sexta-feira, março 09, 2012

Fenianos: depositários da tradição carnavalesca

Carro-chefe do Clube dos Fenianos no Carnaval de 1934.
O valoroso Clube dos Fenianos participava do primeiro Carnaval do século XX, em 1901, havia saído do ‘barracão’, na rua do Senado, para mostrar-se ao povo carioca. Sempre fartamente aplaudido entrara na rua do Ouvidor, e justamente ao chegar à esquina da Gonçalves Dias, “um grupo de pessoas armadas tentou impedir a continuação do desfile". Reagindo a agressão, defendendo seu vistoso préstito confeccionado pelo cenógrafo Carrancini, os ‘gatos’ viram-se envolvidos num sério conflito em que alguns de seus consócios sofreram ferimentos graves.

Passada a refrega onde, como se diz na gíria pitoresca carioca, ‘o pau comeu solto e desembaraçado’, o grêmio alvirrubro prosseguiu sua passeata para cumprir o itinerário anunciado previamente pelos jornais. Mas, findo o tríduo momesco, no sábado seguinte, 23 de fevereiro, numa nota publicada na imprensa e endereçada “a S. Exa. o Sr. Ministro da Marinha e ao público relatava a lamentável ocorrência da terça-feira gorda. Fazia-o denunciando que os seus carros foram destruídos e os seus sócios agredidos a punhal, cacete e navalha por marinheiros, seguidos por alguns oficiais de Marinha e por um oficial superior da Guarda Nacional”. Acusação que, no dia seguinte, tinha formal contestação pelo comandante do Corpo de Marinheiros Nacionais, capitão-de-mar-e-guerra Rodrigo da Rocha.

Republicanos brasileiros inspiram-se na Irlanda

Desejosos de implantar no Brasil um sistema de governo que acabasse com as castas, com os ‘testas coroadas’, alguns republicanos buscaram nos irlandeses o modelo para a sua luta. Começaram por adotar a mesma denominação de ‘fenianos’, provinda do termo gaélico fiann e sob a qual os insurretos comandados por Cromwell enfrentavam a Inglaterra. E, no dia 8 de dezembro de 1869, na residência do Sr. Chuck, na rua da Assembléia, 39, era fundado o Clube dos Fenianos, que mascarava seus propósitos como sendo, apenas, recreativo e carnavalesco. Logo a seguir, para caracterizar bem a camuflagem, realizava seu primeiro baile num salão da referida rua, número 110. Empossava também, em 2 de agosto de 1870, a primeira diretoria presidida por José de Barros Penha.

Começava ao mesmo tempo sua campanha pró instalação da República e antiescravista, realizando em sua sede, já na rua do Teatro, 35, reuniões que tinham a participação de Silva Jardim, Lopes Trovão e outros líderes. Adotaram, então, como distintivo, as cores vermelha (guerra) e branca (do trevo shamrock usado pelos irlandeses). Criavam, ainda, o escudo do clube no qual, até hoje, embora modificado, estão o barrete frígio, o Sol e a harpa, simbolizando a liberdade, a luz e a harmonia.

Um ‘poleiro’ com muitos gatos

Humildes, no obstante a galhardia com que enfrentavam os potentados da época, deram ao local onde conspiravam um nome capaz de, casando a rebeldia à galhofa, mostrar sua disposição de luta. Segundo informe do veterano José Salgado, corroborado por outros velhos Fenianos tais como o Major Nunes Sobrinho e Pirolito (Arlindo Neves), atual presidente do clube, foi Lopes Trovão o criador da denominação. Falando da sacada da sede, trepado num caixote, teve a seguinte tirada oratória: “já que não temos uma tribuna para, de igual para igual, enfrentar nossos adversários, enfrento-os daqui, deste poleiro”. Batizava-se assim, para sempre, O reduto da brava gente feniana.

Local estratégico para os republicanistas que tinham os seus comícios nos largos de São Francisco de Paula e do Rocio (praça Tiradentes) dissolvidos por cavalarianos da Guarda Urbana, a sede era ótimo refúgio. Com duas entradas, uma pela rua do Teatro e outra pela Sete de Setembro, permitia a fuga, a debandada, quando policiais ali surgiam para dissolver suas reuniões clandestinas. Por essas duas portas, galgando com rapidez os degraus, vários gatos, certamente com fome, apareciam solicitando com miados lamuriosos algo para comer. Atendidos naquilo que imploravam ‘pandulho’ pesado, iam ficando e, bem tratados, acabaram, numerosos, indo a mais de uma centena, tornando-se em ‘móveis e utensílios’. Conseqüentemente os fenianos ganharam o apelido de ‘gatos’.

Um conflito turba o desfile

Fazendo seu primeiro Carnaval externo em 1870, juntamente com a Euterpe Tenentes do Diabo, Estudantes de Heidelberg, Inimitáveis e outras agremiações carnavalescas, os Fenianos assim prosseguem até hoje. Desse modo, em 1901, com um bonito préstito composto de 14 carros alegóricos e de crítica feitos pelo famoso cenógrafo Carrancini (que mais tarde foi substituído por Fiúza), os ‘gatos’ realizavam seu desfile.

Com as alvoroçadas ‘bichanas’ encarapitadas nos carros e jogando beijos aos que aplaudiam o cortejo, realizavam na terça-feira, 19 de fevereiro, sua passeata de encerramento da ruidosa festa de Momo na urbe carioca.

Já na rua do Ouvidor, ao cruzar a Gonçalves Dias, um grupo turbulento, que os Fenianos em nota pública, assinada pelo secretário Chester, disseram ser integrado por marujos, tentou obstar a passagem do clube. No ‘bafafá’ fácil de se imaginar, mulheres gritando, ‘gatos’ e atacantes em luta com cacetes, punhais e navalhas (consoante a nota citada), o préstito parecia não poder continuar a cumprir seu itinerário. Os ânimos, porém, foram serenados e as vistosas alegorias rebrilhando à luz dos fogos-de-bengala continuaram seu trajeto lenta e festivamente, puxadas por duas ou três parelhas de muares.

Depositários da tradição carnavalesca

Quase somando um século de existência, o Clube dos Fenianos tem no seu histórico não apenas vitórias nos prélios dos chamados dias gordos do reinado de Momo, mas, principalmente, cívicas e patrióticas. O distúrbio que tumultuou seu desfile em 1901 não o fez desertar das lides foliônicas, como queria o ardoroso ‘gato’ Manuel Cavanellas quando solicitou numa assembléia realizada em 21 de fevereiro do citado ano que “o clube nunca mais percorresse as ruas da cidade”.

O incidente, esclarecido de modo pleno pelo almirante Wandenkolk, Chefe do Estado Maior da Armada, que contestou a interferência nele de sua corporação, foi inteiramente esquecido. Para brilhantismo de nossa festa máxima, assegurando ao nosso Carnaval o título de ‘o melhor do mundo’, Fenianos, ao lado dos Tenentes e dos Democráticos, são os depositários da tradição carnavalesca carioca.

Com seus préstitos alegóricos, hoje pequenos e modestos, mas que dão continuidade aos outrora realizados por artistas como Carrancini, Fiúza, André Vento, Manoel Faria e outros, revivem as glórias dos áureos tempos. Trazem gratas recordações do ‘poleiro’ na rua do Teatro e na travessa Flora (agora São Francisco de Paula) onde pontificavam Minó, Bouvier Virosco, Chabi, Faz Tudo e muitos mais. Confirmam, também, a crença de que os ‘gatos’ têm sete vidas.

(O Jornal, 26/01/64)
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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

quinta-feira, março 08, 2012

Clélia, a rainha do Carnaval

Na segunda-feira "gorda", Carnaval de 1929, Clélia Affonso empunhando o estandarte, aparece
entre os demais componentes do enredo apresentado pelo Rancho Caprichosos da Estopa.

Quem a vê, hoje, de avental branco, entregue aos seus afazeres no 19º Distrito de Puericultura, instalado na rua do Rezende, nem de longe supõe que ela já foi ‘rainha’. E três vezes: dos ‘caprichosos’, dos ranchos e do Carnaval. Mas, os velhos carnavalescos, aqueles que vêm dos ‘bons tempos’ de nossa famosa festa popular, quando os ranchos eram a grande atração do tríduo momesco, não esqueceram a Clélia Affonso.

Recordam-na garbosa, triunfal, empunhando o bonito estandarte de seu grêmio na renhida disputa da segunda-feira gorda, empolgando a massa humana que enchia a avenida Rio Branco e recebendo os mais frenéticos aplausos.

Isto aconteceu durante vários anos, quando o Caprichosos da Estopa, enfrentando o Ameno Resedá, o Recreio das Flores, o Flor do Abacate, o Miséria e Fome e mais alguns ranchos famosos, tinha-a como condutora de seu pavilhão. Depois, nas festas comemorativas das vitórias alcançadas, era ainda ela quem, no ‘tear’ (nome dado à sede da agremiação), fazia os discursos gratulatórios exaltando tais conquistas e saudando os representantes da imprensa ali presentes.

Possuía, assim, a par da elegância que exibia nos volteios coreográficos durante os desfiles, a ‘bossa’ oratória vibrante e entusiasta de grande efeito nas aludidas solenidades.

De pequenino é que se começa

Filha de um denodado carnavalesco, o Álvaro José Affonso, foi ele mesmo quem a levou para o Caprichosos da Estopa, rancho fundado pelos tecelões da Fábrica Corcovado. Garotinha, entre os seus oito ou nove anos, Clélia tomava parte nos cortejos alegóricos, figurando nos carros que integravam seus enredos. Jogando beijos para retribuir as palmas e os vivas que iam conquistando desde a saída, na rua Conde de Irajá, a menina, já pondo à prova sua fibra foliônica, chegava à avenida esperta, sem se deixar vencer pelo sono ou demonstrar cansaço.

Mocinha, tornando-se uma das mais ardorosas ‘caprichosas’, imbuída do espírito momístico que K. Tuca (apelido de seu pai) lhe impregnara, teve, então, a honrosa incumbência de ser a porta-estandarte do rancho. Conduzida por exímios mestres-salas, dentre os quais Theodoro e Bororó, exibia-se com grande maestria nas evoluções coreográficas ao ritmo das bonitas e pomposas marchas compostas por Pedro Paulo, Bomfiglio de Oliveira, Sebastião Cyrino e outros.

Bem merecia, portanto, a ‘realeza’ depois conquistada em sua agremiação, no conjunto dos ranchos existentes e no próprio Carnaval, onde começou a brilhar bem cedo, antes de atingir a primeira dezena de anos.

Clélia, ‘rainha’ de três tronos

Caricatura de Mendez,
Diário de Notícias/1931
Queridíssima no ‘tear’, foi sempre colaboradora incansável e denodada de seus vários triunfos nas competições que Vagalume, Meúdo, Picareta e A. Zul, cronistas carnavalescos do Jornal do Brasil, promoviam sob o patrocínio desse matutino. Os ‘caprichosos’ à vista disso e por indiscutível justiça, resolveram fazê-la sua ‘rainha’. O grêmio dos operários foliões de uma fábrica de tecidos, que buscaram na estopa resultante da fiação o título para seu rancho, demonstrava na concessão de tal honraria o quanto amavam sua garbosa porta-estandarte.

Mais tarde (1932-33) impondo-se à admiração das agremiações rivais, aquelas que o Caprichosos da Estopa tinha como adversárias temidas nos prélios momescos, também essas escolhiam Clélia Affonso para ‘rainha’ delas todas. Davam-lhe, desse modo, durante dois anos, uma terceira coroa. Antes (1928 e 1929), como atesta a bonita medalha de ouro que ela guarda como relíquia, juntamente com a faixa da ‘realeza’ dos ranchos, já havia sido eleita, por igual período, Rainha do Carnaval.

A menina que se iniciara nas lides foliônicas sentada em precários banquinhos de carros alegóricos ganhava, mocinha, como recompensa, três imponentes tronos.

A ‘rainha’ transfere-se para o ‘cassino’

As desavenças e cisões, ainda hoje costumeiras nos grêmios carnavalescos, fizeram certo dia, a ‘rainha’ abandonar o Caprichosos da Estopa. Lia-se, conseqüentemente, no Diário Carioca, em 1935: “... A embaixada do Benjamim, depois que a graciosa Clélia Affonso tomou conta da defesa do pavilhão do ‘cassino’, está enfezada...“. A já então famosa porta-estandarte ingressara no Lírio Clube, da rua São Clemente, ausentando-se do ‘tear’ que nessa época estava instalado na rua da Passagem. Perda por todos lamentada, principalmente pelo Covinha (Osvaldo Viana), mestre de canto e baluarte da sociedade que perdia tão valioso elemento.

Em seu novo rancho, requestada por todo o quadro social, envaidecendo o Ayres, presidente, por tão importante aquisição, apareceu no certame do Jornal do Brasil com a mesma ufania de antes. Trajava ricas fantasias feitas com idêntico luxo, iguais ou mais vistosas do que as trabalhadas por Natalina, Dolores e Dominguinhos ao tempo de sua permanência nas hostes dos ‘caprichosos’. E, ao ritmo de outras marchas, ainda bonitas e imponentes, tendo como autores Pedro Paulo, Bomfiglio, Cyrino, sempre procurados pelos ranchos, voltava a arrancar aplausos delirantes.

Uma ex-’rainha’ serve à puericultura

Hoje, sem ter conseguido invalidar o que dela disse o cronista K. Rapeta (Arlindo Cardoso) no já citado Diário Carioca, em 1932: “... Clélia Affonso tonteia todo mundo com a sua beleza e gentileza...”, a ex-’rainha’ ainda é entusiasta do Carnaval. Embora os ranchos estejam em inferioridade, sobrepujados pelo fausto das escolas de samba, vai vê-los em seu desfile tradicional. Dá-lhes o seu aplauso cheio de recordações gratas do tempo em que, sendo personagem de destaque dessas paradas músico-alegóricas, pisava com graciosidade o asfalto levada pela mão gentil de um mestre-sala cavalheiresco.

Cedinho, sem aquelas atribulações que, antes, a proximidade do Carnaval lhe trazia nos preparativos das fantasias, nos ensaios das marchas, marca agora o ponto em sua repartição, servindo à puericultura através de um de seus distritos. Ficou longe, mas nunca olvidado, o seu tempo de porta-estandarte quando galhardamente tinha como competidoras a Elisa, do Ameno Resedá, a Rosinha, do Lírio do Amor, e outras, todas sempre leais, amigas, buscando apenas a vitória carnavalesca. Tudo muito grato de recordar à presença de troféus (uma medalha, uma faixa, retratos) guardados carinhosamente.

(O Jornal, 17/02/63)
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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

K. Veirinha e o Bola Preta

K. Veirinha
Nas proximidades do Carnaval que, naquela época (1918), começava a ferver desde outubro nos festejos da Penha, o folião K. Veirinha erguendo seu copo de chope resolveu desafiar o chefe de polícia: “Vamos formar um cordão!” E, mostrando sua disposição de luta contra a autoridade, concluiu: “Ele disse que vai fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha! O nosso é de bola preta!”

Toda a turma, já com duas ou três altas pilhas de cartões na mesa, topou a parada e resoluta, pondo em alvoroço o Bar Nacional, da famosa Galeria Cruzeiro, prorrompeu em vivas seguidos.

Nascia, desse modo, em meio de uma reunião boêmia, que acontecia normalmente, todas as tardes, o já hoje tradicional Cordão da Bola Preta, conhecido em todo o Brasil e também no estrangeiro. Ficava, igualmente, consagrado como folião, pois que já o era desde rapazola, o Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido no Clube dos Democráticos como Trinca Espinha, apelido mais tarde substituido pelo de K. Veirinha.

À guisa de biografia

Antigamente, todos os associados de destaque dos grêmios carnavalescos adquiriam um pseudônimo sempre precedido de aristocrático Iord. Assim, Álvaro de Oliveira que, ainda garoto, de menor idade, conseguiu ser sócio dos Democráticos quando o alvinegro tinha sede no largo do Machado, ganhou a sua alcunha. Deram-na, mais tarde, já na rua do Hospício (hoje Buenos Aires), para onde o clube se transferiu, uma bem divertida: Lord Trinca Espinha. Continuou com ela na rua dos Andradas e também na do Passeio, locais em que os valorosos ‘carapicus’ estiveram instalados.

Só em 1918, depois da terrível epidemia da ‘influenza espanhola’, da qual, conseguindo escapar, ficou, no entanto, bastante magro, esquelético, perdeu sua antonomásia. Um amigo vendo-o em tal estado exclamou: “Puxa! Você parece uma caveira”. À tarde, na costumeira chopada do Bar Nacional, a turma homologou definitivamente o apelido: “Viva o K. Veirinha!” Nunca mais se deixou de chamá-lo por esse diminutivo ou de completar o seu verdadeiro nome com ele: “o Álvaro K. Veirinha”.

K. Veirinha enfrenta o chefe Leal

Carnavalesco de quatro costados, integrante de um grupo do qual faziam parte, entre outros, os irmãos Oliveira Roxo (Jair, Jorge e Joel), Chico Brício, Archimedes Guimarães (Fala Baixo), Álvaro de Oliveira era desassombrado. Ao ler nos jornais uma portaria do chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal, achou o momento propício para mostrar sua coragem. Rigorosa, ameaçadora, a publicação dizia: “Os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão as suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei”. Proibia, ainda, mais adiante, de maneira igualmente decisiva, a fundação de grupos similares.

Longe de se amendrontar e disposto a topar uma parada com o ‘chefão’ temido, o grupo das alegres reuniões chopísticas de um dos bares da Galeria Cruzeiro seguiu coeso o líder K. Veirinha. Iriam, todos, desobedecer o mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na rua dos Passeio, e na noite de 31 de dezembro de 1918 com um ‘maxixético e rebolativo baile’ (como era de praxe qualificar-se as festas dançantes carnavalescas) consumavam a deliberação. Iniciava, assim, o hoje famosíssimo Cordão da Bola Preta a sua brilhante e vitoriosa trajetória.

Tradição da Bola Preta

O sucesso da noitada de nascimento do Cordão da Bola Preta, com o salão apinhado e a fachada do clube feericamente iluminada, abriu-lhe caminho fácil nos meios carnavalescos. Seus iniciadores (K. Veirinha, Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros) puderam levar avante o foliônico grêmio sempre com seus bailes excessivamente concorridos. Sem instalação definitiva, realizando seus fandangos na rua 13 de Maio, no Palace Clube, na Cinelândia, num salão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, acabou, por fim, rico e poderoso, com a sede própria que ora possui.

Álvaro de Oliveira viu, desse modo, triunfar a sua iniciativa ao mesmo tempo que se firmava uma tradição levando o nome do cordão até às ‘estranjas’ como fator preponderante do fascínio de nosso Carnaval. Os turistas que aqui chegam para conhecer o nosso famoso tríduo de Momo desembarcam na Praça Mauá ou no Galego perguntando pelo baile do Teatro Municipal e também pelo do ‘Bôle Preete’. Coisa que, inegavelmente, apesar de seu feitio boêmio, desprendido, envaidece o K. Veirinha, fundador e sócio número um, benemérito, na prestigiosa agremiação.

Saudosista mas não muito

Afastado das homéricas ‘farras’ dos áureos tempos em que o Carnaval carioca conseguia dividir durante o ano inteiro a cidade em três facções: ‘baetas’, ‘gatos’ e ‘carapicus’, Álvaro de Oliveira é, agora, um homem tranqüilo. O folião K. Veirinha hoje é apenas um assistente da festa de Momo. As vezes, matando saudades, aparece no cordão e vê seus consócios vibrando, entoando o hino feito pelo maestro Vicente Paiva e Nelson Barbosa para em polgar a moçada: “Quem não chora no mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou, então, no Bola Preta”.

Recorda, vendo a animação reinante, os bons tempos. Lamenta não encontrar ali a ‘velha turma’, em grande parte desaparecida ou, como ele, fora da ‘linha de fogo’. Orgulha-se, porém, de ver o seu cordão vibrante, nascido de uma rebeldia momentânea, resultado de desobediência ao ‘chefão’, abrilhantando de maneira decisiva a maior festa da Cariocolândia. Caminhando para o meio século de existência o Cordão da Bola Preta, sólido e vitorioso, faz também (reconhece ele feliz e exultante) a consagração de seu apelido: K. Veirinha.

(O Jornal, 27/01/63)
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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.