terça-feira, março 19, 2013

Almir Bezerra

Almir Bezerra (Almir Ferreira Bezerra), cantor, compositor e instrumentista (guitarrista), nasceu em Recife PE, em 1945. Em 1964 foi um dos criadores do conjunto The Fevers, que alcançou grandes sucessos no movimento Jovem Guarda. Em 1969 teve sua primeira composição gravada pelos Fevers, Ela.

No ano seguinte foi a vez de Esse mundo louco e Você morreu pra mim, parceria com Miguel e Rossini Pinto. Entre outras músicas de sua autoria gravadas pelo conjunto The Fevers estão O amor é a razão, O tempo vai passar e Não quero te perder.

Em 1982 lançou seu primeiro disco solo, Ainda existe amor, com entre outras, Enquanto eu viver e Uma carta, parcerias com Rossini Pinto e Anjo da noite, de Paulo Massadas, Michael Sullivan e Rossini Pinto.

Em 1983 lançou o LP Bate forte no peito, com duas parcerias com Rossini Pinto, Só o seu cafuné e A saudade que ficou, além de Velejar, de Fernando Augusto e Antônio Damasceno, entre outras.

Em 1986 lançou o LP Ritmos do coração no qual interpretou diversos clássicos da música romântica brasileira, entre as quais, Apelo, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, A noite do meu bem, de Dolores Duran, Vingança, de Lupicínio Rodrigues e Fracasso, de Mário Lago. No ano seguinte gravou Ritmo do coração volume II, cantando Ouça, de Maysa, Marina, de Dorival Caymmi e Balada triste, de Esdras Silva e Dalton Vogeler, entre outras.

Em 1988 lançou Ritmo do coração volume III, Nossos momentos, de Luiz Reis e Haroldo Barbosa, Atiraste uma pedra, de Herivelto Martins e David Nasser e Deixei de te amar, de sua autoria e Pedrinho, entre outras. Em 1995 participou com o conjunto The Fevers das comemorações dos 30 anos da Jovem Guarda.

Obras

A gente era feliz e não sabia, A melhor coisa do mundo, A saudade que ficou (c/ Rossini Pinto), A vida é curta demais (c/ W. Barnes), Alô! Como vai você (c/ Hugo Belardi), Benvindo, De que vale tanto amor (c/ Miguel e Rossini Pinto), Deus (c/ Costa), Ela, Enquanto eu viver (c/ Rossini Pinto), Esse mundo louco, Eu já sei de tudo (c/ Sandro e Pinto), Farei você feliz (c/ Pedrinho), Meus erros (c/ Maxine e Costa), Não consigo viver sem você (c/ Pinto e Camillo), Não é verdade (c/ Miguel e Cleudir), Não quero te perder, Não vivo na solidão (c/ Pedrinho), Ninguém vive sem ninguém, O amor é a razão, O tempo vai passar, Porque lhe amo, Prisioneiro, Sha la la la la te amo (c/ Rossini Pinto), Só o seu cafuné (c/ Rossini Pinto), Sonho de amor, Um pouco de você, Uma carta (c/ Rossini Pinto), Vida ideal (c/ Homero), Você morreu pra mim (c/ Miguel e Rossini Pinto), Você vai pagar (c/ Rossini Pinto).

Discografia

(1988) Ritmo do coração. Volume III • Arco-Íris Discos • LP
(1987) Ritmo do coração. Volume II • Arco-Íris Discos • LP
(1986) Ritmo do coração • Recarey • LP
(1983) Bate forte no peito • Standard/EMI-Odeon • LP
(1982) Ainda existe amor • Standard/EMI-Odeon • LP

Fontes: Dicionário Cravo Albin da MPB; Enciclopédia da Música Brasileira – Art Editora.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

O primeiro Momo do Carnaval carioca

“Depois de ter sido boneco, Momo passou a ser gente e vai ter carteira de saúde”.

Deus zombeteiro, pândego, amante da galhofa, filho do sonho e da Noite, e que por seu comportamento irreverente foi expulso do Olimpo, como informa a mitologia, Momo é representado levantando a máscara e tendo na mão o cetro da soberania. Foi exatamente assim que o caricaturista Henrique Fleiuss o figurou em 1862 na sua Revista Ilustrada.

Muitos anos mais tarde, em maio de 1913, quando se exibia no Circo Spinelli, no boulevard 28 de Setembro, a peça Cupido no Oriente, o famoso palhaço negro, além de ser o autor interpretava o papel do ‘galhofeiro Momo’. Apresentado em traço caricatural, feito personagem teatral num picadeiro e depois concebido como ‘rei’, o carioca resolveu trazer esse alegre ‘monarca’ para presidir os festejos carnavalescos. Primeiramente exibiu-o como um boneco de papelão, que desfilou pela nossa principal avenida aclamado e alvejado por serpentinas. Depois, em carne, osso e gordura, fez igual passeio e teve a mesma recepção festiva.

Agora, neste expirante 1967, após o ‘soberano da folia’ ter sido encarnado por turfista, pasteleiro, jornalista, publicista e até agente funerário, a lei nº 1.455, de 12 do mês findo, dá-lhe foro oficial, conforme dispõe em quatro artigos e parágrafos. Teremos, já no próximo Carnaval, um Momo com 100 quilos (ou mais), medindo o mínimo de 1 metro e 65 centímetros e maior de 21 anos (sem exceder os 50).

Juntando-se ainda ao rol das exigências “ser portador de reconhecida idoneidade moral, exercer qualquer função condizente com a dignidade humana” e “apresentar atestado de saúde recente”, afora “possuir espírito carnavalesco comprovado”. Requisitos não muito fáceis de atendimento total, capazes de provar quanto custa a um ‘rei’, mesmo de brincadeira, pôr uma coroa que o sambista afirma “não ser de ouro, nem de prata, mas de simples lata”.

Nasce um ‘rei’

O primeiro Rei Momo não nasceu em maternidade alguma. Sua delivrance aconteceu na praça Mauá dentro da redação de A Noite em janeiro de 1933. Vasco Lima, gerente do movimentado vespertino, Fritz (Anísio Mota), caricaturista e mais o Palamenta (Edgard Pilar Drummond), cronista de esporte, e de Carnaval, foram os criadores do ‘monarca’.

Francisco Moraes Cardoso, redator de turfe, altão e gorducho, ao ser convidado por Vasco para representar Momo ao vivo topou prontamente a idéia. Como, devido ao volume do escolhido ‘rei’, não encontrassem em A Bola de Ouro (que alugava fantasias e roupas de gala) indumentária capaz de acondicionar altura e gordura do ‘soberano’, Fritz incumbiu uma costureira de teatro de confeccioná-la.

Na noite de 18 de fevereiro de 1933, Moraes Cardoso figurando com vistoso vestuário (inclusive coroa e cetro) S.M. Rei Momo, Primeiro e Único desembarcava com grande solenidade do vapor Mocanguê, alegando estar chegando de um país imaginário. O numeroso povo que A Noite em sucessivas notícias (escritas pelo hoje ‘imortal’ Raimundo M. Junior e pelo Palamenta) fez convergir para a Praça Mauá, com vivas e palmas recebeu calorosamente aquele que vinha reinar em nosso Carnaval.

Dali, Rei Momo refestelado em bonito carro a Daumont (que muitas vezes servira ao barão de Rio Branco e fora trazido de Petrópolis por Vasco Lima) rumou pela avenida Rio Branco num grande cortejo sempre sob aplausos entusiásticos. Estava então criado a personagem real que desse ano em diante veríamos presente em toda a temporada carnavalesca pontificando nos bailes, participando dos desfiles. E, como é natural, dando autógrafos, lançando proclamações folgazãs, designando-se na primeira pessoa do singular: “Eu, Rei Momo, resolvo, determino, ordeno...“

Outros ‘reis’ nasceram

Com a morte de Moraes Cardoso, depois de ter sido durante alguns anos Rei Momo, em companhia de seu secretário Pipoca (o ator Henrique Chaves) firmou-se a tradição no Carnaval carioca da continuação da figura do ‘soberano’. Sucederam-no, portanto, novos ‘reis’, dentre os quais Gustavo de Matos, Nelson Nobre, Joaquim Menezes, Abrahão Haddad e outros. Todos eles apresentaram como característica principal para a personagem a gordura e relativo espírito carnavalesco. Procuraram também observar o desembaraço e a movimentação necessária a um ‘monarca’, que, muito solicitado, tinha de participar de todos os eventos da época sob seu reinado. Agora, depois de haverem reinado vários Momo, eleitos ou escolhidos sem formalidade alguma, vai-se entronizar um oficialmente e até com atestado ou carteira de saúde.

Entregue a eleição do futuro Momo a cinco juízes que, em comissão, vão verificar o exato cumprimento do determinado na lei aludida, espera-se não apenas um ‘rei’ barrigudo (100 quilos) e alto (1m65). O importante e, parece, mais difícil, será a comprovação do ‘espírito carnavalesco’, coisa bastante rara no Carnaval destes últimos tempos, carente de humorismo, de galhofa, sem críticas e glosas nas suas realizações e muito preocupado com luxo e alegorias.

Foliões do estofo de um Roxura, Gostoso, Morcego, Peru dos Pés Frios, Jamanta, Mirandela, Bicohyba, Caribé, Chaby e mais alguns, já não existem. K. Veirinha e Chico Brício (do Bola Preta), Júlio Silva (do Bloco Eu Sozinho), Braguinha e poucos comprovadamente carnavalescos, na certa não terão interesse em ser Rei Momo sob medida do peso, de altura e com carteira de saúde. E teremos, ao que se prevê, um ‘rei’ de quase dois metros, gordão, saudável, mas de ‘espírito carnavalesco’ precariamente comprovado. 

(O Jornal, 19/11/67)
______________________________________________________________________
Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.

O confete surge no Carnaval

"Quando o confete surgiu formaram um trust para valorizar o preço".

Antes havia o entrudo. Era brutal, grosseiro. O Paiz, numa resenha de quarta-feira de cinzas, referente aos festejos carnavalescos de 1885, contra ele se manifestava a 18 de fevereiro condenando-o com veemência. Escrevia, então: “O entrudo, com a sua brutal expansão, perturbou ainda a ordem dos folguedos, estragando as roupas mais custosas e cuidadas e provocando desordens e rixas”.

E prosseguia mostrando a violência daquilo a que chamavam divertimento: “Os amadores mais apaixonados não se contentavam com os limões de qualquer diâmetro, era aos baldes d’água que brincavam”. Gracejo estúpido, selvagem, pois, como concluía o jornal, “algumas ruas ficaram completamente alagadas com o aguaceiro caído sobre os que por elas tiveram a infelicidade de passar”.

Assim, quando as autoridades atendendo aos reclamos de toda a imprensa e da maioria da população proibiram terminantemente o absurdo recreativo, os aplausos vieram de todos os lados. Surgia também, poucos anos depois, um acessório gracioso para animar os festejos de Momo na metrópole carioca: o confetti, grafado, com dois tês, na fidelidade que se prestava à sua procedência parisienne.

Isto em junho de 1892, quando foi realizado o Carnaval (transferido da época própria devido à febre amarela), e o aparecimento dos papeizinhos multicores foi saudado efusivamente. Logo, os comerciantes, que jamais dormiram no ponto, viram na novidade um meio de aumentar o faturamento. Formaram um trust, ou sindicato, como se dizia quando a pletora de americanismos ainda não vingara em nosso linguajar para explorar a venda do novo produto carnavalesco.

Monopólio ou sindicato ou trust

Chegado ao Brasil como art nouveau, como o chique da festa carnavalesca e classificado pela imprensa de “inocente brincadeira, muito agradável e elegante”, os comerciantes que o importaram atraíram vultosa freguesia. Alguns o vendiam a 2$000 (dois mil réis) o quilo. Outros cobravam mais e justificavam que seus confetti eram “parisienses genuínos, de variadas cores políticas, sem areia, nem salicilato, nem papéis de jornais”. Justificavam com esse esclarecimento o seu preço de 3$000 e ao mesmo tempo deixavam claro que alguns concorrentes adicionavam corpos estranhos ao produto possivelmente não legítimo, não genuíno de Paris. Tudo no ambiente competitivo do meio, caracterizando aquele tempo a hoje tão propalada ‘livre iniciativa’ e quando nem se sonhava com as malsinadas Cofapes, Cecepés, Sunabes e quejandas administrando operações mercantis.

Não satisfeitos com a crescente procura que o artigo tinha, os comerciantes tentavam mais ganho. Surgiu, portanto, no aludido O Paiz, de 21 de junho do ano citado, ao lado de uma notícia de que “diversos grupos pretendem fazer batalhas de confetti, como em Paris e Nice, hoje, à tarde, entre as ruas do Ouvidor e Teatro”, nova denúncia. Tinha o título “Não Dormem”, e dizia: “Acha-se em vias de formação uma companhia com o capital de 1.000 contos para explorar os confetti no próximo Carnaval. Mil contos!”

Isto, porém, não era tudo. O mais grave aparecia em outro suelto, sempre no mesmo matutino e em igual data: “Consta ter sido formado, ontem, um sindicato para comprar todos os confetti parisienses existentes no Rio de Janeiro para aumentar o preço. Se tal acontecer façam greve os compradores. Olho vivo”. Tinha-se, desse modo, o Carnaval através do gracioso confete propiciando o monopólio, o sindicato ou o agora chamado trust.

Restrição, minguante, sumiço

De grande procura em 1892 quando se assinalou seu aparecimento no Rio ao mesmo tempo que nas cidades européias, o confete, já com a grafia abrasileirada, chega aos nossos dias mas sem o domínio de outrora. Agora ele vem rareando e já não acontece — como nos fala Eneida em sua História do Carnaval carioca — “a Rua do Ouvidor e as adjacências ficaram, em alguns pontos, como verdadeiras alcatifas de confete de 30 e mais centímetros de espessura”. Os arremessos que antes se faziam fartos, as mãos transbordantes, são agora parcos e caem sobre os alvejados como chuvinha miúda, quase permitindo que se identifique as cores e a quantidade numa conta exata e capaz de não ultrapassar duas ou três dezenas.

De origem discutida, uns dão a Itália como sua procedência e ligam-no ao termo "confetto", ao mesmo tempo que consignam a invenção a Ettore Fenderls, falecido em novembro último na cidade de Vittorio Veneno, na Itália, com 104 anos. Outros a contestam e apontam o comerciante francês Le Malin Cassin como o criador da novidade. Há mais a afirmativa de Morales de los Rios reivindicando para a Espanha a procedência e dando-lhe o nome simples e intuitivo de papelillos ao mesmo tempo em que surge o abrasileiramento papelinhos ou papeizinhos para uso correntio.

O certo é que o confete surgiu no Brasil como parisien, servindo de arma graciosa para batalhas e provocando a gula de comerciantes ávidos de um faturamento abundante. Objetivo que conseguiriam unindo-se em um sindicato, ou falando modernamente, formando um trust.
(O Jornal, 22/01/67)

______________________________________________________________________
Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.