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quarta-feira, maio 24, 2017

Nora Ney, a Iracema da Voz de Mel


Da "cantina" de César de Alencar até aos pináculos da carreira radiofônica - Um contrato que teve a duração de vinte e quatro horas (Reportagem de Armando Migueis - Foto de Milan).

Tudo não passou de simples brincadeira. Dona Iracema Pereira Maia, numa dessas noites bem cariocas cismou de distrair o espirito, e foi, em companhia de pessoas amigas, dar um giro pela “cantina” do César de Alencar. Gostou do ambiente. Gostou dos frequentadores e por fim gostou do pedido que lhe fizeram os presentes: para que cantasse alguma coisa. Viu que o ambiente pedia música francesa. Por essa razão, foi buscar no repertório do irrequieto Charles Trenet uma de suas bonitas canções. No final, pediram “bis”, e pediram também outros números deliciosos.

Como complemento, um convite de César de Alencar para que aparecesse no sábado seguinte em seu programa. Ele gostaria de experimentá-la em “Será que eles vão?” Dona Iracema prometeu que ia, e foi realmente. Como na “cantina”, escolheu música francesa. César e o auditório vibraram com aquela voz inconfundível.

Haroldo Barbosa, porém, vibrou ainda mais. Tanto, que não se afastou do aparelho receptor um só segundo, apesar de estar na horinha do Teófilo de Vasconcelos dar o resultado de mais um páreo corrido. E, valendo-se do telefone, fez um convite a dona Iracema: Desejava sua presença nos programas da Rádio Tupi. Como compensação, oferecia cem cruzeiros de cache pelas audições diurnas. A noite, dobrava a parada, isto é, o cache seria de duzentos cruzeiros. Dona Iracema pediu vinte e quatro horas para resolver.

Nessas vinte e quatro horas, deixou de preparar o jantar, esqueceu-se de telefonar para a costureira, e não conseguiu pregar olhos, embora se deitasse mais cedo.

As seis horas da manhã do dia imediato, sua resolução estava tomada: Trocaria os afazeres domésticos pela carreira radiofônica. Deixaria de ser formiga para se tornar cigarra. E, quando Haroldo Barbosa abriu a porta de sua sala de trabalho, lá encontrou dona Iracema. Ela madrugara nos
estúdios da PRG-3, embora soubesse que o produtor de “Semana em Revista” sempre chega atrasado.

Houve o costumeiro bate-papo. Haroldo falou numa carreira promissora. Disse que a Tupi era o caminho aberto para o estrelato. Por fim, prometeu um contrato, desde que ela correspondesse.

Nessa altura dos acontecimentos, dona Iracema Ferreira Maia passou a ser Nora Ney. Um nome simples, porém radiofônico. Ela gostou, e os ouvintes também.

Nora Ney correspondeu. Haroldo Barbosa cumpriu a promessa. Deu-lhe um contrato. Três mil cruzeiros por mês. Esse contrato, porém, teve a curta duração de vinte e quatro horas: é que a Rádio Nacional, no afã de contratar elementos de valor para seu “cast”, dobrou a quantia oferecida pela
PRG-3.

E lógico que a estrela preteriu quem pagava mais. Todavia, teve de permanecer “na cerca” durante trinta dias, afim de conseguir a rescisão do contrato que assinara. Feito isso, passou-se com armas e bagagens para a PRE-8, sua atual estação.

Nora Ney é urna criatura diferente. Nela há naturalidade nos gestos, nas palavras, e nas atitudes. Não faz segredo dos contratempos, nem esconde os dissabores por que tem passado. Dos seus triunfos, porém, quase não fala. Parece ficar encabulada quando tem de mencioná-los.

A estrela tem uma profissão liberal: Formou-se contadora pela Escola Amaro Cavalcanti. Do contato com os estudos nasceu uma certa ojeriza pelos afazeres domésticos, a ponto de preferir os quitutes que outros fazem a ter de enfrentar a cozinha. No lar, divide seu tempo entre Vera Lúcia, uma garota de nove anos, e Hélio, um menino de cinco. Fora disso, cuida de sua coleção de xícaras e de seus selos.

Não acorda cedo nem por um decreto. Justifica-se: é que saí do Copacabana às três horas da manhã. Sim, porque Nora Ney é uma das atrações máximas do show que essa boate oferece a seus frequentadores. Interpretando como ninguém as bonitas composições do notável Antônio Maria, a exclusiva da Rádio Nacional criou um público bastante invejável. E, quando a cantora anuncia “Menino Grande” ou “Ninguém me ama” um frenesi domina completamente a turma.

Por falar em “Ninguém me ama”, esse número constitui um recorde de vendagem de gravações. Antônio Maria e Fernando Lobo não poderiam ser mais felizes quando fizeram esse grande samba. Do Leblon até Santa Cruz, toda a população cantarola a melodia. Sucesso quase tão grande teve “Menino Grande”. As casas de discos não tem mãos a medir. Quanto disco apareça, quanto disco é vendido.

Com trinta anos de idade, um ano e pouco de rádio, e um futuro promissor à sua frente, Nora Ney promete, agora, depois do carnaval, uma nova gravação. Como sempre, Antônio Maria está no meio. Trata-se de “Onde anda você”, em que aparece também Reinaldo Dias Leme. Na outra face, um número de Luiz Bonfá, intitulado “De cigarro em cigarro”. A julgar-se pelas gravações anteriores, e pelo nome dos compositores, teremos um novo sucesso.

Iracema Ferreira Mata, que cedeu lugar a Nora Ney, calça sapatos número 35, usa manequim 42, não tolera bebidas e é francamente da comida italiana. Aliás, descende de italianos e alemães. Fuma cigarros Hollywood, e, nas refeições, bebe cerveja preta. Sua cor predileta é o verde.

Por estranho que pareça, a feliz intérprete de “Ninguém me ama” aspira, no futuro, a possuir uma bomba de gasolina, mesmo não tendo nenhum “cadillac”.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 14, junho de 1953.

terça-feira, outubro 30, 2012

Cantoras do Rádio


Grupo formado em 1987, e integrado por Ademilde Fonseca, Carmélia Alves, Ellen de Lima e Violeta Cavalcanti, veteranas da era de ouro do rádio no Brasil. O nome do grupo foi sugerido pelo ator Érico de Freitas, então diretor da Sala Funart Sidney Miller, quando o grupo original fez seu primeiro espetáculo, como se fosse um programa de auditório dos anos 50.

Em suas várias formações, o grupo gravou dois discos, com grandes sucessos de cada uma de suas integrantes, sendo lançados em várias cidades brasileiras. De suas outras formações constaram Nora Ney, Rosita Gonzales e Zezé Gonzaga.

Em 13 de julho de 2001, o grupo estreou no Café-Teatro Arena. Desta vez, com a seguinte formação: Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, Ellen de Lima e Violeta Cavalcanti. Apresentou o show "Estão voltando as flores", com direção e roteiro de Ricardo Cravo Albin e produção de Cláudio Magnavita. O espetáculo foi composto de 11 quadros e 40 músicas, que permearam sucessos pessoais de cada uma das integrantes e ainda outros 10 sucessos pinçados do repertório de divas da canção popular: Nora Ney, Carmem Miranda, Dolores Duran, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Dircinha Batista, Isaurinha Garcia, Aracy de Almeida, Linda Batista e Aurora Miranda.

Em 2002, o grupo voltou a se apresentar no teatro Café Pequeno, no Rio de Janeiro. Neste mesmo ano, as Cantoras do Rádio se apresentaram no Teatro Trianon, na cidade de Campos dos Goytacazes, no show "Sim, estão voltando as flores" dirigido por Ricardo Cravo com o apoio da Folha da Manhã, ONGs Ecos do Rio Paraíba, Fundação Trianon e do Grupo MPE.

Ainda em 2002 o grupo se apresentou no Teatro Rival BR, para lançar o disco Estão Voltando as Flores editado pela Som Livre, permanecendo duas semanas com sucesso.

Discografia

As eternas cantoras do rádio • CID • CD (1991)
As eternas cantoras do rádio. Vol. 2 • CID • CD (1993)
Estão voltando as flores • Som Livre (2002)

Eternas, magníficas, as cantoras do rádio

 Elas se lembram com saudade, não propriamente nostalgia, dos áureos tempos da Rádio Nacional. "Apesar do glamour, éramos funcionárias da rádio, que era uma autarquia. Tínhamos de bater ponto e seguíamos a escalação dos programas, como uma ordem do dia. Mas, na hora de cantar, íamos de gala, tínhamos roupas maravilhosas, não era como hoje, quando os artistas fazem show de roupa rasgada e vira moda." Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas e a caçula do grupo - "A nossa menina" -, Ellen de Lima. Há mais de 20 anos Carmélia e Ellen voltaram à estrada, fazendo shows. A partir de 1988, As Eternas Cantoras do Rádio virou um hit no palco e em CD. Carminha integrou-se ao grupo há oito anos, substituindo Nora Ney. As três estão no documentário Cantoras do Rádio, de Gil Barone e Marcos Avellar, que estreou ontem. Há uma quarta cantora no filme, mas Violeta Cavalcanti, vítima de Alzheimer, já não canta mais.

Cada uma representa um estilo. Carmélia, o baião; Carminha, com sua voz de contralto, a fossa; e Ellen, com sua habilidade de soprano, não se fixa em um estilo nem gênero, mas tem liberdade para cantar todos os clássicos. Violeta, ausente neste encontro que se realiza na chuvosa tarde de quarta-feira, num hotel dos Jardins, tinha - tem - o samba no corpo, e na voz. O repórter comenta o atual boom dos documentários musicais. Fala de Um Homem de Moral, de Ricardo Dias, sobre Paulo Vanzolini - Carmélia Alves dispara a cantar, "Não fica no chão/Nem espera que mulher/lhe venha dar a mão..." O repórter insiste, faz a pergunta tola, se elas conhecem Ronda? Como? "Ronda é um clássico!" É a vez de Ellen cantarolar.

Uma carioca (Carmélia), outra mineira (Carminha), a terceira, baiana (baianíssima!, Ellen). Representam a própria brasilidade. Todas reinaram na Nacional, a rádio mais poderosa do Brasil - do mundo! -, que dividia suas cantoras em três plantéis. Havia um primeiro time inatingível, as divinas; um meio de campo, no qual estavam; e o terceiro time, formado por cantoras que iam parar na Rádio Nacional por indicação de políticos - era uma autarquia, não se esqueçam. A rádio ficava na lendária Praça Mauá, no Centro do Rio. Todas tiveram forte ligação com São Paulo. Carmélia foi casada - durante 54 anos - com o paulista Jimmy Lester, que cantava em inglês. Em 1998 ele morreu em Teresópolis, no Estado do Rio, e ela o trouxe para ser enterrado em São Paulo. Nesta semana, por conta da agenda de lançamento de Cantoras do Rádio na cidade, Carmélia circulou bastante por Sampa. Ao passar pelo cemitério, teve uma coisa. A saudade bateu forte.

Carminha e Ellen têm outra ligação com São Paulo. Como crooners, revezavam-se na boate Oásis. Cada vez que a temporada de algum artista não caía no agrado do público, o dono, desesperado, chamava Carminha ou Ellen no Rio e elas vinham salvar a pátria. Falam todas ao mesmo tempo. Cada uma tem sua história para contar. Carmélia Alves arregala o olho e pergunta - "Você sabia que sou uma assassina?" Lembra do sujeito que assistia a um show numa boate e que disse: "Carmélia, você me mata com seus baiões!" e morreu de verdade, fulminado por um ataque. A história, contada agora, é tragicômica, mas foi um horror. Carmélia tinha um título e sempre foi o de ?rainha do baião?, mesmo quando era crooner da boate do Copacabana Palace, frequentada pela nata do café soçaite. O repórter diz que viu o documentário sobre o parceiro de Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, O Homem Que Engarrafava Nuvens. E...? "O filme é muito legal, tem vários números seus." Carmélia só cantava Humberto Teixeira ou tinha uma ligação mais calorosa com ele? "O Humberto foi um dos fundadores, com o Jimmy, do Clube da Chave, em Copacabana. Era um irmão!"

Ellen passou pelo Clube do Guri, na Rádio Mauá, pelo programa de calouros de César de Alencar e também pelo famoso Papel Carbono, de Renato Murce, quando passou no teste imitando a diva Heleninha Costa. Tornou-se conhecida do público por ser a intérprete da célebre Canção das Misses, escrita por Lourival Faissal, para servir de tema do tradicional concurso de Miss Brasil. De todas as cantoras - as rainhas - do rádio, foi a única que teve uma experiência como teleatriz (na Globo), contracenando - acreditem! - com Fernando Montenegro e Sergio Britto. Carminha veio de Belo Horizonte, convidada por um descobridor de talentos que a deixou na mão, mas o lendário Heron Domingues a ouviu cantar e o resto é história. Carminha foi parar no elenco da Rádio Nacional. Seu filho, o saxofonista Raul Mascarenhas Jr., casou-se com Fafá de Belém. Tiveram a filha Mariana. Carminha fala na neta, também cantora, que incorporou o repertório das divas do rádio.

Todas passaram pelas chanchadas da Atlântida, fingindo que cantavam na tela. "O disco tocava numa vitrola e, às vezes, a agulha emperrava", lembra Carmélia. Cantoras do Rádio é outra coisa. Outra fase da carreira delas, outra fase do próprio cinema brasileiro. O filme é uma apaixonada declaração de amor às eternas cantoras do rádio. Onde vão, há um numeroso público de terceira idade, mas existem também os jovens, que cantam com elas e as reverenciam. É por isso que, quando falam da Rádio Nacional, sentem saudade, mas não tristeza. A vida tem muitas fases e a atual está sendo boa. Carminha Mascarenhas, aos 79 anos, está na fase de se desfazer de muita tralha que acumulou ao longo de sua carreira. Pelo sotaque, ela percebe que o repórter é gaúcho. "Quer o meu Laçador?" Carminha ganhou o troféu de prata cantando Lupicínio Rodrigues. Havia um belo dueto sobre o compositor em Cantoras do Rádio. Carminha e Ellen cantando o rei da dor de cotovelo. Os direitos são caros e o número, como muitos outros, foi cortado. Mas elas cantarolam trechos de Vingança e é um privilégio para o repórter.

Fontes: Luiz Carlos Merten - O Estadao de S.Paulo; Dicionário Cravo Albin da MPB.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Se a saudade me apertar

Nora Ney
Se a saudade me apertar (samba, 1955) - Ataulfo Alves e Jorge de Castro

Título da música: Se a saudade me apertar / Gênero musica: Samba / Intérprete: Nora Ney / Compositores: Alves, Ataulfo - Castro, Jorge de / Acompanhamento Alves, Ataulfo - Pastoras / Gravadora Continental / Número do Álbum 17065 / Data de Gravação 1954-1955 / Data de Lançamento 01/1955 / Lado B / Disco 78 rpm:


Vai, segue o teu caminho / Eu seguirei o meu
Se a saudade me apertar / Morro de dor
Mas não vou te procurar

Vai, segue o teu caminho / Eu seguirei o meu
Se a saudade me apertar / Morro de dor
Mas não vou te procurar

Meu coração já não me quer / Eu não devo insistir
Vai te embora, se quiser / O amor é muito bom
Quando é dado sem pedir

Vai, segue o teu caminho / Eu seguirei o meu
Se a saudade me apertar / Morro de dor
Mas não vou te procurar

Meu coração já não me quer / Eu não devo insistir
Vai te embora, se quiser / O amor é muito bom
Quando é dado sem pedir

quinta-feira, outubro 26, 2006

Nora Ney


Bastaram menos de dois anos, quase vinte meses, para que a carreira de contadora fosse esquecida e a carioca (de 23 de março de 1922) Iracema de Souza Ferreira fosse coroada Rainha do Rádio, com direito a faixa, trono, fã-clube e toda a liturgia que criava o mito radiofônico no início da década de 50.


Em fins de 1951, Iracema ainda frequentadora do Sinatra-Farney Fã-Clube, onde cantava nas tardes de domingo acompanhada pelo acordeom de João Donato e o piano de Johnny Alf, dois garotinhos imberbes, foi levada para a Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Aí já sob o nome de Nora May (o Ney viria depois), estreou cantando em inglês com seu grave vozeirão.

Em 1953 já era ídolo nacional, cantando samba-canção, naturalmente em português. Contratada pela Rádio Nacional, era ouvida pelo Brasil inteiro todas as noites no famoso programa Ritmos da Panair, transmitido diretamente da boate Midnight, do Copacabana Palace Hotel. Foi aí que conheceu o cantor Jorge Goulart, seu companheiro na vida e carreira a partir de então.

Gravou Ninguém me ama (de Antônio Maria e Fernando Lobo), Menino grande (só do Maria), De cigarro em cigarro (Luiz Bonfá), com imenso sucesso e, nesse mesmo ano, foi eleita Rainha do Rádio.

Cada gravação de Nora Ney era sucesso garantido e ela foi em sequencia: Preconceito (Antônio Maria e Fernando Lobo); É tão gostoso, seu moço (Mário Lago e Chocolate); Aves daninhas (Lupicínio Rodrigues); Se eu morresse amanhã (Antônio Maria); Só louco (Dorival Caymmi); Vai Mesmo (Ataulfo Alves).

Em companhia de Jorge Goulart e outros artistas brasileiros, excursiona longamente pela Europa, Américas, África, Oriente Médio e Ásia, com amplo sucesso, transformando-se na maior divulgadora da música popular brasileira em países até então jamais visitados por artistas nacionais.

Passa por período de preconceito profissional em virtude de posições políticas, mas acaba por retomar sua carreira, cantando com o brilhantismo e calor habituais. Em 1989, faz parte do simpaticíssimo grupo As Eternas Cantoras do Rádio, dividindo o palco e emoções com as companheiras de microfones da fase áurea da radiofonia, Carmélia Alves, Violeta Cavalcanti, Zezé Gonzaga, Rosita Gonzales e Ellen de Lima.

Em 1992, depois de 39 anos de vida em comum, casou com Jorge Goulart. Concedeu esta entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura de São Paulo, em 1973, aos 50 anos:

Arley Pereira - MPB ESPECIAL - 5/2/1973

"Antônio Maria começou comigo, começamos juntos, ele como compositor e eu como cantora. A primeira música que eu gravei de Antônio Maria foi Menino Grande. Ele fez para ele mesmo e queria que alguém cantasse para ele essa música, Menino Grande. Ele era muito gordo, muito simpático, uma figura engraçada.

Uma vez, eu estava trabalhando no Copacabana Palace e ele foi lá me levar uma música, Onde Anda Você?, e foi de pijama mesmo. Uma delícia, ele foi de pijama, entrou no Copacabana Palace pela entrada dos artistas. Os músicos tinham uma entrada separada. Eu era crooner. E ele foi de pijama mesmo e levou Onde Anda Você?.

O que mais posso falar de Antônio Maria? Amou muito, viveu muito, sofreu muito. Era um sátiro também, maravilhoso e era um grande amigo, o bom Maria, como o chamavam. Vou cantar um outro número do Maria, de parceria com Fernando Lobo. Aliás, Ninguém Me Ama também é parceria com Fernando Lobo".

Nora Ney faleceu em 27/10/2003. Aos 81 anos de idade, a carioca Iracema de Souza Ferreira morreu de falência múltipla dos órgãos (em decorrência de um enfisema pulmonar), no Hospital Samaritano, no mesmo Rio de Janeiro onde nasceu em 1922.


Fontes: Autores e Intérpretes - SESC-SP; Clique Music - Acontecendo.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Jorge Goulart

Jorge Goulart, nome artístico de Jorge Neves Bastos, nasceu em vila Isabel, na Rua Araripe Junior, cidade do Rio de Janeiro, em 16.1.1926, filho do conhecido jornalista Iberê Bastos e de Arlete Neves Bastos, cantora, que ao casar-se deixou de cantar.

É neto do Visconde de Niterói e fez o curso ginasial no Colégio Pedro II, onde começou sua participação política. Decidiu-se nessa época pela carreira artística.

Desde garotinho vinha cantando. Nessa fase, no programa Escada de Jacó, do Prof. Zé Bacurau, ganhou o 1º prêmio. Começou antes dos 18 anos, aumentando por isso a idade, em circos e dancings.

Através do pai, que escrevia sobre o mundo dos espetáculos, teve contato com os nomes em evidência. Conheceu, em 1943, o compositor Custódio Mesquita e passou a divulgar com exclusividade suas músicas. Conheceria também o cantor João Petra de Barros e por ele seria levado à Rádio Tupi. É quando passa a adotar o Goulart, por sugestão da atriz Heloísa Helena, tirado de um fortificante, o Elixir de Inhame Goulart, bem de acordo com sua voz possante.

Entre as músicas de Custódio que divulgava, estava o samba Saia do caminho, em parceria com Evaldo Rui, que gravaria, em 1945, na RCA-Victor, mas não chegou a ser lançada. Custódio faleceu e Evaldo preferiu destiná-la a Araci de Almeida, com alterações pequenas na letra para que pudesse ser cantado por mulher.

Devido a compromisso com a gravadora, lançaria, nesse ano, dois discos, que foram fracasso de vendas, não devido à qualidade das músicas ou deficiência do acompanhamento: A Volta / Paciência / Coração e Nem Tudo É Possível / Feliz Ilusão. É que, sem nenhuma necessidade, fez um decalque absoluto de Nelson Gonçalves, que também era da RCA-Victor.

Durante quatro anos ficou longe do disco. Se a atuação nas rádios (Tupi, Globo, Tamoio) não rendia muito, no espetáculo Um Milhão de Mulheres, no Teatro Carlos Gomes, durante dois anos, foi figura destacada e com rendimentos muitas vezes superiores. Findo o mesmo, voltaria às casas noturnas, até ser levado pelo compositor Wilson Batista a gravar duas músicas dele na Continental, para o carnaval de 1950: Miss Mangueira (com Antônio Almeida) e Balzaquiana (Com Nássara), esta uma marcha que o Brasil inteiro cantou e foi 2º lugar, na categoria, no concurso oficial de músicas carnavalescas.

Daí em diante, torna-se rapidamente um grande astro. Realiza um de seus sonhos, atuar no cinema, quando participa do filme Também Somos Irmãos, da Atlântica, dirigido por José Carlos Burle. É contratado pela Rádio Nacional e atua em grande número de filmes musicais: Carnaval no Fogo (1949), Não É Nada Disso (1950), Aviso Aos Navegantes (1951), Tudo Azul (1952) e muitos outros.

No disco marca êxitos memoráveis: Mundo de zinco, Cais do porto, Samba fantástico, Laura, Cabeleira do Zezé, A voz do morro, e inclusive versões, Dominó, Jezebel, Smile. É eleito o Rei do Rádio de 1952.

Em 1958, a convite do presidente Juscelino Kubitschek, acompanhado de Nora Ney e outros artistas, organizou uma caravana artística com a finalidade de preparar a reaproximação com a U.R.S.S. e a China Popular. Os resultados são excelentes, tanto que nos dez anos seguintes retornariam seguidamente aos países socialistas, aí gravam vários LPs, bem como estenderiam suas excursões à Bélgica, Áustria, França, Portugal e África.

Foi um longo e importante trabalho de divulgação da música brasileira, com a preocupação em muitas ocasiões, de levar outros cantores, instrumentistas, dançarinas e passistas. Colaborou por seis anos com o Império Serrano. Puxava seus sambas só com o megafone, dispensando quaisquer pagamentos em favor da mesma e contribuindo para a divulgação dos compositores do morro. Fez o mesmo na Imperatriz Leopoldinense e na Unidos de Vila Isabel.

Por causa de sua participação no Sindicato dos Radialistas, foi impedido, pelo movimento de 1964, de continuar na Rádio Nacional, tendo a única saída de atuar no exterior: Portugal, Israel e outros países da Europa.

Em 1983 teve de extrair a laringe. Ficou curado, mas sem "seu instrumento de trabalho". Chegava ao fim sua notável carreira. Ficaram, porém, os discos para perenizar sua arte. Casou-se muito jovem, com 18 anos, e teve uma filha, Maria Célia. Já estava desquitado, quando conheceu Nora Ney no camarim do Copacabana Palace Hotel, numa data que não esquece: 1º. 5.1952.

Nora Ney, já estrela ascendente, vivia tumultuada separação de seu marido, que repercutia na imprensa, por causa do inconformismo e das concretas ameaças do mesmo. Nora tinha dois filhos, Hélio e Vera Lúcia, mais tarde eleita Miss Brasil, em 1963.

Um casamento perfeito, que viriam a formalizar, no civil e no religioso, em 1992, na Igreja Presbiteriana Unida, conforme o convite, "consagrando 39 anos de longa e feliz união". Jorge Goulart conta que um dos segredos está em dormir em camas e quartos separados. Assim de manhã os dois "estão sempre bonitos".

(Abel Cardoso Junior)

Algumas músicas












Fonte: Revivendo Músicas - Biografias.