sexta-feira, março 23, 2012

Glorinha Gadelha

Glorinha Gadelha - 1981
Glorinha Gadelha (Glória Gadelha), cantora e compositora, nasceu em Sousa, PB, em 19/2/1947. Formada em Medicina, fez curso de Linguagem Musical na Colúmbia University, em Nova York. Foi casada com o cantor, compositor e instrumentista Sivuca.

Em 1968, iniciou sua carreira apresentando-se no programa A Grande Chance, da TV Tupi, onde se destacou como compositora. Em 1969, venceu o III Festival de Música Popular Paraíbana/I Festival da Música Popular do Nordeste promovidos pela TV Jornal do Comércio.

Entre 1971 e 1973, atuou no Instituto Superior de Educação Musical da Paraíba, em atividades didáticas e na produção de shows. Em 1974, lançou o livro O bailado das sardinhas. Em 1975, foi estudar linguagem musical na Colúmbia University de Nova York.

Em 1976, gravou como cantora a música Amor em Jacumã em disco do baterista Dom Um. Em 1977, regressou ao Brasil realizando uma série de shows. Em 1981, lançou o LP Bendito o fruto, com participação de Elba Ramalho e Hermeto Pascoal.

Entre 1984 e 1989, realiza uma série de shows no Brasil e no exterior, obtendo destaque na Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia. Em 1991, realiza shows pela Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Suíça e Áustria.

Em 1992, gravou LP contando com a participação de Zé Ramalho, cantando Teima-teima e A inacabada para o povo brasileiro. Realizou turnê pela Europa com Sivuca. Participou como cantora do songbook de Dorival Caymmi, interpretando a música Roda pião. Em 1999, gravou CD que foi lançado no Teatro Rival no Rio de Janeiro.

Obras

A inacabada para o povo brasileiro (c/ Zé Ramalho), A mulher do sanfoneiro, Alagamar (c/ Sivuca), Arco-íris (c/ Sivuca), Barra vai quebrando (c/ Sivuca), Bate, tome, toca e cai (c/ Sivuca), Bendito o fruto, Brejo das freiras (c/ Sivuca), Caboré molhado (c/ Sivuca), Canção Piazzolada (c/ Sivuca), Capoeira poeira (c/ Sivuca), Cheirinho de mulher, Cheirinho de mulher (c/ Sivuca), Como é grande e bonita a natureza, Da asa do sonho da menina, Dançando em Pipirituba (c/ Sivuca), Dino pintando o sete cordas (c/ Sivuca), Doce doce (c/ Sivuca), Energia, Energia (c/ Sivuca), Estranho vanerão (c/ Sivuca), Eu gosto desse moço (c/ Sivuca), Eu gosto desse moço, Fava de cheiro (c/ Sivuca), Feira de Itabaiana (c/ Sivuca), Feira de Mangaio (c/ Sivuca), Feira de São Cristovão (c/ Sivuca), Forró chorado (c/ Sivuca), Forró e frevo (c/ Sivuca), Forró em Santa Luzia (c/ Sivuca), Forró na gafieira (c/ Sivuca), Frevo sanfonado (c/ Sivuca), Furiosa de Quipapá (c/ Sivuca), Guararema (c/ Sivuca),  Guerra das andorinhas (c/ Sivuca e Afonso Gadelha), Imburana pau-de-abelha (c/ Sivuca), Jazz tupiniquim (c/ Sivuca), Les joies du matin (c/ Sivuca), Nunca mais eu vi esperança (c/ Sivuca), O baile de Bio Laurinda (c/ Sivuca), Onça Caetana (c/ Affonso), Que par seria (c/ Sivuca), Sábado em Jaboatão (c/ Sivuca), Samburá de peixe miúdo (c/ Sivuca), Sanhauá (c/ Sivuca), São João de Sapoti (c/ Sivuca), Tás cochilando, Zé? (c/ Sivuca), Te pego na mentira (c/ Sivuca), Teima-teima (c/ Zé Ramalho), Vale do Rio do Peixe (c/ Sivuca)

Discografia

([S/D]) Dengo maior • LP
(1999) Ouro e mel • CD
(1992) Tudo que ilumina • Kuarup • LP
(1984) Let's vamos • LP
(1982) Bendito o fruto • LP

Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.

O tema escravatura na música popular

Escravatura: tema de poesia condoreira e de música popular. Se a escravatura teve entre os que a combatiam a lira de Castro Alves anatemizando-a numa poética solene, faustosa, por isso mesmo classificada de épica e condoreira, contou também com bardos menores engajados na causa.

O cantor de Navio Negreiro, no entanto, por ser o mais vigoroso, o de maior destaque, deixou o seu nome solidamente ligado à campanha abolicionista. E, até hoje, vencido mais de meio século após a assinatura da Lei Áurea, seus versos ainda repontam em constantes evocações.

Mas o desaparecimento das senzalas, a libertação do trabalhador negro, não encerrou um tema, não matou um assunto capaz de inspirar, como vem inspirando, poemas e mesmo simples poemetos. Conseqüentemente, acabou sendo mote inesgotável para os cultores da música popular. Não só da de característica pura, sem burilamento, mas, do mesmo modo, dessa que, embora com algum revestimento de erudição, não perde sua marca para o povo. Daí muitos de nossos bons compositores: Ary Barroso, Heckel Tavares, Custódio Mesquita e tantos outros, terem explorado com bastante brilho tão rico e farto filão.

Castro Alves, o condoreiro

Poeta alegórico, de versos flamejantes, pomposos, recorrendo comumente a figuras de grande efeito literário, Castro Alves, a quem se deu a classificação de condoreiro para significar a altura de seus poemas, legou à posteridade sugestiva gama de aspectos da escravatura. A simples, mesmo despreocupada leitura de Navio Negreiro, Canção do Africano, Vozes d’África, etc., sugere caminhos, ilações para novos cantares. Sugestões que não passaram despercebidas e foram sabiamente utilizadas pelos compositores do gênero popular.

O vate baiano ferreteando a escravatura descrevia também, clara e precisamente, a sua ambiência: “... Lá na úmida senzala,/ Sentado na estreita sala,/ Junto ao braseiro, no chão,/ Entoa o escravo o seu canto,/ E ao cantar correm-lhe em pranto/ Saudades do seu torrão.” Evidentemente que tão nítido e exato quadro poderia ser tornado em canção popularesca acompanhando mesmo ipsis litteris versos e rimas, os quais, embora da lavra de um poeta de vôo alto, símile ao do condor, se ofereciam ao alcance de qualquer um.

A descendência fiel à origem

Trazida do continente afro pelas “legiões de homens negros como a noite”, a música entoada pelos escravos (a qual se deu a denominação genérica de samba) fixou-se em definitivo no Brasil. Isto se deveu em boa e notória parte aos descendentes próximos e mesmo um pouco distantes daquela gente tida como “alimária do universo”. Foram eles, negros brasileiros, depois mesclados em cafusos e mulatos, que continuaram cantando e dançando a moda de seus antecessores com quem aprenderam ou simplesmente espiaram como e o modo de o fazer.

Comprovação fácil e abundante do que acima ficou dito é encontrada no cancioneiro popular, mesmo o citadino, de fins do século dezenove e ainda no dos primeiros decênios do atual. Os sambistas da chamada velha guarda não só procuravam ser fiéis ao ritmo com o instrumental primitivo de percussão (ganzá, puita, tabaque, reco-reco, etc.) mas, igualmente, conservando a linha melódica. Afora isso, como querendo marcar bem a origem de seus cantares, punham em seus ver- sos termos e refrãos verdadeiros ou assimilados dos dialetos africanos: “Ocubábá gelê”, “quequê-quêrequê... ô gânga”, e o “ojô, ojô, cocorô”, usado por Donga e Pixinguinha em O Malhador; samba nascido em 1913 e revivido no Carnaval de 1963.


Escravos, tema sempre válido

Sucedendo à geração dos velhos sambistas, filhos, netos ou ligados a escravos e seus descendentes, uma outra, já rotulada de compositores populares, mas que ainda vinha nas pegadas da antecessora, sentiu a validez do tema escravatura. Alguns de seus componentes, com iniciação cultural e mesmo ralando pelo erudito, não deixaram morrer um assunto capaz de sempre ser trazido à tona em muitos de seus aspectos. Cantar-se-ia o sofrimento, o labor, a dedicação, o amor, a vida enfim do preto escravizado, juntando-se música e letra que a um só tempo retratasse e até alcandorasse o negro escravo.

Uma após outra, desfrutando a era da fonografia, encontrando campo propício à divulgação, foram surgindo sob várias formas canções populares em que a escravatura era o mote. Algumas, mesmo bem feitas, não lograram êxito que as consagrasse, outras, porém, aí estão dominantes, ouvidas em muitas audições das rádios e tevês, esgotando também os sucessivos lançamentos das chapas de diversas rotações onde são gravadas. Citar-se-á para simples e sucinto exemplo: Terra Seca (“Trabalha, negro, trabalha.”) de Ary Barroso, Algodão (“nêgo num cantava não...“), de Custódio Mesquita e David Nasser, e Mãe Preta, (“velha, encarquilhada, carapinha branca...“) de Caco Velho e Piratini.

Símbolos que as canções consagraram

Claro está que ao cantar das ruas, à música fácil de ser entoada e retida não se deve a consagração da mãe preta e do pai João, símbolos venerados e representativos da escravatura. Mais do que as histórias relatadas nos versos das composições populares glorificando o negro prevalece o documentário que Ruy Barbosa, em 1890, pedia fosse destruído para apagar a triste mancha de nossa história. Impõe-se também, ainda vigorosa e solene, a poesia épica, condoreira, de Castro Alves trazida até aos nossos dias e inapelavelmente revivida ao ensejo das comemorações do 13 de maio.

Tema inspirador de um sem número de canções, a escravatura no seu imenso drama que só veio a findar em 1888 com o gesto heróico e resoluto de Isabel, a Redentora, ele aí está ainda pedindo e sugerindo novos poemas nos quais música e versos despretensiosos revigorem sua eternidade. Manancial inesgotável dará sempre aos poetas — quer sejam condoreiros ou de vôo rasante o ensejo de bonitas e ternas composições na mesma trilha glorificante do negro, isto é, exaltando sua humildade, seu trabalho, sua dedicação.

(O Jornal, 10/5/1964)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

quinta-feira, março 22, 2012

O pandeiro de João da Baiana

João da Baiana
O pandeiro que Pinheiro Machado me deu tem trânsito livre”. Isso mesmo. Depois que o João da Baiana ganhou um pandeiro bacana (de cedro e couro de lei), presente do senador General Pinheiro Machado, nunca mais a polícia lhe tomou o instrumento. A inscrição nele gravada: “Com a minha admiração, ao João da Baiana, Pinheiro Machado”, outorgou-lhe imunidades, deu-lhe trânsito livre. Voltou anos seguidos à festa da Penha integrando o conjunto do Malaquias e de outros musicistas sem que qualquer autoridade o embargasse.

Por isso mesmo, até hoje, decorrido mais de meio século, pois o pandeiro lhe foi dado em 1908, João da Baiana guarda-o como verdadeira e preciosa relíquia da qual proclama com muito orgulho o seu valor. Outros pandeiros existem no humilde quarto onde, na estação de Parada de Lucas, subúrbio da Leopoldina Railway, mora o autor de Mulher cruel. Mas o que o famoso parlamentar gaúcho mandou confeccionar para lhe oferecer tem foros de troféu digno de carinhosa veneração.

João, o da baiana

Nascido na Rua Senador Pompeu, n.° 288, no mês de maio, aos 17 dias de 1887, João Machado Guedes, filho de Presciliana Guedes, desde garoto tornou-se conhecido como João, o filho da baiana. Mais tarde, na adaptação da desinência que servia para identificá-lo entre a meninada, popularizou-se como João da Baiana e é assim conhecido e benquisto em toda esta Cidade de São Sebastião. Criou também o seu tipo elegante sempre de gravata à pintor (ou poeta) e cravo na lapela.

Das recordações gratas de sua “infância querida que os anos não trazem mais”, como cantaria o poeta Casemiro de Abreu, João tem, bem vivas, as de suas diabruras. Delas participaram como companheiros os meninos Donga (Ernesto dos Santos), Amor (Getúlio Marinho), Caninha Doce (José Luiz de Moraes), Heitor dos Prazeres, Sinhô (José Barbosa da Silva) e alguns outros. Com eles, já rapazola, batendo seu pandeiro, sambando no meio de uma roda, tirando versos, veio a tornar-se uma das figuras representativas de nossa música popular. Daí ter justo e merecido lugar na velha guarda entre os já citados e aos quais se juntou o celebrado Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna) um pouco mais moço do que eles.

Sambista e de circo

Embora seu nome avulte como sambista e exímio tocador de pandeiro, e não é só isso. Têm no rol de suas composições várias de marcante êxito quais sejam: Mulher Cruel (1924), Pedindo Vingança (1925), Desacordo no Lar (1926), Deixa Amanhecer (1928), Carnaval Sedutor (1930) e mais algumas. Soma ainda outras qualidades. Proclama-se Babalaô de Orixá, da linha nagô e filho de cabeça dos afamados pais-de-santo João Alabá e Abedé. Acumula também pendores de pintor paisagista. Assim já participou de algumas exposições e dentre elas as levadas a efeito por artistas de rádio na ABI e Câmara dos Vereadores com o concurso de Caymmi, Gastão Formenti e Heitor dos Prazeres.

Como se não bastasse, e para solidificar sua personalidade, João da Baiana foi de circo. Meninote, na idade em que se está disposto a topar qualquer aventura, conseguiu um lugar de pataqueiro no Circo Spinelli situado na Ponte dos Marinheiros (atual Rua Figueira de Mello). Ali tinha como serviço enrolar e desenrolar tapetes, carregar petrechos dos artistas. Conheceu então Benjamin de Oliveira, o palhaço Pompílio, a família Pery e muitos outros ases do picadeiro, peritos nos truques de fazer rir e capazes de assombrar o respeitável público com suas provas arrojadas.

João no Morro da Graça

Quem apresentou João da Baiana ao homem que, segundo Costa Porto em seu livro Pinheiro Machado em seu Tempo era o árbitro dos rumos nacionais, foi Darino, da Saúde e José da Rocha Soutello. Ambos eram chefes políticos no bairro da Saúde (agora Rua Sacadura Cabral) e dispunham de numeroso eleitorado que sufragava os recomendados do senador gaúcho. Depois disso, fazendo parte do conjunto do Malaquias que sempre era chamado para animar as festas na casa do Morro da Graça em que residia o fogoso parlamentar, João lá voltou muitas vezes. E tanto ele como seus companheiros eram sempre cordialmente recepcionados pelo anfitrião.

Aconteceu, porém, que por não ter pandeiro, pois a polícia tomara-o na festa da Penha, João da Baiana não pôde comparecer a uma dessas tocatas na casa do general. Estranhando a ausência do pandeirista que já o tinha como fã admirando a destreza rítmica de sua batida no instrumento, e informado do motivo disse: “Mande ele me procurar lá no Senado.” No dia seguinte, pressuroso, João se apresentou no casarão da Rua Areal (agora Moncorvo Filho). Foi quando recebeu das mãos de Pinheiro Machado, em papel timbrado, a ordem para que O Cavaquinho de Ouro, na Rua da Carioca, fizesse um pandeiro e nele gravasse: “Com a minha admiração, ao João da Baiana — Pinheiro Machado.”

Presente que se tornou relíquia

Alvo de tão significativa distinção, a de ser presenteado com um pandeiro de excelente qualidade pelo grande vulto da República “a cujo aceno se movimentava a maioria parlamentar no votar ou recusar leis”, tem cabimento a vaidade de João da Baiana em classificar tal instrumento de relíquia. Com ela, orgulhoso, voltou à Pedra do Sal, lugar que até hoje freqüenta e encontra velhos e novos amigos, para a fixação de uma expressiva foto provocadora de muitas recordações.

Desse tradicional logradouro, antigo quartel general do samba, saiu o Concha de Ouro, primeiro rancho que abrilhantou os folguedos do Carnaval carioca e onde João da Baiana, Donga, Pendengo, Getúlio Marinho e mais alguns garotos figuraram como porta-machado. Nele também fixa-se o alicerce de nossa música popular. Ali viveram de par com sambistas fiéis ao ritmo trazido pelos baianos pioneiros, dentre os quais Hilário Jovino Ferreira, os mais hábeis capoeiras que ensinaram ao rapazola Machado Guedes as artimanhas de esquiva e ataque num jogo em que, antes de tudo, prevalece a destreza.

Só não aprendeu ali a tocar pandeiro porque isto João teve mestra em casa, sua genitora, a baiana Presciliana.

(O Jornal, 26/4/1964)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.