, Jardim de flores raras (Nonô/Francisco Mattoso) e Último Samba (Laurindo).

O início de carreira foi difícil, com o pseudônimo usado para burlar a resistência familiar (o pai queria que ele terminasse os estudos) e a conciliação do tiro-de-guerra (o serviço militar da época) com o contrato de cinco discos (78 rotações) por ano. Gravou Se Você Sair Chorando, a primeira de Geraldo Pereira, em cuja pauta Pixinguinha anotou elogios, e estourou no carnaval de 41 com O Trem Atrasou.

Também emplacou uma versão (de Paulo Roberto) que virou hino estadual, Vienne sul mare ("Ó Minas Gerais"). "Foi a maior praga da minha vida. Nunca fui a uma cidade, por menor que fosse, que não me pedissem para cantá-la", confessou numa entrevista em 1979, ao Jornal do Brasil.

Guiando-se sempre pela intuição na escolha das músicas dos mais variados estilos, ele também lançou Nelson Cavaquinho ("o nome não aparece nos discos porque ele vendia os sambas") e Luís Vieira (Alguém que Não Vem, um samba-canção, e depois o estouro, O menino de Braçanã). Emplacou ainda sucessos como Tagarela (1946), do xará Roberto Martins, o compositor que mais gravou (16 músicas), ao lado de Paquito (o do Trem e de outro sucesso, A Marcha do Conselho, de 1957), com 10, e Geraldo Pereira (8).

Em 1957, na era de transição do 78 para o LP, ele gravou um 10 polegadas com as músicas (de Tom Jobim) da peça (de Vinícius) Orfeu da Conceição, incluindo a estréia do samba-canção sinfônico Se todos fossem iguais a você.

Em mais um lance de pioneirismo, participou (com Francisco Egídio), em 1953, da primeira gravação em disco da polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista, refeita 11 anos depois em outra gravadora, com o caricaturista do samba, Jorge Veiga.

Com sua onipresença de sensibilidade interpretativa e bom gosto na escolha do repertório, o cantor Roberto Paiva marcou a história da MPB.


Tarik de Souza - ENSAIO - 5/6/1974.

João do Vale

João do Vale dizia que no Maranhão, de onde veio, "o cara é Batista ou Ribamar". Ele era Batista, João Batista do Vale, nascido em Pedreiras no dia 11 de outubro de 1934, quinto numa família de oito irmãos. Até os 12 anos, vendia na rua os bolos que a mãe fazia. Aos 13, foi vender laranjas na feira de Praia Grande, em São Luís.

Chegou ao Rio como ajudante de caminhão, em 1950. Compunha desde menino, para o bumba-meu-boi de sua terra. Conseguiu gravar com o sanfoneiro Zé Gonzaga (Cesário Pinto) e com a cantora Marlene (Estrela Miúda).

A convite do compositor Zé Keti, cantou no Zicartola, o restaurante musical que Cartola manteve no Centro do Rio, de 1963 a 1965.

O teatrólogo Oduvaldo Vianna Filho convidou-o a participar, ao lado de Zé Keti e da cantora Nara Leão, do show Opinião. Nara Leão adoeceu e foi substituída por Maria Bethânia, trazida da Bahia. A interpretação vigorosa que a jovem e desconhecida cantora deu a Carcará, de João do Vale, consagrou imediatamente a intérprete e o autor.

João do Vale, apresentou-se na Europa, nos EUA, em Cuba e Angola. Mas jamais pôde mudar-se de Rosa dos Ventos, bairro pobre de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Em 1986, sofreu um derrame. Numa cadeira de rodas, voltou para Pedreiras. No dia 6 de dezembro de 1996, morreu num hospital de São Luís, após sofrer novo derrame.

Algumas obras







Fonte: Moacyr Andrade - MPB ESPECIAL - 11/12/1974.

Nuno Roland

Reinold Correia de Oliveira, o Nuno Roland (1/03/1913 – 20/12/1975) foi um dos grandes cantores da época de ouro do rádio brasileiro. Natural de Joinville, SC, começou a cantar profissionalmente em 1931 num cassino de Passo Fundo, RS e depois em Porto Alegre. Durante sua passagem pelo Rio Grande do Sul conheceu Lupicínio Rodrigues, de quem se tornou amigo.

Em 1934, seguiu para São Paulo onde fez grande sucesso se apresentado inicialmente na Rádio Record e depois na Rádio Educadora Paulista. Foi em São Paulo que adotou o nome artístico de Nuno Roland.

Em 24 de agosto de 1934, gravou na Odeon seu primeiro disco com as canções Pensemos num lindo futuro e Cantigas de quem te vê, de Ulisses Lelot Filho. Atuando principalmente como crooner de orquestras, passou a cantar vários gêneros musicais, inclusive estrangeiros.

Em 1936 mudou-se para o Rio de Janeiro onde assinou contrato com a Rádio Nacional, estreando na inauguração dessa emissora em 12 de setembro daquele ano.

Apesar de sua presença constante no rádio e no disco, só alcançou o sucesso em 1947, com a marcha carnavalesca Pirata da perna de pau, de João de Barro, gravada na Continental. Nessa gravadora, viveu a melhor fase de sua carreira, em que lançou os sucessos Fim de semana em Paquetá, Tem gato na tuba (ambas de João de Barro e Alberto Ribeiro), Tem marujo no samba (João de Barro), em dueto com Emilinha Borba, Lancha nova (João de Barro e Antônio Almeida) e os hinos dos clubes cariocas Botafogo e Olaria, da série composta por Lamartine Babo.

A partir dos anos de 1960, declinou sua atividade profissional, gravando esporadicamente.


Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha, SP, 1998.