Mostrando postagens com marcador flauta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador flauta. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Hermeto Pascoal


No dia 22 de junho de 1936 nasceu Hermeto Pascoal, compositor, multi-instrumentista e grande contador de histórias, no pequeno município de Lagoa da Canoa em Alagoas. Filho de roceiros, escapou do trabalho na enxada por ser albino e não poder ficar exposto ao sol.

O próprio Hermeto conta que quando criança, na escola, os professores davam trabalhos para construir instrumentos com latas de goiabada. E de uma lata de goiabada ele fez um "violãozinho". Essa foi sua primeira criação.

Seu primeiro parceiro musical foi o irmão mais velho José Neto, tocando nos bailes de "pé-de-pau", realizados ao ar livre, sob as árvores, comuns naquela época. Além disso, os dois irmãos mostravam seu talento em batizados e casamentos, suando um bocado enquanto andavam, às vezes um dia inteiro para chegar até o local da festa. Em 1950 a família mudou-se para Recife, onde Hermeto e José Neto começaram a tocar acordeão nas rádios Tamandaré e Jornal do Commércio. Seu primeiro instrumento foi uma sanfona de 8 baixos.

Um ano mais tarde, Hermeto já se destacava como acordeonista e começava suas experimentações musicais, sempre estudando e pesquisando novos sons. Autodidata, uma caraterística que marca esse gênio da musica, valia-se dos mais diversos artefatos, como foices, enxadas, machados e garrafas, batendo em ferros e tentando repetir os sons no acordeão.

Em 58 foi para a Paraíba, tocar na Rádio Tabajara, em João Pessoa, como integrante da Orquestra do Maestro Gomes. Passou pouco tempo na Paraíba e nesse mesmo ano mudou-se para o Rio de Janeiro, levado pelo seu irmão, José Neto, para tocar na Rádio Mauá.

No Rio começou a se interessar pelo piano, na própria Rádio Mauá. Hermeto chegava com horas de antecedência para estudar e sentir as teclas. Mas foi tocando nas boates do Rio que se tornou realmente um pianista. Com isso mudou-se para São Paulo e tornou-se o pianista da Boate Chicote, em 61.

Em 1962, após deixar seu lugar no piano da Boate La Vie en Rose, Hermeto entrou para o Som Quatro. Dois anos depois formou o Sambrasa Trio (com Claiber, no baixo, e Airto Moreira, na bateria). Ainda em 64 foi tocar piano na Boate Stardust e começou seu interesse pela flauta. Para praticar o instrumento, Hermeto se trancava no banheiro da boate ou ia para a Igreja da Consolação durante o intervalo das apresentações, chegando a dominar o instrumento em apenas um mês. Logo recebeu um convite do cantor Walter Santos para participar da gravação do seu LP Caminho, lançado em 65, como flautista.

No ano seguinte, entrou para o Trio Novo (Théo de Barros, Airto Moreira e Heraldo), que se transformou em Quarteto Novo. Esse grupo foi um marco na história da música instrumental brasileira. Em 1967 o quarteto lançou seu único disco, Quarteto Novo, pela Odeon, que, segundo a crítica, foi uma valiosa experiência musical com ritmos nordestinos. Esta experiência musical consistia em aplicar as sofisticadas harmonias de jazz aos riquíssimos rimtos nacionais. Aí encontra-se a primeira música de Hermeto a ser gravada: O ovo. Em 69 o grupo se desfez e Hermeto passou a tocar com Edu Lobo. O próprio Heraldo do Monte relata que "esse Albino é muito louco!".

Já Airto Moreira foi para os Estados Unidos, integrar a banda de Miles Davis. Nada mais óbvio que ele, Hermeto, fosse para os EUA como arranjador de um disco de Airto. Nesta viagem conheceu Miles Davis e logo gravou com o músico americano, que colocou o carinhoso apelido de "Albino Crazy". Nesse LP, Miles Davis Live, o pistonista incluiu duas músicas de autoria de Hermeto: Igrejinha e Nenhum talvez. A participação do grande músico brasileiro com o mestre do trompete consagrou mais ainda o nome Hermeto Paschoal.

Em 71 Airto Moreira incluiu em um dos seus discos, Gaio de roseira, música com arranjo de Hermeto, composta por seu pai. A crítica inglesa colocou a música entre as melhores do ano, dando início ao reconhecimento da obra do músico no exterior. Ainda nesse ano gravou o disco solo Hermeto, lançado pela Buddah Records, já se utilizando de instrumentos inusitados e experimentações nas melodias.

Em 73, lançou o primeiro disco no Brasil, A Música Livre de Hermeto Pascoal, incluindo músicas de grandes artistas brasileiros como Pixinguinha (com a faixa Carinhoso) e Luiz Gonzaga (Asa branca), além de gravar também Gaio de roseira. Nesse disco também, está gravado Bebê, um baião que todo instrumentista brasileiro quer ou tem a honra de tocar.

1977 foi o ano em que Hermeto foi ao EUA gravar um dos seus discos mais famosos, o Slave Mass (Missa dos Escravos). Este disco é considerado um marco na música instrumental, também lançado no Brasil e aplaudido pela crítica.

Participou do Festival de Jazz de São Paulo no final de 78 e logo no início de 79 gravou o disco Zabumbê-Bum-á, na WEA. Uma curiosidade foi a participação dos pais de Hermeto nos vocais, em duas faixas.

Os anos 80 foram de muitas viagens e excurssões para Hermeto. Em parte devido ao seu contrato com a gravadora Som da Gente. Neste período, sua carreira se consolidou no exterior. Também se encontrava num período de grande produção e lançamento de discos.

Em 80 ele gravou Cérebro magnético e neste mesmo ano, apresentou-se no Festival de Montreux, na Suíça. Dois anos mais tarde participou do Festival Horizonte, em Berlim.

Em 1982, Hermeto lançou o disco Hermeto Pascoal & Grupo, grupo este que ficou conhecido mundialmente e permaneceu junto por mais de um década. Em 1984 o grupo lança Lagoa da Canoa Município de Arapiraca, cujo título homenageia a cidade natal de Hermeto.

Em 1985 é lançado Brasil Universo, pela gravadora Som da Gente. Em 1987 lançou Só Não Toca Quem Não Quer e em 1988 seu último disco lançado nessa década, Por Diferentes Caminhos: Piano Acústico, onde Hermeto tocou sozinho.

A década e 90 foi marcada por seu rompimento com as grandes gravadoras. Seu disco de 92, Festa dos Deuses, lançado pela PolyGram, segundo o próprio Hermeto foi mal distribuído e não repassaram os direitos autorais da obra.

Depois disso, Hermeto passou sete anos sem lançar discos. Neste tempo, ele se dedicou a compor, inclusive criou o projeto "Calendário do Som", onde Hermeto compôs um chorinho para cada dia do ano.

O disco Eu e Eles, de 99, marca a volta de Hermeto ao mercado fonográfico. Gravado pelo selo Rádio Mec, o disco foi aplaudido pela crítica, e traz o músico tocando todos os instrumentos, convencionais e os que ele mesmo inventa.

O atual projeto de Hermeto é o "Contagem Regressiva", que consiste na criação de uma música por dia até a virada do milênio, podendo se estender além desta data. O grupo de Hermeto Pachoal sempre traz grandes talentos. A grande característica é que todos, além dos ensaios, estudam juntos.

Fontes: Agenda do Samba & Choro; Programa Retrato do Artista da Radio Unesp de Bauru - 1995; Hermeto Home Page.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Tuzé de Abreu

Alberto José Simões de Abreu, nasceu em Salvador, Bahia, no dia 21 de fevereiro de 1948. Graduado em música (flauta) pela Universidade Federal da Bahia, e em medicina pela Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública, é músico desde os 14 anos.

Tuzé de Abreu faz parte da história da música baiana desde os anos 60 atuando como saxofonista, flautista, compositor, cantor e diretor musical. Como instrumentista trabalhou com os Doces Bárbaros (1976), tendo antes e depois trabalhado com cada um deles individualmente, mais tempo com Caetano Veloso. Único músico a gravar dois discos de Walter Smetak, tocando com ele em várias apresentações.

Foi o primeiro saxofonista solo em trio elétrico. Tocou durante oito anos em orquestra de baile, tendo tocado vários carnavais em clubes. Realizou excursão internacional com o grupo de choro “Os ingênuos”. Participou do evento “Bahia de Todos os Sambas”, em Roma (1983), tendo atuado como músico em vários grupos, e como diretor musical do saudoso Batatinha.

Foi músico e diretor musical do Balé Brasileiro da Bahia, excursionando duas vezes pela Europa. Realizou turnês de promoção turística com grupos variados, principalmente o “Quarto Crescente”, viajando mais de 20 vezes entre Europa, África e Américas. Tocou e atuou, como diretor, no grupo musical que se apresentou na Ópera de Estocolmo quando dos 50 anos da Rainha Sílvia.

Tocou e gravou com muitos artistas como: Isaac Karabichewsky, Carlinhos Brown, Rosinha de Valença, João Donato, Moraes Moreira, Luís Melodia, Cauby Peixoto, Chico Buarque, Armandinho, Paulo Moura, Nara Leão, Elomar Figueira, Os Doces Bárbaros, Gereba, entre outros.

Como compositor, tem canções gravadas por Elza Soares, Caetano Veloso, Gal Costa, Amelinha, Fagner, Rogério Duarte (como violonista e parceiro), Jussara Silveira, Greice Carvalho, Gereba e outros.

Compôs a trilha do filme “A Lenda de Ubirajara” de André Luís Oliveira, primeiro prêmio de trilha do extinto festival de Lages, Santa Catarina. Sua canção “Meteorango Kid” inspirou André Luís Oliveira, que fez o filme homônimo, famoso na contra-cultura baiana.

Compôs a trilha de “Tenda dos Milagres' de Nelson Pereira dos Santos, no qual faz uma ponta como ator. Faz também ponta como ator e participa na trilha de “O Cinema Falado” de Caetano Veloso, cantando uma das faixas do disco de Walter Smetak.

Em setembro de 2001 lançou o CD Tuzé de Abreu, patrocinado pela Copene e Faz Cultura, para distribuição restrita, agora licenciado pelo selo Maiaga para lançamento nacional.

Marcos Uzel
Correio da Bahia / Capa Folha da Bahia 13.09.01

sábado, dezembro 15, 2007

Carlos Poyares

Carlos Poyares (Carlos Câncio Poyares), instrumentista, nasceu em Colatina ES, em 5/12/1928. Neto de maestro e sobrinho de violonista, aprendeu com a mãe, concertista, as primeiras noções de flauta e, aos cinco anos, ganhou uma flautinha de lata. Mais tarde, estudou teoria com Orlando Silveira e aprendeu a tocar com o maestro Cícero Ferreira. Aos oito anos mudou-se com a família para Vitória ES. Depois fugiu de casa para trabalhar num circo, onde foi, entre outras coisas, trapezista, motociclista e come-fogo, sem nunca deixar a flauta de lata. Afastando-se do circo, integrou como flautista um regional na Rádio Espírito Santo, da capital capixaba.

Em 1953 transferiu-se para o Rio de Janeiro, atuando na Rádio Clube do Brasil e depois em diversas emissoras, até que, em 1957, foi para a Rádio Mayrink Veiga, na qual substituiu o flautista Altamiro Carrilho, no Regional do Canhoto. Atuou no regional durante vários anos, ficando na Mayrink Veiga até seu fechamento, em 1964.

Nas décadas de 1950 e 1960 trabalhou como ator e flautista em nove filmes. Em 1965 trabalhou com o grupo Opinião, no show O samba pede passagem, atuando depois em outros espetáculos, além de apresentar-se em boates cariocas e paulistas. No mesmo ano, lançou pela Philips o LP Som de prata, flauta de lata, elogiado pelo crítico Sérgio Porto e premiado como o melhor do ano com a Medalha Estácio de Sá, oferecida pelo jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. Na gravação, que teve acompanhamento do Regional do Canhoto, executava em sua flauta de lata peças difíceis e requintadas, que exigiam malabarismos do instrumentista. Fez ainda acompanhamento em vários LPs, embora seu nome não figure em nenhum deles.

No início da década de 1970, passou a atuar em shows da boate paulista Jogral, acompanhado pelo Regional do Evandro. Paralelamente, começou a dar aulas em cidades do interior de São Paulo.

Em 1975 gravou com destaque três LPs: Brasil seresta, com o Regional do Evandro, lançado em abril pela Marcus Pereira; Pixinguinha de novo, ao lado do flautista Altamiro Carrilho, interpretando inéditos de Pixinguinha, também pela Marcus Pereira, em maio; e, pela mesma gravadora, novo LP com o nome Som de prata, flauta de lata, em que era acompanhado pelo Regional do Evandro, com destaque para as faixas Malandrinho (Altamiro Carrilho), Matuto (Ernesto Nazareth), André de sapato novo (André Vítor Correia), Margarida (Patápio Silva), Urubu malandro (Lourival Carvalho e João de Barro) e Doce de coco (Jacob do Bandolim).

Em 1979 gravou o LP duplo A real história do choro, para a Continental, baseado em pesquisas que realizara nos últimos anos. Em 1981, a Warner lançou o LP A música dos Beatles no choro brasileiro.

Manteve constante atividade fonográfica durante toda a carreira, gravando muitos discos, além dos citados, em várias gravadoras. Em 1994 excursionou pela Europa juntamente com um conjunto de choro, apresentando-se na França, Espanha, Holanda e Portugal.

CDs: Píxinguinha de novo (c/Altamiro Carrilho), s.d., Discos Marcus Pereira 0031; Uma chorada na casa do Six, 1997, Kuarup K086.

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Altamiro Carrilho


O instrumentista e compositor Altamiro Carrilho (Altamiro Aquino Carrilho) nasceu em Santo Antônio de Pádua, RJ, em 21/12/1924. Ainda menino, começou a tocar numa flautinha de bambu. Concluiu apenas o curso primário, pois, quando tinha nove anos, seu pai ficou muito doente e ele precisou trabalhar numa tamancaria para ajudar a família.

Aos onze anos empregou-se como prático de farmácia, passando a tocar tarol na Banda Lira de Árion, formada quase que por inteiro de seus parentes. Em 1940 mudou-se para Niterói RJ com a família, continuando a trabalhar em farmácia e passando a estudar música a noite, com o flautista amador Joaquim Fernandes. Por essa época, começou a freqüentar, no Rio de Janeiro RJ, os programas de rádio dos flautistas Dante Santoro e Benedito Lacerda, e, com uma flauta de segunda mão, iniciou suas apresentações em programas de calouros, conseguindo tirar o primeiro lugar no programa de Ary Barroso.

Sua grande capacidade de improvisação chamou a atenção de muitos artistas, o que o levou a participar de vários grupos. Estreou em disco em 1943, participando da gravação de um 78 rpm de Moreira da Silva, na Odeon.

Em 1946 integrou o conjunto de Ademar Nunes, na Rádio Sociedade Fluminense; um ano depois, entrou para o conjunto de César Moreno, tocando nas rádios Tamoio e Tupi; e, em 1948, passou a fazer parte do conjunto de Rogério Guimarães, na Radio Tupi. No ano seguinte, gravou na Star seu primeiro disco, Flauteando na chacrinha, choro de sua autoria.

Em 1950 formou conjunto próprio para tocar na Rádio Guanabara, onde permaneceu até maio de 1951, quando foi convidado a integrar o Regional do Canhoto, substituindo Benedito Lacerda. O regional tocava na Radio Mayrink Veiga e acompanhava, em gravações, cantores como Orlando Silva, Vicente Celestino, Sílvio Caldas e outros.

Apareceu, em 1951, no filme Mulher do Diabo (direção de Milo Marbisch), e formou em 1955 a Bandinha de Altamiro Carrilho, com ele na flauta ou flautim, e mais acordeom, pistom, clarineta, tuba, bateria e pratos. Um ano depois, a bandinha já gravava seu maxixe Rio antigo, que fez grande sucesso.

De 1956 a 1958, a bandinha ganhou prestígio e popularidade com seu programa Em Tempo de Música, na TV Tupi. Em 1957 deixou o Regional do Canhoto, sendo substituído por Carlos Poyares. Na década de 1960, passou grandes períodos excursionando pelo exterior: em 1963, apresentou se em Portugal, Espanha e França; em 1964, na Inglaterra (onde gravou para a BBC), Alemanha, Líbano e Egito; em 1966, na então URSS; em 1968, no México, onde ficou um ano; em 1969, nos EUA.

Com a redescoberta do choro a partir da década de 1970, tornou-se um dos flautistas mais requisitados, como solista e como acompanhante em gravações de choro e samba tradicional.

Apesar de ser músico popular, tocou, em novembro de 1972, no Teatro Municipal, do Rio de Janeiro, o Concerto em sol, de Wolfgang Amadeus Mozart (1756—1791). Nos anos de 1974 e 1975, fez o arranjo musical e o acompanhamento dos discos 100 anos de música popular brasileira 1, 2 e 3, da série MPB 100 ao vivo — Projeto Minerva, lançados pela Tapecar.

Em 1977 lançou pela Philips o LP Antologia da flauta. Em 1985 participou do álbum triplo Velhos sambas... Velhos bambas, produzido pela FENAB, e, dois anos depois, acompanhou Elisete Cardoso em sua tournee pelo Japão.

Em 1997, a gravadora Tom Brasil lançou a série Música Viva, incluindo o CD Brasil musical, com Arthur Moreira Lima. Toca vários tipos de flauta e já gravou 69 discos.


Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha, SP, 1998.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Copinha


Aquela antológica abertura, em solo de flauta, de Chega de saudade, que, ao lado do violão de João Gilberto, lançou a bossa nova em 1957, foi feita pelo engenheiro paulista Nicolino Cópia, mestre do instrumento (e de todos os de sopro) desde os tempos em que tocava acompanhando filmes no cinema mudo.

Genial, eclético, atualizado, Copinha foi acima de tudo um músico. Seu som está em centenas - milhares, sem exageros - de gravações de cantores e cantoras brasileiros, de todos os gêneros e estilos, ao longo de seus mais de cinqüenta anos de carreira (nasceu em 3/3/1910 e morreu em 4/3/1984, um dia depois de completar 74 anos).

"Engenheirou" poucos meses em São Paulo e foi ser músico na vida. Trabalhando com outros maestros ou liderando suas próprias orquestras, apresentou-se nos mais variados cenários e cidades. Teve como companheiros gênios a sua altura, como Garoto, Aimoré, Armandinho, Spartaco Rossi, Gaó, Tom Jobim, Dom Salvador, Chico Batera e, no apagar das luzes de tão exuberante carreira, um trabalho majestoso ao lado de Paulinho da Viola.

Desde o início dos anos 30, Copinha teve lugar de destaque em São Paulo, no Rio de Janeiro e no mundo. Na música feita nas rádios, nos cassinos, nos shows, nas gravações de discos, foi figura obrigatória. Em 1931, tocava na Alemanha, em 32, na Companhia de Revistas de Margarida Max, no Rio.

Nos anos seguintes, na Orquestra Columbia e ao lado de Pixinguinha na noite carioca. Tocou no Copacabana Palace com Simon Boutman e Carlos Machado, até formar a própria orquestra. Passou pela TV Rio, Rádio Nacional, TV Globo. Apresentou-se com sua orquestra no cassino de Monte Carlo, em Dallas, Miami, Minneapolis. Gravou três discos solo e acompanhou três gerações de cantores brasileiros.

Morreu no Carnaval. Em seu velório, Paulinho da Viola e mais quatro ou cinco pessoas. Nas ruas, o Rio de Janeiro brincava.Concedeu esta entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura de São Paulo, em 1974, aos 64 anos.

Arley Pereira - MPB ESPECIAL- 2/10/1974

"Essa música (Abismo de Rosas) é de um senhor, para mim um senhor exímio violonista, chamado Giacomino, apelido de Canhoto. Eu conheci o Canhoto em 1918, 1919, que foi a época em que ele fez essa valsa, e eu adorava esse homem tocando violão. Aliás, fazíamos serenatas, eu, um garotinho, só "sapeava", eu tocava uma coisinha ou outra. Meus irmãos mais velhos é que tocavam com ele, João, Vicente, Joaquim e Alexandre.

Eu nasci na rua Santa Efigênia, antigamente bairro Santa Efigênia. Hoje é Centro. Atravessava a ponte (1), era o bairro Santa Efigênia. Hoje atravessa a ponte e é cidade mesmo. São Paulo cresceu de uma maneira... São Paulo nesse tempo era um Estado formidável de se viver. Poluição não existia. Eram aqueles bondinhos, eram bondes. Eu não alcancei bonde de burro, não, eu não alcancei isso, porque também não sou tão velho. Mas eram aqueles bondes caradura. Tinha o bonde condutor na frente, todo fechado, pintado de verde, da esperança, que levava o reboque atrás, feito uma jardineira, tudo aberto, chovia dentro. Esse caradura era um tostão. Tomei muito bonde caradura.

No bairro de Santa Efigênia a coisa mais importante era a igreja. Sem contar a ponte. A ponte foi um acontecimento, os dois viadutos: Santa Efigênia e viaduto do Chá. Tinha casas baixinhas. Naquele tempo, São Paulo todo devia ter um milhão e duzentos mil habitantes. O Rio de Janeiro era mais habitado do que São Paulo, tinha mais população. São Paulo era um lugar formidável. Nasci aqui, gostava muito, né? Hoje não, hoje São Paulo está difícil, está fogo. O Rio de Janeiro está mais devagar, está mais calmo.

Eu comecei a estudar com 7 anos de idade, em 1917. Mas estudava direito, estudava música primeiro. Hoje a gurizada pega um instrumento e vai tocar de ouvido. Estudei música, solfejo, depois mais tarde harmonias, essa coisa toda. Com 9 anos é que eu peguei a flauta. Com nove anos eu já fazia serenata com o Canhoto. Toquei muitas vezes. Ele gostava e dizia: "Esse garoto é bom". Fiz muitas serenatas e valsas. Aliás, muita gente está enganada com serenata, dizem que serenata é só música dolente. Não é não. Eu tinha uma "pequena" que gostava de tango e fiz serenata com tango. Tinha uma garota que gostava de um choro (não me lembro o nome).

Eu tocava choro para ela na serenata. E daí todo muito pensa que serenata é só valsa, dolente. Não é nada disso, não. Tudo que você gostava, eu ia tocar para você, e acabou-se, gostasse do que gostasse".(1) Refere-se ao Viaduto Santa Efigênia.