Carmélia Alves, cantora, nasceu no Rio de Janeiro/RJ em 14/2/1925. Filha de cearenses, nascida e criada no subúrbio carioca de Bangu, desde cedo entrou em contato com a música do Norte e Nordeste, nas reuniões de repentistas que seus pais promoviam em casa.
Em 1940 participou do programa de calouros de Paulo Gracindo, na Rádio Tupi, e depois cantou no Programa do Tiro, da Rádio Nacional, apresentado por Barbosa Júnior, que a levou para cantar, com contrato, em seu outro programa, O Picolino. Nesse começo de carreira, em que interpretava sambas tentando imitar Carmen Miranda, foi contratada pela Rádio Mayrink Veiga por três anos.
Em 1943 passou a atuar tambêm como crooner na boate do Copacabana Palace Hotel; nesse ano gravou seu primeiro disco, na Victor, com o samba Deixei de sofrer (Dino e Popeye do Pandeiro) e a batucada Quem dorme no ponto é chofer (Assis Valente), lançado no Carnaval de 1944. Em 1944, também, excursionou por todo o país. Com a proibição do jogo em 1946, fixou-se em São Paulo SP, atuando em casas noturnas.
Voltou ao Rio de Janeiro em 1948, sendo novamente contratada pela Mayrink Veiga e pela boate do Copa- cabana Palace Hotel. Foi através do programa Ritmos da Panair, de Murilo Neri, transmitido pela Radio Nacional diariamente da boate, que começou a ser conhecida.
Em 1949 gravou, em dupla com Ivon Curi, pela Continental, o baião Me leva (Hervé Cordovil e Rochinha), o primeiro de uma série que a consagraria como a Rainha do Baião durante a década de 1950. Obteve grande sucesso com as gravações de Trepa no coqueiro (1950), de Ari Kerner, Sabiá lá na gaiola (1950) de Hervé Cordovil e Mário Vieira, o samba Coração magoado (1950), de Roberto Martins, e Cabeça inchada (1951), de Hervé Cordovil. Interpretando o baião com sotaque sulista, foi uma das maiores divulgadoras do gênero no Sul do país.
Em 1954, com seu marido, o cantor Jimmy Lester, realizou vitoriosa temporada em Buenos Aires, Argentina, cantando na boate Gong e na Rádio Belgrano, e, em 1956, já consagrada no Brasil, excursionou, durante cinco anos, pela Europa, África, Asia e E.U.A., divulgando a música brasileira e fazendo gravações.
Participou ainda de diversos filmes musicais: Tudo azul (1952), de Moacir Fenelon; Está com tudo (1952), de Luis de Barros; Agulha no palheiro (1953), de Alex Viany; Carnaval em Caxias (1954), de Paulo Wanderley; Trabalhou bem, Genival (1955), de Luis de Barros; Carnaval em lá maior (1955), de Ademar Gonzaga; e Pensão de Dona Estela (1956), de Alfredo Palácios e Ferenc Fekete.
No início da década de 1970 apresentou-se frequentemente no exterior e, em 1974, gravou o LP Ritmos do Brasil com Carmélia Alves, pela RGE, com Eu vou girar (B. Lobo e Agnaldo Alencar) e Peguei um ita no norte (Dorival Caymmi), entre outras. Em 1977, participou do show comemorativo dos 30 anos de baião, realizado no Teatro Municipal, de São Paulo, com Luiz Gonzaga, Hervé Cordovil e Humberto Teixeira. Na década de 1990, da época áurea do rádio brasileiro.
Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha, SP, 1998.
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sexta-feira, fevereiro 16, 2018
terça-feira, maio 23, 2017
Carmélia Alves, a Rainha do Baião
| Carmélia é a simpatia em pessoa, em todos os momentos e todos os flagrantes. |
Começou nos programas de calouros, a “Rainha do Baião” ... Gosta de onça, sem ser “amiga” da mesma ... Tudo teve início em “Calouros em Desfile”. Carmélia Alves, fã incondicional de Carmem Miranda, inscreveu-se no veterano programa da Tupi, para cantar “Veneno para dois”, número de invulgar sucesso do repertório da “Pequena Notável". A Interpretação parece ter saído a contento, porque nem Makalé funcionou no gongo, nem Ari Barroso deixou de premiá-la com a nota cinco. (Reportagem de Armando Migueis - Fotografia de Milan)
O primeiro sucesso abriu perspectivas para nova incursão. Carmélia apresentou-se na “Hora do Tiro”, ainda interpretando um sambinha que Carmem gostava de incluir nas suas audições: “Polichinelo”. Barbosa Júnior, tal como o “homem da gaitinha”, não teve dúvidas em conceder-lhe o prêmio máximo, convidando-a mesmo para auxiliá-lo nas audições do famoso “Programa Picolino”. Ela topou o negócio que, no fim do mês, lhe rendia trezentos cruzeiros. Mas, nessa altura dos acontecimentos, a Mayrink Veiga viu partir sua grande estrela, e precisou portanto contratar um bom elemento para preencher a vaga de Carmem Miranda, e lembrou-se da garota que continua sendo uma de suas maiores admiradoras. Carmélia assinou um contrato regular, dando começo à sua carreira profissional. Teve sorte, porque se fez notar entre as demais intérpretes de nossa música popular.
Com um posto assegurado no sem-fio, a atual “rainha do baião” voltou-se para o cinema, inscrevendo-se num concurso instituído pela Cinédia, e do qual faziam parte Celestino Silveira e José Lina do Rego. Encerrado este, a cantora viu-se premiada em fotogenia e dicção. Fracassou nos demais testes, mas não desanimou, e como recompensa recebeu vantajosa proposta para atuar no “show” do cassino Copacabana, tornando-se um dos números mais aclamados.
Dois anos decorridos dessas vitórias, foi chamada para gravar na RCA Victor. Completou-se assim um sonho alimentado em pleno desabrochar da mocidade, e Carmélia gravou na cera “Quem dorme no ponto é chofer”, um samba de Assis Valente (Ainda aqui, vemos o compositor preferido de Carmem Miranda servindo de “abre-te sésamo” para Carmélia, numa demonstração de apreço pela grande Carmem).
O ano de 1944 encontrou a atual exclusiva da PRE-8 brilhando ao microfone da PRA-9, e no “show” do Copacabana, onde veio a conhecer Jimmy Lester, com quem se casou. Foi um namoro relâmpago, pois no fim de três meses ambos compareciam à Pretoria. Iniciaram, então, uma excursão à Bahia, e lá permaneceram algum tempo, em virtude da calorosa acolhida. A seguir, rumaram para São Paulo, atendendo a um compromisso com o cassino de Guarujá. Daí, em virtude do término do jogo e consequente fechamento dos cassinos, o casal de artistas passou a trabalhar nas boates bandeirantes.
Numa delas, por sinal, a intérprete de “No mundo do baião” lançou, com indiscutível aceitação, esse ritmo que a tornou famosa. Para tanto, utilizou-se de um “balancê”, ao qual imprimiu o sentido de baião. Foi quanto bastou para que a boate Jequiti vivesse repleta.
Três longos anos separaram Carmélia Alves de seus fãs cariocas. Mas, numa noite de 1949, Vítor Costa, de passagem por São Paulo, deu um pulo até a boate Marabá, e ali encontrou a cantora. Conversaram bastante, e por fim Vítor propôs-lhe um contrato na Rádio Nacional, que não chegou a ser assinado, em virtude da estrela ingressar na Mayrink e voltar aos “shows” do Copacabana, em substituição a Elda Mayda. Nesse mesmo ano, a premiada de “Calouros em Desfile” foi eleita “Princesa do Rádio”, título que voltou a conquistar no ano seguinte, e em 1952.
Em 1951 ingressou na Nacional, a sua presente emissora. Também mudou de fábrica de gravações, assinando contrato com a Continental, onde lançou com extraordinário êxito “Me leva”, baião de Hervé Cordovil, que já anda pela casa dos cento e vinte mil discos vendidos. Gravou, ainda, “Diga que sim” e “Tic-Tac do relógio”, além de “Trepa no coqueiro”, número criado por Bibi Ferreira, e que mais tarde, transformado em baião, mereceu as honras da bonita voz de Carmélia Alves. Recentemente, botou na cera, com o trio Melodia, a composição de Humberto Teixeira, “Ajuda teu irmão”, destinado às vítimas da seca.
O cinema, diante da ascensão da cantora, foi-lhe ao encontro. Assim, apareceu em “Tudo Azul”, fazendo um número, trabalhou em “Agulha do Palheiro”, a ser lançado. Participou de “Está com tudo”, uma produção de Luiz de Barros (só apareceu no trailer, porque a cópia pegou fogo. Daí a crítica de Celestino Silveira, lamentando o ocorrido).
Nascida e criada em Bangu, torcendo pelo clube dos irmãos Silveirinha, sonhando com uma excursão pelo Velho Mundo, Carmélia Alves prepara-se para uma visita a Buenos Aires, atendendo ao chamado da Rádio Splendid. Nessa oportunidade, levará um pequeno conjunto de que farão parte Sivuca, Jimmy Lester e um baterista. Caso tudo corra às mil maravilhas, ela estenderá a excursão ao país de Tio Sam.
Mas, enquanto não chega esse momento, a exclusiva da PRE-8 continua devotada às crianças, pelas quais tem invulgar afeição, embora não tenha filhos. Em compensação, tem um punhado de sobrinhos que adoram a voz da “titia”. Depois das crianças, Carmélia é francamente dos bichos. Gosta de cachorros, gatos, passarinhos ... e de onças. Aliás, é dona de um belíssimo exemplar desses felinos, trazido do Piaui. Isto não quer dizer, porém, que ela seja “amiga da onça” ... Com seu metro e sessenta de altura, e seus cinquenta quilos de peso, a criadora de “Quem dorme no ponto é chofer” não despreza um camarão com chuchu, nem um filme de James Mason. E. quando o tempo permite, bota no “pick-up” uma gravação de Carmem Miranda ou de Sílvio Caldas.
Modesta ao extremo, não será difícil encontrá-la metida num vestido azul, com a cabeleira de falsa loura, a palestrar com os fãs que a procuram. Talvez nisso, e na personalíssima interpretação das nossas melodias populares, resida a razão de ser do seu enorme cartaz no rádio brasileiro.
Fonte: Revista Cinelândia, edição 13, maio de 1953.
quinta-feira, maio 30, 2013
Quarteto de Bronze
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| O Quarteto de Bronze: um conjunto vitorioso (Foto: A Noite - Supplemento, 7/4/1942). |
Grupo vocal. O grupo foi formado no final da década de 1930 e era formado pelas irmãs Eulina, Eulália e Osmarina e, pelo violonista Euclides Machado, também responsável pelos arranjos vocais. No início da década de 1940, o grupo fez apresentações nas Rádios Mayrink Veiga, Nacional, Tupi e outras.
Gravaram pela primeira vez em 1940, pela Odeon cantando com a cantora sertaneja Nhá Zefa a canção Adeus, palavra malvada, de Arlindo Marques Júnior e Luiz Batista Júnior. O lado B desse disco trazia uma gravação de Nhô Pai e Nhá Zefa.
Em 1941, assinaram contrato com a gravadora Victor e gravaram com Mário Petra de Barros e Napoleão Tavares e Sua Orquestra os sambas Nega, meu bem e Sapateia morena, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira. No mesmo ano, gravaram com Ciro Monteiro os sambas Ai, ai, ai, ai, ai! Eu gosto de você e Chica, Chica, bum, chic, de H. Warren e Osvaldo Santiago. Pouco depois gravaram o primeiro disco solo com a marcha Firim-fim fonfon, de Peterpan e Milton de Oliveira e o samba Vamos dançar, de Paquito e Vilarinho.
Em 1942, o quarteto gravou o corta-jaca Trem do ferro, de Buci Moreira, Carlos de Souza e E . De Almeida e o batuque O barco virou, de Constantino Silva. Para o carnaval do ano seguinte gravaram a marcha A vontade do papai, de Roberto Martins e Mário Rossi e o samba Já não sinto saudades, de Luiz Soberano, Orlando M. Braga e Vasco Gomes.
As dificuldades da Segunda Guerra Mundial fizeram com que muitos artistas ficassem afastados das gravações. É o que parece ter acontecido com esse quarteto, que somente voltou a gravar em 1945, lançando pela Odeon a canção Rio Amazonas, de Alberto Montalvão e o batuque Ogum, de Milton Bittencourt.
Por volta de 1948, fizeram longa excursão ao Uruguai e à Argentina. De retorno ao Brasil em 1949, voltaram a se apresentar na Rádio Mayrink Veiga. Nesse ano, gravaram com a cantora Carmélia Alves o choro O tic-tac do meu coração, de Valdemar de Abreu, o Dunga e que foi um dos destaques daquele ano.
Depois de gravar nove discos com 16 músicas pelas gravadoras Victor, Odeon e Continental junto com astros como Ciro Monteiro e Carmélia Alves, o grupo se dissolveu no começo dos anos 1950.
Discografia
(1940) Adeus, palavra malvada • Odeon • 78
(1941) Ai ai ai ai ai! Eu gosto de você/Chica, Chica, bum, chic • Victor • 78
(1941) Firim-fim fonfon/Vamos dançar • Victor • 78
(1941) Nega, meu bem/Sapateia morena • Victor • 78
(1942) Trem do ferro/O barco virou • Victor • 78
(1942) Meu santo orixá/O pé de manjericão • Victor • 78
(1942) A vontade do papai/Já não sinto saudades • Victor • 78
(1945) Rio Amazonas/Ogum • Odeon • 78
(1949) Tic-Tac do meu coração • Continental • 78
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Fontes: Dicionário Cravo Albin da MPB; "A Noite - Supplemento", de 07/04/1942..
terça-feira, outubro 30, 2012
Cantoras do Rádio
Grupo formado em 1987, e integrado por Ademilde Fonseca, Carmélia Alves, Ellen de Lima e Violeta Cavalcanti, veteranas da era de ouro do rádio no Brasil. O nome do grupo foi sugerido pelo ator Érico de Freitas, então diretor da Sala Funart Sidney Miller, quando o grupo original fez seu primeiro espetáculo, como se fosse um programa de auditório dos anos 50.
Em suas várias formações, o grupo gravou dois discos, com grandes sucessos de cada uma de suas integrantes, sendo lançados em várias cidades brasileiras. De suas outras formações constaram Nora Ney, Rosita Gonzales e Zezé Gonzaga.
Em 13 de julho de 2001, o grupo estreou no Café-Teatro Arena. Desta vez, com a seguinte formação: Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, Ellen de Lima e Violeta Cavalcanti. Apresentou o show "Estão voltando as flores", com direção e roteiro de Ricardo Cravo Albin e produção de Cláudio Magnavita. O espetáculo foi composto de 11 quadros e 40 músicas, que permearam sucessos pessoais de cada uma das integrantes e ainda outros 10 sucessos pinçados do repertório de divas da canção popular: Nora Ney, Carmem Miranda, Dolores Duran, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Dircinha Batista, Isaurinha Garcia, Aracy de Almeida, Linda Batista e Aurora Miranda.
Em 2002, o grupo voltou a se apresentar no teatro Café Pequeno, no Rio de Janeiro. Neste mesmo ano, as Cantoras do Rádio se apresentaram no Teatro Trianon, na cidade de Campos dos Goytacazes, no show "Sim, estão voltando as flores" dirigido por Ricardo Cravo com o apoio da Folha da Manhã, ONGs Ecos do Rio Paraíba, Fundação Trianon e do Grupo MPE.
Ainda em 2002 o grupo se apresentou no Teatro Rival BR, para lançar o disco Estão Voltando as Flores editado pela Som Livre, permanecendo duas semanas com sucesso.
Discografia
As eternas cantoras do rádio • CID • CD (1991)
As eternas cantoras do rádio. Vol. 2 • CID • CD (1993)
Estão voltando as flores • Som Livre (2002)
Eternas, magníficas, as cantoras do rádio
Elas se lembram com saudade, não propriamente nostalgia, dos áureos tempos da Rádio Nacional. "Apesar do glamour, éramos funcionárias da rádio, que era uma autarquia. Tínhamos de bater ponto e seguíamos a escalação dos programas, como uma ordem do dia. Mas, na hora de cantar, íamos de gala, tínhamos roupas maravilhosas, não era como hoje, quando os artistas fazem show de roupa rasgada e vira moda." Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas e a caçula do grupo - "A nossa menina" -, Ellen de Lima. Há mais de 20 anos Carmélia e Ellen voltaram à estrada, fazendo shows. A partir de 1988, As Eternas Cantoras do Rádio virou um hit no palco e em CD. Carminha integrou-se ao grupo há oito anos, substituindo Nora Ney. As três estão no documentário Cantoras do Rádio, de Gil Barone e Marcos Avellar, que estreou ontem. Há uma quarta cantora no filme, mas Violeta Cavalcanti, vítima de Alzheimer, já não canta mais.
Cada uma representa um estilo. Carmélia, o baião; Carminha, com sua voz de contralto, a fossa; e Ellen, com sua habilidade de soprano, não se fixa em um estilo nem gênero, mas tem liberdade para cantar todos os clássicos. Violeta, ausente neste encontro que se realiza na chuvosa tarde de quarta-feira, num hotel dos Jardins, tinha - tem - o samba no corpo, e na voz. O repórter comenta o atual boom dos documentários musicais. Fala de Um Homem de Moral, de Ricardo Dias, sobre Paulo Vanzolini - Carmélia Alves dispara a cantar, "Não fica no chão/Nem espera que mulher/lhe venha dar a mão..." O repórter insiste, faz a pergunta tola, se elas conhecem Ronda? Como? "Ronda é um clássico!" É a vez de Ellen cantarolar.
Uma carioca (Carmélia), outra mineira (Carminha), a terceira, baiana (baianíssima!, Ellen). Representam a própria brasilidade. Todas reinaram na Nacional, a rádio mais poderosa do Brasil - do mundo! -, que dividia suas cantoras em três plantéis. Havia um primeiro time inatingível, as divinas; um meio de campo, no qual estavam; e o terceiro time, formado por cantoras que iam parar na Rádio Nacional por indicação de políticos - era uma autarquia, não se esqueçam. A rádio ficava na lendária Praça Mauá, no Centro do Rio. Todas tiveram forte ligação com São Paulo. Carmélia foi casada - durante 54 anos - com o paulista Jimmy Lester, que cantava em inglês. Em 1998 ele morreu em Teresópolis, no Estado do Rio, e ela o trouxe para ser enterrado em São Paulo. Nesta semana, por conta da agenda de lançamento de Cantoras do Rádio na cidade, Carmélia circulou bastante por Sampa. Ao passar pelo cemitério, teve uma coisa. A saudade bateu forte.
Carminha e Ellen têm outra ligação com São Paulo. Como crooners, revezavam-se na boate Oásis. Cada vez que a temporada de algum artista não caía no agrado do público, o dono, desesperado, chamava Carminha ou Ellen no Rio e elas vinham salvar a pátria. Falam todas ao mesmo tempo. Cada uma tem sua história para contar. Carmélia Alves arregala o olho e pergunta - "Você sabia que sou uma assassina?" Lembra do sujeito que assistia a um show numa boate e que disse: "Carmélia, você me mata com seus baiões!" e morreu de verdade, fulminado por um ataque. A história, contada agora, é tragicômica, mas foi um horror. Carmélia tinha um título e sempre foi o de ?rainha do baião?, mesmo quando era crooner da boate do Copacabana Palace, frequentada pela nata do café soçaite. O repórter diz que viu o documentário sobre o parceiro de Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, O Homem Que Engarrafava Nuvens. E...? "O filme é muito legal, tem vários números seus." Carmélia só cantava Humberto Teixeira ou tinha uma ligação mais calorosa com ele? "O Humberto foi um dos fundadores, com o Jimmy, do Clube da Chave, em Copacabana. Era um irmão!"
Ellen passou pelo Clube do Guri, na Rádio Mauá, pelo programa de calouros de César de Alencar e também pelo famoso Papel Carbono, de Renato Murce, quando passou no teste imitando a diva Heleninha Costa. Tornou-se conhecida do público por ser a intérprete da célebre Canção das Misses, escrita por Lourival Faissal, para servir de tema do tradicional concurso de Miss Brasil. De todas as cantoras - as rainhas - do rádio, foi a única que teve uma experiência como teleatriz (na Globo), contracenando - acreditem! - com Fernando Montenegro e Sergio Britto. Carminha veio de Belo Horizonte, convidada por um descobridor de talentos que a deixou na mão, mas o lendário Heron Domingues a ouviu cantar e o resto é história. Carminha foi parar no elenco da Rádio Nacional. Seu filho, o saxofonista Raul Mascarenhas Jr., casou-se com Fafá de Belém. Tiveram a filha Mariana. Carminha fala na neta, também cantora, que incorporou o repertório das divas do rádio.
Todas passaram pelas chanchadas da Atlântida, fingindo que cantavam na tela. "O disco tocava numa vitrola e, às vezes, a agulha emperrava", lembra Carmélia. Cantoras do Rádio é outra coisa. Outra fase da carreira delas, outra fase do próprio cinema brasileiro. O filme é uma apaixonada declaração de amor às eternas cantoras do rádio. Onde vão, há um numeroso público de terceira idade, mas existem também os jovens, que cantam com elas e as reverenciam. É por isso que, quando falam da Rádio Nacional, sentem saudade, mas não tristeza. A vida tem muitas fases e a atual está sendo boa. Carminha Mascarenhas, aos 79 anos, está na fase de se desfazer de muita tralha que acumulou ao longo de sua carreira. Pelo sotaque, ela percebe que o repórter é gaúcho. "Quer o meu Laçador?" Carminha ganhou o troféu de prata cantando Lupicínio Rodrigues. Havia um belo dueto sobre o compositor em Cantoras do Rádio. Carminha e Ellen cantando o rei da dor de cotovelo. Os direitos são caros e o número, como muitos outros, foi cortado. Mas elas cantarolam trechos de Vingança e é um privilégio para o repórter.
Fontes: Luiz Carlos Merten - O Estadao de S.Paulo; Dicionário Cravo Albin da MPB.
sexta-feira, outubro 08, 2010
Trem o-la-lá
Disco 78 rpm / Título da música: Trem o lá lá / Humberto Teixeira, 1916-1979 (Compositor) / Lauro Maia (Compositor) / Carmélia Alves (Intérprete) / Orquestra Copacabana (Acomp.) / Gravadora: Continental / Gravação: 1950 / Lançamento: 03/1950 / Nº do álbum: 16177 / Gênero musical: Baião
O trem, ô lá lá...
Roda, roda, inté mancá!
Um vintém bateu no outro,
Fez tirrin, tatá...
O trem, ô lá lá...
Roda, roda, inté mancá!
Um vintém bateu no outro,
Fez tirrin, tatá...
Me atrepei na bananeira,
Fui inté o mangará...
Cumi tanta banana
Qui fiz a... gata miá!
Eu andei cinquenta légua
Amontado num preá...
Cinquenta légua num dia
Num é p'rum... cabra caminhá...
In riba daquela serra,
Da outra banda de lá...
Corre o peba atrás da onça,
Raposa... tamanduá...
Fontes: Discografia Brasileira - IMS; Instituto Moreira Salles.
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