quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Sinhô, o rei do Samba

Vaidoso, talentoso, falador, charmoso, conquistador, plagiário, pianista, brigão, amigo de ricos e miseráveis, pioneiro dos direitos autorais, fixador do samba carioca, compositor de enorme talento. Reunindo tudo isso na figura que Pixinguinha descreveu como "alto, magro, feio e desdentado", Sinhô colocou a coroa em sua cabeça antes que alguém o fizesse. Ele era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artistas, a sociedade fina e culta às camadas profundas da ralé urbana. Daí a fascinação que despertava em toda gente quando levado a um salão.


A definição, o retrato traçado em crônica, não poderia ser mais bem acabado e ter mais competente autor. Quando da morte de Sinhô, dele se ocupou Manuel Bandeira, descrevendo seu velório em detalhes que a um poeta não escapariam: “A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rende-vous baratos, meretrizes, chauffeurs, todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito (principais ruas do Mangue, a zona do meretrício carioca), mulheres dos morros, baianas de tabuleiro, vendedores de modinhas... As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara-ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vai-vem incessante da capela para o botequim”.

Bandeira, que por coincidência conhecera Sinhô em outro velório, o do boêmio e amigo de ambos, José do Patrocínio Filho, sabia muito de quem falava. Desde o primeiro encontro encantou-se com a figura “descarnada, lívida, um frangalho de gente, mas sempre fagueiro, vivaz, agilíssimo, dir-se-ia um moribundo galvanizado provisoriamente para uma farra”. Reconhecia nele o primeiro compositor a entender que o samba seria a expressão musical da cidade do Rio de Janeiro e ele o seu fixador, o consolidador do trabalho de popularização e profissionalismo iniciado por Donga. Sem maiores luzes intelectuais ou mesmo musicais, Sinhô sempre foi um instintivo iluminado.

Desde cedo avesso ao trabalho, percebeu que teria de tirar seu sustento, da família e das muitas mulheres que cruzaram sua vida, do talento que lhe sobrava e que permitiria fazer da música sua única - e agradável - fonte de renda.

Depois de viúvo e com filhos para criar, dívidas para pagar, tratou de fazer de seu piano a solução que jamais viria pois seria eterno boêmio, mudando de casa, fugindo de credores com a mesma constância com que compunha êxitos cada vez mais populares. Durante o dia fazia plantão junto ao piano da Casa Beethoven, onde executava partituras para possíveis clientes, e à noite podia ser visto nos mais diferentes lugares, tocando em prostíbulos, nas grandes sociedades (Clube dos Democráticos, dos Fenianos, Tenentes do Diabo etc.), em acampamentos ciganos nos subúrbios, no salão da Kananga do Japão, conhecido clube de dança, nas barracas da Festa da Penha ou nas reuniões musicais da casa de Tia Ciata.

Foi essa inquietude, somada à enorme vaidade, que o meteram em sua primeira grande polêmica musical, envolvendo os freqüentadores da casa da “tia” baiana. Sinhô desentendeu-se com China, irmão de Pixinguinha, e atacou logo o grupo inteiro, incluindo, além dos dois, Hilário Jovino e Donga como os baianos de Quem são eles? (A Bahia é boa terra/ela lá e eu aqui...). A resposta foi um samba dos irmãos, desancando o brigão com Já te digo (...ele é alto, magro e feio/ e desdentado/ele fala do mundo inteiro/e já vive avacalhado/no Rio de Janeiro).

Não ficaria por aí a mania de arrumar confusão, que acompanharia o compositor durante toda a sua vida. Pouco depois lança Pé de anjo com grande sucesso e volta a brigar com Hilário Jovino, que se apresenta como o verdadeiro autor da música. Desentende-se com Caninha por causa de um concurso na Festa da Penha e para não ser surrado por Heitor dos Prazeres — altamente respeitado no meio da malandragem — desaparece de circulação por algum tempo. Em 1927, Francisco Alves gravou Ora vejam só, assinada por Sinhô, enquanto Heitor, garantindo ser o autor, parte em busca do outro. Encurralado, Sinhô pronuncia a frase que ficou histórica: “Esse samba eu peguei no ar, Heitor. E samba é como passarinho. É de quem pegar”.

Talvez por não respeitar a propriedade alheia, foi que Sinhô tratou de proteger a sua. E dele a primeira manifestação de exigência de reconhecimento autoral de que se tem notícia no Brasil e feita de maneira simples e direta. As partituras de suas composições levavam um carimbo que as identificavam como suas, e os selos dos discos, com suas músicas, eram por ele rubricados. Revelando uma faceta muito à frente de seu tempo, pagava para que músicos, que tocavam em festas ou bailes, executassem quase exclusivamente músicas de sua autoria.

Já era famoso em meados dos anos 20 - e para isso contribuíra o entusiasmo dos reis da Bélgica, que em visita ao Brasil se encantaram com sua composição Fala meu louro, pedindo para ouvi-la repetidas vezes - e suas músicas eram ouvidas em todas as camadas sociais. Esse aspecto, destacado por Manuel Bandeira e já focalizado, fazia dele uma figura ímpar no Rio de Janeiro de então, transitando com sua música com a mesma desenvoltura nos mais refinados palacetes e nas mais miseráveis favelas.

Uma pequena biografia

José Barbosa da Silva ou Sinhô nasceu em 8 de setembro de 1888, no Rio de Janeiro, Sinhô - a origem do apelido é desconhecida -, mulato, filho do mestre pintor (profissional especializado em reproduzir imagens em paredes) Ernesto Barbosa da Silva, um apaixonado pelos grupos de choro que esperava ver o filho transformado em grande músico.

Mas, com 17 anos, Sinhô já está casado com Henriqueta, de 16 anos, a primeira de uma série de mulheres a se render ao charme do nada bonito mas talentosíssimo futuro músico e compositor e flautista. Enviúva aos 26 anos, pai de três filhos, já famoso por mudar constantemente de casa por não pagar aluguel e fugir de credores, passando a viver do piano que já tocava; e também começa a compor.

Apresenta-se onde pode conseguir dinheiro. É visto no clube Kananga do Japão, mas não rejeita ofertas de bailes, ranchos e casas suspeitas. Seu emprego mais fixo é o de pianista de plantão em lojas de instrumentos musicais e partituras, onde testa pianos e interpreta partituras para possíveis compradores. Na Casa Beethoven conhece outra pianista, e sua vida muda ao se tornarem amantes. Cecília se encarrega de passar para a pauta as primeiras composições de Sinhô e de ser a divulgadora de sua obra para os clientes da loja.

É na Casa Beethoven que burila o samba Quem são eles?, provocando Pixinguinha e sua turma. É seu primeiro sucesso, cantado no Carnaval de 1918 e ponto de partida para a carreira de compositor. Extremamente vaidoso e com grande capacidade de se auto-promover, torna-se conhecido no Rio de Janeiro, freqüentando todas as rodas, com amigos marginais, intelectuais, boêmios ou milionários.

A perspicácia leva-o a proteger suas obras, criando um carimbo que identifica cada partitura vendida e rubricando os discos gravados com suas músicas. O cuidado que tem com sua produção não o impede de desrespeitar o trabalho alheio, e por se apropriar de temas de outros, passou a vida inteira brigando. Foram seus adversários principalmente os compositores Heitor dos Prazeres - de quem esconde a parceria - e Caninha, com quem troca farpas musicais, briga que acaba por render a quadrinha de Assobro, cronista da época: "Dois cabras perigosos /dois diabos infernais /José Barbosa da Silva / José Luiz de Morais".

Famoso nos anos 20, suas músicas ganham sucesso no teatro de revista, um dos grandes lançadores de compositores e cantores na época. A vedete Araci Cortes faz de Sinhô um de seus autores favoritos e suas músicas ajudam cantores como Francisco Alves e Carmen Miranda a avançarem em suas carreiras.

Conquistador reconhecido, cercado de mulheres, acaba por viver com Nair, sua última companheira. Frequentador de reuniões intelectuais na casa do escritor Álvaro Moreira, não deixa de ser assíduo nos terreiros de macumba. Seu amigo José do Patrocínio Filho tenta fazer uma festa para coroá-lo Rei do Samba, e não consegue, mas Sinhô adota a realeza para sempre.

Em 1929, em São Paulo, participa da campanha eleitoral de Júlio Prestes e se apresenta no Teatro Municipal, onde mostra a nova composição Cansei. Volta ao Rio e Mário Reis faz grande sucesso com seu Jura. Sinhô está no auge. Mas, a tuberculose. à qual não dá atenção desde meados dos anos 20, cobra seu preço. No dia 4 de agosto de 1930, viajando na barca Sétima, da Ilha do Governador para o Rio, sofre forte hemoptise. O Rei do Samba chega ao velho Cais Pharoux, já morto.

Algumas músicas, letras e cifras:
















































Obra completa

Achou ruim, faz meio dia, sambinha, 1923; Alegrias de caboclo, canção, 1928; Alivia estes olhos, samba, 1920 ou 1921; Alta madrugada - Adão na ronda, cena cômica, 1930; Amar a uma só mulher, samba, 1927; Amor de poeta, samba-canção, 1930; Amor sem dinheiro, samba, 1926; Amostra à mão, samba, 1930; Ave de rapina, samba, 1930; Bem-te-quero, samba, 1927; Bem- te-vi, canção, 1928; Bem-te-vi, samba carnavalesco, 1927; Benzinho, choro-canção, 1927; O bobalhão, charleston carnavalesco, 1927; Burucuntum, samba, 1930; Cabeça de promessa, marcha, 1924; Cabeça é ás, samba, 1926; Cabeça inchada, marcha, 1923; Cada um por sua vez, sambinha, 1920; Cais dourado, toada, 1929; Canção roceira (Casinha de sapé), samba, 1920; Caneca de couro, samba, 1924; Canjiquinha quente, 1930; Cansei, samba-canção, 1929; Capinheiro (ou Capineiro), coco ajongado, 1929; Carga de burro, samba, 1928; Carinhos de vovô, romance, 1928; Cassino maxixe, maxixe, 1927; Cauã, valsa, 1929; Chequerê, choro, 1929; A cocaína, canção-tango, 1923; Como se gosta, valsa, 1929; Confessa, meu bem, samba, 1919; Confissão, canção, 1927; Confissões de amor, choro-modinha, 1930; Corta a saia (É lá), samba, 1926; Custe o que custar, samba, 1922; Dá nele, samba, 1930; Deixe deste costume, samba, 1919; Deus nos livre do castigo das mulheres, samba, 1928; Dor de cabeça, samba, 1924; Entre nós, samba, 1924; Eu ouço falar (Seu Julinho), samba, 1929; Eu queria saber, samba, 1929; Fala baixo, marcha, 1921; Fala, meu louro, samba, 1919; Fala, macacada, samba-toada, 1930; Falando sozinho, samba, 1927; A favela vai abaixo, samba, 1927; Feitiço gorado, samba, 1930; Força e luz (c/C. Castro), marcha, 1926; Gosto que me enrosco (c/Heitor dos Prazeres), samba, 1928; A guitarra, 1922; Hip! Hurra, marcha, 1924; Já é demais, samba-canção, 1930; Já...já..., samba, 1924; Jura, samba, 1928; A juriti, marcha, 1925; Kananga do Japão, polca-choro, 1918 ou 1919; A maçã proibida (c/Bastos Tigre), maxixe, s.d.; Macumba gegê, samba, 1923; Mal de amor, samba canção, 1931; Maldito costume, samba, 1929; A medida do Senhor do Bonfim, samba, 1929; Meus ciúmes, choro-canção, 1931; Miçanga, marcha, 1930; Mil e uma trapalhadas (c/Wilson Batista), s.d.; Minha branca, samba, 1929; Minha paixão, marcha, 1923; Mosca vareja (c/Durval Silva), marcha, 1927; Não posso me amofinar, samba, s.d.; Não quebra mais, marcha, 1927; Não quero saber mais dela, samba, 1927; Não sou baú, samba, 1929; Nossa Senhora do Brasil, dueto, 1929; Ó Rosa, marcha-chula, 1926; Ora vejam só, samba, 1927; O pé de anjo, marcha, 1919; Pé de pilão, marcha, 1922; Pega rapaz, samba-choro, 1926; Por que será ?, marcha, 1930; Professor de violão, samba, s.d.; Quando come se lambuza, samba, 1923; Que vale a nota sem o carinho da mulher?, 1928; Quem fala de mim tem paixão, samba, 1926; Quem são eles?, samba, 1918; Ratos de raça, samba, 1929; Recordar é viver, canção, 1930; Reminiscências do passado, samba-canção, 1930, Sabiá, canção, 1928; Sai da raia, marcha, 1922; Salve-se quem puder, samba, 1930, Segura o boi (De boca em boca), samba, 1929; Sem amor, marcha, 1930; Sempre voando, samba, 1927; Si meu amô me vê, samba, 1930, Só por amizade, samba, 1919; Sonho de gaúcho, canção, 1927; Sou da fandanga, marcha carnavalesca, 1930; Super-ale (c/Ernesto Silva), samba, 1928; Tem papagaio no poleiro, samba, 1926; Tesourinha, samba, 1927; Trabalhando o retrato, samba, 1918; Vida apertada, marcha-batuque, 1923; Virou bola, samba, 1929; Viruta y chicharrón, tango, 1919; Viva a Penha, samba, 1930; Volta à palhoça, samba, 1927; Vou me benzer, samba, 1919 ou 1920.


Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora; História do Samba - Editora Globo.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

João da Baiana

O perfil dos pioneiros do samba se cruza com a imagem das "tias" baianas que iluminavam a Cidade Nova, no Rio de Janeiro, da maior importância para a formação de quantos viriam a ser os pilares do samba carioca. 


Esse fato ganha relevo quando o focalizado é filho de uma delas, que, estando matriculado, por força do nascimento, na escola diária, pôde beber na fonte oral, aprender com sua mãe o que ela soubera de sua avó, que, por sua vez, fora ensinada pela bisavó.

A batida característica do pandeiro de João da Baiana, ele aprendeu com a mãe, Tia Preseiliana de Santo Amaro, e nas andanças festivas pelos casarões de Tia Amélia do Aragão, Tia Veridiana, Tia Mônica e Tia Ciata. Foi o primeiro a ser visto raspando a faca no prato, um instrumento de ritmo inusitado, também fruto de seu aprendizado com as baianas.

João Machado Gomes nasceu no Rio de Janeiro em 17 de maio de 1887 e lá morreu em 12 de janeiro de 1974. Neto de escravos, único carioca dos doze irmãos, baianos como os pais. Sua mãe promovia festas na Cidade Nova, onde João aprendeu samba e candomblé até os nove anos. Foi quando ingressou no Arsenal da Marinha.

Aos dez anos saía como porta-machado (figurante que abria os desfiles dos ranchos) no Rancho Dois de Ouro e no Pedra Sal, pioneiros no Rio de Janeiro, onde o rancho chegou também vindo do Nordeste. João contava que foi nessa época que introduziu o uso do pandeiro no samba. Com a idade de doze anos dá baixa na Marinha passando a ser ajudante de cocheiro de Hermes da Fonseca, futuro presidente da República.

Trabalha no Circo Spinelli, na claque que aplaudia Eduardo das Neves, o palhaço Dudu, que se notabilizaria como cantor. Aos 15 anos era auxiliar de carpinteiro de estaleiro e atração nas festas pela sua habilidade como pandeirista. Tornou-se conhecido o episódio no qual a polícia apreendeu seu pandeiro impedindo-o de tocar na casa do senador Pinheiro Machado, que, ao saber do fato, presenteou-o com um instrumento novo.

Deixou o estaleiro pelo trabalho de estivador quando tinha 20 anos e em pouco tempo é promovido a fiscal. Recusa convite para fazer parte dos Oito Batutas na viagem à Europa, não querendo trocar o emprego. Preferia viajar para a Bahia, em freqüentes visitas à sua madrinha mãe-de-santo em um terreiro no Gantois, em Salvador. Sua primeira composição é Pelo Amor da Mulata, de 1923, seguindo-se Mulher Cruel, em parceria com Donga e Pixinguinha.

Em 1925, faz Pedindo Vingança e, em 1926, O Futuro É Uma Caveira. Patrício Teixeira grava em 1928 o sucesso Cabide de Molambo, quando João já é ritmista famoso pelo prato-e-faca e pelo pandeiro nas emissoras de rádio. Faz carreira em grupos como Conjunto dos Moles, Alfredinho no Choro, Grupo do Louro, antes de formar com Pixinguinha e Donga a orquestra Diabos do Céu e o Grupo da Guarda Velha, cujo grande sucesso, Patrão Prenda Seu Gado, é um arranjo de antiga chula-raiada criado pelos três.

Em 1940, participa das gravações feitas por Leopold Stokowski, que recolhia música brasileira para ser estudada nos Estados Unidos. João teve a sua corima Ke-ke-ré-ke-ké selecionada pelo maestro.

Depois de algum tempo afastado, volta a gravar em 1954 com a Guarda Velha, á convite de Almirante e, em 1968, com Pixinguinha e Clementina de Jesus. Além de compositor, ritmista e cantor foi pintor primitivista de cenas de Carnaval e paisagens. Retirou-se para a Casa dos Artistas aos 85 anos, falecendo dois anos depois.


Fonte: História do Samba - Ed. Globo.

Donga ou o sr. Ernesto dos Santos

Até o fim da vida Donga permaneceu cercado por música.

"Olha esse ponteado, Donga!" - A exclamação com que Almirante incentivava o violão solista do Grupo da Guarda Velha - entre eles Pixinguinha e João da Baiana - está perpetuada em um dos discos mais famosos da história da música popular brasileira, gravado por importantes músicos e compositores da fase de sedimentação do samba no Rio de Janeiro. 


Esse Donga, que provocava tanta admiração no severo Almirante, nasceu Ernesto Joaquim Maria dos Santos, no Rio de Janeiro, a 5 de abril de 1889, filho de pai pedreiro e tocador de bombardino, com a famosa Tia Amélia, do grupo das baianas da Cidade Nova, cantadeira de modinhas, festeira e mãe-de-santo.

Desde menino frequentava a casa de Tia Sadata, no bairro da Saúde, onde desfilou no Rancho Dois de Ouro como "porta-machado", figurante que abria o desfile brandindo um pequeno machado, em uma dança parecida com a capoeira. Passou a infância entre ex-escravos e negros baianos, dos quais aprendeu o jongo, o afoxé e outras danças populares que serviriam de base para sua carreira musical.

Começou a tocar cavaquinho, de ouvido, e passou para o violão em 1917, tomando aulas com o grande Quincas Laranjeiras. Iniciou-se na composição - Olhar de Santa e Teus Olhos Dizem tudo (que anos depois teria letra de David Nasser) são dessa época quando já era freqüentador das reuniões na casa de Tia Ciata, ao lado de Bucy Moreira, João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Caninha e outros.

Em tais reuniões nasce Pelo Telefone, que Donga registra como seu na Biblioteca Nacional, contestado pelo grupo que considerava a criação de caráter coletivo, por ser oriunda de partido-alto, em que todos improvisavam versos. Influenciado por João Pernambuco, Donga faz parte do Grupo de Caxangá com o nome de guerra de Zé Vicente e, em 1919, convidado por Pixinguinha, integra o conjunto Oito Batutas, de importância fundamental na história da música brasileira, estreando na sala de espera do cinema Palais.

Em janeiro de 1922 os Batutas se apresentam durante seis meses em Paris com o nome de "Les Batutas". Ao retornar, o grupo atua ainda na Argentina, onde grava uma série de discos na Victor daquele país, antes de dissolver-se. Donga passa a tocar violão-banjo, influência trazida da Europa, e em 1926 integra o grupo Carlito Jazz para acompanhar a companhia francesa de revistas Ba-Ta-Clan, que se exibia no Rio de Janeiro. Com esse conjunto viaja outra vez à Europa e voltando em 1928 cria com Pixinguinha a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, eminentemente dançante responsável por gravações no selo Parlophon, da Odeon.

Em 1932 atua nos grupos Guarda Velha e Diabos do Céu, formados por Pixinguinha para gravações. Nesse mesmo ano casa-se com a cantora Zaíra de Oliveira, com quem viveu até a morte desta em 1951. Em 1940 participa com composições suas da famosa gravaçao a bordo do navio Uruguai, feita por Leopold Stokowski, que colhia músicas sul-americanas para uma série de discos lançados nos Estados Unidos pela Columbia. Suas criações mais conhecidas - além de Pelo telefone - são Passarinho bateu asas, Bambo de bambu, Cantiga de festa, Macumba de Oxóssi, Macumba de Iansã, Seu Mané Luís e Ranchinho Desfeito. Casou novamente em 1953 e morreu em 1974, no bairro de Aldeia Campista, para onde se retirou como oficial de Justiça aposentado.


Fonte: História do Samba - Ed.Globo.